sexta-feira, 30 de novembro de 2012

TIM & BARTÔ – Psicologicamente Falando – por TIM

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Talvez fosse isso que eu mais odiava em Bartô, ele falava demais. Um tagarela de marca maior. Estávamos ali para amassar a cara de um drogadinho metido a bandido, "metido a bundidinho" eu dizia para Bartô.

Tínhamos juntado uns trocados e comprado uma garrafa de vinho barato, daqueles de garrafa plástica, sem rolha. Bartô sempre disse que vinho bom tem de ter rolha e aquele era péssimo. Da pior qualidade, de tingir os lábios de roxo e o hálito com gosto de comida estragada. Mas o que eu posso dizer? Éramos dois caras fodidos de dezesseis e dezessete anos, entediados e loucos por qualquer coisa que pudesse nos ajudar a matar o tal tédio.

Eu era novo nessa coisa de beber até cair, por isso ia devagar, não tanto, porém, não com tanta vontade quanto Bartô. Quase não se via ele sem a garrafa na mão, quase não se via o vinho azedo descer por sua garganta de tão rápido e febril que eram seus goles. A garrafa ia para suas mãos e voltava semivazia.

Em certo ponto, meu pé atrás com a bebida era bom. Um de nós dois precisaria manter um pingo de consciência, caso contrário mataríamos alguém, ou vários.
Então éramos os dois no frio da noite que começara a pouco e sabíamos que não teria hora para acabar.

O tal do malandro passaria por ali em algum momento, conhecíamos aquele bairro como a palma de nossas mãos. Sabíamos de cada boteco e quem o frequentava e estávamos ali, de frente a enorme Praça Santo Vigário esperando o momento do bote. Conosco havia outros moleques que chegaram com mais vinho e garrafas de cachaça misturada com refrigerante sem marca. Eram tempos de seca e qualquer coisa que tivesse um teor alcoólico decente era usado para tornar a noite mais tragável.
Riamos de piadas sujas, histórias de vandalismos cometidos em noites anteriores e transas com garotas. Mas na maioria dos casos pegávamos um dos moleques mais fracos física ou psicologicamente para cristo e fazíamos ir para casa chorando e humilhado. Até que nosso alvo finalmente deu o ar da graça e fomos bater um papo com ele.

 - Deixa que eu falo com ele. Disse Bartô.

Não me lembro do motivo de estarmos ali, sei que era um ódio causado por algo que nossa vítima tinha feito, ou pensado em fazer. Isso acontecia às vezes. Se passasse por nossa cabeça que qualquer cara do bairro pudesse fazer-nos mal, acabávamos com ele antes mesmo de fazer. Então Bartô se aproximou do cara e eu fiquei três passos atrás. Talvez fosse exatamente isso que eu menos gostava em Bartô. Ele falava demais.

Por mim, partiria para cima do cara e só sairia de lá quando meus braços acusassem câimbra de cansaço. Bartô falava mais, gostava de mexer com o psicológico das pessoas. Entrava em suas cabeças e destruía tudo que tinha lá dentro. Sempre fora bom com palavras. Tanto para o bem quanto para o mal. Já eu era de ação. Falava somente o necessário, quando necessário e com quem achasse necessário. Porém, quando nervoso, eram minhas mãos e longos braços que falavam por mim. Não é preciso ser um orador quando se tem quase dois metros e força suficiente para levantar um carro. No fim, as pessoas acabam fazendo minha vontade, de uma forma ou de outra. Éramos uma dupla perfeita, dois gênios bêbados do mal. E era isso que fazíamos.

Bartô fazia seu trabalho de entrar na mente do babaca e destruí-lo. Destruir sua autoestima, sua brisa e sua reputação com os amigos que assistiam tudo calado. Estavam chapados demais e assustados demais com meu tamanho o intuito era humilhá-lo a tal ponto que jamais, sequer, miraria os olhos em nossa direção. Eu queria espancá-lo só por diversão. Bartô sempre disse que qualquer um pode curar-se de um olho roxo ou um dente quebrado, mas se reabilitar de uma humilhação psicológica em público era para poucos. Naquela noite, tive de concordar com ele.


Bento.

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

BAFO QUENTE DE UM PASTEL BARATO SEM RECHEIO

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Algumas coisas passam por nossas vidas sem a percepção devida. Alguns têm sua vida toda passando pelos olhos e nem se dão conta. Bem como lembrar-se do guarda-chuva depois de começar a tempestade ou descobrir um câncer já na fase terminal.
Olhos abertos nem sempre apontam para o lugar certo.

Imagine se pudesse voltar ao tempo.
Numa grande máquina ou um carro como o Delorean e voltar vários anos atrás.
Imagine confrontar todos os seus medos irremediáveis que não se importam se é de dia ou de noite. Os monstros te arrancam a paz e devoram-lhe a alma com um sorriso sinistro no rosto.

Bem, você voltou no tempo. Aquele tempo que você era um cara feliz e tinha coisa para lhe tomarem, logo, o passado não é feito só de tormento e apocalipses. Naquele tempo de dias de comercial de cerveja você também reviveu os sorrisos, as palavras adocicadas como doce de banana. Reviveu as juras de amor eterno e as confidências, bem como saber que não era só você que assustava-se com aquele amor sem medidas, infinito, como um vulcão de tão intenso.

Eis que você poderia jurar que aquele momento tenha sido só um sonho, daqueles de implorar com todas as forças para não acordar. Mas se era um sonho bom, você não lembraria, pois nunca lembra-se dos sonhos bons, lembra?

Você voltou no tempo por alguns instantes e os olhos secos de outrora agora nadavam no mar de Poseidon de seus desejos. Era um mar de emoção, sem tristezas e você estranhou aquilo. Sabia o que era aquilo? Não, não sabia. Já tinha se esquecido.

Era alegria e não reconhecia a palavra, logo, buscou seu significado em todos os dicionários, em todos os idiomas e nenhum deles, absolutamente nenhum pode traduzir aquela sensação que transbordava seu peito que há tempos estava tão oco e descartável como uma lata de cerveja vazia numa segunda-feira de manhã.  Algo em seu inconsciente, na tentativa de trazê-lo aos tempos modernos alertava-o sobre a distância, mas... Distância?

Sentia tudo aquilo ao pé do ouvido. Poderia jurar que ouvia o deleite do tom de voz, cada nota. Jurava que sentia a respiração remexer seus pelos. Pôde imaginar cada sorriso e cada feição de saudosismo. Podia sentir alguma coisa e isso por si só já era uma grande novidade para quem por milênios não sentira sequer o bafo quente de um pastel barato sem recheio. Então você voltou ao tempo e percebeu que nem mesmo o passado está igual. Até mesmo ele dissimulou-se com a alquimia do Destino e tornou-se só mais um largo buraco negro numa história parecida com suas lembranças. Ao lembrarmos de algo só resgatamos as partes boas da memória e vice-versa. O resto sequer vale a pena.



Bento.

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terça-feira, 13 de novembro de 2012

MEU PAI TRAVESTI II - Insônia


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Fazia algumas semanas que Soraia estava morando num dos apartamentos acima do bar da minha mãe, ou meu pai, ou seja lá o que for considerado um ser que se veste como minha mãe, porém tem um pinto no meio das pernas. De qualquer forma, isso era complicado demais para eu pensar naquela noite. Eu e Soraia tínhamos fumado tanta maconha de manhã que dormimos a tarde inteira, logo, quase três da manhã lá estava eu. Na janela do meu quarto, com meia garrafa de tequila roubada do bar, um saco de Doritos, uma bagana do tamanho de um charuto e uma insônia com razão.

Eu não queria me aprofundar em qualquer assunto que exigisse mais que alguns segundos de exercício do meu cérebro. Aliás, eu nunca estava muito a fim de me aprofundar em nada. Certa vez, eu zapeava os canais na minha TV, passei a tarde inteira fazendo isso e fumando. Foi quando parei num canal de clipes de música e assisti alguns negros cantando Hip Hop. Foi ali, bem ali, através daquelas letras desesperadoramente tristes que pensei pela primeira vez em me suicidar, mas aí, sentado ali, calibrando um grande baseado, só de cueca e meias que percebi. Teria um grande trabalho caso escolhesse acabar com aquela inutilidade que era minha vida. Escolhi manter-me em minha teimosia de ver no que vai dar toda essa merda e continuar carburando.

Então hoje não me prendo muito a assuntos profundos. A grande maioria das pessoas hoje levam uma vida toda querendo parecer inteligentes, letradas, por dentro de assuntos da moda e etc. Acabam então, esquecendo que a maior parte das coisas problemáticas do mundo estão exatamente nesses bostas que esquecem dos seus problemas para cuidar dos problemas dos outros.

Mas do que é que eu estou falando? O dia que eu for exemplo para alguém façamos as malas e partimos rumo à Marte. Ou ao inferno.

Agora que acabei de lamber os dedos para aproveitar os farelos que restou do salgadinho decido finalmente por fogo em meu charuto. Eram eu, a tequila, o back e meus pensamentos entediantes. Tinha também o cara que eu observava pela janela. Ali sentado, fumando um cigarro atrás do outro e parecia falar sozinho. Talvez eu não fosse o único deprimido naquele quarteirão. Talvez estivesse esperando alguém para entrar no Motel do outro lado da rua. Neste caso, ele estava bem melhor do que eu, afinal, apesar de ganhar uma chupada diária de Soraia ela ainda se mantinha decidida em não abrir as pernas para mim e isso, definitivamente, me deixava bem mais deprimido que qualquer um ali naquele quarteirão ou em qualquer outro.

Horas se passaram, após presenciar diversos casais passando abaixo de minha janela, me deu vontade de ter Soraia por perto, mas ela tinha ido viajar com alguns amigos. Ela não me chamou e eu fingi que não queria ir. Ora, eu era um gordo que tinha um travesti como mãe. Sobre o que conversaria com as pessoas?

Muito prazer. Sou Alaor e passo o dia bebendo, fumando maconha e recebendo sexo oral de uma garota que provavelmente desmentiria caso eu contasse a alguém. Ou pior, ninguém acreditaria. Sou só um fracassado que ocupa um grande espaço num mundo cheio de merda.

Apesar de não querer me prender em qualquer assunto, fiquei pensando quem estava se prostituindo mais. Eu ou Soraia?
Droga de tequila. Toda vez que a bebia ficava filosófico, encarnava o Chico Xavier, porra de pensamento chato. Não tinha o mesmo problema com vodca, mas o estoque estava acabando e logo minha mãe sentiria falta das garrafas. Já a tequila estava esquecida no fundo de uma prateleira. Sabe como é boteco, ninguém pede tequila, pedem 51 e coisas do tipo.

Talvez eu estivesse apaixonado, talvez eu fosse um idiota. Poderia ser qualquer coisa, mas se tivesse que escolher escolheria a segunda opção.
Por motivos óbvios, me apaixonar não era uma opção, não era uma coisa que terminaria bem como nos filmes ou desenhos da Disney. Eu não sirvo nem para Fera, não tenho um castelo. Além de horrível, gordo, sou pobre pra cacete. Me apaixonar seria além de loucura, burrice.

Já aconteceu uma vez, tive uma namorada certa vez e foi legal no pouco tempo que durou, porém, terminou como deveria. Ela se encheu da minha mediocridade e deu o fora e me sobrou a fossa. Ou seja, nada original.
Nem sei o motivo dela querer namorar comigo, até hoje penso sobre o assunto e não descubro. Só poderia ser doida, estar com raiva da própria existência. Não sei.

A doida chamava-se Fabiana. Nos conhecemos no bar, ela vinha até aqui comprar cervejas para o pai aleijado.
Ela estudou no mesmo colégio que eu e de tanto vir aqui resolveu puxar assunto uma vez. Fabiana não tinha muito o que se achar bonito, mas pelo menos  ela não babava nem cheirava mal. Tinha olhos puxados e a pele morena. Um grande nariz de batata e os cabelos lisos até o meio das costas, a melhor coisa que tinha era o cabelo. Parecia uma boliviana ou coisa do tipo. Porém mais tarde fui descobri que vinha de uma cidadezinha de algum lugar do Nordeste.

Já havia visto a garota no colégio, quando eu ainda o frequentava, mas naquele lugar as garotas não eram muito o meu forte, até por que, as únicas que perdiam tempo falando comigo era para me chamar de filho de travesti e dizer que adoravam os vestidos e sapatos de meu pai.
É difícil tentar flertar com uma garota quando seu pai compra lingeries na mesma loja que elas e, as mães delas.

Só que Fabiana era diferente. Talvez por ter um pai aleijado ela tivesse um estômago mais forte e mais habituado com as merdas que Deus pode te proporcionar. O fato é que nos aproximamos e quando dei por mim estávamos nos beijando escondidos em meu quarto. Eu já estava com meus 22 anos e ela chegara à maioridade há alguns meses.

Ninguém sabia, nem era eu quem contaria que eu já tinha conhecimento sobre o que ela fazia para sustentar a casa sem emprego e sem a aposentadoria do pai paraplégico. Antes da banalização da internet eu possuía uma das maiores coleções de filmes pornôs do país. Era um grande colecionador, tanto que comprava e revendia alguns filmes clássicos e ganhava um bom dinheiro com isso. Cheguei a pegar quase cinco mil reais num dos primeiros títulos de garganta profunda da história do mundo pornô. Um dia, numa nova aquisição, Back, vodca e papel higiênico de prontidão, me preparava para ver meu novo filme e começar meu mantra masturbatório diário quando reconheci a atriz principal do filme de imediato.

Nos créditos seu nome era Palloma, mas eu sabia que era Fabiana quem estava ali. Ela e mais três criolos com cacetes que mais pareciam braços de tão grande. Minha surpresa não foi vê-la transar com três caras, muito menos dotados de cacetes gigantes. Eu fiquei surpreso mesmo de saber que ela tinha um dom nato para engolir espadas. Se não estivesse fazendo aquele filme poderia facilmente trabalhar no circo ao lado da mulher barbada e o trapezista. E os três cavalos fizeram de tudo com ela. Duas horas e meia daquilo que parecia uma tortura ditaduresca, mas ela mostrava gostar e sorria para a câmera.

Confesso que num primeiro momento eu fiquei chateado de ver a garota pela qual eu estava apaixonado sendo fodida - às vezes ao mesmo tempo - por aqueles negros tripedes, porém, eu tinha vinte e uns e só havia comido putas em toda a minha vida. Vi ali uma ótima oportunidade de transar loucamente com uma atriz pornô, logo eu, que era um aficionado pela arte. No entanto, quando ela descobriu que eu sabia de seu segredo terminou nosso relacionamento dizendo estar envergonhada e com peso de consciência. Também disse estar com nojo de mim por querer tirar proveito daquela situação. Nojo de mim? Respondi que não fora eu quem engolira esperma de três cavalos, suficiente para encher uma caixa de leite. E assim ela se foi.

Fabiana ganhou um bom dinheiro com os filmes e mudou-se para um bairro afastado do centro, nunca mais a vi. Acho que bateu o sono. Boa noite.



Bento.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OLHOS VERDES QUE VESTEM RIMEL


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Eu queria começar dizendo que talvez eu possa ser um pessimista. Não que eu me esforce para isso, algumas coisas simplesmente acontecem. Ou você nasce com isso, mais ou menos como orelhas de abano ou sorriso com covas. Porém, dizer que eu sou pessimista é simples demais. Tão sem sal e sem açúcar para um sujeito como eu que gosta de complicar as coisas.
Bem como um amigo que não vejo há tempos. Quando saíamos para beber e conhecer garotas ele sempre dizia mirando o dedo para uma bela garota: essa daí não! E não tinha discussão, tentávamos fazê-lo mudar de ideia, mas nada funcionava. Ao indagarmos sobre a birra que tinha com algumas garotas, apesar de bela ele profetizava: essa aí é uma pré-gorda, ela ainda não sabe, mas será gorda no futuro e como toda gorda, será carente e ciumenta. Não entendíamos muito na época, porém, ele preferia assim, esperar sempre o pior.

Já eu poderia dizer que sou um dramático irremediável, daqueles que fazem de uma recepção de dentista uma tragédia shakespeariana. Então isso pode ser uma coisa para se preocupar e talvez trocar a recepção do dentista pelo analista, ou seja, só um caso de ótica incomum.

De qualquer forma, essa dramaticidade se deve muito a falta de fé naquele romantismo aficionado pelas novelas e o cinema. Desacredito em moçinhos e pessoas que devolvem malas de dinheiro achadas na rua. Eu prefiro acreditar que existe sim, bondade em todos nós, mas na mesma quantidade que existe a maldade. Somos todos seres ambíguos. Se duvida, faça uma experiência. Coloque um grupo de pessoas numa sala e os deixe sem alimento e água por um bom tempo e terá uma carnificina seguida de um banquete de carne humana. Pode chamar de sobrevivência, instinto e etc., etc., etc. Eu chamo de natureza, fato corriqueiro. O ser humano só é bom por comodidade, para que a vida em sociedade seja algo possível e agradável. Basta os quesitos "viver" e "sociedade" estarem em risco e lá se vão o bom senso e civilidade. É simples assim.

Ainda falando dessa ambiguidade eu, ranzinza que sou, me pego reclamando de uma tempestade quando a mesma se despede para dar lugar ao sol de arco-íris e voltar a lamentar-me por não ter tirado um bom cochilo durante a chuva.

Praguejo por coisas que nem me lembro mais do porquê. Relembro coisas do passado só para fechar a cara e manter o estado de espírito, preciso disso, é minha fonte de agonia e inspiração. Caso contrário escreveria sobre flores do campo e crianças com lares perfeitos, um saco, tudo seria um saco de estrume sem pretendentes.

Pensei nisso ao conhecer uma garota e perceber que lá estava eu em busca de algo para reclamar. Como seria? Me foquei em seus pés, deveria ter uma unha torta ou um calo amarelo e nada. Então seriam as rugas dos joelhos que fariam meus olhos revirarem e não passou nem perto. Seu cabelo era lindo, loiro e cheiroso. A vaidade dela era tão grande quanto desejada. Os olhos eram verdes e vestiam rimel. Fui atrás de gorduras extras e ela era magérrima. Sabendo que sua aparência física estava em ordem pensei em buscar algo para acusá-la em nossa relação e nem assim obtive sucesso. Poucas vezes tive alguém que quisesse tanto me agradar. Desisti. Não dela, é claro, desisti de procurar nela, algo que me desse motivos para lamuriar, logo, sobrou-me discutir e reclamar de mim mesmo.


Bento. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MATADORA DA RUA AUGUSTA

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Em um dos quartos do Motel Libelillun que ficava num bairro afastado do centro da cidade, Valber se espreguiçava e tentava manter a garganta úmida com a pouca saliva que lhe restara na boca. Tinha sede, mas o transe o impedia de levantar para buscar um copo d'água. Era muito bom para ser verdade, estar ali, naqueles lençóis de algodão, com seu corpo esquelético desnudo, seus cabelos compridos colados ao peito por conta da transpiração. O esforço fez seus poros derreter em bicas. Gotículas de suor escorriam desde o bigode ralo de adolescente até a pelves de cabelos emaranhados.
Estava ali, deitado na mesma posição durante sabe lá quantos minutos repassando a última hora em sua mente e fora maravilhoso em todos os sentidos. Não conseguia pensar em mais nada. Exceto na garota que o chupou da forma mais maravilhosa que ele podia imaginar.

Ela não deixou que fizesse esforço algum. Foi ela que tomou toda a iniciativa, como chupá-lo, montar em cima dele, colocar a camisinha, desnuda-los. Tudo. Ela tinha o controle. Sempre que tentara apertar as nádegas da garota ou colocar os seios dela em sua boca ela interrompia.
Era como se ele fosse apenas um brinquedo na mão dela, como se estivesse sendo um objeto de prazer. "um boneco inflável" pensou Valber, sorrindo em silêncio. E ele não se importava, era um garoto de dezoito anos, a maioria das garotas com quem tinha feito sexo eram prostitutas ou alunas do colégio no qual estudava e essas, deixavam todas as ações por conta dele. Era diferente ter uma garota no comando de seu corpo para variar.

Totalmente deliciado com a transa, já pensava em possuir a garota de cabelos longos e raspado em um dos lados da cabeça para si. Era amor de pica, neste caso, amor pelos lábios rosados da vagina depilada de Alicia.

Naquele momento percebeu que estava farto das garotas infantis de sua escola, com Alicia era diferente. Enfim, o amor o pegou de jeito, estava num caminho sem volta. Assim que ela saísse do banheiro transariam intensamente mais uma vez e ele se declararia. Já pensava na cara dos seus amigos de sala de aula quando aparecesse na porta do colégio com a garota tatuada, linda, magra e o que era melhor, dois anos mais velha que ele.

Finalmente Alicia sai do banheiro vestindo apenas uma pequena calcinha preta com listras brancas, seus pequenos seios à mostra, magra, era magra como um manequim de loja de shopping. A diferença eram as tatuagens que lhe cobriam grande parte do corpo. Dos ombros aos pulsos, inclusive o punho e dedos da mão direita que com uma letra em cada dedo formava a palavra "DEAD".
As tatuagens continuavam também em sua coxa direita terminando no joelho com um crânio humano pintado de preto como todas as outras que estavam do lado direito de seu corpo. Já nos membros do lado oposto as tatuagens eram todas coloridas, como uma dupla personalidade, como dois lados de uma moeda.

Alicia saiu do banheiro desfilando o corpo pálido como uma folha de papel, desenhado é claro. Valber a seguia com os olhos como uma obra de arte, um quadro de um pintor famoso que ele desconhecia. Viu a garota caminhar com suas pernas longas e finas até sua bolsa e dela tirar um maço de cigarros e um isqueiro metálico. Com tanto charme quanto uma estrela de cinema dos anos 60 acendê-lo e puxar um longo e demorado trago. Alicia apagou as luzes do quarto e voltou a guardar o maço e o isqueiro. Valber viu a brasa do cigarro refletir no metal do isqueiro e a próxima coisa que viu foi a sexy garota sentando em cima de seus quadris e beija-lo, voltava a fumar e depois beijá-lo. Daquela forma, os dois dividiam o cigarro enquanto transavam novamente, devagar.

Era um sonho que Valber não gostaria de acordar. O vai-e-vem aumentava o ritmo e finalmente o jovem estudante sentiu o ápice do prazer. A sensação inigualável do coração disparando o máximo de sangue por entre as veias de seu corpo. Os dedos de seus pés contraindo-se e era tão bom que ele cravou as mãos nas pequenas nádegas de Alicia e gemeu. Alicia também chegou ao orgasmo no mesmo instante, mas ao invés de cravar as unhas em seu amante, finalmente concluiu o que tinha planejado.
Valber ainda tinha as pernas moles, as nádegas de Alicia entre os dedos e seu membro dentro da garota quando sentiu o metal em sua garganta, tão rápido que sequer teve tempo de notar o que estava acontecendo. Seus cabelos compridos já não estavam grudados em seus ombros e peito por causa do suor e sim pelo sangue que jorrava do corte em sua traqueia feito por Alicia que se deliciava com aquilo. Mais do que com o sexo.


Bento.

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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O QUE PENSAM OS MEDÍOCRES?


Não sei o que pensam os sonhadores, aqueles que se deixam levar por boatos do inconsciente remediando um futuro catastrófico.

Não sei o que pensam os inocentes. Aqueles que se julgam alheios às peripécias do Destino e se incluem nos grupos seletos de uma força maior, de Deus, do plano desconhecido e etc., etc., etc. Não acredito nem em inocentes e nem em planos mirabolantes.

Não sei no que acreditam os odiosos incontroláveis que se dispõem a apontar seus dedos gangrenados e pobres ao léu na busca incessante de jogar a culpa em alguém e se indispõem até consigo mesmo.

Nem sei o que pensam os felizes, aqueles que têm chaves para todas as portas e desejos realizados. Num mundo onde todos pisam em ovos, eles flutuam como anjos etéreos domesticando os infelizes mais ignorantes e desistentes.

Não pense que estou alheio a tudo isso. Admito minha ignorância, porém observo.
Analiso como telespectador comedor de pipoca e bebedor de Coca-Cola. Transmito os risos e lágrimas como num filme de terror-documentário de comédia-romântica-dramática. Não paguei meio ingresso, assisto num todo, praticando minha pieguice e fanatismo pelos personagens mais incorretos. Admiro só o que posso visualizar em mim mesmo. Culpa, culpa, culpa minha, assumo. Nem sempre, digo, quase nunca torço pelo mocinho tedioso de tão correto.

Deve estar se perguntando por que faço tanta alusão a filmes e ao cinema. Respondo que é mais um dos vícios e fracos. Tão fraco e com tantos vícios, que eu insisto em lembrá-los nas comparações mais inoportunas.

Eu se pudesse faria filmes tristes, mas sem finais e explico: você nunca verá ninguém sair de uma sala de cinema reclamando do começo ou do decorrer do filme. As críticas sempre se tratam do final. Se o mocinho morre, desagradam os hipócritas-bom-samaritanos. Se o vilão morre no fim, desagrada os antipáticos–underground–antissociais-maquiavélicos. Ou seja, impossível agradar a todos, tanto quanto agradar-me nessa incessante tragédia da vida literária que criei para a personagem vivida por mim todos os dias de minha vida. Tudo bem, talvez não tenha escolhido eu mesmo, talvez me tenha sido entregue numa incontinência pirata e irreparável de me prejudicar. No entanto não ligo, não me ligo, não mais, pois não sei o que pensam os deuses, o Deus, o Diabo, o canhoto. Não sei o que pensam os bons ou os maus, os nômades e os lázaros. Não sei o que pensam os bárbaros e os civilizados. Só me entendo com os lunáticos e malucos e doidos e insanos e...



Bento.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

UM CRENTE QUASE ATEU, CÉTICO, AGNÓSTICO, COM ARES DE JOGADOR DE POKER

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Apesar de usar um terço no pescoço posso contar nos dedos quantas vezes entrei em uma igreja católica, se for tirar os poucos casamentos eu fui em toda a minha vida eu reduzo esse número para quase zero.
Sendo assim pouco tive a oportunidade de estar na presença de uma freira, uma ou duas vezes, que me lembre, andando pela rua em pares indo sei lá para onde, sabe Deus fazendo o quê. Aliás, o que faz uma freira eu sinceramente não sei.

Aquelas coisas de criança como catequese e outras coisas? Nunca participei. Sou um ignorante no assunto. Confesso.
Curioso é que no dia de hoje passou por mim duas freiras. Não sei dizer se eram as mesmas, não reparei tanto assim, de qualquer forma é curioso.

Se você está se perguntando onde eu vou chegar com isso a resposta é simples: em lugar nenhum. É só coisa de quem não tem sobre o que falar, mas é preciso começar o texto de algum lugar, o que vier depois é luxo.

Mas ainda falando sobre freiras, fico pensando o que leva uma mulher a dedicar-se totalmente à Deus ao ponto de abdicar de todo um mundo repleto de pecados deliciosos por cometer.

Porém depois de algum tempo refletindo chego a conclusão, que pode não ser a verdadeira, de verdades cada um que fique com a sua, no máximo deixo que peguem a minha emprestada desde que devolva-me do jeito que encontrou. Vamos para minha reflexão: penso nas mulheres do meu convívio e até aquelas que ouço falar e afirmo que não existe ser no mundo tão capaz de abrir mão de coisas pelo amor. A mulher deixa-se tomar por tal poder de se dedicar por completo. Abre sim, mão de tudo o que gosta apenas pela promessa de ser ainda mais feliz com a vida da qual sempre sonhou. Talvez por isso somente a mulher tenha o dom de dar a vida, de ser mãe. Vejo as mulheres que sofrem com a traição do amor e abrem mão do orgulho para que mantenham a imagem de uma vida amorosa perfeita e assim assegurar o sonho do príncipe encantado que tinham desde a infância.

Já o homem é incapaz de abrir mão de qualquer coisa, exceto se houver sexo no meio da história. Não que o homem ame menos, nós só somos mais teimosos e traiçoeiros. Vejam os padres e seus casos de pedofilia, abrem mão do sexo em nome da fé, mas dão um jeitinho.


Bento.

Dedica-se a Diego Schaun

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

GIULIARD BORSANDI VII


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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VI


Eu já pensava na morte da bezerra, pensava em como estaria Nelia, Ricardinho e a puta que pariu.
Ficar bêbado é uma merda, beber sozinho também. Começamos a pensar em coisas que não queremos pensar, em pessoas que não queremos pensar.
Aquela música de merda tocando no meu ouvido e fazendo meus tímpanos explodirem, já estava clamando pela tal bandinha que iria tocar naquela noite. Não que fosse muito boa, mas era melhor que aquela música eletrônica de retardado que me dava vontade de cortar os pulsos. Mais meia hora daquilo e eu acharia a banda Qasual, que era a atração da noite, quase um Led Zeppelin. Exagero meu, mas aquela música eletrônica me dava nos nervos. Jamaica gostava.

O bar já estava cheio e Jamaica não parava. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneca e consequentemente a sexta dose de whisky - Jack Daniels, abaixo disso é água suja - quando me surpreendo com uma mulher sentando ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Suculenta. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela, era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".

- Claro que pode. Você pode tudo.

Respondi dando mole para ela, pois realmente fiquei interessado naquele vestido e em tudo o que continha debaixo dele, porém me contive. Pô! O pastor iria me pagar uma bala por àquilo. Valia mais que uma transa com uma vadia qualquer.

Transar com vadias não pagava conta. E eu estava com muita sorte para ela aparecer ali, num dia de folga, quando eu já tinha perdido vários dias atrás de uma oportunidade de pegar aquela safada prevenida. Hoje ela tinha se descuidado, não por querer, mas o destino às vezes coopera. Quem diria que a puta apareceria no mesmo bar que seu delator, num dia de folga e num dia que o pastor estaria em casa dormindo. Pelo que eu sabia.

A mulher me olhava com cara de desejo, eu já estava bêbado e de pau duro, ela era gostosa e o álcool sempre me deixava mais excitado.

Era a sétima caneca, servi uma para ela, eu pensava em quanto eu ganharia com essa história do pastor e pensei em avisá-lo. Mas mesmo que eu a levasse para um quarto de motel, como eu poderia fotografar ou filmar esse tipo de coisa quando eu mesmo estivesse fazendo parte. Corria-se também o risco do pastor ficar puto comigo e não querer me pagar, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um corno, principalmente um corno evangélico. Então fui devagar...

Paguei uns drinks para a moça e continuamos conversando. Ela me queria, estava claro para quem quisesse ver, não que eu fosse muita coisa, ela escolheu o primeiro que estava na frente dela, quis o destino que fosse eu, mas poderia ter sido o Zé, o Mané, ou até o Guião, se ali estivesse.

Era isso! Por isso que eu bebo, penso melhor assim. Dou um fora na mulher e ela vai procurar qualquer outro cara para satisfazer sua libido de mulher da vida.
Talvez eu até entenda o motivo para ela sair às escondidas para trair o marido, pelo pouco que conheci do pastor, duvido muito que ele tenha gás para apagar o fogo de uma gostosa como esta. Puta mulher gostosa.

 - Bem Janaina, gostei muito de conversar com você, mas sei que você deve estar querendo diversão essa noite e não ficar aqui perdendo tempo comigo...

Então Janaina me interrompe fazendo a sua cara mais sensual da noite:
 
 - Então nós vamos nos divertir em outro lugar?

Eu não consegui segurar o riso de criança que ganha um brinquedo novo. Porra! Meus hormônios me diziam para mandar o pastor para a puta que pariu e comer àquela senhora quantas vezes fosse possível, afinal, era meu dia de folga. Mas minha razão ainda estava sóbria e se eu tivesse que fazer uma social com ela depois do sexo provavelmente eu iria querer me matar, tamanho tédio, ou acabaria soltando alguma indireta que faria com que ela percebesse que eu sabia de sua vida mais do que ela já tinha me revelado.
Pensei que esse puritanismo ainda iria me foder, mas...

 - Não, gata. O que eu quero dizer é que sou casado e não quero atrapalhar sua noite, portanto, acho melhor você ir se divertir.

 - Mas eu também sou casada e se isso não é problema para mim, acredito que não será para você. Ela era uma profissional. Já devia ter feito aquilo várias vezes. Estava acostumada e totalmente disposta a arrumar uma transa.

 - Olha, não vou te julgar. Você deve ter seus motivos para isso. Porém, não traio minha esposa. Continuei mentindo.

Ela desistiu. Tomou o restante de seu Martini e me deu um beijo molhado no rosto. Quase enfartei com aqueles seios deliciosos próximos ao meu rosto. Senti seu perfume doce e meu pau ficou ainda mais rijo. Eu iria explodir.

Fiquei olhando ela se sentar numa mesa mais próxima do palco.
Uma mulher como aquela, rica, madura e muito gostosa, só poderia estar sozinha num bar como aquele com um só propósito; sexo selvagem com um cara que sequer perguntasse seu nome e que nunca mais o encontrasse na vida.

 - To te estranhando guri. Tá dispensando mulher, agora? Perguntou Jamaica sem me deixar notar que estava observando minha conversa com a mulher do pastor.

 - Só tenho olhos pra você magrela.

Respondi com um sorriso irônico nos lábios. Ela sorriu balançando a cabeça percebendo a ironia.
Evidente que eu não desperdiçava uma oportunidade de trepar se não houvesse um bom motivo. Como o de hoje com a mulher do pastor. Mas a parte de só ter olhos para Jamaica não era tão inverdade assim. Como já disse, ela era a única garota que eu conhecia que poderia me fazer esquecer a vadia da Nelia. Mas enfim...

Não demorou muito para que um roqueiro musculoso sentasse na mesma mesa que Janaina e começassem a conversar intimamente. Era agora, assim que saíssem do bar eu os seguiria e completaria meu trabalho. Afinal, eu sou Giuliard Borsandi, detetive particular. Mesmo que a contragosto.



Bento.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

VIANCO, CARPINEJAR, NELSON, RAUL E BUKOWSKI


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Passei a contestar o fato de trabalhar o mês todo e o salário nunca - repito - NUNCA durava o bastante, assim passei a me interessar por política e para quem eu estava dando meu voto de confiança. Assim como na vida que percebi que eu já escolhia quem eu queria por perto ou não.

Algum tempo se passou e assim como o país minha vida financeira melhorava, mas nada que a inflação e os juros do meu cartão de crédito não tratassem de acabar com minha alegria.

Minha vida sentimental fora tomando rumos extremos e meus defeitos vinham à tona como espinhas na adolescência. Bem como os mensalões e quedas de ministros. Então um dia decidi que precisaria fazer alianças para governar minha vida que já era quase uma guerra civil, logo, criei uma lei de que passaria longe de qualquer mulher comprometida. Como se estivesse de frente à uma prateleira de supermercado e deixasse de escolher produtos que não tivessem acordos de redução de tributos para importação.
Afinal, ser amante é como pedir empréstimo, depende da disponibilidade de crédito para enfim, gozar.

Foi quando me tornei presidente de minha vida. Eleito com cem por cento de aceitação sem segundo turno.
Nomeei alguns "desconhecidos" do qual eu confiava plenamente para me ajudar como ministros. Raul Seixas, por exemplo, era meu Ministro do Planejamento, indicando caminhos certos e investimentos de alto risco no qual eu poderia chamar de "maluquices características em torno de autoabsolvições".

Já Nélson Rodrigues era o meu Ministro da Justiça, com ele aprendi que, até os caminhos mais prazerosos podem acabar mal e, os caminhos não tão prazerosos assim podem acabar piores ainda.

André Vianco era meu Ministro da Cultura e me ensinou a acreditar no inimaginável, apostar no que ninguém acredita, afinal, o credo é uma opção de escolha.

Fabrício Carpinejar me influenciou a ver as coisas mínimas, a solidão das multidões e a alegria de uma tarde de barriga para cima no sofá calçando apenas meias. Portanto, era meu Ministro de Relações Exteriores.

Por fim, Bukowki, o da Casa Civil, me mostrou que até os mais sérios políticos têm seus dias de fúria, com drinks em festas particulares e prostitutas descartáveis e ensandecidas em busca de peças para completar o vazio de suas vidas, bem como eu.


Bento.

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terça-feira, 2 de outubro de 2012

VIDA DE QUINTA CATEGORIA


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Eis que os anos passam, mas o relógio não anda.
As rugas surgem ao lado da morte e os pés permanecem intactos e fincados no mesmo lugar.
O sol continua seu ciclo apocalíptico, a chuva rega as flores nos campos, as violetas nos jardins. A neblina embaça os vitrais e as crianças brincam de desenhos usando o bafo quente de seu hálito e a ponta dos dedos pedindo seus desejos mais singelos aos deuses. Enquanto eu, mantenho a cruz em meu peito servindo somente de enfeite burlando um religioso que eu poderia ser e nunca fui.
Todavia, minhas mãos trêmulas só resistem ao prego para levar o cigarro até a boca. É seu único hábito, seu único prazer. Não existe mais o entrelace dos dedos, o atrito dos nós.

Como um filme em preto e branco, um drama de quinta categoria, as personagens surgem e somem sem qualquer explicação, sem enredo digno de atenção. Nem para ser chamado de trash ou clean, ou clássico servem. Não se inventa um gênero para isso, não merece os festivais, pois, a mente falha adapta o presente e o futuro conforme os lapsos de memória do passado. As personagens, os roteiros, os cenários? Nunca serão relíquias de colecionador, foram esquecidas.
Do elenco, o ator principal foi o mais mal pago, o menos reconhecido.
Não houve imprensa, nem entrevistas e os créditos no final da película só continham seu nome como punição. Nunca por glamour.

O diretor é desconhecido, o roteiro tão velho quanto andar para frente e o figurino, bom, era melhor quando não existia. Porém, como todo filme ruim com orçamento irrisório, sempre existe grande possibilidade de uma sequência. Com outros personagens e cenários mais divertidos, ou não.


Bento.

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sábado, 22 de setembro de 2012

CAFÉ EXPRESSO


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Às vezes eu confabulo com o Destino mesmo sabendo que ele quer me passar a perna. É simples, algumas rasteiras que ele me deu me trouxeram coisas boas. Então por que não tentar?

Trabalhei numa antiga empresa que eu tinha um emprego tão estressante quanto descascar batatas. Já trabalhei em várias coisas para sobreviver nesses meus quarenta anos, nunca cortei batatas. Mas era como se fosse.

Aí tinha que fugir daquela zica do pântano de alguma forma. Saía no meio do expediente para tomar um trago no bar em frente à empresa. Pedia um conhaque e um expresso. Jogava o expresso fora, sem beber, colocava o conhaque na xícara de porcelana e mimava meu fígado, o cérebro e o espírito com meu expresso alcoólico. Diretores, gerentes e supervisores da tal empresa passavam por mim e nem se davam conta. Era legal.

"Bom dia Artur" eles diziam. E eu os cumprimentava como se estivesse são, mas estava longe disso, bem longe. Eu na verdade estava simpático, semi bêbado, pois, bêbado mesmo era depois do expediente.

Íamos todos os amigos ao bar para desabafar sobre nossos empregos medíocres e libertar o demônio dentro de nós.
Éramos todos fodidos e mal pagos. Lamentávamos por estarmos onde estávamos, mas nunca fazíamos nada para muda àquilo. Exceto beber. Bebíamos como porcos e só íamos embora quando o dinheiro acabava ou quando a conta no bar ultrapassasse o limite sábio do Barcelar, o dono do bar. Este era um homem baixo, mas com quilos sobrando para mais dois. Era careca e usava uma peruca que mais parecia pelos de ratazana.

Eu achava Barcelar um personagem de livro. Era um completo clichê, careca, um pente no bolso da enorme camisa de manga curta cobrindo-lhe a enorme barriga de chopp. Fumava um cigarro de palha que fedia até mesmo do outro lado da rua. Ah! E o bigode, também tinha o bigode esbranquiçado contrastando com os poucos cabelos acima das orelhas que eram seus de verdade, pintados de um negro de graxa de sapato. Nunca acreditei muito no velho, nunca acreditei em clichês. Porém, assim levávamos a vida, trabalhando e bebendo religiosamente como nossas mães iam a igreja quando jovens. Nosso divertimento se baseava nas besteiras contadas após o efeito etílico, bem como piadas de português, loiras, bichas, gaúchos. Os derrotados na última rodada do Brasileirão e a chegada de uma nova garçonete no Bar do Barcelar.

 - Ei, conhecem aquela da puta aleijada? Cobra o dobro pra transar de quatro. hahaha

Entre outras coisas tão sem graça quanto, só que todos gargalhavam como criança.

As piadas se repetiam, as garçonetes nem tanto. O velho Barcelar só contratava meninas novas em busca do primeiro emprego, achava que eram elas que nos faziam fregueses assíduos. Mal sabia ele que não estávamos ali por causa das garotas e sim pela cerveja barata e por ser o único maluco dono de bar que deixava-nos comprar fiado durante meses.

Riamos também, de doer a barriga e cuspir amendoins sobre as histórias de nossos casamentos e como, um dia, planejávamos voltar ao tempo de solteiros e comer mulheres como engolíamos os amendoins e ovos de codorna. No entanto não passavam de teorias hilárias de sofreguidão. Éramos covardes demais e velhos demais para uma aventura juvenil, mas planejar era sempre muito engraçado e de certa forma trazia um pouco de vivacidade para nós, um bando de homens casados, pobres e saudosistas.

Houve até uma vez que uma das garçonetes se engraçou pro lado de Jânio do almoxarifado. Imaginem, a garota devia ter uns vinte anos recém-completados e Jânio tinha isso só de tempo de casamento. De tanto trocarem olhares e elogios terminaram no motel. Só que Jânio ficou com tanto peso de consciência que decidiu comprar um cachorro para a mulher, esses cachorros de madame, com pedigree. Pagou o olho da cara. Foi uma pena ele descobrir que sua mulher lhe traia com um primo recém-chegado do interior. Jânio tratou de levar o cachorro com ele, tomando o presente de volta. Imaginem só, um velho e um cachorro numa pensão cheia de velhos e mais cachorros. Caíram na depressão, o cão e Jânio. Está de licença até hoje, recebendo pela Caixa.

Essa história assustou a todos nós a ponto de ficarmos alguns dias sem pisar no bar de Barcelar. Queríamos todos chegar cedo em casa para ver se nossas mulheres não nos traia com um parente ou vizinho, como aconteceu com nosso velho amigo Jânio. Alguns permaneceram pegando o caminho do bar, se suas mulheres lhe plantavam chifres, não queriam saber. Duas ou três semanas depois tudo voltou ao normal. Um bando de velhos bêbados olhando para as bundas das garçonetes, rezando pelo prêmio da Sena e contando piadas.

 - Ei, conhecem aquela do gaúcho bilíngue?



Bento.

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

MEU PAI TRAVESTI

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Por volta das dez da manhã eu estava sentado num canto do bar dando fim a primeira garrafa de vodca. Eu sentava-me perto do banheiro por causa da minha bexiga, tão frouxa que a cada 15 minutos eu tinha que tirar água do joelho. Por um lado era bom, o médico me receitou caminhar para exercitar as pernas, pois eu passava muito tempo sentado e aquela cadeira de aço que mal cabia minha bunda só piorava as coisas.

Era um dia típico, deveria ser terça-feira ou não. Eu nunca tomava café da manhã, exceto se uma garrafa de vodca antes do almoço puder ser considerada uma refeição.

Eu já tinha passado dos 150 quilos e estava muito longe do meu peso ideal. Então mantinha uma dieta especial à base de vodca e cigarros que não estava apresentando muito resultado, mas pelo menos servia para me entreter. Aos 28 anos e sem emprego, não se tem muita coisa que possa fazer.
O bar era do meu pai, se é que se pode chamar de pai. Dona Margaret como gostava de ser chamado tornou-se travesti quando eu ainda era criança, minha mãe, descobriu sua homossexualidade e é claro, sumiu no mundo. Só não fiz o mesmo por ser covarde demais.

Então, quando meu pai, ou minha mãe, ou seja lá o que for, precisa ir ao banco eu tomo conta do bar. É o máximo de trabalho que já tive na vida.

- Lalau meu filho, pare de beber tão cedo e vá comer algo.

 - CALA A BOCA SEU TRAVECO!

Era assim nossa relação entre pai e filho.
Eu o odiava e ele fingia me amar. Na escola eu cansei de apanhar por ter um pai travesti. As garotas me olhavam com asco por isso e eu tive de aprender a me virar. Já não bastava eu ser gordo como um porco?

Certa vez, na escola, três garotos começaram a me xingar e me dar tapas na cabeça. "filho de bicha, bichinha é" eles diziam. Eu tinha de me defender, não pelo meu pai, ele era bicha mesmo. Não era justo comigo, logo, já tinha uma estratégia de ataque para derrubar os três garotos filhos da puta.

Eu acertaria o primeiro bem no meio do nariz com um de direita e o derrubaria. Pow! A mão esquerda logo acertaria a face do segundo. Pow! O terceiro me acertaria, era inevitável, então eu teria de me manter em pé para derrubá-lo também. Pow pow pow!

Nem preciso dizer que não saiu nada como eu planejei. Aceitei o primeiro, que não caiu e, ele me devolveu um cruzado que me deixou zonzo. Os outros dois me derrubaram e fiquei parecendo uma bola de praia, grande, redondo e recebendo chutes de todos os lados. Foram dois dentes para o saco, uma costela e o nariz quebrados, e o rosto estragado. Duas semanas no hospital e nunca mais voltei para a escola. Eu tinha na época 16 anos, comecei a beber e fumar depois disso.

Tenho uma vida difícil, ficar no bar o dia todo sem fazer nada, só bebendo, não é mole. Chega uma hora que você quer fazer alguma coisa diferente. É quando eu subo até o apartamento vago em cima do bar para fumar uma erva e curtir a brisa apoiado na janela, imaginando como seria minha vida se estivesse no lugar delas. Eu não tenho muita imaginação nem criatividade, mas a Cannabis ajuda abrir a mente.

Eu tinha fome, mas não iria comer. Não hoje pelo menos, talvez amanhã. Fumava meu cigarro de maconha quando vi uma garota entrando no bar. Pude ver o tamanho de seus seios mesmo de onde eu estava. Ela andava e eles balançavam seguindo o compasso dos passos. Belos seios, pele clara, porém avermelhada por causa do sol daquela tarde. Cabelo tingidos de preto, roupas pretas, maquiagem preta. Era uma dessas garotas que escondiam uma fraca personalidade debaixo do gosto discutível por músicas barulhentas.  Também notei que estava um pouco acima do peso, não muito. Mas convenhamos, eu era um porco de tão gordo e tirando as putas, nunca tive sorte com mulheres.

Fiquei imaginando o que aquela delícia viria fazer aqui e fui longe à imaginação.

Pensei nela encostando-se ao balcão de dona Margaret e dizendo que estava apaixonada por mim, meu pai indicaria o caminho do apartamento vago e transaríamos dias seguidos, parando só para fumar unzinho e buscar mais garrafas de vodca no bar.

Toda essa imaginação me deixara com tesão. Abaixei a calça, a cueca e comecei uma masturbação maravilhosa imaginando nossa transa. Eu e a garota desconhecida. Eu e aquele par de seios magníficos.

Meu rosto transpirava por causa do esforço, quando um braço cansava eu trocava. Eu era ambidestro na masturbação, um craque da punheta. E de repente ouço uma voz vindo da porta do apartamento. - Alaor?

Levantei da cadeira com pressa. Não sabia o que fazia primeiro, se escondia a paranga de maconha ou levantava a calça. Precisava esconder meu pinto. Então preferi investir o pouco tempo que meu pai levaria para atravessar a cozinha e chegar ao quarto onde eu estava para tentar me vestir.
Abaixei-me e puxei a calça, mas eu estava bêbado e muito louco de maconha. Gordo não tem equilíbrio sóbrio, o que dirá bêbado. Cambaleei para frente e dei com a cara no chão. Fiquei ali, com a bunda para cima e a calça nos joelhos. Meu pai parou debaixo do batente da porta com os braços na cintura. Eu olhava sua cara de desaprovação e imaginava que ele tinha tanta decepção por mim quanto eu tinha por ele. Medi-o das sandálias plataforma até a peruca ruiva, passando por seu vestido florido e seu batom vermelho.

Meu pai era um travesti e eu estava bêbado e chapado com a bunda para cima e a cara no chão. Que vida ótima essa minha. Mas como tudo pode ficar ainda pior a garota que eu tinha visto pela janela saíra de trás do meu pai e agora passava os olhos em minha condição trágica e sorria de canto de boca. Era um riso que dizia o quanto eu era estúpido. Um sorriso que gritava aos meus ouvidos o quanto medíocre eu era.

Quando vi a garota dei um jeito de levantar o mais rápido possível e me recompor. A minha cara gorda e branca estava agora rubra como a brasa do meu cigarro que queimava em cima da cadeira, o cheiro de maconha exalava no apartamento todo e ficaram os dois olhando para minha cara, mudos. A gostosa e o travesti. A única coisa que consegui dizer naquele momento para quebrar o silêncio constrangedor foi:

- Pois não?

- Soraia veio ver o apartamento.

- Ok! Vou ficar no bar.

- Lave as mãos. Ouvi a voz de meu pai dizer enquanto eu descia as escadas em direção ao bar.

No bar, eu abri mais uma garrafa de vodca, mas sentia que precisaria de algo ainda mais forte para esquecer a vergonha que tinha acabado de passar. Eu tinha uma pílula em algum bolso desses da minha calça.
O problema não era só ser gordo e feio e pobre. Era minha falta de sorte que me matava. Se eu ao menos tivesse nascido numa família decente, tivesse algum dinheiro, as coisas teriam uma perspectiva diferente.

A Cannabis dá uma fome maldita e tive que me render a ela, peguei uma coxinha no balcão e mordi um pedaço. Seria minha única refeição sólida durante alguns dias, inevitavelmente.

Terminei de comer e reparei a garota das tetas me olhando novamente. Ela diz oi. Eu respondo e ela continua: - Vou ficar com o apartamento.

- Legal. Eu disse.

- Lalau, meu filho. A garota ficará com o apartamento e você vai ajudá-la com a mudança, então pare de beber e vá tomar um banho.

- Legal. Esse meu "legal" foi ainda mais desanimado.

- Estarei de volta daqui à uma hora. A garota avisou.

- Ok. Não sairei daqui.

Era óbvio, eu nunca saia dali.

Enquanto esperava continuei bebendo, quando vi o carteiro se aproximando com sua sacola cheia de cartas. O carteiro da vizinhança era um velho próximo de se aposentar. Tanto que andar e respirar ao mesmo tempo já lhe criava certa dificuldade. Nunca soube seu nome, para nós moradores ele sempre foi o carteiro e pronto. Só que agora era um outro, bem mais jovem e atlético. Pelo jeito substituíram o velho carteiro por um novo.
O mundo é assim. Você envelhece e é substituído. Foi assim com meu pai quando minha mãe o trocou. Meu avô foi trocado na fábrica de gelo onde trabalhava e eu seria trocado por alguém em algum momento.

Enfim parou uma Belina e Soraia desceu com algumas malas de mão e uma gaiola com um rato branco dentro.
Um cara com roupa de exército desceu do banco do motorista e foi em direção ao porta-malas pegar duas caixas que imaginei serem roupas. Seria o namorado de Soraia?Muito velho, talvez. Me enchi de ódio assim que imaginei a possibilidade e senti que poderia matá-lo com minhas próprias mãos. Iria fazer aquele Rambo de meia tigela implorar pela vida.

- Boa tarde.

Era o carteiro novo.

Fiz um aceno com a cabeça para cumprimentá-lo.

 - Você trabalha no bar?

Outro aceno com a cabeça sem tirar os olhos de Soraia.

 - Pode entregar para Jorge Francisco Rubin, por gentileza?

 - Não tem ninguém aqui com esse nome, meu chapa! Respondi pela primeira vez.

- Ó, tudo bem então. Obrigado. Boa tarde.

Sequer mexi a cabeça desta vez.

Jorge era o verdadeiro nome de meu pai, mas não poderia facilitar o trabalho daquele merda logo no primeiro dia.
Então ele enfiou a carta em sua bolsa e partiu se desculpando. Um bosta ele era, um grande bosta.

Aproximei-me da Belina já quando partia - Oi de novo- ela disse.

- Oi!

 - Tive sorte. Amapolo estava de folga hoje e me trouxe até aqui.

 - Hum. Quem é esse cara, seu namorado?

A garota então sorriu com certo desdém. Ele se diz meu pai. Mas não em tempo integral.

 - Ah. Limitei-me a dizer.

Peguei as caixas e levei ao apartamento. Chegando lá ela me indicou onde poderia deixar as caixas, sabe, nem todo gordo é forte. Aquele exercício foi o único que eu fazia durante anos. O último foi quando tive que levar uma caixa de cerveja do caminhão até o estoque do bar porque o entregador estava com o braço engessado.

Coloquei as caixas no lugar indicado transportando em bicas. Se tem uma coisa que eu sabia fazer era transpirar. Mas mantive a pose, queria de alguma forma impressioná-la.

E depois de todas as caixas entregues ela perguntou. - e então, tem mais daquele aí com você?

Fiquei pensando no que ela queria dizer com aquilo. - daquele o quê?

 - daquele baseado...

 - Claro. Você fuma também? - Ô, fumo claro. Ela respondeu.

Enrolei mais um baseado e ficamos calados enquanto fumávamos até ela quebrar o silêncio.

- Me fale de você, sua namorada sabe que você gosta de se masturbar enquanto fuma um?

 - Eu não tenho namorada. Disse.

Já estávamos chapados e como ela percebeu, eu tinha um péssimo hábito de ficar de pau duro quando ficava na brisa.
Não sei se ela pode perceber o volume sob o meu calção que não tirava há dias. E aquele par de tetas não ajudava a esconder minha ereção.

 - Bem, agora entendo o porquê você estava se virando sozinho. Ela sorria com uma cara safada.

Mais um aceno de cabeça da minha parte.

- Então Lalau, posso te chamar de Lalau né? - Não esperou que eu respondesse que sim - já que me ajudou com a mudança e dividiu seu baseado comigo, acho que posso te retribuir o favor de alguma forma.

Então a garota ajoelhou-se em minha frente, baixou meu calção e começou a me punhetar. Passamos dias fazendo a mesma coisa. Eu levava meus baseados e algumas garrafas de vodca e ela me punhetava.
Tentei algumas vezes chupar seus seios ou até mesmo transar com ela, mas era só isso que ela fazia. Me punhetar em troca de álcool e maconha.



Bento.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

APOCALIPSE JOÃO 6:66


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“Oh Senhor, tenha piedade dessas almas pecadoras... Derrame sua benção entre nós e faça dessa sua casa o paraíso para as boas almas... Oh Pai...”

Ao ouvir as palavras de pastor João os frequentadores da igreja Deus é o Caminho dos Justos no interior de São Paulo, os fiéis se inflamavam e soltavam exclamações clamando por Deus.

João era um senhor alto, magricela, de cabelos avolumados, parte grisalho e parte caju. Sempre de terno bem alinhado e sapatos de couro brilhante.

No púlpito ele era o foco principal, não permitia coro, nem músicos atrás dele. Que era para "não tentar os irmãos a dispersar quando a palavra de Deus está sendo passada", também fazia questão de chamar atenção e para isso pulava, corria, engatinhava, rastejava, rolava, gritava e tudo mais.

"... e Jesus voltará a terra através de meu corpo purificado pela fé e fará justiça. Os homossexuais, os impuros, infiéis e aqueles que duvidam do poder de Cristo queimarão no fogo de Deus. E o fogo está aceso. Findarão nas armas de Deus. E as armas estão carregadas. Ajoelhem-se diante de mim, pois só eu poderei levá-los ao colo Divino".

Eram essas ameaças e falsas premonições que assustavam D. Genoveva e D. Viridiana, as mais antigas seguidoras do pastor. Sentadas na primeira fileira de cadeiras trocavam olhares e cochichos a cada frase malfeita daquele que fora o mais famoso pregador da região. Caravanas de fiéis vinham de outras cidades para ouvir João Horácio.

"Eu tive uma visão. Deus me mostrou todos vocês ardendo com o fogo sagrado”.

Mas não agora. Na igreja que costumara ter filas enormes para ouvir as preces, naquele dia, domingo bem cedinho, que era o dia de maior movimento, contava apenas com as presenças das duas irmãs anciãs e mais meia dúzia de famílias que não possuíam carro para irem até a igreja mais próxima, que ficava a uns 20 quilômetros dali.

- Acho que não tem mais jeito irmã, endoido de vez. Sentenciou Genoveva.

- Doidin, doidin. Concordou a outra. - O Gusmão já disse para quem quisesse ouvir que não deixaria seus filhos perto do pastor louco.

- Como se Gusmão e aquelas filhas assanhadas dele fossem exemplo para alguém.  Continuou Genoveva, a caçula das irmãs e as duas soltaram risinhos maldosos que foram contidos pelo olhar raivoso do pastor.

A verdade é que a dupla estava mais preocupada com o dízimo das famílias da cidade do que com as bundas esquentando as cadeiras do templo. Cadeiras essas que ainda sequer estavam pagas, assim como toda a reforma do galpão onde se reuniam. Sem falar no financiamento da caminhonete novinha que João Horácio se deu de presente alguns meses atrás.

 - As contas tão atrasando, daqui pra pouco o banco vem buscar a caminhonete por falta de pagamento. Comunicou Viridiana.


- E o Galeão que disse num por mais um tijolo aqui. Disse a outra. - A gente tem que sumir com o Jão daqui e é pra ontem.

- Mas como Diana? Se ele é mais teimoso que uma mula!

E realmente era.

- Se ele não sumir daqui eu sumo com ele!

***

Era domingo e o roliço Moisés estava no sofá assistindo o programa de esportes com suas pantufas do Palmeiras quando ouve o telefone.

- Clemência! Olha o telefone. Clemência. Gritava para sua mulher.

Sem sinal da esposa e como o telefone continuava tocando, Moisés então, levanta com dificuldade por causa do seu corpo avantajado.

- Pronto!

Enfim atendeu e fez uma careta ao saber quem estava do outro lado da linha.

- Sim... Entendo... Sim, claro... Compreendo tia... Ele vem de carro? Tá certo então... Isso mesmo, Rua Platina 32. Não tem problema tia, tudo para ajudar meu pai. Ok! Desligaram.

Clemência que vinha do quintal dos fundos limpando a mão no pano de prato pergunta quem era ao telefone.
A dona de casa era uma morena forte, encorpada, longe de ser gorda como o marido. Era o que podemos dizer de uma mulher grande, ou segundo os maldosos: "gordinha gostosa". De beleza comum, nem bonita nem feira, era alguns anos mais jovem que o cônjuge que iria chegar à casa dos trinta.

- Não era nada, só Tia Viridiana, prima do meu pai perguntando se eu me importava dele passar umas férias aqui em casa.

- E o que você disse? Perguntou a mulher já com medo da resposta.

 - Ué, ele é meu pai.

- Mais essa agora. Já não dou conta de limpar a sua bagunça. Além do mais seu pai nunca quis te ver nem pintado.

 - O problema dele comigo é porque eu larguei a igreja, mas você quer o quê? Tia. Viridiana disse que ele tá doente, nada grave. Justificou Moisés.

 - E ainda vou ter que cuidar de velho doente.

 - Ô meu pãozinho, a última vez que tive notícias do velho ele tava arrancando dinheiro do povo igual água. Pensa na escola do Juninho que tá atrasada.

Nada como a possibilidade de pagar as contas para intensificar o amor.

 - E o salão então? Seu cheque voltou de novo. Não tenho mais cara de aparecer lá. Três meses que não coloco uma tinta no meu cabelo. Reclamou a vaidosa mulher.

-Pois então. Quem sabe isso não seja pro nosso bem?

Clemência não ficou muito convencida, voltou para a cozinha pisando duro e Moisés voltou ao sofá pensando em como fazer para tirar dinheiro de seu velho pai.

Ao cair da noite pastor João já estava estacionando a caminhonete em frente à casa da Rua Platina. O casal surpreso com a rapidez com que a visita chegara se alvoroçaram para dar os últimos retoques na casa. Garrafas de bebidas alcoólicas que preenchiam o bar da sala foram escondidas as pressas embaixo do sofá, o cinzeiro que repousavam as bitucas dos cigarros de Clemência foi parar no lixo.
Pastor João já diante da porta da casa grita e bate na porta.

- Tem alguém neste antro do pecado?

Moisés rapidamente abre a porta com a esposa olhando por cima de seus ombros.

- Benção pai, como foi de viagem?

- Nossa como está gordo! Disse o velho após medir o filho de cima a baixo. - Com certeza não se lembra do pecado da gula.

O gordo sentiu seus olhos arderem de raiva após o comentário do pai e o velho percebeu as bochechas redondas do filho ficarem vermelhas, mas não se abalou. Na verdade, humilhar o filho lhe trazia certo prazer.

 - Você vai me deixar entrar ou vou ter de pedir asilo ao vizinho? Continuou arrogante o candidato a messias.

Após aqueles segundos de um silêncio constrangedor e tenso a dona de casa decide se pronunciar: - Saia da frente de seu pai Moisés. Venha Seu João, fique a vontade, o senhor deve estar exausto da viagem.

 - Parece que a família de sua mulher teve mais sucesso ao educar seus filhos. Leve minhas malas. E o filho roliço levou as malas a contragosto.

***

Todos em volta da mesa de jantar e só se ouvia o barulho dos talheres em atrito com os pratos de louça e os dentes triturando a carne assada quando Moisés finalmente decide quebrar o silêncio:

 - E então pai, como está lá na igreja, muitos fiéis contribuindo?

 - Você parece sua mãe, só pensa em dinheiro. Então o pai vira-se para a nora...
 - Se depender deste vagabundo para lhe sustentar é melhor arrumar um emprego minha filha, pois mais falido que este nunca vi.

Moisés estava pronto para responder quando por debaixo da mesa levou um chute da esposa que o fez cuspir a carne mastigada de volta ao prato.

 - Moisés tem tido grande sucesso como corretor Seu João. E nós vamos muito bem financeiramente. Mentiu Clemência para não ficar por baixo. Mas a chatice do sogro não tinha limites.

 - Estou vendo, sequer tem um Scotch nesta casa, como conseguem viver assim? Jesus Cristo.

 - Achei que pastor não bebesse... Insinuou Moisés.

 - Deixe de ser imbecil meu filho. Eu fico me perguntando que pecado cometi para merecer você na minha vida?

Moisés apertava os talheres com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

 - Vou buscar a sobremesa. Apaziguou a dona de casa.

***

Passaram-se semanas e a rotina manteve-se na mesma. O pastor João provocando o filho e Clemência no meio daquela guerra familiar.

Clemência, como já foi informado aqui, era uma mulher com um corpo de chamar atenção. Pastor João não pretendia virar santo depois das sandices que já havia cometido pela vida. Clemência gostava de dinheiro e pastor João prometera-lhe dinheiro. Mentiu, mas mentiu jurando.

Certo dia após o expediente, Moisés chega em casa e não encontra seu pai em frente a TV esbravejando como de costume. Também não encontra a esposa na cozinha preparando o jantar como acontecia todos os dias. Estranhou e subiu as escadas que levava aos quartos do sobrado e encontrou o que lhe deixaria tão insano quanto o próprio pai. Na cama, Clemência em posição de cachorrinho vestia apenas uma camisola vermelha que deixava um de seus seios a mostra. Seios estes que balançavam como um pendulo devido as investidas de pastor João que por trás, com seu corpo nu e cadavérico, gargalhava e dizia: - Ô glória... Ô glória.

Eis que foi um Deus nos acuda. Moisés distribuía socos e pontapés em ambos. Pastor João acabou conseguindo escapar da fúria do filho e partiu em disparada dobrando a esquina como veio ao mundo gritando para quem quisesse ouvir: - Pois és o apocalipse. Vocês pecadores infiéis não acreditaram, mas enfim chegou o dia. És o apocalipse. Sintam a fúria de Deus.



Bento. 


terça-feira, 28 de agosto de 2012

W.O


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Hão de reclamar, assim como reclamam da forma como ando, como falo, como respiro. Falam até do ar da graça que me habita.

Eis que se me perguntarem; quem é o melhor humorista para você? Respondo fácil; eu. Cínico! Vão dizer.

Não. É isso mesmo. Eu. Humoristas do Brasil existem vários muito bons, porém quem me diverte mais sou eu.

Ora, todo o sarcasmo e ironia me diverte mais que qualquer coisa. Trato-me pior que qualquer outra pessoa e me divirto com isso.
Toda compaixão, autopiedade e cegueira que existem nos outros não se aplica a mim. Me trato como um desconhecido sem coração.

Um sarro diário da minha própria cara. É uma autossuficiência do humor. Brigo já sorrindo.

Egoísta. Vão dizer. É isso. Egoísmo do riso. Conto a piada e sou o primeiro que ri. Afinal, eu sou o alvo da piada, sempre. Nada mais justo.

É uma masturbação do humor. Dedico-me a me dar de presente o primeiro riso do dia, depois disso tudo é lucro.

Mas por quê? Por quê? Por quê? Simplesmente porque egoísmo seria depender dos outros até para rir. Se preciso agradar alguém, logo, que este seja eu.

Isto está errado! Vão sentenciar. Pois não serei eu que vou argumentar nem discutir por isso. Não eu. Se disser que está certo estarei dando um mínimo de razão para meu interlocutor, pois num debate sempre há acertos para os dois lados. Ninguém erra totalmente e vice-versa. Neste caso, por minha parte, nada é discutível.

Logo você que debate sobre tudo? Tentarão fomentar. Isto é outra verdade. Digo isso, pois, só é possível treinar argumentos argumentando. Como um jogador que só treina bola jogando.
No ímpeto de conhecer seu desafiante, eis de contrariá-lo, caso contrário, os dois concordam e vão para casa, mudos. Eu procuro o convencimento a todo custo. Abro as portas para me dar uma boa razão de mudar de ideia e apoiar sua causa, só precisa me convencer. Ganhar por W.O não me agrada em nada.



Bento.

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domingo, 19 de agosto de 2012

QUEM SABE EM OUTROS MUNDOS...


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O despertador tocou e marcava 06h10, mas Cidão já estava tomando banho. Acendera um cigarro e entrou no box com metade do corpo debaixo do chuveiro para não correr o risco de molhar o bastão de nicotina. No aparelho de MP3 tocava uma seleção de músicas que sua namorada fizera especialmente para o casal.

Saiu do banho e com o corpo parcialmente úmido passou creme por todo o corpo. Pescoço, seios, pernas. Cidão era obesa, trinta ou quarenta quilos acima do peso, mas ela já não ligava mais para isso.

Vestiu a lingerie com calma, quase que com sensualidade. Serviu uma dose de vodca, misturou café e acendeu outro cigarro. Estava atrasada, sabia disso, pois queria estar linda e seu cabelo estava dando problemas nas últimas semanas para ficar como ela gostava. Tudo tinha de estar perfeito.

Vestiu seu jeans preferido, presente de Helena, o grande amor de sua vida. O tênis igualmente preferido e uma camisa xadrez. Outra vodca, outro café e outro cigarro.

Foi ao banheiro, escovou os dentes, cuspiu o antisséptico bucal e começou a guerra com o cabelo teimoso.
Cidão tinha os cabelos curtos e arrepiados e, detalhista como era, cada fio teria de estar em seu devido lugar. Ela não saia de casa enquanto não obtivesse sucesso.

Vinte minutos e três cigarros depois o cabelo teimoso estava como Cidão queria. Perfeito. Tomou mais uma caneca de café, desta vez puro, para evitar o hálito alcoólico e partiu.

Um cigarro até o ponto de ônibus. Olhava o relógio com impaciência, talvez não desse tempo. Ela estava decidida, se deixasse para amanhã seria tarde e ela hesitaria. Era hoje e pronto! Tinha de ser. No MP3 ainda tocava a seleção de músicas feita por Helena e nos fones de ouvido era John Mayer que cantava.

Finalmente o ônibus chegou e Cidão parou de roer as unhas e mexer uma das pernas devido a impaciência. Ela agora só tinha que rezar para que o motorista do coletivo pisasse no maldito acelerador devolvendo a moça os minutos preciosos que perdeu com o cabelo rebelde.

Trânsito, faróis, passageiros que davam sinal nos pontos querendo subir e descer do ônibus. Tudo isso atrasava ainda mais os seus planos. A impaciência em pessoa. Tanta pressa que gritou duas vezes para que o motorista acelerasse aquela merda de ônibus. Na verdade ela disse "Porra". "acelera essa porra desse ônibus seu filho da puta!". Alguns passageiros atrasados para o trabalho concordaram, outros fizeram cara de espanto. O motorista devolveu-lhe um "vai toma no cú sapatão!" e ficou por isso mesmo.

Cidão não se importava de ser chamada de sapatão, nem ser comparada com homens. Vestia-se como tal, andava e falava como tal e, apesar de ser gorda, seu rosto delicado não deixava mentir. Era uma garota. Uma garota grande e não muito gentil nem educada como suas irmãs e primas, nem como Helena, ainda assim era uma garota.

Já Helena odiava o termo "sapatão", achava-o pejorativo e machista e, não era raro as vezes que a feminista discutia em bares e ruas por ser chamada assim. Esse era um dos motivos das brigas do casal. Helena não gostava da falta de interesse de Cidão pela causa gay. Palestras, passeatas, tudo isso fazia parte da vida de Helena e tantas outras lésbicas, mas não da de Cidão.
Cidão não se importava com nada, exceto Helena.

Ela sabia que Helena também a amava. Talvez não tanto quanto ela, mesmo assim, sentira-se amada nos anos em que moraram juntas, só que em suas próprias palavras: Fiz muita merda com Helena.

Cidão era explosiva, quase como seu pai que a espancava quando adolescente pelo modo que se vestia, falava e por passar horas trancada em seu quarto com outras garotas. Levava nas costas, até hoje, as marcas do cinto de couro que seu pai usava para castiga-la. Sua mãe, tentando livrar a filha das surras dizia ser normal. "É coisa de garota", no entanto seu pai sabia da preferência sexual da filha.

Apesar de odiar o pai, puxou o gênio do velho e isso serviu, também, de ajuda para o fim de seu relacionamento com a mulher mais linda que Cidão conheceu. Helena.

O ônibus enfim chegou à estação do metrô e Cidão foi uma das primeiras a descer. Subiu as escadas rolantes andando, pela pressa, porém, com dificuldade por seu tamanho. Colocou o bilhete na catraca e atravessou-a tão rápido que a máquina travou quase levando a moça a um tombo. Vermelha de raiva, a garota roliça xingava com todos os palavrões que ela conhecia. Todos a olhavam com cara de reprovação e ela pensava em avançar no pescoço do usuário do metrô mais próximo e descontar sua ira, mas não tinha tempo para isso. Helena já deveria estar na estação. Não deixaria que seu gênio atrapalhasse seus planos novamente. Precisava falar com sua amada uma última vez.

No caminho de casa para a estação, Cida desistira de seus planos inúmeras vezes, porém, retomava logo depois. Já tinha deixado Bad, seu poodle branco com sua vizinha e um saco de ração novinho. Se despediu do cão de estimação chorando copiosamente e sua vizinha dizia: - calma minha filha, é só uma viagem de alguns dias, em breve você o verá de novo.
Cidão sabia que não seriam só uns dias, sabia que não era uma viagem a trabalho como contou. Bad também sabia e chorava como a dona. A garota já estava na estação quando lembrou de Bad e tentou afastar a imagem do cachorro de sua mente, pois corria o risco de desistir. Andava olhando para todos os lados procurando Helena. Olhou o relógio da estação e estava atrasada cinco minutos. Helena tomava o metrô sempre no mesmo horário, todos os dias para ir trabalhar. 

Eram várias pessoas na estação, todas indo ao trabalho, escola, universidade. Só Cidão tinha um destino diferente de todos.
A grande garota pensava se era àquilo mesmo que gostaria de fazer. Poderia talvez, haver outro jeito. Ela queria que houvesse. Talvez fosse só uma fase de Helena, só um momento de descoberta. Quem sabe, seu grande amor só queria curtir a vida sozinha um pouco. Um tempo solteira, quem sabe no fim terminariam velhinhas e felizes. Com certeza era o que Cida desejava. Até achar Helena, bem na sua frente. Ela vestia sua calça jeans mais justa, seu maior salto alto, que deixava suas pernas mais torneadas e suas nádegas ainda mais empinadas. Sua miniblusa rosa com rendas deixava os pequenos furos acima da cintura a mostra e, àquilo sempre deixara Cida louca de desejo. Os cabelos de Helena estavam presos num coque feito com certo relaxo planejado e seu pescoço e ombros eram lindos.

Cidão tinha o coração saltando pela boca de desejo. Tinha arrepios de saudade. Possuía tremedeiras de amor contido. Enfim era Helena. Era muito amor. Talvez mais que isso, ou tudo isso.

Os olhos de Cida percorreram Helena dos pés, passando pelos joelhos e coxas, parou no quadril. Vira as marquinhas que pareciam suportes para dedos em sua cintura, foi ao pescoço e parou no rosto, ali, derramou duas lágrimas. Era saudade de doer nos nervos da alma, se é que alma tinha nervo. Beliscou as orelhas e seus alargadores brancos com os olhos e, finalmente desceu pelos ombros, escorregou pelos cotovelos passando pela grande tatuagem que Helena tinha no antebraço, quando chegou às mãos que um dia estivera agarradas em seus seios e viu outra mão rústica, máscula, agarrada a ela. Piscou os olhos com força e não era ilusão. Aqueles dedos delicados que um dia esteve dentro de seu sexo agora estavam entrelaçados nos dedos calejados e tortos de um: VELHO!

Cidão pensou tão alto que saiu um grito. UMA PORRA DE UM VELHO? A pergunta era mais para seus olhos do que para Helena. Pena, ou não, que Cida tinha errado a escada e saído do lado errado, tendo assim, os trilhos separando o casal da mulher com orgulho ferido.

Helena notou a presença de sua ex-namorada e largou a mão do colega de trabalho que agora era seu noivo, com direito a anel e tudo. Assustada e, também confusa. Não queria que Cida a visse com o noivo. Não agora. Cida agora chorava de soluçar e ter coriza lavando seu buço. Os dentes e punhos cerrados com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Quando resolveu falar, só conseguia repetir: - Mas eu te amo tanto. Não pode... Eu te amo tanto. Não pode se!

Helena agora também chorava e borrava a maquiagem. O noivo ali estava avulso. Não sabia nada do passado de sua futura mulher. Helena quando deixou Cidão mudou de vida. De personalidade, opção sexual, credos. Tudo.

Cida então teve certeza. Sem tirar os olhos da amada, sem interromper as lágrimas. Apenas com os ouvidos calculou, pelo barulho do trem em alta velocidade, o momento certo. Ainda cabia mais uma frase; - Pois é... Eu te amo tanto. Sem você não... Quem sabe em outros mundos...
O baque que viria não causaria dor maior do que já havia sofrido aquela mulher.

Então saltou.


Bento.