domingo, 5 de junho de 2011

Mini Série: O Bilhete (Capítulo III) Aqui Jaz Dom, O Canário.

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Ao sair do banho Dom plantava-se em frente ao espelho com seu corpo nu e seus cabelos molhados, e o que via ali não era sua imagem propriamente dita, mas a imagem de um outro alguém que possuía seu corpo dos pés a cabeça até as cordas vocais que ele usava para cantar nas noites de Amarante Epitáfio que ficava à muitos e muitos quilômetros da capital do Estado.
Se perguntassem por seu nome alusivo a Dom Juan, o maior de todos os amantes, apontariam para ele, a imagem da perdição, talvez até a própria perdição em pessoa e ele se esbaldava com a fama enquanto seduzia todas as solteiras de ocasião com sua voz de canário e suas canções.
Com seu rosto de anjo e olhar de diabo confundia as mulheres da cidadela, afinal em quem acreditar, nas palavras doces ou no olhar de Dom que denunciava suas intenções de cafajeste?
Acredita-se no que vê ou no que ouve?

Dom sabia que mulheres têm os ouvidos mais aguçados que qualquer outro sentido, porém nunca deixara de cultivar a vaidade. Primeiro Dom seduzia e tratava as escolhidas pelo diminutivo dos nomes que jamais esquecia, segurava-as em suas mãos como se fossem flores que ao menor movimento poderia perder uma pétala, no entanto também sabia usar a força para trazê-las junto ao seu corpo e falar baixinho ao ouvido.
E cantava, ainda por cima cantava. Mas bastava uma noite de prazer para que Dom começasse seu ritual de afastamento e colocava a pobre coitada em sua lista de persona non grata.

Ao acordar Dom angustiava-se com a ressaca moral, afinal tudo o que ele queria era alguém para acordar ao lado dele, para que pudesse trazer café na cama com torradas e decidirem juntos o destino do dia podendo até escolher por passá-lo ali mesmo debaixo do edredom e tendo apenas seus rostos como janelas do mundo.

De dia ele era Domenico, rapaz simples de inteligência singular, muito tímido ao responder apenas com acenos de cabeça e sorriso contido os cumprimentos de Seu Natanael dono do único mercado da cidade onde todos compravam os pães e leite. Também com timidez aceitava as piadas de Seu Gusmão, o Açougueiro. E respondia sempre com gentileza os questionamentos sobre o pagamento do aluguel de Dona Mafalda, viúva do senhorio do cubículo em que ele morava. Cubículo esse que quase perdeu pelo fato de Dom ter feito como vitima a filha da viúva.

Logo Domenico, o rapaz calmo, se transformava ao cair da noite em Dom, odiado pelos homens da cidade devido ao sucesso que fazia com as mulheres e amado pelas mesmas pelo mesmo motivo.
Uma dessas mulheres era Nélia, filha do delegado da cidade que podia se vangloriar com todas as outras donzelas de ter sido a única exceção a ter Dom em seus braços por duas noites, talvez seja por esse motivo que seu amor era o maior entre todas.
Cansada de se declarar sem sucesso ao seu Dom Juan e assistir a variedade de mulheres que dormiam na cama que pôde repousar durante duas noites, Nélia tomada de amor e ódio decide pegar o revolver de seu pai e resolver aquela situação que a consumia de dor de uma vez por todas. Nas exatas doze horas do dia do domingo Nelia entraria na casa de Domenico e dispararia dois tiros no peito que outrora repousara sua cabeça, um tiro para cada noite juntos dividindo o amor e por fim com um terceiro tiro em sua própria têmpora alimentava a esperança de que na eternidade ela possa viver aquele amor. Mas não antes de deixar uma frase no espelho do banheiro escrita com batom para não deixar dúvidas sobre o motivo da tragédia.

Bento.

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