quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SE TEM IMAGINAÇÃO, NUNCA ESTÁ SOZINHO

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Eu estava na recepção do consultório do Dr. Dreher.
Eu odeio esperar, mais do que paciente do doutor eu sou impaciente por natureza.
Logo, arrumo coisas para fazer e passar o tempo.
Imagino bumbos e chimbals e com os pés em movimento transporto-me para algum palco ou ensaio rítmico.

Ao cansar os pés supervisiono as cutículas e chego à conclusão que acabei com elas durante o último jogo do Corinthians.

Passo os olhos pelas revistas do consultório esparramadas pela mesa de vidro, ao lado da flor artificial e sei pelas matérias resumida na capa que não vou gostar de nenhuma. Mesmo assim pego a última para folhea-la. Percebo que eu estava certo.

Começo pensar no que o paciente antes de mim está conversando com o doutor, não o vi entrar. Quando cheguei a sala já estava ocupada, então começo prejulgar.

Talvez fosse uma garota, nem velha, nem nova, uns vinte anos.
Calça jeans surradas, tênis encardidos e aquelas pulseiras barulhentas.

Ela tem problemas de relacionamento com os pais, todos os dois, sem mãe. Fora adotada por um casal homossexual e agora eles querem privá-la do seu próprio relacionamento lésbico. Ela nunca viu muita graça em garotos, tão infantis, imaturos, basta verem uma vagina e perdem todo o sentido do que é certo ou errado e ético. Idiotas!

Os pais da garota sentem medo de que ela sofra o mesmo preconceito que eles sofreram quando mais jovens.
O que eles não entendem é que a garota os ama, os respeita e admira exatamente pela força de enfrentar todos esses obstáculos e conseguir vencê-los para hoje poderem ter a família que ela ama. Ela quer ser tão forte quanto. Tão feliz quanto. E mostrar que aprendeu tudo que sabe com o casal.
Eles não entendem.

A recepcionista me oferece café e bolachas, recuso as bolachas, mas o café eu peço para que ela me traga dois. O sono sempre vem junto com a impaciência.

Dou o primeiro gole no café e começo imaginar que se não for a garota gay na sala poderia ser um homem, um homem acima dos 35 anos e 120 quilos. Morando ainda com sua mãe, vou chamá-lo de Alaor, não que haja a necessidade de um nome para minha imaginação, mas este nome sempre me faz pensar em pessoas gordas, assim como acho que todo Valdir tem bigode. Desculpem-me quem é portador de algumas destas graças, assumo que é um preconceito idiota, porém incontrolável. Voltando ao problema do homem obeso...

Alaor tem um QI acima da média, e não poderia ser diferente, afinal com a infância toda trancado dentro de casa enquanto seus vizinhos da mesma idade explodiam caixas de correio com morteiros e jogavam três dentro e três fora nos portões alheios. Seu pai era caminhoneiro e mantinha uma segunda família no estado vizinho, fato que Alaor só foi descobrir aos 33 anos. Sua mãe sempre soube, mas não queria dar o braço a torcer e deixar o marido livre para A vadia caipira e seus filhos piolhentos.

Por causa disso Dona Juréa prendia-o dentro de casa, parte era super proteção, pois seu filho era a única coisa que era realmente sua, só sua.

Alaor montou uma empresa de sucesso com seu QI avantajado e seus hobbies são fazer os caprichos da mãe, colecionar quadrinhos e pinguins de geladeira.

Sou despertado de minhas teorias quando a campainha do consultório dispara e vejo o motoboy trazer o almoço da recepcionista.
Penso na falta de vaidade dos motoboys, que ao vestir seus capacetes adquirem o mesmo rosto, a mesma identidade, a de motoboy. E é só.

Volto a imaginar que se não for o Alaor que me faz esperar poderia ser Dona Zezé, uma senhora evangélica de 65 anos que guarda o pênis de seu marido num pote de azeitonas ao lado do copo d'água onde repousa a dentadura.
Zezé chegara a aconchegar o pote peniano ao seu lado na cama, em cima do travesseiro, depois cobrira com a manta para aquecê-lo nas noites frias.
Se fosse católica se confessaria ao padre, mas por ser evangélica só resta pedir perdão a Deus e ao Doutor Dreher que lhe auxilia nesta situação.

Surpreso ficou o legista que cuidava do corpo de Seu Abelardo quando a senhora viúva ofereceu-lhe duzentos reais para que cortasse o pênis do defunto.

Mais uma vez sou despertado de minhas angústias brisantes, mas desta vez é o Dreher quem me despertar se desculpando pela demora dizendo estar ao telefone com sua filha de 15 anos. Ela exige que a leve ao show de uma banda nova, que é a última moda no rock-glass-color-happy-cry-stupid. Veja que até os doutores sociais sofrem com relacionamentos familiares.
Diria que é um típico: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
É bem mais simples dar conselhos quando você está fora do problema, ou melhor, quando você não é o problema.
Sem sentimentos, sem envolvimento, o coração não comete o erro de errar.
Como diz um amigo: só existem dois tipos de problema, o seu e o dos outros e o dos outros são tão mais simples.


Bento.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TOCA-DISCOS

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Sempre que a chuva começava a dedilhar as janelas a vontade vinha como uma lembrança antiga.
Sentava-se no chão em frente a estante de discos e retirando um a um de suas capas, limpava-os com um cuidado excessivo.

Começava pelos mais antigos e terminava com os mais novos, assim como as lembranças.
E um a um, após terminar de limpá-los com a flanela velha deitava-os no toca-discos, o sopro na agulha como um beijo de despedida e começava o balé da bolacha negra.
O chiado de início, vindo da agulha tentando vencer a poeira e riscos que teimavam em permanecer ali lembrava o ranger dos dentes que sempre a incomodava.

Os discos tocados tantas vezes, que já se sabia o exato momento de cada primeiro acorde assim como ele já sabia o motivo das caras e bocas, cada gesto e tom de fala que não fora mudado. Conhecia cada gosto e desgosto.

Também já previa cada salto da agulha causado pelos riscos no prato de vinil rompendo assim o compasso da canção, bem como sua vida que saiu de giro, rompeu o ritmo.
Se foi todo o lado A, a agulha ficou no meio do caminho, seus pés assim como o disco continuou sem motivo, sem música, sem aplausos.

O rock acabou no meio do show e o público não estava lá para pedir bis.


Bento.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

LENÇOS UMEDECIDOS

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Ao caminhar sente o peso dos olhares em suas contas.
Ah! Mas aqueles olhares...
O que são aqueles olhares?
Nada mais que entretenimento gratuito da suposição de caráter.
Utiliza-se como panos umedecidos, desobstruem os poros da face fazendo nascer o sorriso límpido e joga-o fora.

Continuemos fazer valer a obstinação do dedo gangrenado para que tenhamos do que reclamar. Olá! Eu não me excluo disso. Mas estou do outro lado da moeda, aquele com cara de paisagem olhando o desdém.

Observo e é tão claro quanto um albino, não está dando certo, nem o seu problema, e é um enorme problema, partindo do princípio que você não quer ver, ou vê, mas não aceita. Ou aceita, no fundo da sua alma você aceita, mas tem medo. Vê que gigantesco problema agora? Já os meus problemas são mais numerosos e irremediáveis, logo, quando caio na inutilidade de me preocupar trato logo de regar as lembranças com uma boa dose de esquecimento.

Agora já estou em outro canto esquivando-me da luz e vejo o quão solitário é brigar num relacionamento de um só indivíduo.
Formam-se DRs solitárias que duram horas, sozinho, todos de acordo, ninguém discute. Da DR não há o 'D' de discussão e tão pouco o 'R' de relação. Então é o quê?

Risos e mais risos e maquiamos os buracos que a vida tratou de estocá-los em nossa face, e permanecem abaixo do pó e só será revelado no quarto com o dramático e sincero lenço umedecido.

Quero frisar que se às vezes maquio uma análise ou comentário, se troco os fatos pela analogia é em prol da observação, assim forço um pouco mais o exercício de interpretação de cada leitor.
É mais ou menos como na vida selvagem que o animal a notar que está sendo observado foge para esconder-se. Digo que a fiscalização por aqui tem sido grande e não faltam personagens para tomar cada história para si.

É bem verdade que ao observar o coelho prestes a ser devorado pelo coiote, surge o mais comum reflexo de ajudar o coelho, nos de bom coração é bem mais comum. No entanto o coelho nem sempre quer ser salvo.
Em alguns casos o leão quer salvar o coelho para trocar a refeição de estômago. Concorrência animal ou puritanismo momentâneo?
Leões só são amigos de coelhos feios, eu insisto em dizer. Sei que a analogia pode parecer indigna do texto e o autor pode parecer indigno da escrita, porém, querer que o leão se torne vegetariano é pedir demais. É a natureza.

Ah! Mas a fé das mulheres, sempre tão apegadas ao credo que chega me dar inveja. Pena que são fiéis sempre do santo do milagre errado.

Agora penso que estou de repouso na coroa da estátua, observando...

Observo e vejo a tentativa de se mostrar tão segura, tanta segurança traduzida pela fala alta e os palavrões constantes, ou é segura a ponto de manter-se fora dos padrões, ou ainda não sente segurança para se padronizar.
Segura ou não, o padrão, neste caso como regra, à de ser excesso, um excesso maravilhoso.


Bento.

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

SE NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR, NO MINIMO LUTE PARA MANTER RUIM COMO ESTÁ

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Não há uma solução prática para o amor.
Ama-se com todas as forças até cansar, cansar do mau trato alheio. E um dia cansa. É assim com todo mundo.

O que fará até esse dia chegar é o que vai consumir todas as suas forças e você conhecerá a anorexia do amor próprio.

Amar-se ou amar-te. Ou um ou outro, os dois é impossível.

Sem esta alegria se tornará o zumbi das horas, em busca de qualquer pedaço de sentimento para alimentar-se. Dar uma boa mordida no resto de afeto que achar numa lixeira mais próxima e, por fim, terá uma grande, gelada e amarga dose de angústia para ajudar a engolir.

Ah mas esta alegria tão essencial para continuar respirando. Não são os órgãos, as tripas, ou sangue que te faz mover-se de encontro aos obstáculos, é a alegria que te faz levantar de manhã.

É tão inevitável. É tão comum.
Me reconheço em cada verso disfarçado de raiva que sai de sua boca.

Sei tanto sobre isso que fico me perguntando se não foi eu que inventei a tristeza. Ou pelo menos eu a reinventei, como uma tristeza 4.0.  Tristeza High Tech modelo 2012, último lançamento.

Só que ao criá-la, me esqueci de confeccionar um manual de instruções.

Eu conheço tanta gente que reclama do amor que me pergunto o que faz mais mal, o amor ou a falta dele?

Mas não se deve reclamar do amor, deve sim, com toda sinceridade proclamá-lo. Declará-lo aos quatro ventos sem medo de ser feliz. Eu mesmo passei tanto tempo com medo da felicidade, medo de perder o fio da miada. Dramatizaria sobre o quê? Tanto tempo achando que não era merecedor de qualquer coisa boa que me acontecesse. E isso é de um sadomasoquismo tamanho.

É como cortar os próprios pulsos só para vê-lo sangrar e, ainda usar os dedos para desenhar no chão, como se nada tivesse acontecendo e como se o mundo não precisasse de nós.

Mas você sempre será importante para alguém mesmo que não seja você.
Sempre haverá alguém a desejar-te, à espera de uma chance que nunca será dada.

Alguém com medo de se declarar e passará a vida esperando que você dilate seus olhos e vista os óculos da proximidade.

Como a história do pescador que passava o dia olhando para o horizonte na espera de sua amada e não reparara que aos seus pés, trazido pelas ondas, bem abaixo de seu nariz, estava uma garrafa com uma carta de seu amor dizendo que fazia o mesmo do outro lado do oceano. No fim ficaram os dois esperando...

Vista os olhos.
Vista a autoridade sim.
Deguste a tristeza como um bom vinho e torne-se um expert no assunto.
Mas trate de vestir a existência, pois se nada é tão ruim que não possa piorar, no mínimo lute para manter ruim como está.

Ninguém quer ser sozinho, mas com o tempo aprendemos a separar companhia de trigo, ou seria a mentira do joio?

E o ciclo se fará completo.
E o Tempo que é o adestrador do cão ladrão de sorrisos decidirá chamá-lo novamente para a casinha e você voltará a viver feliz para sempre por algum tempo.



Bento.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CAIXA DE PANDORA DE AMORES FINADOS

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Minha mãe tem o péssimo hábito de fazer faxina e jogar tudo fora, não pergunta, não titubeia. Joga fora e pronto. Tantas letras de músicas inacabadas, tantos textos sem terminar e comprovantes de pagamentos sem arquivar.

Quando me dou conta já é tarde demais e vou correndo até o lixo com esperança de salvar minhas aflições.
Das músicas, dos textos e das contas a pagar.

Se me perguntarem porquê, afinal, eu não arquivo ou guardo os papéis antes que eles sejam incinerados pela chama da mania de limpeza de minha mãe? O motivo é óbvio, eu não sou nem de longe, organizado. Só me acho na bagunça. Coisa de homem.

Mas eu nem sempre fui assim.
Puxando pela memória, lembrei-me de minha primeira namorada, lá pelos meus quatorze anos. Ela me dera de presente uma caixa de charutos, vazia evidentemente. O tabaco ainda não me fazia companhia naquela época.
A caixa era tão bonita que tive que achar uma serventia para ela, caso contrário ela teria o mesmo fim que os papéis que hoje são dispensados pela faxina.

Decidi então, guardar as cartas que minha namorada me entregava, folhas de caderno com rabiscos e corações que demonstrava o amor de adolescente.
O namoro acabou, as cartas ficaram e o hábito de guardá-las também. Por necessidade comecei a guardar alianças de compromisso, pulseiras, pingentes, até um chaveiro de pelúcia que eu tinha vergonha de usar. Tudo que fizesse lembrar-me dos momentos e frações de sentimentos seriam guardados ali.
Uma caixa de pandora de amores finados.

Também não me pergunte por qual motivo eu ainda guardo essa caixa, confesso que não a abro há mais de um ano.
As coisas empoeiradas ali dentro podem me levar do céu ao inferno e vice-versa, na segunda opção até seria bom, mas como arriscar? Mas é bom saber que tenho um backup de minha mente, de minhas lembranças.
Dizem que para entender o presente e o futuro é preciso entender o passado.

Sei também que se por qualquer motivo eu precisar formatar a memória RAM de meu peito, terei minha essência guardada na caixa que mistura o cheiro de charutos e as cartas perfumadas.


Bento.

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

TEM BELEZA QUE É CRUEL

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Tem certos níveis de beleza que deveriam ser proibidos. Alguém terá que um dia fazer um decreto, projeto de lei, ou o que quer que seja para impedir a crueldade aos olhos.
A crueldade que é presenciar tamanha beleza sem tocar, sem poder pegar para si. Possuí-la, não a beleza evidentemente, mas a dona dela.

Falo daquela beleza que dói. Arde os olhos e queremos olhar mais e arder mais. Um sadomasoquismo permitido pelos anjos.

Anjos.

E não é que se me dissessem que era um, eu acreditaria sem hesitar nem por um segundo.
A alfaiataria lunar atendendo um pedido dos meus mais longínquos sonhos. Na medida exata que meus olhos clamam.

Tem beleza que causa covardia. Sim Pô! Covardia de me exigir que não repare nos detalhes do pecado da moderação.
Moderação sim, pois te afirmo sem medo de errar que a beleza que eu vejo não é a beleza que você vê.
Olho agora para a beleza dos detalhes.
É desejo, claro que tem, mas não é desejo. É bem mais que isso.

É como olhar a miséria e o milagre no mesmo corpo. É sagrado e pecaminoso. Criminoso até, pois me sinto bandido, me sinto acusado e acuado.
Eu mesmo puxo minhas orelhas para parar de sonhar tão alto, mas como moleque arteiro eu teimo sempre às escondidas, rabo de olho.
Depois levo no bolso da memória para sonhar em casa.

Tão criminoso que me castigo com pensamentos negativos sentenciado meu fracasso. Esse sou eu, advogado e juiz. O júri vem depois.

Beleza que machuca o ego. Causa constrangimento. Perde o rebolado, esquece-se do destino e você se perguntando que horas são? Que dia é hoje? Alguém sabe me dizer o que eu tô fazendo aqui?  Mas é um mimo à alma, confesso, afinal toda alma é bela e ela se reconhece. Pensa que está com uma das suas, mas se aquele é o corpo, o que dirá da alma?

Depois de tanto tempo sentindo isso, mas sem saber como explicar eu criei um termo para descrever a sensação que eu tenho quando vejo “tal coisa” de outra dimensão.
Chamo isso de Chute no Saco. Para as mulheres que nunca vão entender o que é isso, explico que Chute no Saco é uma dor que não parece dor, mas dói “pra cacete”. Uma dor que vai e volta em fração de segundos e se espalha por todo o corpo aguda. Chega a embrulhar o estômago e quando o sujeito começa a aceitar a ideia do vômito ela para e sobe até as orelhas.
Eu disse ORELHAS!
Alguém já sentiu dor nas orelhas? Tome um chute no saco e saberá como é. Pior que por brinco, pior que alargá-las. E assim como quem não quer nada passa a frequentar os dentes, as gengivas, a até a língua sente a irá dos testículos agredidos.
Os joelhos dobram, os ouvidos zumbem, logo as mãos abraçam a vítima e a mantém sobre sua concha protetora.

E tudo isso se passou em alguns segundos e o que ficou foi a depressão do momento.

Mas assim como é melhor ter saco para ser chutando, sem dúvida que é melhor presenciar tanta beleza ao invés de nenhuma.


Bento.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

SOU JORNALISTA II

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"SE NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR, NO MÍNIMO LUTE PARA MANTER RUIM COMO ESTÁ"


Não há uma solução prática para o amor.
Ama-se com todas as forças até cansar, cansar do mau trato alheio. E um dia cansa.

É assim com todo mundo.

O que fará até esse dia chegar é o que vai consumir todas as suas forças e você conhecerá a anorexia do amor próprio.

Amar-se ou amar-te. Ou um ou outro, os dois é impossível.

Sem esta alegria se tornará o zumbi das horas, em busca de qualquer pedaço de sentimento para alimentar-se. Dar uma boa mordida no resto de afeto que achar numa lixeira mais próxima, e por fim terá uma grande, gelada e amarga dose de angústia para ajudar a engolir.

Ah mas esta alegria tão essencial para continuar respirando. Não são os órgãos, as tripas, o sangue que te faz mover-se de encontro aos obstáculos, é a alegria que te faz levantar de manhã.

É tão inevitável. É tão comum.

Me reconheço em cada verso disfarçado de raiva que sai de sua boca.

Sei tanto sobre isso que fico me perguntando se não foi eu que inventei a tristeza. Ou pelo menos eu a reinventei, como uma tristeza 4.0. Tristeza High Tech modelo 2012, último lançamento.

Só que ao criá-la, me esqueci de confeccionar um manual de instruções.
Eu conheço tanta gente que reclama do amor que me pergunto o que faz mais mal, o amor ou a falta dele?


Bento.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A PRINCESINHA DE ISRAEL II

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Sabe? Eu tenho vivido todos esses dias, meses, sei lá.
Na verdade, eu tenho sobrevivido.
Em todo esse tempo não pense que eu deixei de pensar em você nem por um momento. Nenhum!
Eu te imaginei fazendo parte de cada coisa nova.
Incrível não é?
Toda vez que fui dormir e toda vez que tive a infelicidade de acordar.
E tem sido assim.
Pensei em você nas horas boas sim, mas pensei em você nas horas ruins também.
Nas horas boas era vontade de dividi-las com você, afinal nós divididos tantas coisas ruins.

Coisas minhas que eram ruins. E nas horas ruins eu pensava em você e sabia que sua presença amenizaria tudo aquilo.
Olhe eu precisando de você como sempre.

Vou te confessar que eu demorei para perceber que tinha te perdido, poxa! Foi difícil aceitar que estava perdendo a coisa mais importante da minha vida. Apesar de você nunca ter acreditado e acho que a essa altura jamais acreditara.
Sinceramente? Eu pensei em desistir. De tudo. Foi forte demais.
Dor demais.
Mas por ironia do destino foi você... Você quem me salvou. Pois mesmo longe eu queria pelo menos sentir você, mesmo que saudade. Já era alguma coisa.
E eu sofri.
E eu chorei.
E eu me maltratei assumindo toda a culpa. Eu me maltratei.
Eu mudei.
Eu queria me transformar naquilo que você queria que eu fosse, mesmo sabendo que você não voltaria. Nunca. Eu quis.
No fim, eu me transformei em você. Me transformei naquilo que eu amava, mas criticava.
No fundo, tentei te substituir colocando-me em seu lugar.
Claro que não deu certo. Foi quando tentei te substituir com outras. E eu sou a prova viva de que isso também não deu certo.

Aí eu tentei, tentei. Tentei até enjoar... E enjoei.

O seu antissocial eu abracei com unhas e dentes.
A sua cara amarrada eu maquiei em mim.
Suas “marcas” eu tentei imitar.
Suas frases tomei para mim.
E assim como camaleão, me vesti de você.
Não me julgue, precisava ter algo seu só para mim.
Ainda hoje você me toma em pensamentos através de um sorriso igual, um gesto igual, uma gíria igual.
Coisas como Leopoldo e tal.
Ninguém entenderia, talvez nem você.
Eu entendo como se tivesse nascido com isso.
É quase uma coisa.
É mais que uma coisa.
Ou menos.
É em vão.
Mas é meu.
Ué!
Posso?
Ah mas eu tentei.
Tentei de todas as formas preencher este vazio que deixou a sua distância tão mais plural.
Distância essa que, você se foi e até eu fui.
Me perdi de você e de mim.
Eu mesmo me abandonei. E me perdi.
Depois coloquei cartazes em postes e lanchonetes com aquelas fotos horríveis do meu rosto depressivo procurando-me e nada adiantou.
Mas se você se foi e eu também, sobrou quem?
Exatamente!

Demorei para decifrar esse novo ser.
Ser demente, sem semente, jamais vai florear.
É em sua essência um mato seco, que sem vida e qualquer sinal de luz, ou se quebra, ou queima.
Explode em fogo só para atazanar.
E eu, escrevo em transe.
Sabe-se Deus quem fará me embriagar.


Bento.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A INFERNAL TRINDADE DO ANTRO SANTÍFICO DO ESTUDO À ESCRITA

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La Trinidad N°1

La Revolta

É claro e evidente a confiabilidade no Destino, tão claro. Tão evidente que se maltrata por merecimento.
Eterniza em palavras as batalhas que trava com seu próprio peito, batalha esta que não há vencedor, só feridos. Com ou sem peito morrerás em nome do Amor. E morrerás de novo e de novo e de novo, pois o Destino lhe escolheu e feriu sua carne com a marca do romantismo. A marca que pulsa inflamada nas noites de lua cheia que é quando veste suas vestes em homenagem a seita e cultua a carência.
Indigna não é, claro que não. Mas esta é a deusa da razão da trindade, nem monges, nem poetas, talvez nem o próprio Amor seriam capaz de convencê-la de qualquer coisa, não há argumentos que a derrote. Exceto se ela queira.

Somente a beleza da revolta consegue nos fazer apaixonar-se pelo maltrato.
Ao olhar em seus olhos vemos nossos próprios defeitos e qualidades aumentados milhares de vezes, fato que nos faz sentir dores nas juntas dos braços por não conseguir parecer tão forte diante do desejo da morte.
Fato que faz nossos corações febris de ódio, tanto ódio que alugaríamos nossas almas ao diabo para temporadas só para termos todo Amor que transborda em seu peito derramado sobre nós, simples mortais.

Mas a Revolta não deseja, pelo menos por hora, a reciprocidade, afinal, como toda guerreira ela deseja morrer com honra no campo de batalha e entregar suas moedas ao barqueiro.

La Trinidad N°2

La Liberta.



A Liberta só não tem asas para não ser confundida com os anjos, mas és livre, tão livre como os pássaros.
Esta não faz guerra, no entanto suas vestes são feita da mais forte e impenetrável armadura, que diz a lenda, é um engenho dos deuses.
Nesta guerra a Liberta foi incumbida pelo Destino para ser a remediadora, a ausência de sentimentos faz com que não tome partido, é o equilíbrio e a calmaria. Nas tempestades se faz de brisa que acaricia nossos rostos, mas não nos salva da peste.
És o vinho que nos salva momentaneamente do Destino, contudo não evita a ressaca.
Esta é a liberdade, que por mais que lutemos e guerreamos nunca a conquistaremos.
Não importa quantos motins, o império de liberta sempre vencerá.
E nós não passaremos de proletários diante de sua beleza e desdém.

La Trinidad N°3

La Ingênua.

És doce como o mel, tão doce que as abelhas a tratariam como rainha.
Trocariam todas as flores do mundo para beijá-la. E quem não trocaria?
A Ingênua fala tão baixo, mas tão baixo, que até os surdos a ouvem, pois quando diz algo é como se os anjos sussurrassem em nossos ouvidos.
Esta não precisa chamar atenção de nenhuma forma, nós é que imploremos para que nos contemple com sua sabedoria subestimada pelos mais impuros.
Toma para si a cor da neve, a luz do sol e a pureza das manhãs.
Todos os que a olham se sentem presos ao seu feitiço do Amor, perdem o pulso do coração até o roxear dos lábios para logo após ter o mesmo derretido no magma mais intenso do centro da Terra.
Esta, diz a lenda, és tão passível do engano, que depois de séculos procurando o Amor, resolveu enganar-se dizendo estar apaixonada.



Bento.


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domingo, 13 de novembro de 2011

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO MORRER? (Dia dos Finados)

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Semanalmente escreverei para o site SOU JORNALISTA, um portal de noticias e entretenimento formado por estudantes e profissionais de jornalismo. Para quem busca informações sem nenhum tipo de influência ou interesse “midiático” (odeio essa palavra) como adoram dizer os pseudopuritanos e esquerdistas. Somos Contra todos e contra ninguém, é apenas desejo de escrever.

Agradeço ao Claudio Colavita pela confiança e convite de editar o time de cronistas do site, que por enquanto é formado por mim e a excelente Babi Paiva. Então aqui vai um trecho de meu texto O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO MORRER? (Dia dos Finados) para dar água na boca.


“Sempre que me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse e eu sempre tive um milhão de respostas diferentes para responder a isso. Já pensei em tanta coisa.

Hoje se me fizessem a mesma pergunta eu diria que não gostaria de crescer, mas agora é tarde. De qualquer forma, contínuo não simpatizando com a tal pergunta.

O correto seria; O que você quer ser quando morrer?

Para essa pergunta eu respondo sem pestanejar. Quero ser eterno.

Independente de como vou viver, foi sempre a eternidade que fez meus olhos de criança brilharem como ao ver um brinquedo novo.

“Minha” eternidade não tem nada a ver com religião, paraíso, ou viver em graça ao lado de Deus e toda essa ladainha dos desesperados que buscam um objetivo para a vida e também para a morte. Apesar do nosso egocentrismo de querer ser a menina dos olhos do universo, somos como tudo que habita nele. Nascemos, vivemos (ou sobrevivemos - que é bem diferente de viver) e morremos. E é só isso.

Eu, definitivamente não quero viver uma vida de privações esperando ser feliz nos jardins do Éden, quero aproveitar tudo o que há de bom aqui, em vida. Sentir na pele todos os prazeres da carne.”

Veja o texto na integra no site SOU JORNALISTA http://www.soujornalista.com/cronica.html


Bento.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ESMOLA DE MILAGRE EU DISPENSO

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Tem coisas que eu simplesmente não sei explicar.
Eu nunca tenho soluções pragmáticas para nada, um pingo d'água em minha mão não se torna uma tempestade, tornar-se-ia um tsunami de revolta orquestrada por minha mente sem sossego.
Não que seja uma coisa para se preocupar, no máximo uma boa carga horária de análises resolve. Ou mantém num equilíbrio para que eu possa revelar em letras garrafais: QUERO TUDO O QUE POSSO TER.
É mais que ganância. É direito adquirido.
Um caso de por a mão na consciência e apontar o dedo ao céu e dizer: Você está em dívida comigo! E não o contrário. Convenhamos...

Tanta coisa mudou, tantos espinhos tive de retirar de minha pele machucada e eu continuei com meus princípios básicos de como não agir para que tenham motivos para me castigar.
Longe, bem longe de ser o filho favorito, mas descobri que posso ser o filho da indiferença. Aquele que não fede e nem cheira, trocando em miúdos.
Mas mesmo assim me senti perseguido pelos erros que cometi há nem sei quantos anos, outras vidas talvez.

Sendo assim apontei o dedo ao céu novamente e dessa vez não foi o indicador e voltei a estaca zero.
Sem pecados, sem castigos. Só biritas de bate pronto.
Presente nos melhores e nos piores momentos de demência.
Sabedoria de botequim vem desde a pedra dos dez mandamentos, o sétimo, originou-se no bar. Não subestime isso, nunca.

Também não pense que porque meu hálito é etílico que mantenho-me embriagado, não sou tão autodestrutivo, e seria dizer que não tenho controle de nada.
É só lazer, e se puder espairecer também, por que não? Ou como diz uma amiga, why not?


Bento.

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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

INDECIFRÁVEL...

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...é o que minha mente pensa sobre você.
Racional por natureza tenta desvendar-te a cada segundo e mergulha em sua própria incompetência.
Talvez seja racionalidade demais.

Enlouqueça uma ou duas estrofes e pode ser que dê um refrão.

Já o meu peito acha que te conhece e te entende a toda hora, ele odeia ficar por baixo. No entanto são tantas versões que agora eu não entendo nem você, nem ele.
                                               
De peito passou a matraca, cria fórmulas mirabolantes, cada dia uma teoria - da conspiração- para explicar suas sensações que muito me admira ele não ter trabalhado na CIA ou na KGB na época da Guerra Fria. Depois de tantas tentativas de acertar, perde-se a credibilidade, ou ele acertou em todas, como saber?

Às vezes penso que é maluquice demais, como bêbado que você só entende ficando bêbado igual. Mas é maluquice demais até para mim.

Tenho que te conquistar todos os dias, literalmente. É como se fosse impossível ter você, só posso tomar como empréstimo tendo que devolver ao fim do prazo. Como livro, que antes do tempo precisa cedê-lo para outra reserva.
No ápice do livro, vence a renovação.

Quero poder ir até a livraria de minhas vontades, pegá-la em minhas mãos, apertá-la contra meu peito, pedir o embrulho para presente só para poder puxar o laço e desnudá-la como se fosse a sua primeira vez, e a minha também. Te levaria para casa e passaria a noite lendo-a, capa e contracapa, epílogo e agradecimentos. Decifraria as entrelinhas do teu ser, cada pedaço de pele, cada página, cada pinta, cada dobra de seu corpo. E vararia a madrugada nisso.

Mas a indiferença de momento, palavras ditas no momento errado, na hora errada.
A cegueira característica de quem não quer ver, ou finge que não vê, ou simplesmente não se importa, faz com que sua tiragem seja retirada de minhas mãos.

Veja, é quase uma porta da esperança do inferno. Duas das três opções terá alguém pronto a acertá-lo com a marreta do engano, o porrete da desilusão, e o “mata leão” da dramaticidade do autor. Do exagero filosófico, afinal, também sou humano. SOU HUMANO! Grito assim por que algumas pessoas esquecem, logo, não custa lembrar.

Falo e nas suas reações meço se acerto ou não, é o que resta, pois você pouco fala, por vezes se esquiva, por vezes simplesmente nega-se a responder. Ok! Algumas pessoas falam mais com a ausência de palavras do que ao regurgitar frases sem sentido. É a leitura dos olhos, dizem que as maçãs do rosto são sinceras por natureza.

E ainda me diz que eu que me blindo para me proteger, aprendeu comigo? Não! Não sou tão bom professor assim.

Paro um momento para refletir e após a imagem de seu sorriso forçado de minhas piadas idiotas vem a sensação de estar mexendo com areia do mar que teima em fugir pelos dedos.

Hoje você é um cofre inviolável e eu sou o ladrão frustrado.
Amanhã eu sou o Indiana Jones com chapéu e tudo, atrás da arca perdida, que é você, mas não tenho o maldito mapa.
Ontem o GPS deu de quebrar e fiquei a deriva, procurando uma saída do labirinto que você me fez entrar, talvez tenha até que enfrentar o Minotauro com o machado sagrado de Afrodite, e com sua cabeça em minha mão, reivindicar meu prêmio de vencedor. Você?

E eu no meio de tudo isso.

Afinal, quem é você?


Bento.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

GRUPO FOLHA METROPOLITANA

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Hoje é dia de beber (como se houvesse dia) e comemorar.
Meu blog fará parte do Grupo Folha Metropolitana, que edita e é responsável pelos jornais Folha Metropolitana e Metrô News, assim chegando ao alcance de um maior número de leitores.

Logo, além do Bentinho aqui ficar hiper feliz com o espaço cedido pela Priscila Miranda, Editora Web e o Grupo, também é um reconhecimento maravilhoso para nós, blogueiros que escrevemos sem incentivo nenhum, exceto os leitores e claro, nossa necessidade de desabafar.

Aguardem mais informações.

Segue links dos jornais:




Bento.

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sábado, 29 de outubro de 2011

CONTRERAS IS DEAD

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Num dia desses da semana, talvez sexta-feira ou segunda, não se sabe, no ano de mil novecentos e sabe Deus quanto, Contreras tinha companhia ao chegar em casa. Isso tornara-se cada vez mais raro, não por falta de opção, mais por falta de paciência que qualquer outra coisa.

Contreras era sócio majoritário de um site de vendas coletivas mediano no mercado, o que lhe dava condições de poder viajar para onde bem entendesse. Poderia ele levar a vida que bem entendesse, se tratando das condições financeiras, Contreras não tinha do que reclamar.

Mas ao invés de sair esbanjando todo seu dinheiro, o empresário mantinha-se firme na economia, não por ser “pão duro”, por não sentir prazer naquilo.

Ele andava de metrô e táxi após vender seu carro esporte pelo simples fato de não ter que se preocupar com tarefas como manutenção, postos de gasolina e vagas de estacionamento.

Mudara de sua cobertura num bairro nobre, com sala de ginástica, sauna e porteiros atenciosos para um cômodo de cozinha na Rua Magnólia Trovão, número oito, próximo a exatamente nada.

Contreras tinha sido muito bonito um dia, dono de uma beleza de cartaz, chegara a emprestar seu rosto para a publicidade de seu negócio, hoje apenas três anos depois, aparentava que tinham se passado dez. A falta de vaidade fazia isso, com sua barba por fazer, seu cabelo sem corte amarrado num elástico já encardido e seu guarda-roupa cada vez com menos opções, faziam com que não sobrasse nenhum vestígio daquele que fora chamado de o mais jovem e rico empresário do país pelas revistas e jornais.

Algumas mulheres diriam que ainda havia sobrado algum charme em sua aparência rude, mas não se sabe se era verdade ou interesse comum de mulheres jovens por empresários ricos.

Por isso as visitas femininas no cubículo da Rua Magnólia Trovão tornaram-se cada vez mais raras. Contreras sabia que sempre que precisasse de companhia, sempre que sua carência gritasse mais alto em seu inconsciente, ele poderia buscar alívio nas festas Vips das quais chegavam convites toda semana.

Meia hora fazendo alguma social aos outros convidados e logo haveria alguma modelo de lingerie buscando espaço nas revistas de coluna social ao sair da festa acompanhada da ex mais nova revelação do mundo dos negócios.

Óbvio que Contreras sabia de seu estado de calamidade referente à estética, evidente que ele sabia de seu estado de espírito apagado e que não era boa companhia a ninguém, logo, ele sabia que o único motivo pelo qual conseguia desfrutar de mulheres tão lindas era através de seu status. Porém Contreras queria mais.

Inconscientemente ele sabia que em algum momento, em alguma bifurcação na tal estrada do destino escolhera o caminho errado.

Então, numa dessas visitas em seu humilde lar, a modelo, aspirante a atriz, acabava com toda a tensão sexual do momento.

Puxões de cabelo, mordidas no pescoço e orelhas, a batalha das pélvis, tudo ia por água abaixo por seus repetidos espirros derivados da alergia à pelos de cachorro que a moça possuía.

A cachorra em questão era Azaleia, uma pequena vira-lata carinhosa que estava com Contreras há anos. A única mulher que mantinha um relacionamento de verdade com ele, dizia.

Os espirros aumentaram de tal forma que não havia jeito, alguém teria que sair, a cachorra ou a modelo-manequim-apresentadora. O cômodo de cozinha era pequeno demais para as duas.
A modelo até sugeriu que Contreras botasse Azaleia para fora.

O empresário com seu membro explodindo dentro da calça olhou a cachorra e seu olhos de amêndoas observando tudo que faziam. Depois olhou a modelo que acabara de conhecer, continuava linda, mas seu nariz modelado pelo cirurgião deixara de ser tão perfeito e passou a parecer um pequeno polegar rosa avermelhado e cheio de coriza.

Contreras tentou puxar pela memória o nome da garota, sem sucesso.

Após mais um espirro a aspirante a capa de revista masculina se irrita:

- E então? Ou você dá um fim nessa maldita cachorra ou vou ser obrigada a ir embora.

Contreras ao ouvir a voz já fanha devido à alergia...

- Espere aqui... Vou chamar um táxi.



Bento.

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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

SE TUDO PASSA...

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Num dia desses de pernas para o ar, dia de folga, mantinha tudo que era necessário ao meu lado para não precisar levantar dali. Cigarros, cervejas, Doritos e celular. Levantei só uma vez para buscar o isqueiro, sempre ele, dá de se esconder nos momentos que mais precisamos. Amigo infiel.

E de repente desabei a chorar, copiosamente.

Como criança com machucado no joelho.
Como quem perde um ente querido.
Como cachorro no cio preso na corrente.

Chorava de me lambuzar nas lágrimas que, cansadas de não encontrar espaço mais nos olhos saíam pelos poros do meu rosto.

Chorava e lamentava-me com a cabeça entre os joelhos e tremia ao levar o cigarro aos lábios molhados.

Soluços e escravidão da dor que nem sabia onde era.

Tentava pensar nas coisas mais felizes de toda a vida para dar fim àquilo e isso só fazia piorar.

Choro de desespero.
Choro de ingratidão.
Choro lamentável e incurável.
Choro de desistência de momento. 5 minutos.
Choro de achismo daquilo que ainda não encontrei.

Chorava e os cachorros e gatos parecendo perceber a dor, rodeavam-me com misericórdia nos olhos. E tentando minimizar a situação, lambiam-me.

Chorava e o tempo parecia compreender o sofrimento, pois tratou de esconder o Sol e chorar também lágrimas de chuva, calmas, porém contínua. Só Deus não participava.

Mas não era sofrimento.
Não era emoção.
Sei lá o que era. Só sei que era.

E por fim, assim como veio, se foi. Eu fiquei sem entender.
Levantei e fui jogar vídeo game.
E foi assim.


Bento.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

FILHA DA PUTAGEM

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É só uma adição de sentimentos recíprocos sobre o desdém que mantenho sobre eu mesmo.

Rebeldia é outra coisa.

A constituição da fraternidade de falar palavras difíceis sobre algo que eu poderia resumir numa só palavra. Não! É  muito pouco. Numa só frase. Que vocês devem conhecer muito bem e devem repetir no seu inconsciente em segredo.

Filha da putagem.

É isso!

Toda vez que ponho minha cara no espelho de manhã, no chuveiro, antes de me arrepiar de frio.
Antes de lamentar o dia de trabalho que tenho pela frente.
Antes de medir se há a necessidade de fazer a barba eu penso:

FILHA DA PUTAGEM.

Como uma reza.
Um agradecimento por ter ainda assim, acordado, num PUTA frio de merda, às seis da manhã, com a barba por fazer e a única perspectiva do dia é a consulta com o Dr. Dreher no fim de noite.

Coisas sórdidas que mantemos em segredo no subconsciente para que as pessoas não pensem que você é mais louco do que realmente você é.

E você é um tanto quanto...

Ainda que maquiado.

No dicionário de mil páginas setenta por cento te leva aos pensamentos oportunos de sempre.

Você mantém a pose para não sair como o “reclamão” da história, mas tudo te leva a crer que o destino te persegue e que há uma teoria da conspiração contra tua alma e seu corpo castigado pela gripe que por hora te faz lembrar que toda essa merda de vida pode te levar a morte.

Descontar as tragédias da alma no corpo nem sempre é uma boa ideia, mas o que importa é o destilado e seu cheiro forte fazendo suas narinas arderem.

Partidas de futebol, sinuca e pôquer são assuntos que podem te trazer um grande sorriso ou não. Depende muito de quem serão os jogadores.

Alucinações de peculiaridades te trazem a ausência do capricho na hora de voltar para casa, o que te faz descer escadas correndo ao máximo ouvindo Nirvana cantando Rape Me ou ir ao banheiro público ao som de Roberto Carlos com Amada Amante. Você percebe que perdeu todo desequilíbrio aí.

O aleatório do Média Player também parece conspirar contra você e faz você ouvir Kiss Me que é quase que a morte para a ocasião.

Você entra na internet pelo celular e percebe que não consegue enxergar um palmo diante do nariz.

Enfim você está bêbado e entre um cochilo e outro percebe que todos estão dormindo, logo hoje que poderia desabafar durante horas tomando cervejas e ouvindo Raúl Seixas no vinil ou no violão.

De qualquer forma.

O maldito Destino continua cantando você e somos todos amigos. Todos portadores de salvar almas perdidas e animais indefesos.

Salve as galinhas.
Salve os elefantes
Salve os salmões.
Salve o Corinthians e as baleias.

No fim quem vai te salvar?

Por isso digo que tanto faz se me chamam pelo meu nome ou sobrenome.

O nome que ainda me causa arrepios de frio é aquele gritado no diminutivo meio ao portão e a caixa de correio.

Rooooooooooooooo...


Bento.

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domingo, 16 de outubro de 2011

TEORIA DO CAOS (Senhora Bento)

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Nas conversas com minha mãe sempre aprendo algumas coisas que sem sombra de dúvidas vou levar para a vida inteira.

Lembro-me dela dizendo que em sua juventude, ela linda como poucas, e há fotos para provar, mesmo tendo vários homens lindos aos seus pés, ela preferia namorar com os feios. Achei um absurdo! Mas ela explicou que homem bonito dava muito trabalho, a infidelidade deles e o assédio das outras causavam problemas irreversíveis para qualquer relacionamento.

Já os feios faziam com que ela fosse dormir tranquila.

Entendi os argumentos da minha mãe, mas disse para que nunca repetisse àquilo na presença de alguma namorada minha.

Hoje, eu me pego analisando alguns casais na rua e penso no que minha mãe me disse. Não sei se ela andou espalhando sua teoria por aí, ou é um fenômeno natural.

Talvez homens feios estejam na moda e eu esteja desatualizado, afinal só vasculho revistas do gênero quando estou aguardando algo em alguma recepção.

Mas só posso pensar que é uma tendência, são tantos rostos abstratos, cabelos horrendos, um vestuário péssimo e homens “bombas” desfilando com mulheres extremamente maravilhosas dos pés a cabeça, que estou começando acreditar que existe um complô contra a beleza masculina.

Sei que você, leitora, deve estar dizendo para você mesma agora, que o que importa num homem é a beleza interior. Eu já respondo de anti mão, que os únicos que partilham verdadeiramente desta mesma opinião são os profissionais de decoração e design interior, todo o resto privilegiam o que é bonito. É óbvio.

E convenhamos que a grande maioria hoje, se importa mais com o tamanho de seus braços do que seu nível cultural. Então qual a explicação?

Eu sei que depois do amor todo mundo é lindo, não é verdade que ele é cego? Sendo assim, se quiser saber se você é uma dessas garotas simpatizante da Senhora Benta, façamos um pequeno teste. Portando uma foto de seu queridíssimo amor pergunte a três mulheres desconhecidas se elas o acham bonito, sem mencionar, é claro, que o dito cujo é o felizardo de ser seu namorado. Não queremos opiniões suspeitas.

Se uma entre as três disser que a feiura habita o tal corpo que frequenta seus lençóis, você de fato segue a cartilha. Isso mesmo, apenas um voto, pois beleza de verdade é unânime.

O que os belos solteiros têm que fazer para arrumar uma bela e decente namorada nos dias de hoje, regredir mentalmente, tomar anabolizantes e passar a ouvir funk?


***

Outras coisas que aprendi com minha mãe;

Um homem vai ao mercado para comprar um pacote de arroz, três cabeças de alho, duas Coca-Colas e uma lata de molho de tomate.
Quinze minutos depois o homem volta com um pacote de arroz, uma cabeça de alho, uma Coca-Cola e uma caixa de cerveja.

Uma mulher vai ao mercado para comprar um pacote de arroz, três cabeças de alho, duas Coca-Colas e uma lata de molho de tomate.
Uma hora depois a mulher volta com dois pacotes de arroz, pois estava na promoção, três cabeças de alho, duas Cocas-Colas Light, um vidro de xampu, um melão, uma alface, dois cremes de leite, um saco de farinha, açúcar, dois vidros de óleo, uma dúzia de ovos (resolveu fazer um bolo) e uma lata de molho de tomate.

***

Hoje fui ao sacolão com minha mãe, definitivamente não é um dos programas mais agradáveis aos olhos masculinos, mas é aniversário dela, como negar um pedido tão singelo? E digo que não foi em vão, ela com toda a experiência que só os anos de vida podem lhe dar me mostrou que tinha uma visão errada sobre batatas. Eu, com minha ignorância em assuntos que envolvem horti frutis aprendi que batata boa são aquelas sujas com terra e cara de nada.
Minha mãe despreza as batatas escovadas. Eu sempre optei pelas que tomaram banho, lisas, perfume exalando... Ledo engano.



Bento.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

MEU AMOR TIRA FÉRIAS

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Eu conheço algumas pessoas que engatilham um relacionamento no outro com uma facilidade incrível.

Assim como sala de velório. Mal velou um defunto e já está esperando por outro.

O amor não descansa.

Não seca as lágrimas, se é que chora.

Sai um entra outro, sai um e entra outro. Saiu, entrou. É uma corrente.

Não se dá o trabalho de cumprir aviso prévio.


Já o meu amor tira férias.

Meu amor dá entrada no seguro desemprego. Entra de licença na previdência e declara-se incapaz de cumprir sua função.

O meu amor não viaja rumo ao sul para fugir do inverno. Ele sequer faz as malas.

Meu amor fica para enfrentar a tempestade. Trata logo de lacrar as janelas com pregos e encher a dispensa.     

Acende a lareira e curte nossa fossa com uma boa dose de conhaque e discos de vinil para acalentar o coração.

Enfrenta a tempestade sabendo que não pode vencê-la, mas pode unir-se a ela para saber como esta é por dentro. Olhar bem no fundo de seus olhos e dizer que não deseja permanecer ali por muito tempo, porém acredita que aquele, definitivamente, é um mal que terá de vir para o bem.

Meu amor deseja refletir.

Ele respeita o luto. Suas vestes negras refletem a cor da sua alma.

Não é sadomasoquismo. É luto.

Enquanto há amor que, mal houve o despejo já arruma outro peito para morar, o meu fica ao relento. Se entrega no drama da sarjeta. Como música brega.

Repousa em camas de papelão, banha-se no chafariz de suas lágrimas, e na esperança do sopão da madrugada rejeita o albergue.

Meu amor tira a solidão para dançar a valsa da alto compaixão.

Nem melhor nem pior.

É só a forma que ele achou de dizer que ainda existe.



Bento.

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

NEM TODOS ENTENDEM IRONIAS

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Não gosto que me confundam com os bons meninos, daqueles que ganham tapinhas na cabeça das avós como afago. Nem avó eu tenho.

Eu prefiro sempre que não haja nenhum tipo de expectativa sobre minhas atitudes.
Convenhamos...
Se prepare sempre para o pior, não espere nada de mim, eu prefiro, assim nunca correrá o risco de se surpreender. Tanto para o bem quanto para o mal.

Há muito tempo atrás eu abdiquei do direito de me defender de qualquer tipo de acusação. Dou-lhe então, a chance de falar, de xingar, de julgar, de achar o que você bem entender.

Sou ignorante; - o pior de todos.
Sou mentiroso; - o melhor de todos.
Bipolar; - não! 'Tripolar'.

Trato muito mal as pessoas, mas só trato mal quem eu tenho no mínimo um pequeno carinho, pois quem eu não gosto eu simplesmente ignoro. Não existe, como uma ameba.

Consigo assim transformar a superpopulação do mundo num grupo de “amigos do pôquer”. Os que eu odeio sintam-se lisonjeados, ódio também é sentimento.
 Tanta gente já tentou entrar neste hall de odiado, portanto reserve sua vaga.

Fico rindo comigo mesmo quando certos indivíduos se acham na importância de me decepcionar, se dirigem a mim pisando em ovos querendo se desculpar e eu penso - quem é você? Que pretensão idiota. Só nos decepcionados com quem gostamos.

Caro leitores devem estar pensando: Nossa! Que arrogância!
São sábios leitores.

Rostos indignados... (já estou imaginando a hipocrisia. Já me sinto o Clinton, como se dissesse numa coletiva de imprensa para o mundo ouvir: eu comi a Mônica mesmo, a Hillary nunca gostou de sexo anal. Ou o Bush pego no segredo: Little Osama e eu tínhamos um caso de amor, decidi acabar com tudo e na partilha de bens fiquei com o poddle que ele tanto adorava, mas nunca imaginei que ele reagiria assim. Tão temperamental. Ou ainda, Obama se assumindo: Eu sou branco). Ouço até o burburinho.


Os rostos indignados devem parar por aqui a leitura dizendo que eu não mereço que continuem perdendo seu tempo. Eu concordo plenamente. Eu mesmo nem sei se continuarei o texto até o fim. Então deixem isso para lá, como está a previsão do tempo hoje? Acho que deveria adicionar um link para a resenha da novela das nove bem aqui para premiar os tolerantes sofrivelmente a tortura.

E depois, se acontecer de surgir àquela curiosidade sobre minha personalidade, perguntem as minhas ex-namoradas, ex-amantes, ex-rolos, ex-casos. Dou uns três meses para concluir a pesquisa. Garanto que elas só terão verdades para dizer ao meu respeito. Sempre tão amáveis. Só conheci santas nesta minha curta vida.
O que elas disserem pode acreditar, pois uma santa nunca mentiria.

E no auge do meu egoísmo eu me aponto como o único responsável pelo mal que causo a mim mesmo. Ainda adicione um pouco de covardia adquirida com os anos de desafetos, e pronto.

Este sou eu me intoxicando com tabaco para amenizar a dor do parto da desgraça. Ou seria pirraça?

Não importa.

Só não digam que eu não avisei.


Bento.

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

COM QUANTOS ERROS SE FAZ UM TONTO?

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E eu que achava que não seria capaz de me surpreender com mais ninguém, me enganei de novo! Talvez eu, que falo tanto de "segundas chances", tenha esquecido, por hora, do meu próprio discurso.

Virei o pregador daquilo que esqueci.

Desconfiei com razão. Justo dessa vez.

Justo dessa vez acreditei naquilo que nunca dei muito valor. Razão! Razão?
Jamais dei a mínima para isso, agi sempre com o coração, com o instinto, com a crença de melhorar ou de encontrar o melhor.

E dei razão a desconfiança.

Me perdi no momento que me entreguei ao imponderável, na sandice de esperar sempre o pior. Descrença na crença.

Ao invés de meter os pés pelas mãos, lavei-as, coloquei-as no bolso e fiz que nem vi. No enxugar do rosto em frente ao espelho encontraram a segunda chance em outro peito.
E eu que sempre fui à favor das “SEGUNDAS CHANCES” já estou clamando pela décima sétima, décima oitava, décima nona...

#CHUPABENTO

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

CONFISSÕES DE UM BEBERRÃO -- o fígado é mais importante que o coração.

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Nada combina mais com um homem que um balcão de bar, um copo americano e os apelidos distintos dado ao dono do boteco; Ô chefia; Camarada; Bigode; Campeão; Corintiano;

Reconhecemos como nossa segunda pele os antigos azulejos quadrados com desenhos que parecem ter sido criado para botecos. Nos lembra talvez a saia da mãe e a vontade de se enfiar debaixo dela agarrando-lhe a perna quando temos problemas.  Um boteco de São Paulo e um boteco no Acre provavelmente terão o mesmo modelo de azulejos. 

As marcas do fundo do copo no balcão de madeira são nossas digitais, elas dizem tudo sobre nós.

Não estou falando de baladas, pubs ou bares refinados. “Tô falando de buteco”,
daqueles de esquina, de porta de aço, toldo azul, de mesas e cadeiras de ferro com rótulos de cerveja estampado em sua face. Onde não existe banheiro feminino.

Assim como uma igreja, um boteco jamais terá um ar alegre, pois são como um templo aonde vamos para refletir, para encontrar o equilíbrio da alma perdendo o equilíbrio do corpo. Embriagamos o corpo, a alma jamais, é por isso que o bêbado nunca esquece o caminho de casa.

As compotas de vidro com água amarelada são as imagens que cultuamos, onde prendemos nossos olhos e de joelhos oramos. Os ovos de codorna se transformam em olhos que nos vigiam e nos oferecem sua misericórdia diante dos pecados que já cometemos, estamos cometendo e com certeza iremos cometer aos montes.

Os amendoins são as hóstias que nos lembram de nossa carne ferida, castigada, salgada de suor latejante, lembra-nos de todo nosso sacrifício diário por quem amamos.

A cerveja, claro, representa nosso sangue sagrado que arregaça nossas veias e desce por nossa garganta levando ao ápice do dia.

A cervejada é nossa Santa Ceia, quando dividimos o pão com nossos irmãos. Irmãos sim, pois no boteco, nós homens dividimos o mesmo ventre da angústia.

O bar é nosso cantinho da leitura.

Alguns homens tentaram burlar as leis do templo levando o bar para casa. Em vão.

Taças de cristal, vinhos do porto, whiskys importados, esposas e crianças correndo em volta não combinam com boteco.
O serviço self service não combina com boteco.
É preciso os santos ouvidos do balconista para o desabafo.
É preciso o balcão como nosso confessionário.
É preciso a gordura no teto que faz do bar nossa Capela Sistina.
É preciso o som das pedras do dominó como música ambiente.

Carpetes não combinam com boteco. O chão precisa estar escorregadio pelos goles oferecidos aos santos.

É preciso um solo sagrado para se construir um boteco, sagrado, ungido por Deus, os anjos e os santos. San Remy, São Francisco... Estão todos lá.

E como em toda seita há um dia sagrado para se conectar ao paraíso, as sextas-feiras estão aí para não me deixar mentir.

Nós homens estamos para as mulheres como os muçulmanos estão para o Ocidente. Somos autodestrutivos em busca da paz eterna.

Se engana quem pensa que o ato de beber e encher a cara é prejudicial.

O álcool é o yoga do homem.

De fato, os problemas são aniquilados com o álcool, mas na ressaca eles voltam, todos eles, com o agravante da dor de cabeça e a sede. Porém é preferível a paz durante algumas horas do que nunca alcançá-la.

É quando o coração do homem é substituído pelo fígado.

E neste caso, é melhor que o homem preserve o órgão certo. O fígado é o ombro amigo, bem mais importante que o coração.


Bento.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CHEGA DE CULPA.

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É curioso como a garota entra na loja de doces aos pulinhos e sorriso amarelo ao comprar chocolates pela segunda vez. Isso é a culpa de saber que gorda ela já está, mas mente para si mesma dizendo “um a mais não vai matar”.

E o fumante que quer parar de fumar, "não sou viciado" ele diz. No meio da greve de nicotina experimenta um cigarrinho depois do pingado, afinal “algumas tragadas não me farão mal.”

O viciado em pornografia que esconde um ou dois filmes em cima do armário, que é “para a hora do aperto”.

A vítima do “pé na bunda” que ainda assim não deixa de ligar como se tudo corresse normalmente; “liguei só pra saber se está bem”.

***

Uma vez me chamaram de mentiroso e fiquei “emputecido”. O único que pode dizer isso de mim sou eu mesmo.

Sou o único alvo de minhas mentiras, com a cara deslavada me engano e gosto.

São mil desculpas que crio no caminho de casa, sou meu próprio marido traidor.

Discurso durante horas no pé do meu ouvido na esperança de me passar para trás.

Sou o eleitor e o elegível.

Sou a filha com a desculpa de estudar para a prova em grupo para na verdade ir ao cinema com o namorado, e sou a mãe que se orgulha da dedicação da filha aos estudos.

Sou o aluno que culpa o cachorro de comer seu trabalho escolar, e o professor que engole a desculpa  já gasta, sou até o cachorro réu desavisado.

Sou o que estaciona em lugar proibido e gasta o latim dizendo que foram “só cinco minutinhos”, e o amarelinho que ouve a mesma mentira pela décima vez no dia.

Sou novamente o cachorro que faz cara de coitado depois da arte e sou o dono que desiste do castigo por dó.

Tenho sido por um longo tempo a testemunha que me acusa do crime acabando com meu álibi.

Meu próprio carrasco, esperando pelas minhas últimas palavras e não faço nem questão de capuz. Não ligo se tiver meu próprio rosto gravado em meu último olhar.

Longo tempo de martírio, mas eu acho que já basta.

Passara muito tempo e sinto que sou o único a contar uma história que já não tem importância nem para os personagens principais, muito menos os coadjuvantes.

História essa que ninguém fez questão alguma de registrar nos livros didáticos.

Talvez tenha sido um conto que eu mesmo tenha criado dentro da minha cabeça como fiz com tantos outros.

Fingindo ser um e ser outro, um casal feito pelo autor. E o trouxa aqui teve de escolher encarnar justo o que ficou e sofreu, e chorou, e bebeu, e lamentou-se, e chorou, e sofreu de novo. Ao invés de me enfiar dentro do corpo de quem se foi e viveu, e viajou, e continuou, e viveu, e sorriu, e casou-se, e continuou, e sorriu, sorriu, e sorriu.

Nem em minha própria história eu me saí bem, com final feliz. Se me resta algo é sorrir - pior é que eu não me aguentei e tive mesmo que rir ao escrever isso – afinal chega a ser cômico mesmo, depois de ser trágico é claro.

Desde meu primeiro texto inocento minha cúmplice, tomando para mim toda a culpa do crime. Eu planejei, eu investi, criei todo o plano, eu comprei a arma, eu arrombei o peito, fui eu que abri a caixa torácica e matei o amor. Eu, eu, eu. Sozinho!
Crime sim, pois assassinar o amor é um baita de um crime bem ferrado. Aliás, ferrado fiquei eu, assumindo toda a culpa sozinho.

Perdi a oportunidade de me salvar quando lá estava eu num cubículo fechado, me fazendo companhia só o espelho e a mesa que talvez por falta de originalidade do decorador fizeram-na da mesma cor que as paredes, a porta, a luz e as cadeiras. Tudo igual, tudo monocromático, percebi que mais alguns minutos ali e eu ganharia a mesma cor da sala como um camaleão.

Isso só mudou quando finalmente o policial rechonchudo e bigodudo - eu poderia achar mais centenas de palavras com “udo” para descrevê-lo - senta-se com dificuldade, me entrega o café num copo descartável e me oferece um de seus cigarros. Algo no policial gordo me lembrava o Cupido adulto naquelas figuras italianas antigas “muito bem, me conte o que aconteceu” e eu explico toda a história sem tocar no nome dela.

“Agora me fale de sua cúmplice . Era agora. Foi exatamente nessa hora que eu deveria ter aberto minha maldita boca e a denunciado para que ela também levasse a culpa e fosse punida pelas leis do amor, mas ao invés disso eu disse  não haver cúmplice nenhum como eu já citei acima.

Depois o Policial-Cupido-Obeso chegou a me oferecer algumas garantias como alívio da pena, prisão diferenciada e etc. Mas eu não dei ouvidos. Grande besteira eu fiz da minha vida.

Agora vocês já sabem como vim parar aqui, eu bem que poderia fazer como os outros detentos e escrever um livro confessando meus segredos para a sociedade livrando-me da culpa que me consome, “mais ou menos eu já não faço isso?” - mas não! Preferi tomar outro caminho, pois se eu que criei essa história, agora vou editá-la e contá-la no meu ouvido. Uma história diferente, eu já fui tantas vezes vítima de minhas próprias mentiras, uma a mais, uma a menos.

Mas neste final, eu serei o personagem principal do “Felizes para Sempre”.


Bento.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ATRASADO, SEMPRE ATRASADO.

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Ouvi minha mãe dizer uma vez que eu nasci antes da hora, algumas semanas apenas. Sem aquela fragilidade de bebês prematuros, incubadoras e etc.

E dizem que prematuros são por natureza impacientes, eu, definitivamente concordo. Chego atrasado para não ter que esperar, faço as contas dos minutos sem me dar o luxo de errar. E me atraso, é claro.

Penso no caminho já de antemão, pego becos e atalhos, e me atraso, como sempre.

Talvez a máxima de que eu chegue atrasado ao próprio enterro se aplica ao meu caso, mas ao velório, esse eu tenho certeza.

Eu ao contrário do que os outros dizem, creio que nasci tarde de mais.

Poderia ter nascido nos anos 60 e ter conhecido os primórdios do rock n roll, mas me atrasei.

Poderia ter nascido nos anos 70 e conhecido o movimento hippie e tudo que este inspirou, mas cheguei tarde.

Algumas coisas da minha vida eu tendo a dar valor um pouco tarde demais, hoje vi uma de minhas namoradinhas de infância e ela estava linda, bem sucedida, e claro, muito bem acompanhada. Lembra-se do texto que postei? - Ex Namoradas - É por aí!

De qualquer forma ainda acho que sou um privilegiado, deixando de lado todos os erros e tropeços eu me considero um cara de sorte.

Tive a oportunidade de ter os dedos cortados por linhas com cortante que eu mesmo fazia artesanalmente juntando cacos de vidros dentro de latas, do tempo que óleo vinha em latas de aço, jogada na avenida, as rodas dos carros faziam o trabalho do martelo e o vidro saia da via todo moído.

Sou do tempo que bolinhas de gude leiteiras valiam a honra do jogador.

Pude ver os quatro Trapalhões vivos e juntos.

Eu sei o que é “Toca do Coelho”.

Pude trocar tampinhas por Io-Io da Coca-Cola.


Sou do tempo que peão era mais do que aqueles que montam em cavalos, no meu tempo peões eram enrolado em barbantes e desenrolados com precisão na rua de terra para que pudesse rodar o maior tempo possível, assim como a vida, lutando para ficar de pé.

Sou do tempo que fazíamos brinquedos com as próprias mãos, onde pedaços de madeira e aço eram surrupiados para que se transformassem em carrinhos de rolimã que eram bem mais legais que bicicletas, e fazíamos carretas dos carrinhos juntando um no outro, assim, além das cicatrizes, adquirimos humildade ao carregar os amigos conosco em nossos carros, dividindo o que tínhamos e caíamos todos junto ao final da curva. Sofrendo juntos.

Sou do tempo que vídeo game era com fita, que dependia de sopros para funcionar e esperávamos que com isso tivesse um melhor desempenho, e o controle era muito mais pornográfico tendo o codinome de BANANA, essa coisa de joystick veio bem depois. Quem jogou ATARI sabe do estou falando.

O fato é que aproveitei toda a infância como deveria, na rua e com amigos disputando quem tinha mais cicatrizes. Porém também sou da época da TV por assinatura e logo depois a imagem digital, HD e 3D.

Também sou da época do computador e internet, caixa eletrônico e banco online.

Sou da época do bilhete único e carro movido à eletricidade.

Pude ver o Brasil ser TETRA e PENTA. Vi Romário e Ronaldo jogarem juntos e formarem um dos ataques mais FENOMENAIS da história do futebol. Vi meu time do coração ganhar todos os seus títulos nacionais e até mundial com seu maior ídolo em campo, podendo assim fingir mesmo que por alguns minutos que era eu a estar no lugar dele.

Pude ver o renascimento do fusca.

Sendo assim, me vejo como um privilegiado, podendo participar de duas eras completamente diferentes, mudando junto comigo, como se o mundo passasse pela mesma puberdade que eu, sofrendo com primeiros amores e as espinhas assim como eu. Lado a lado amadurecemos.

E hoje comparamos nossas cicatrizes.


Bento.

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domingo, 4 de setembro de 2011

ONDE ESTÁ WALLY?

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Quem nunca brincou de Onde Está Wally?

É mais ou menos assim que será daqui para frente.

Eu, estudante de jornalismo que sou, e como todos, sedento de notícias e informações, obtive a única novidade da qual eu desejava não ter, nunca. Como todos, um ponto fraco.

De agora em diante toda esquina, ponto de ônibus, bares, padarias, estações de metrô, todos os lugares eu procurarei um Wally.
Em todos os lugares avistarei alargadores, tatuagens e cabelos desgrenhados.

Mesmo em cômodos fechados procurarei, arrastarei móveis, abrirei gavetas, dentro de caixas guardadas há anos não ficarei sem passar os olhos. Vou duvidar de todas as portas fechadas com chave. Será que está ali o Wally?

As cortinas serão retiradas para evitar esconderijos, não deixarei sequer uma vez de olhar por debaixo da cama. Os monstros da infância eu saudarei como um qualquer, pois não é quem eu procuro.

Inconscientemente, em segredo, sei que unirei forças com São Longuinho com promessa de pulos por horas a fio. E todos os pulos serão poucos.

Vou duvidar de espelhos e como num filme de terror os vultos me enganarão.

Meus olhos serão Arlequins abusando de minha boa vontade e caçoando da ingenuidade inevitável.

O curioso de tudo isso é que se eu pudesse escolher, se me perguntarem sobre o tal do Wally, sinceramente, eu prefiro nem começar a brincar.

Quero os jogos de tabuleiro, sempre me dei melhor com cartas e jogos eletrônicos.

Mas será sempre o maldito mapa da praia com salva vidas, o guarda sol e a bola vermelha que consumirá toda a minha atenção sabe Deus até quando.

Era bem mais suportável quando eu sabia da impossibilidade de encontrar o personagem que acena para todos destilando sua maldita felicidade invejável.


Bento.

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