quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SE TEM IMAGINAÇÃO, NUNCA ESTÁ SOZINHO

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Eu estava na recepção do consultório do Dr. Dreher.
Eu odeio esperar, mais do que paciente do doutor eu sou impaciente por natureza.
Logo, arrumo coisas para fazer e passar o tempo.
Imagino bumbos e chimbals e com os pés em movimento transporto-me para algum palco ou ensaio rítmico.

Ao cansar os pés supervisiono as cutículas e chego à conclusão que acabei com elas durante o último jogo do Corinthians.

Passo os olhos pelas revistas do consultório esparramadas pela mesa de vidro, ao lado da flor artificial e sei pelas matérias resumida na capa que não vou gostar de nenhuma. Mesmo assim pego a última para folhea-la. Percebo que eu estava certo.

Começo pensar no que o paciente antes de mim está conversando com o doutor, não o vi entrar. Quando cheguei a sala já estava ocupada, então começo prejulgar.

Talvez fosse uma garota, nem velha, nem nova, uns vinte anos.
Calça jeans surradas, tênis encardidos e aquelas pulseiras barulhentas.

Ela tem problemas de relacionamento com os pais, todos os dois, sem mãe. Fora adotada por um casal homossexual e agora eles querem privá-la do seu próprio relacionamento lésbico. Ela nunca viu muita graça em garotos, tão infantis, imaturos, basta verem uma vagina e perdem todo o sentido do que é certo ou errado e ético. Idiotas!

Os pais da garota sentem medo de que ela sofra o mesmo preconceito que eles sofreram quando mais jovens.
O que eles não entendem é que a garota os ama, os respeita e admira exatamente pela força de enfrentar todos esses obstáculos e conseguir vencê-los para hoje poderem ter a família que ela ama. Ela quer ser tão forte quanto. Tão feliz quanto. E mostrar que aprendeu tudo que sabe com o casal.
Eles não entendem.

A recepcionista me oferece café e bolachas, recuso as bolachas, mas o café eu peço para que ela me traga dois. O sono sempre vem junto com a impaciência.

Dou o primeiro gole no café e começo imaginar que se não for a garota gay na sala poderia ser um homem, um homem acima dos 35 anos e 120 quilos. Morando ainda com sua mãe, vou chamá-lo de Alaor, não que haja a necessidade de um nome para minha imaginação, mas este nome sempre me faz pensar em pessoas gordas, assim como acho que todo Valdir tem bigode. Desculpem-me quem é portador de algumas destas graças, assumo que é um preconceito idiota, porém incontrolável. Voltando ao problema do homem obeso...

Alaor tem um QI acima da média, e não poderia ser diferente, afinal com a infância toda trancado dentro de casa enquanto seus vizinhos da mesma idade explodiam caixas de correio com morteiros e jogavam três dentro e três fora nos portões alheios. Seu pai era caminhoneiro e mantinha uma segunda família no estado vizinho, fato que Alaor só foi descobrir aos 33 anos. Sua mãe sempre soube, mas não queria dar o braço a torcer e deixar o marido livre para A vadia caipira e seus filhos piolhentos.

Por causa disso Dona Juréa prendia-o dentro de casa, parte era super proteção, pois seu filho era a única coisa que era realmente sua, só sua.

Alaor montou uma empresa de sucesso com seu QI avantajado e seus hobbies são fazer os caprichos da mãe, colecionar quadrinhos e pinguins de geladeira.

Sou despertado de minhas teorias quando a campainha do consultório dispara e vejo o motoboy trazer o almoço da recepcionista.
Penso na falta de vaidade dos motoboys, que ao vestir seus capacetes adquirem o mesmo rosto, a mesma identidade, a de motoboy. E é só.

Volto a imaginar que se não for o Alaor que me faz esperar poderia ser Dona Zezé, uma senhora evangélica de 65 anos que guarda o pênis de seu marido num pote de azeitonas ao lado do copo d'água onde repousa a dentadura.
Zezé chegara a aconchegar o pote peniano ao seu lado na cama, em cima do travesseiro, depois cobrira com a manta para aquecê-lo nas noites frias.
Se fosse católica se confessaria ao padre, mas por ser evangélica só resta pedir perdão a Deus e ao Doutor Dreher que lhe auxilia nesta situação.

Surpreso ficou o legista que cuidava do corpo de Seu Abelardo quando a senhora viúva ofereceu-lhe duzentos reais para que cortasse o pênis do defunto.

Mais uma vez sou despertado de minhas angústias brisantes, mas desta vez é o Dreher quem me despertar se desculpando pela demora dizendo estar ao telefone com sua filha de 15 anos. Ela exige que a leve ao show de uma banda nova, que é a última moda no rock-glass-color-happy-cry-stupid. Veja que até os doutores sociais sofrem com relacionamentos familiares.
Diria que é um típico: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
É bem mais simples dar conselhos quando você está fora do problema, ou melhor, quando você não é o problema.
Sem sentimentos, sem envolvimento, o coração não comete o erro de errar.
Como diz um amigo: só existem dois tipos de problema, o seu e o dos outros e o dos outros são tão mais simples.


Bento.

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4 comentários:

Victor Von Serran disse...

A maneira como os personagens se colocam, mostra como a imersãodo autor é profunda. Tão polemico esse tema de homosexualidade e infelicidade, porem percebemos que no comum, reside a sombra da compreensão. Avida não é e nunca será um filme com final feliz.

então velho, eu o andré, a cissa, tamo querendo monta um livro com blogueiros...se for sua cara, me da um toque.

Abraço e feliz ano novo !

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

MANOOOOOOOOOO... QUANTA IMAGINAÇÃO DENTRO DE UM CONSULTÓRIO. ATÉ PARECE COMIGO. HEHEHEHEHE!

MAS EU NÃO ME VERIA IMAGINANDO UM CARA GORDO, PORQUE EU JÁ SOU GORDO.


ABRAÇOS E PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/12/era-noite-parte-02.html

Bento Qasual disse...

Não gosto de finais felizes... hehe Pode contar comigo Victor!!

CILENE GUARINO disse...

ME IDENTIFIQUEI MUITÍSSIMO... É EXATAMENTE ASSIM QUE ME SINTO ANTES MESMO DE CHEGAR NO CONSULTÓRIO DO DENTISTA... É OLHA PRA DATA PRÉ AGENDADA E PRONTO... LÁ VEM AS MAIS INUSITADAS PESSOAS NA IMAGINAÇÃO,(RISOS).

só os loucos sabem rsss