quinta-feira, 25 de agosto de 2011

SEU PAI, O TÉDIO.

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Anastácia chamava pelo amor como um suicida chama pela morte.

Os evangélicos batizariam seu desejo de: Arrebatador.

Ela precisava daquilo como se faltasse uma perna, um braço...

Anastácia se sentia numa Paraolimpíada dos apaixonados, faltava um pedaço seu que só poderia ser completado por outra pessoa.

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Dizem que os olhos são as janelas da alma, se for verdade, pense nas janelas de Anastácia empoeiradas, com cortinas de veludo, cor de vinho tinto desbotadas pelo tempo.

Vem comigo e use a imaginação como chave para entrar.

Agora que passamos pelas cortinas que nos fez tossir um pouco, vemos um cômodo mal iluminado com uma poltrona no meio do cubículo, restos de pizzas e cinzeiros lotados de bitúcas de cigarros fumados pela metade espalhados por todos os cantos.

O cheiro lembra as roupas de nossas avós, por pouco tempo apenas, agora lembra abandono mesmo.

Mais um giro pelo que agora parece um quarto, mas sem cama e sem TV, vemos montanhas de jornais no outro canto, de todos os tipos, até aqueles de promoção de hipermercados. Alguns deles estão colados na parede com data de três ou quatro anos atrás.

O curioso é que antes de entrar podíamos ouvir o barulho do trânsito lá fora com buzinas, motores trabalhando, vendedores ambulantes anunciando seus produtos, passarinhos e cachorros.

Porém o quarto parece estar alheio a tudo isso e o silêncio aqui é ensurdecedor.

Tateando o escuro diante dos olhos com cuidado para não tropeçar em nada achamos uma estante com as pontas dos dedos, aparentemente são uns cinquenta livros, todos com o mesmo título e mesmo autor. Com isso chegamos à conclusão de que, ou o morador é um escritor com uma tiragem encalhada, ou ele precisa reciclar sua leitura.

Agora que nossos olhos se acostumaram com o escuro vemos que na poltrona rasgada no meio da sala há um homem sentado e seu nome é Tédio.

Tédio tem o rosto marcado pelo tempo e parece estar sentado ali tanto tempo quanto os jornais velhos, os livros e a cortina de veludo. Não ficaria surpreso se me dissessem que ele veio como brinde da loja ao enviar a poltrona na hora da compra.

Tédio poderia ser comparado com aquele professor de matemática do colégio, ou um vizinho idoso que sai na janela para puxar conversa sempre que te vê atrasados, mais de dez minutos ouvindo suas palavras a acreditaríamos piamente que ele é nosso cunhado.

Seus cabelos são gordurosos à ponto de colarem no econômico couro cabeludo e se não houvesse o mau cheiro poderia confundir-se com gel cola.

Então o maltrapilho começa a falar e sua voz parece ser dirigida ao quarto e não aos visitantes, prestando bem atenção reparamos que sua boca não se mexe ao falar. É quando buscamos com os olhos um aparelho de rádio acreditando ser um programa de noticiários matutino, mas já havia passado das três da tarde quando entramos pela janela. Então lembramos que o que fizemos foi invasão de domicílio, onde estávamos com a cabeça para entrar numa casa pela janela em plena luz do dia?
Alguém pode ter visto e a essa altura a polícia deve ter sido avisada.

Devemos sair dali pelo mesmo caminho que entramos no entanto nossos pés parecem agora estar pregados ao chão, seria a mistura de poeira e umidade que nos fez refém daquela voz tediosamente irritante e daquele quarto esquisito?

Já se passaram horas, presos no quarto, estamos ouvindo as mesmas histórias pela quarta ou quinta vez, impossível dizer ao certo.

Tédio fala de seus tempos de andarilho, dos seus anos como testemunha de Jeová e quando narrou para a rádio local o funeral do prefeito de uma cidadezinha afastada por onde passara e nos fez ouvir na íntegra o tal enterro.

Já a ponto de cortarmos nossos pés só para podermos sair dali o velho some e em seu lugar está uma criança ainda de fralda e começamos imaginar se entramos ali no quarto por que ficamos loucos, ou se perdemos a sanidade por ter cometido o erro de entrar por aquela maldita janela. Enquanto pensamos reparamos que a criança está envelhecendo numa velocidade incrível e já podemos ver alguns traços do velho Tédio que contava histórias. Então pensamos se é isso que acontecerá conosco também, fadados a nascer, envelhecer e morrer naquele quarto.
 A ideia de cortar os pés e se arrastar até a janela antes de entrar em choque pelo sangue perdido não parece uma ideia infundada.

Temos que fugir dali antes que Tédio comece a contar suas histórias novamente, então fechamos os olhos com força torcendo para Deus ouvir nossas preces e nos tirar daquele quarto do horror e, nada. Tentamos de novo.

Quando abrimos os olhos dessa vez, Anastácia está em nossa frente, estamos de volta a calçada em frente à mesma janela e ela diz:

 - Prazer, meu nome é Anastácia. Vamos entrar?


Bento.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O PESSIMISMO É UMA ARTE.

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'Tudo vai mal, tudo tudo tudo' . É o que diz Roberto Carlos na música Como Dois e Dois.

É também o que diz os pessimistas por natureza e os hipocondríacos dramáticos.

Sempre há algo digno de reclamação, teorias cabalísticas do fim do mundo até os apocalípticos discursos sobre problemas sociais, econômicos e etc.

Nas filas dos bancos jamais haverá algum testemunho otimista por que só a tragédia rende assunto. Se Romeu terminasse seus dias como gerente de vendas, Julieta acabasse como dona de casa fiel e os dois vivessem felizes para sempre até seus netos entrarem na faculdade Shakespeare seria um dramaturgo falido.

Uma amiga me alertou sobre uma frase de Vinícius de Moraes que eu até então desconhecia, “O poeta só é grande se sofrer”.
Toda tristeza é exagerada e as alegrias são desprestigiadas, fazem pouco caso da alegria alheia, “ninguém é tão feliz assim, provavelmente ele tá inventando”. Dizem aqueles que presenciam qualquer sorriso largo, fácil prever o que pode nos entristecer, pois são tantas opções.

Digo isso com conhecimento de causa, meus textos mais populares são os que contam tragédias, os contos felizes e bem humorados estão no pé da lista.

Presenciar a felicidade alheia nos faz lembrar da nossa incapacidade de manter nosso sorriso como cartão de visita. É bem melhor quando encontramos um amigo com problemas tão grande que nos faz pensar que não estamos perdidos, ou na melhor das hipóteses ficamos felizes que pelo menos não é com a gente.

Ah, mas os felizes, esses nos matam.

Quando perguntamos tudo bem?  Por educação o que queremos mesmo é só a devolução da cortesia tudo sim, e você? e nada mais que isso. Pronto! Já cumpriu o ritual de educação que seus pais lhe ensinaram agora pode voltar a falar mal da roupa de sua colega de trabalho, almejar o cargo do seu chefe, olhar para os seios da namorada de seu amigo e se perguntar: o que ele tem que eu não tenho?

Quando ouvir aquela história de inveja boa prepare o pé de pimenta e o banho de sal grosso porque isso é o mesmo que dizer que se tem um ódio saudável por alguém. Algumas palavras não têm e nunca terão mais de um sentido.

Nunca anuncie sua felicidade para não terminar sem amigos, triste, ou poeta.

Bento.

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sábado, 13 de agosto de 2011

HOMENS...


Tenho um amigo que diz que vizinhas não precisam necessariamente ser bonitas, afinal não corremos tanto risco de sofrer com os olhares curiosos quando o caminho de sua casa para nosso quarto será tão curto.

Homens são mesmo diferentes, lembro-me dos tempos de MacGyver na TV ainda analógica com Bombril na ponta da antena onde o personagem conseguia explodir um prédio com um clipe de papel e um pedaço de fio, dê uma vagina a qualquer homem e você o entreterá por semanas, talvez meses.

Por isso penso que a revolução industrial partiu das mulheres. Carros automáticos, fogões elétricos e celulares são invenções tipicamente femininas exceto a internet, essa foi feita pelo homem para poder ter fácil acesso a pornografia sem ter que se preocupar com esconderijos espaçosos para camuflar suas coleções de VHS.

Assim como é atestado pelo Instituto de Suposições do Autor que a anatomia do pescoço masculino é diferenciada, pois assim como a língua este também flexiona-se instintivamente virando-se para trás estimulado por uma bela bunda.

Homem é sempre mais preguiçoso, jamais haverá um homem que saia de casa para bater perna, assim como dificilmente verá uma mulher demorar um domingo inteiro para lavar o carro. O fim de semana do homem serve para não fazer exatamente nada e quando se aventura a sair de frente da TV demora horas até o término e é daí que vem a lenda de que mulher é a única que consegue fazer mais de duas coisas ao mesmo tempo, o homem também pode, só não gosta de fazer, exceto quando é para ver jogo de futebol, beber cerveja, comer salgadinhos, fumar, xingar o juiz, pensar quantas latas ainda há na geladeira e calcular os acréscimos do jogo. Ufa! Cansei...



Bento.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

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O HOMEM MAIS INFELIZ DO MUNDO É AQUELE QUE DESCOBRE QUE NEM SEMPRE VALE TANTO SACRIFÍCIO POR TRÊS SEGUNDOS DE ALEGRIA.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

SÍNDROME DO AMOR ETERNO.

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As pessoas vivem cometendo erros durante a vida é inevitável. Eu mesmo poderia escrever um livro inteiro contando todas as pisadas de bola, mancadas e decisões errôneas de caminhos que me trouxeram até aqui.
Inclusive a decisão de fazer um blog, escrever e compartilhar minhas inconstâncias.

Seria um livro didático com um pouco de romance, quase uma ficção de tão difícil de acreditar nas burradas cometidas por este autor. Decisões, sempre decisões, dois ou mais caminhos, nunca facilitam te dando uma só opção.
É assim a vida.

Se acha que estou exagerando pergunte aos meus amigos mais chegados e todos eles tem dois ou três histórias sobre como eu tropecei numa bifurcação do destino e me dei mal.
Tudo bem que todos aprendemos, mesmo que a força com todas essas ações tomadas de maneira impensável, mas são as reações que ensinam mais. Toda ação gera uma reação.

Depois de tantos erros aprendi que não devo ficar imaginando como seria se fizesse uma escolha diferente.

Ok! Eu disse que aprendi que é errado, não disse que não faço. Lendo-me até aqui o leitor já consegue entender que eu não sou adepto da coerência certo?!
Assim como os meus amigos, eu também tenho inúmeros casos de negligências e infortúnios para falar deles e por estar no topo do ranking dos amaldiçoados pelas suas próprias atitudes tento avisá-los da insanidade que estão cometendo, convenhamos, sou experiente no assunto, mas já percebeu como podemos ser cabeça dura quando queremos alguma coisa?

Juro que tento ajudar, talvez eu seja um predestinado, errando para passar à frente a experiência. Citando um exemplo de um amigo que vamos chamar de João para evitar futuras complicações.
João é um romântico por doença, foi até diagnosticado num exame de rotina, tem a “Síndrome do Amor Eterno”. Bastara um beijo para que se apaixonasse por completo e jurava amar para toda a vida.
O mais curioso nisso é que o sentimento era mesmo real e verdadeiro.

Até aqui tudo bem, qual mulher não gostaria de um homem completamente apaixonado por ela?
O problema é que João era e sempre foi infiel, o volúvel, logo se apaixonava de três a quatro vezes por mês.
Era como se seu anjo da guarda fosse primo próximo do próprio Cupido, a cada beijo uma flechada, pense no dinheiro gasto com cartões, flores, alianças de compromisso e outras coisas derivadas de amor recém-nascido.

Eu como um bom amigo tentei alertá-lo sobre sua situação, mas sem sucesso não tive escolha senão assistir de camarote sua jornada ao desequilíbrio sentimental. João só se deu conta da presepada que estava cometendo consigo mesmo quando numa aposta perdida teve de beijar um manequim de uma loja de departamento, mas ainda assim teve de ser convencido que apresentar o boneco de madeira aos seus pais não seria uma boa ideia.

É natural errarmos e não nos darmos conta ou só percebermos o erro e o tamanho dele quando a reação do ato consumado torna-se deprimente ou constrangedor.

Bento.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

EX NAMORADAS

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Sempre tive uma certa tendência a não gostar dos presentes que fora me dado e isso sempre foi um problema, afinal, nunca consigo disfarçar aquela cara de descontentamento e meu sorriso amarelo entrega o erro da dita cuja cheia de boas intenções.

Isso é um problema sério quando para-se para pensar que ao invés de tentar me agradar posso ficar sem presentes na desistência dos outros de ficar na expectativa se errou ou não. As datas comemorativas nunca serão as mesmas sem laços e papéis coloridos.

Um exemplo de minha demência em relações a presentes é o clássico tênis All Star que sempre tive como uns dos calçados dos sonhos por um grande período e numa época um tanto quanto distante passei a juntar dinheiro para tentar adquiri-lo e presentear meus pés com tanta atitude por trás da estrela estampada.

E é claro que tive a chance de ser um dos milhões de consumidores do tênis e desde a primeira vez que coloquei no pé percebi que... Ficou uma merda.

Eu tenho dessas coisas, um tênis ótimo para ficar nos pés alheios, lindo nos outros e não é só o All Star, tem mais um monte de outras coisas que perde seu brilho assim que coloco minhas mãos nelas.

Doei o All Star e ele ficou bem melhor com outro dono.
Quem sabe não seja assim com minhas ex namoradas também...


Bento.

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