sábado, 29 de outubro de 2011

CONTRERAS IS DEAD

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Num dia desses da semana, talvez sexta-feira ou segunda, não se sabe, no ano de mil novecentos e sabe Deus quanto, Contreras tinha companhia ao chegar em casa. Isso tornara-se cada vez mais raro, não por falta de opção, mais por falta de paciência que qualquer outra coisa.

Contreras era sócio majoritário de um site de vendas coletivas mediano no mercado, o que lhe dava condições de poder viajar para onde bem entendesse. Poderia ele levar a vida que bem entendesse, se tratando das condições financeiras, Contreras não tinha do que reclamar.

Mas ao invés de sair esbanjando todo seu dinheiro, o empresário mantinha-se firme na economia, não por ser “pão duro”, por não sentir prazer naquilo.

Ele andava de metrô e táxi após vender seu carro esporte pelo simples fato de não ter que se preocupar com tarefas como manutenção, postos de gasolina e vagas de estacionamento.

Mudara de sua cobertura num bairro nobre, com sala de ginástica, sauna e porteiros atenciosos para um cômodo de cozinha na Rua Magnólia Trovão, número oito, próximo a exatamente nada.

Contreras tinha sido muito bonito um dia, dono de uma beleza de cartaz, chegara a emprestar seu rosto para a publicidade de seu negócio, hoje apenas três anos depois, aparentava que tinham se passado dez. A falta de vaidade fazia isso, com sua barba por fazer, seu cabelo sem corte amarrado num elástico já encardido e seu guarda-roupa cada vez com menos opções, faziam com que não sobrasse nenhum vestígio daquele que fora chamado de o mais jovem e rico empresário do país pelas revistas e jornais.

Algumas mulheres diriam que ainda havia sobrado algum charme em sua aparência rude, mas não se sabe se era verdade ou interesse comum de mulheres jovens por empresários ricos.

Por isso as visitas femininas no cubículo da Rua Magnólia Trovão tornaram-se cada vez mais raras. Contreras sabia que sempre que precisasse de companhia, sempre que sua carência gritasse mais alto em seu inconsciente, ele poderia buscar alívio nas festas Vips das quais chegavam convites toda semana.

Meia hora fazendo alguma social aos outros convidados e logo haveria alguma modelo de lingerie buscando espaço nas revistas de coluna social ao sair da festa acompanhada da ex mais nova revelação do mundo dos negócios.

Óbvio que Contreras sabia de seu estado de calamidade referente à estética, evidente que ele sabia de seu estado de espírito apagado e que não era boa companhia a ninguém, logo, ele sabia que o único motivo pelo qual conseguia desfrutar de mulheres tão lindas era através de seu status. Porém Contreras queria mais.

Inconscientemente ele sabia que em algum momento, em alguma bifurcação na tal estrada do destino escolhera o caminho errado.

Então, numa dessas visitas em seu humilde lar, a modelo, aspirante a atriz, acabava com toda a tensão sexual do momento.

Puxões de cabelo, mordidas no pescoço e orelhas, a batalha das pélvis, tudo ia por água abaixo por seus repetidos espirros derivados da alergia à pelos de cachorro que a moça possuía.

A cachorra em questão era Azaleia, uma pequena vira-lata carinhosa que estava com Contreras há anos. A única mulher que mantinha um relacionamento de verdade com ele, dizia.

Os espirros aumentaram de tal forma que não havia jeito, alguém teria que sair, a cachorra ou a modelo-manequim-apresentadora. O cômodo de cozinha era pequeno demais para as duas.
A modelo até sugeriu que Contreras botasse Azaleia para fora.

O empresário com seu membro explodindo dentro da calça olhou a cachorra e seu olhos de amêndoas observando tudo que faziam. Depois olhou a modelo que acabara de conhecer, continuava linda, mas seu nariz modelado pelo cirurgião deixara de ser tão perfeito e passou a parecer um pequeno polegar rosa avermelhado e cheio de coriza.

Contreras tentou puxar pela memória o nome da garota, sem sucesso.

Após mais um espirro a aspirante a capa de revista masculina se irrita:

- E então? Ou você dá um fim nessa maldita cachorra ou vou ser obrigada a ir embora.

Contreras ao ouvir a voz já fanha devido à alergia...

- Espere aqui... Vou chamar um táxi.



Bento.

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Um comentário:

Victor Von Serran disse...

Ele curtia um animalzinho..danado o rapaz...não digo que faria o mesmo, mas vc sabe, o cão é o melhor amigo(no caso amiga)do homem.

abraço Bentão !