segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ATRASADO, SEMPRE ATRASADO.

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Ouvi minha mãe dizer uma vez que eu nasci antes da hora, algumas semanas apenas. Sem aquela fragilidade de bebês prematuros, incubadoras e etc.

E dizem que prematuros são por natureza impacientes, eu, definitivamente concordo. Chego atrasado para não ter que esperar, faço as contas dos minutos sem me dar o luxo de errar. E me atraso, é claro.

Penso no caminho já de antemão, pego becos e atalhos, e me atraso, como sempre.

Talvez a máxima de que eu chegue atrasado ao próprio enterro se aplica ao meu caso, mas ao velório, esse eu tenho certeza.

Eu ao contrário do que os outros dizem, creio que nasci tarde de mais.

Poderia ter nascido nos anos 60 e ter conhecido os primórdios do rock n roll, mas me atrasei.

Poderia ter nascido nos anos 70 e conhecido o movimento hippie e tudo que este inspirou, mas cheguei tarde.

Algumas coisas da minha vida eu tendo a dar valor um pouco tarde demais, hoje vi uma de minhas namoradinhas de infância e ela estava linda, bem sucedida, e claro, muito bem acompanhada. Lembra-se do texto que postei? - Ex Namoradas - É por aí!

De qualquer forma ainda acho que sou um privilegiado, deixando de lado todos os erros e tropeços eu me considero um cara de sorte.

Tive a oportunidade de ter os dedos cortados por linhas com cortante que eu mesmo fazia artesanalmente juntando cacos de vidros dentro de latas, do tempo que óleo vinha em latas de aço, jogada na avenida, as rodas dos carros faziam o trabalho do martelo e o vidro saia da via todo moído.

Sou do tempo que bolinhas de gude leiteiras valiam a honra do jogador.

Pude ver os quatro Trapalhões vivos e juntos.

Eu sei o que é “Toca do Coelho”.

Pude trocar tampinhas por Io-Io da Coca-Cola.


Sou do tempo que peão era mais do que aqueles que montam em cavalos, no meu tempo peões eram enrolado em barbantes e desenrolados com precisão na rua de terra para que pudesse rodar o maior tempo possível, assim como a vida, lutando para ficar de pé.

Sou do tempo que fazíamos brinquedos com as próprias mãos, onde pedaços de madeira e aço eram surrupiados para que se transformassem em carrinhos de rolimã que eram bem mais legais que bicicletas, e fazíamos carretas dos carrinhos juntando um no outro, assim, além das cicatrizes, adquirimos humildade ao carregar os amigos conosco em nossos carros, dividindo o que tínhamos e caíamos todos junto ao final da curva. Sofrendo juntos.

Sou do tempo que vídeo game era com fita, que dependia de sopros para funcionar e esperávamos que com isso tivesse um melhor desempenho, e o controle era muito mais pornográfico tendo o codinome de BANANA, essa coisa de joystick veio bem depois. Quem jogou ATARI sabe do estou falando.

O fato é que aproveitei toda a infância como deveria, na rua e com amigos disputando quem tinha mais cicatrizes. Porém também sou da época da TV por assinatura e logo depois a imagem digital, HD e 3D.

Também sou da época do computador e internet, caixa eletrônico e banco online.

Sou da época do bilhete único e carro movido à eletricidade.

Pude ver o Brasil ser TETRA e PENTA. Vi Romário e Ronaldo jogarem juntos e formarem um dos ataques mais FENOMENAIS da história do futebol. Vi meu time do coração ganhar todos os seus títulos nacionais e até mundial com seu maior ídolo em campo, podendo assim fingir mesmo que por alguns minutos que era eu a estar no lugar dele.

Pude ver o renascimento do fusca.

Sendo assim, me vejo como um privilegiado, podendo participar de duas eras completamente diferentes, mudando junto comigo, como se o mundo passasse pela mesma puberdade que eu, sofrendo com primeiros amores e as espinhas assim como eu. Lado a lado amadurecemos.

E hoje comparamos nossas cicatrizes.


Bento.

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