quarta-feira, 9 de março de 2011

O DISCURSO DO CABO

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Por: Dr Valadares


Depois de um dia todo de trabalho, tantas vidas, tantos problemas que aos olhos de quem os tem parecem insuportáveis, sem resolução e eu tendo que mostrar os caminhos e atalhos para tornar esses problemas alheios, se não nulos, pelo menos bem menores e toleráveis. É bom chegar em casa para tomar uma dose, sentar na poltrona e ver os netos correndo pelo carpete. Um dia eles vão precisar de meus serviços como avô e como médico, mas por enquanto o mundo deles ainda não os fuzila com os problemas do mundo adulto.

Isso me fez lembrar de uma história que presenciei ainda quando tinha a idade de Sofia, minha neta mais velha.
Eram mil novecentos e alguma coisa, em Brasília, logo após a guerra num salão monumental todo o grande escalão do exército se reunia para homenagear um só homem.
Miguel Procópio, cabo do exército brasileiro estava a ganhar sua medalha de honra por serviços prestados numa guerra que não era sua, nem de nenhum que estava presente no salão, mas tantos homens e mulheres foram salvos por sua coragem que a homenagem era válida.

Na platéia viam-se soldados com marcas da guerra, mas que ainda assim conseguiram voltar para suas casas e suas famílias, mães, esposas e filhas que tiveram uma segunda oportunidade de ter em seus braços seus amados homens por culpa de Miguel.
Microfones a postos, o nome de Cabo Procópio é anunciado. Ele se levanta lentamente, sem sinal da guerra pelo menos externamente, se dirige até o palanque e começa o discurso que ficara guardado em minha memória até os dias de hoje:

“- Agradeço primeiro a Deus por estar na presença dessas belas pessoas. (Pausa)
Agradeço a todos vocês pela homenagem, honraria e presença.
A guerra jamais deveria acontecer em hipótese alguma, mas já que aconteceu agradeço a Deus por nos manter vivos e nos dar saúde e coragem para enfrentar nossos inimigos com sabedoria e honra. (Pausa)

No entanto quero dizer a vocês, homens e mulheres aqui presentes, sem sombra de dúvida eu não mereço essa homenagem. Não pensem que é charlatanismo de minha parte, nem pensem que estou com demasiada modéstia.
Só penso que quem merecia estar aqui em meu lugar são todos vocês que estão aí me assistindo e ouvindo agora, todos vocês que puderam voltar para suas famílias e dizer-lhe que estão prontos para enfrentar milhares de guerras desde que possam voltar à suas casas e verem os sorrisos de seus filhos e esposas novamente e o cheiro de café que teima em sair do bule mais gostoso do que realmente é.
Talvez vocês não entendam o que quero dizer agora, mas num breve diálogo que tive com um amigo no campo de batalha, que Deus o tenha, traduzirá melhor minha mensagem.

Perguntado por ele de onde vinha minha coragem nas batalhas eu respondi com um gesto tirando seu capacete. Dentro dele havia a foto de sua querida família e seu cachorro.
Disse ao amigo que ele tinha uma bela família, devolvi-lhe o capacete e tirei o meu, entreguei em suas mãos e perguntei o que ele via ali dentro de minha proteção e ele disse não haver nada ali dentro. Foi quando disse ao amigo que sua pergunta estava respondida.
Não havia nada ali, não há nada aqui. Eu não teria por quem rezar, não teria a quem escrever e muito menos quem choraria numa possível bala que atravessasse meu peito.
Eu em campo de batalha não pensava em voltar, pois não havia ninguém me esperando e rezando por mim. Dito isso o amigo não me devolveu meu capacete, mas sim o seu e disse que toda vez que me sentisse vazio que era para olhar seu cachorro, seus filhos e pensar que eu estaria aqui hoje contando a vocês nossa conversa.

Por isso senhoras e senhores, digo do fundo de meu coração que coragem não foi algo digno de homenagem, mas sim um ato de desespero de um homem que não tinha nada a perder. Eu trocaria cada pedaço de meu corpo, cada bala que foi desviada de meus membros por Deus pela oportunidade daqueles que não puderam voltar e estar aqui hoje e poder ver esses sorrisos de suas famílias. Obrigado.”

Ao fim do discurso, ao invés de aplausos haviam lágrimas nos olhos dos convidados e Miguel saiu de cena com a foto que lhe fora dada de presente por seu amigo que jamais voltou da guerra. Era a mais singela demonstração de amor e afeto que ele havia recebido, e guardaria a fotografia por toda sua vida.


DV.

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