terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A CIGANA

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Estava sol. Um sol desgraçado e eu precisava de água.
Minha gastrite atacando há dias, puta gastrite desgraçada...

Depois de esperar o ônibus, pegar o ônibus, descer do ônibus, esperar metrô, pegar metrô, descer do metrô, dor. Ô dor...

Tenho uma multidão me seguindo, isso é São Paulo meu amigo, aonde quer que vá haverá sempre uma multidão te seguindo, em todos os lugares...

Multidão, táxis, camelôs, panfleteiros, hippies e... Ciganos.
Fala sério! Ciganos?

Pensei logo em atravessar a rua, não queria ninguém lendo a minha sorte até porque a dor falava alto, quase gritava para eu chegar em casa, beber água e dormir. Minha cama e meu ventilador...

Mas o farol estava aberto, ao meu lado corriam pela avenida carros, caminhões, motocicletas, ônibus. Do outro lado era só grade e mais grade e a multidão me empurrava ao caminho da cigana...

E o tempo que perdi pensando na cama e no ventilador só fez com que eu me aproximasse mais da cigana velha e ela já olhava para mim. Mirava-me com aqueles olhos amarelos, ela já havia escolhido seu alvo e era eu, certeza. Percebia-se sua respiração ofegante só me aguardando e a minha respiração também ofegante pela dor e pela possibilidade de ter que parar, fingir-me interessado, ouvir lorotas e sandices e ainda ter de pagar por isso. Fora a dor...

Desesperado eu já pensei se não era melhor eu tentar atravessar no meio de carros, caminhões, motocicletas, ônibus torcendo para chegar do outro lado ileso, ou quem sabe ter a sorte de um carro me acertar no meio da corrida e assim ganhar uma carona para casa, sem dor, do que ter que enfrentar a cigana velha e suas mãos imundas, suas unhas enormes e pretas de sujeira com seu esmalte vermelho desbotado e mal pintado. Sua pele cinza fazia parecer que ela era ainda mais velha... E morta. É bem verdade que ela não fazia parte do clichê de verrugas no nariz, mas nem por isso deixava de ser grande àquilo que tinha no rosto. Era sem sombra de dúvidas o maior nariz que eu já tinha visto e olha que de tamanho de nariz eu entendo um pouco.
No caso desta cigana as verrugas abriram mão do nariz e escolheram a testa como moradia, duas verrugas grandes e negras que lembravam chifres e ela não fazia questão nenhuma de esconder com seu pano encardido e empapado de suor que tinha amarrado na cabeça, era agora...

Mais seis ou sete passos e a nariguda de vestes coloridas iria pegar o meu pulso e me forçar sentir aquele hálito podre, com seus poucos dentes - três ou quatro- também podres e seu sorriso macabro sem que eu nada pudesse fazer.
Voltar era impossível, parar também, os passantes me atropelariam como fariam os carros, caminhões, motocicletas, ônibus. Era agora...

Se o que não tem remédio remediado está, eu estava pronto, com músculos contraídos, já separei mentalmente as notas da carteira que daria para ela, nada mais do que cinco paus e já tava de bom tamanho. E o momento chegou, a cigana se colocou na minha frente, pediu a minha mão com seu sorriso de Lúcifer, me segurou com firmeza e ficou muda ao baixar os olhos amarelos para minha palma.

Passaram-se dois ou três minutos, impossível afirmar ao certo. E a cigana sem dizer uma palavra. Seus olhos amarelos cor de pus não saíam das rugas em minha mão, e nada de abrir a boca para me dizer qualquer coisa.
Então quando eu estava prestes a arrancar minha mão daquelas unhas putrefatas ela me larga, me dá as costas e vai para o meio das outras ciganas como se nada tivesse acontecido, como se eu não existisse e nem sequer esperou pelo pagamento.

A curiosidade mata o gato e com certeza os passantes com gastrite e irritadiços, logo, fui atrás dela para saber o que me aguardava, eram tantas perguntas. Aquela dor iria passar? O maldito calor iria embora? Eu conseguiria chegar em casa? O mundo acabaria mesmo em 2012? O Corinthians seria campeão da Libertadores?... Enfim. Tanto para saber.

Com o dedo indicador cutuquei seu ombro meio enojado afim de que ela se virasse para que eu pudesse olhá-la e ela virou-se. E parecia agora ainda mais feia.

-Vai-te embora daqui caboclo. Gritou a nariguda.

-Eu adoraria, você nem imagina. Mas eu quero saber o que você viu quando leu minha mão.

-Não posso. Saia daqui! Voltou a gritar.

-Eu tenho dinheiro, veja... E eu já deixei as notas pequenas de lado e quis entregar-lhe uma de vinte paus para convencê-la a falar. Mas ela negou.

-Mas e minha sorte? Perguntei já desesperado.

-Você filho, não tem sorte. Cuide-se.



Bento.


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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CHAPOLIN COLORADO, VODCA E DECEPÇÕES

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Eu acabei de ter uma ideia sobre escrever alguma coisa, mas não conseguia focar em nada.
Não subestime a minha falta do que fazer e nem o talento de ser idiota quando estou sentado junto ao Tédio bebendo,  definitivamente não é uma ideia genial que fará você refletir depois disso. Pela pressa eu não vou dar nome ao personagem, nem formarei um perfil dele, logo imagine um vizinho ou um primo distante que não vê há anos. Pode ser um ex namorado imbecil também, pois na leitura é sempre importante você ter  um horizonte, uma imagem onde apoiar sua imaginação.
Imagine este fulano com sérios problemas de autoestima pela falta de sorte, uma semi depressão a caminho e sem exagerar, não tinha um relacionamento intenso e duradouro há anos. Sem emprego fixo e é claro, sem  dinheiro, sem namorada, sem uma família que lhe pudesse servir de suporte, sem algo na sua vida que fizesse com que esse ser que salta de sua imaginação através das palavras tivesse um gosto doce ao viver a vida.

Como está a imagem do seu personagem até aqui? Continuando...
O fulano então começa a pensar que isso tem de mudar, que ele não aguenta mais deixar que a vida tome esse percurso horrível e tão prejudicial, ele pensa que poderia fazer alguma coisa para mudar a trajetória deste rio, mas como fazê-lo? Ele se perguntava.
Passou horas pensando em como mudar isso e várias possibilidades floresceram em sua mente... Ele poderia chamar o Chapolin Colorado para ajudá-lo, “Ó e agora quem poderá me defender?”, ele poderia começar a brincar com cacos de vidro na esperança de acontecer algum acidente no meio da brincadeira, ele poderia começar a economizar dinheiro e daqui há dez ou quinze anos abrir um pequeno comércio que talvez falisse antes de começar a dar lucros, ele poderia passar a se vestir melhor e melhorar o seu humor tornando-se uma companhia mais agradável para que assim as pessoas se aproximassem dele sem medo.
Eram tantas as possibilidades que o sujeito começou a ficar animado. Então se levanta, sorri e agora já aparenta outra pessoa, mais jovem até. Após estufar o peito ele agora vai tomar uma atitude que vai definir sua vida para sempre. Caminha até a geladeira, apanha a garrafa de vodca e dá o play no mais novo episódio de Os Simpsons.

Bento.

Nota do Autor: Se ficou decepcionado com o final do texto, experimente ouvi-lo clicando no “Ouça este Post” localizado logo abaixo. Clicou? Está vendo? Tudo pode ficar ainda pior.

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

OS OPOSTOS SE DISTRAEM, ENQUANTO ALGUÉM CAMINHA POR AÍ COM A PERFEIÇÃO

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A garota mimada ruboriza com o elogio e a voz suave do garoto tranquilo, mas no quinto dia da segunda semana ela irá se desfazer dos carinhos que recebe deste, pois na opinião dela ele deveria ser mais atrevido, mais seguro de si. É perfeição demais e até a mãe da garota gosta dele. Isso é um indício de que jamais dará certo, mãe e filha nunca estão de acordo, não seria agora que isso mudaria.

O garoto põe em prática tudo que aprendeu nos manuais de relacionamentos que achou em sites femininos. 'O homem ideal', não bebe, não fuma, passa horas na academia e em frente ao espelho. Dedicado, compreensivo, prestativo, se pudesse mudaria seu nome para Ivo para completar o kit.

A garota por sua vez quer encontrar alguém que a desafie, com ar de misterioso mantenha a pulga atrás de sua orelha e a faça passar as horas do seu dia tentando decifrá-lo e também decifrar se ele a ama ou não. É o frio na barriga da insegurança misturado com a segurança de seus braços fazendo assim com que seus sentidos sejam todos bagunçados porque é isso que pensa do Amor.

Ela deseja o anti-herói e não o príncipe encantado. E o garoto, no máximo, é o ajudante do herói.


Bento.

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

DEUS DO ÉBANO

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O ônibus acabara de chegar à rodoviária da Barra Funda, depois de tanto tempo de viagem famílias inteiras desembarcavam com seus olhos arregalados ao ver tanta gente junta. Rapazes que tentavam a sorte na cidade grande. E se tratando de São Paulo, põe grande nisso.

Todos fadigados pela viagem longa, apertados no ônibus de viagem sem ar condicionado esticavam os músculos do corpo se espreguiçando, menos Apolinário.
Vinte e cinco anos de muita saúde, o rapaz tinha uma negritude de dar inveja no dono da palavra ébano. Baiano nascido em Salvador, veio direto do pelourinho tentar a sorte aqui na capital. Lá na cidade de todos os santos tentara de tudo, de dançarino de axé até vendedor de acarajé. Mas Apolinário queria mais, queria ser empresário, vestir terno e tudo mais, sua mãe sempre dizia com a pretensão de tirar-lhe um pouco dos sonhos da cabeça: -Meu filho negro, baiano, cum esse cabelo cheio de vela vai trabaia do quê em Sunpaulo? Vai é quebra a cara lá longe!

Mas Apolinário fez as trouxas mesmo assim.
Na altura de seus 1,95 metros passava grande parte do seu tempo na academia Palácio onde gastava o dinheiro adquirido com a venda de acarajés, colares e pulseiras que fazia com as conchas recolhidas na beira do mar e vendia para turistas europeus e americanos. Logo, tinha um corpo estrutural a ponto de apelidar a si mesmo de Apolo, o deus grego. O moço sequer sabia quem fora Apolo, mas sabia que era deus e assim chamava-se.

Logo, saiu da rodoviária e buscou no bolso o endereço de Bartolomeu, seu antigo professor de capoeira e dança dos tempos de escola que fizera sucesso na cidade da garoa com um estúdio.

Chegando lá deparou-se com seu conterrâneo que era seu oposto. Baixo, gordo, careca e aviadado.

- É vida de rei essa que leva aqui na cidade Bartolo.Comemorou Apolo.

Bartolomeu com toda sua pompa de fresco paulistanizado reforçou.

-Chamei de “Studio Of Dance” porque aqui pra sê chique tem que tê ingrêis.

-Estudi ófe dence é? Num é que se mainha visse ia dizê que é paulista memo.

Passaram-se semanas e Apolinário continuava dormindo no estúdio de dança de Bartolomeu, sem emprego e curtindo a noite paulistana.
Bartolo que namorava Alex, um sujeito com seus cinquenta anos e proprietário de uma danceteria numa esquina onde já havia funcionado uma padaria, dava passe livre ao antigo aluno para entrar de graça no forró. Apolinário que não bebia nem fumava não gastava dinheiro com nada, só tinha um vício na vida. Mulheres mais velhas, como ele mesmo dizia: - Quanto mais madura mais fácil de caí do pé.

Numa dessas noites de diversão no bar conhecera Clarinda e foi um desejo mútuo. A senhora muito distinta de quarenta e poucos, viúva há alguns anos tinha um corpo que não condizia com sua idade. Cabelos compridos e descoloridos com água oxigenada, um corpo duro e cheio de curvas que dava inveja a grande maioria das garotas do bairro, vestia roupas curtas que deixava os homens com a libido na altura dos olhos.
Os vizinhos diziam nunca terem visto Clarinda sem um salto alto e batom nem na feira de sábado que era montada na Rua João Goulart, parte de baixo do bairro Vila Nova York, onde morava.

No aniversário de um mês de namoro entre Clarinda e Apolinário o baiano já residia na casa da viúva. Continuava sem trabalhar e às custas da pensão do falecido sargento da polícia metropolitana. E o deus do ébano não demonstrava grande intenção de mudar sua rotina, acordava somente a tempo de ver o jornal de esportes e passava o dia satisfazendo a mulher que lhe sustentava, na cama até os passeios ao parque e ao shopping. Na feira a senhora andava sempre com seu namorado musculoso a tiracolo, Apolo não deixava sua amada carregar uma sacola sequer.

Neste conto de fadas havia apenas um problema, o filho já rapaz de Clarinda. O menino acabara de completar dezoito anos e toda a vizinhança comentava que ele parecia uma flor de tão educado e sensível. Diego nunca fora visto com uma garota e no bairro todos suspeitavam de seu relacionamento com seu amigo de infância Buiú Tripé. Tal apelido surgira dos vestiários da pelada nos fim de semana que Buiú frequentava.

Clarinda então irritadíssima com os comentários falsos dos vizinhos cobrava Apolo por uma atitude.

- Afinal você é o homem da casa ou num é? Meu falecido marido, que Deus o tenha, já teria tomado uma atitude há muito tempo. Será você tão afeminado como Dieguinho?

O baiano cansado da cobrança de sua mulher e receoso de perder a boa vida que levava decide-se apanhar a antiga pistola do falecido policial e seguir o enteado desmunhecado numa noite de sexta-feira, que era quando se encontrava na casa de Buiú com a desculpa de saírem para ver um lançamento qualquer no cinema.

Diego saia tomado banho de perfume e pedia para a mãe “Não me espere que volto tarde” e todo serelepe entrava na casa sendo aguardado por um Buiú nu, vestido apenas com seu quepe de capitão da marinha sentado no sofá, com velas espalhadas por todo o cômodo de cozinha e vinho barato.

Apolinário com a intenção de pegar o casal homossexual em flagrante, decide invadir depois de dez minutos ou mais. Pulou o portão num pulo só como um gato e em instantes já estava com a mão na maçaneta da porta que dava para a cozinha e o quarto do cubículo, foi quando viu os dois jovens deitados na cama sem roupa, só o quepe permanecia.

Mas que pouca vergonha é essa aqui Diego? Surpreendeu-se Apolo.

- Os garotos de súbito deram um pulo com a visita inesperada e tentavam se desculpar e vestir-se.

Não é nada disso que você está pensando. Precipitou-se Diego.
E os olhos do casal só miravam o revólver 38. do baiano.

Muito bonito memo. Quero ver até onde vai essa pouca vergonha. Ordenou Apolinário.

E com a arma apontada na direção da cama orquestrava o namoro dos garotos.

-Bora, continua. Puxa o cabelo dele Buiú. Beija esse peito cabeludo Diego. Continuava o deus negro.

Abriu a braguilha de seu jeans e disse: - Continua que eu to ficando doidin pra pula aí cum cês.



Bento.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

QUEM AMA DESCONFIA.

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Carolline tinha tudo o que um namoro recente poderia oferecer. Carinho beirando o exagero, atenção incondicional como assistência 24 horas, a qualquer hora e lugar, mesmo longe bastava um telefonema.
Tinha afeto e se sentia totalmente protegida nos braços de seu recente amor.

Tão protegida que se esquecia do mundo e as pessoas em sua volta tornavam-se imperceptíveis quando estavam juntos. O som que ouvia era somente o sussurro no ouvido dizendo o quanto era amada.

- Eu te amo.

- Não, eu te amo mais. Disputavam o casal. Essa era a única divergência entre eles.

Os pelos do corpo de Carolline ganhavam vida ao menor sinal de calor do corpo de seu amado.

Venâncio por sua vez tatuaria na testa se pudesse, que estava apaixonado, enfim apaixonado. Não que precisasse, pois qualquer um que já tivesse sentido uma fração qualquer de amor notaria por seu sorriso constante, sua vaidade aflorada, disposição exacerbada e senso de humor inesgotável que ele, Venâncio, encontrara aquele tal do amor.
O rapaz tinha aquela sensação de ansiedade que durava o dia todo, no início confundiu o frio na barriga com fome e ganhou dois quilos nas primeiras semanas de relacionamento, mas logo depois percebeu que o que sentia eram as borboletas esvoaçantes que deram cria em seu estômago e agora era primavera.

O futebol no fim de semana com os amigos de infância já não era tão divertido, exímio atacante que era, acostumado a fazer gols e criar comemorações diferentes com seu companheiro de ataque, nem comemorava mais e a pelada do sábado perdia os dribles e firulas do atacante.
Venâncio queria mesmo era estar com Carolline, todo tempo, o tempo todo.

- Deixe de ser fominha Venâncio, parece que nunca viu mulher. Guarda um pouco de perna para a pelada com a rapaziada. Cobrava seu amigo Garcia.
Sem dar ouvidos, Venâncio era só Carolline e vice-versa.

O garoto sempre fora o dono da mesa do bar, todos paravam para ouvir suas histórias, teorias e segredos de conquistas. Também era politizado e aguentava um porre como nenhum outro. A mesa perdera seu dono, o bar seu melhor e maior freguês e seu fígado agradeceu.

Mas se o leitor que perde seu tempo com essa criatura contadora de causos conhecer um mínimo de histórias de amor saberá que, assim como toda vida termina em morte, todo amor, por maior que seja, terá sempre um defeito incorrigível que se tornará insuportável e isso vai consumir aos poucos tudo o que tem de bom no amor, tal qual erva daninha.

- Amor tão grande assim tende a virar obsessão. Alertava D. Dulce, avó do galã apaixonado.

Então, Carolline que era só felicidade guardava dentro de si a ganância de sentimento. Todas as qualidades de seu amado iam se tornando cada vez mais simples e corriqueira. Acostuma-se com o que é bom e queres cada vez mais. Carolline era mulher das mais belas que se possa imaginar, pele que imitava a neve, lábios que lembravam morangos inclusive no sabor e um corpo que deixava toda a existência mais pecaminosa e como toda mulher, precisava se sentir desejada, mais desejada que o ar pelos pulmões.

Sempre que se afastava mesmo que por algumas horas de seu par já imaginava coisas horríveis e bolava planos mirabolantes em sua cabeça sobre o que o proprietário de seu coração estaria fazendo quando longe de seus olhos.

- Você me trai Venâncio Silva, nada me tira da cabeça que você me trai. Acusava a garota.

Venâncio por sua vez não cansava de dizer que os dois olhos que Deus lhe dera só enxergava a beleza estonteante daquela que o fazia feliz.

- Furo meus dois olhos se isso fizer com que acredite em mim minha flor de laranjeira, só você me basta. Prometia em vão o garoto dono de olhos castanhos.

Nada que ele fizesse acalentava o coração de Carol. Por vezes seguira seu amado no caminho da venda onde trabalhava, chegara a pedir que uma amiga fosse até lá com a desculpa de comprar frutas e desse bola para o namorado afim de testar sua fidelidade. Mas Venâncio educadamente cortara as asas da amiga-auditora dizendo ter namorada e que a amava mais que tudo.

Claro que não fora o bastante.

- Aquele cachorro deve ter percebido o plano. Insistia a ciumenta.

Venâncio já se sentia sufocado e insultado pela desconfiança. Deixara algumas amizades femininas de lado para evitar acusações infundadas, sem sucesso.

- Quem tanto desconfia é porque tá devendo. Profetizava D. Dulce.

Mas o amor do neto de D. Dulce era grande demais para alimentar qualquer dúvida, porém, a avó nunca se enganava, pouco dizia, mas quando abria a boca era tiro certeiro.

Venâncio achava-se um idiota por desconfiar de sua namorada, achando que só o fato de pensar que era possível já era uma traição.

- Carol estava certa, eu sou uma ameba mesmo de desconfiar de uma santa. Punia-se o coitado.

E contra todas as suas forças o garoto decidiu aparecer de surpresa em frente à escola de idiomas onde Carolline estudava inglês. Na frente da escola havia um pequeno boteco onde Venâncio jogava dominó algum tempo atrás, encostara no balcão para saudar Seu Botelho, o dono e pedir o de sempre. Campari e um ovo colorido para acompanhar.

Donde estava era possível ver a saída do prédio escolar sem ser visto pelos estudantes devido a baixa iluminação da garagem que fora improvisado o Bar do Botelho e ficou aguardando enquanto falavam de futilidades e a zaga da Portuguesa para o Brasileirão. Contou ao amigo sobre o afeto incondicional pela garota de pele clara, o ciúme dela e o alerta de sua avó.

Botelho que ouvira milhares de histórias parecidas devido aos anos de balconista mantinha-se calado e com uma das sobrancelhas levantada enquanto o garoto desabafava. Ao término do testemunho, serviu mais uma dose para Venâncio e também uma para ele próprio. Já imaginava o que estaria por vir, então decidiu falar:

-Olha campeão, eu vim lá do interior desde muito cedo. Já me ajuntei cum três donas até hoje e agora tô só que nem quando cheguei aqui. E se tem uma lição que aprendi cum tudo isso é num fazê pergunta que eu num quero escutá a resposta. Entendeu?

Venâncio entendera, mas já estava decidido, ficaria ali até ver quem estava certo, ele ou D. Dulce.
Enquanto aguardava, a dupla vê estacionar em frente o bar um daqueles carros luxuosos, importado com certeza, vidros escuros e blindados. Carro de empresário.

- Esse aí tem até banheiro. Exagerou o barman.

O carro estaciona, recolhem-se os espelhos retrovisores automaticamente, abrem-se as portas e saem de dentro do automóvel um casal.
O motorista, homem por volta de seus quarenta anos, camisa aberta no colarinho, abotoaduras nos punhos e celular nos tímpanos. Alheio a tudo que acontecia a sua volta.
A garota que saíra do carro tinha a pele clara e um rosto estupidamente lindo, com óculos escuros para proteger os olhos do sol e um vestido que parecia tão caro quanto o carro, era uma madame sem tirar nem por.

Esse é o dono da escola aí da frente e mais o quarteirão inteiro. Noticiou Botelho ao amigo. - Só assim prum rabo de saia com essa idade andar pra cima e pra baixo cúm homão feito desse.

Essazinha aí tá sempre com ele? Perguntou o garoto e teve a resposta que não queria ouvir.

Todo santo dia. Como unha a carne.

Botelho ainda não sabia, mas a garota luxuosa, coberta de joias e encantadoramente bela já estivera nos braços de Venâncio um dia antes dizendo que o amava e fazendo da vida dele um inferno de tanto ciúmes. A madame era Carolline, coberta de luxo, mas ainda Carolline.
O coração do garoto da venda mantinha-se batendo em um ritmo impressionante dentro do peito que era de se surpreender que não pulara fora da camisa. Não se sabe até hoje como Venâncio teve autocontrole suficiente para pedir que Botelho servisse mais uma dose de Campari, que fora o pretexto para que o dono lhe desse às costas e ter tempo de pegar a espingarda guardada atrás do balcão. Todos que frequentavam o boteco sabiam da existência da arma, que servia para evitar quebra-quebras e brigas daqueles que bebiam além da conta, além de assaltos, é claro.

Com a arma de grosso calibre às costas Venâncio tomou a dose num só gole, limpou a boca com as costas da mão e saiu em disparada para fora do bar.

Puta que pariu! Ouvira o dono da arma dizer ao fundo.

O empresário que falava ao telefone portátil assustou-se com o estrondo e ao se virar para ver a origem da explosão avistou um jovem com os braços cobertos de tatuagens e camisa xadrez com os olhos marejados e uma espingarda ainda fumegante nas mãos. Sua mais recente conquista, uma garota linda que conhecera há algumas semanas, deitada no chão perto do carro, seu vestido novo todo ensanguentado e pedaços de tripas e estômago espalhados por toda a calçada.
Toda aquela cena o fez empalidecer e enjoar a ponto de querer vomitar, mas o medo era tanto que a única coisa que passou pela cabeça foi levantar os braços para o alto.

- Leve o carro mas não me machuque. Choramingou.

Venâncio caminhou como se não estivesse ouvido o empresário, ajoelhou-se rente ao corpo do grande amor de sua vida, com a mão na nuca de Carolline trouxe aquele rosto lindo próximo ao seu e chorou.

- Vê como eu te amo? Vê como não te traio? Ó meu amor...


Bento.

sábado, 7 de janeiro de 2012

COMO O DESINFETANTE QUE DISFARÇA O CHEIRO MAS NÃO LIMPA A SUJEIRA

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Não era a felicidade propriamente dita que fazia Hélio sorrir. Era a maldade.
Era só a possibilidade da vingança, não era ninguém específico, talvez vingar-se-ia dele mesmo, de seu sofrimento, talvez do mundo, era certo que Deus seria uma das vítimas.
Hélio, como todos, era casca e suco. A casca era belíssima, daquelas que enganam as senhoras ingênuas na banca do feirante. O suco que, sem o açúcar da vida, era amargo, acre, azedo, semipodre. Talvez podre.

As pessoas viam seu sorriso e devolviam a gentileza, certas de que estavam presenciando uma vida feliz, enganadas.
Aquilo era sorriso de ódio, de malícia, de planos mirabolantes sendo planejados e que ao colocá-los em prática entraria em transe com sua overdose de prazer.


Passou tanto tempo desejando a morte que só por isso continuava vivo, afinal o destino tratava sempre de contrariá-lo.
Enganou-se quem achava que o motivo pelo qual ele não mais chorava fosse por ele ter se fortalecido com a dor e que com o tempo aprendeu a lidar com aquilo.
Não chorava mais, pois não sobraram lágrimas em seus olhos, secou-se, como seu espírito, secou-se.

Sobrou-lhe a violência da angústia, a miséria de sua alma e a podridão de seus sorrisos de desespero perante o vasilhame etílico e os comprimidos de absolvição.



Bento.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SIMPLIFICANDO O POSSÍVEL

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Numa conversa familiar entre homens estávamos falando sobre a juventude carnavalesca de hoje, sexualmente falando.
E percebi que eu defendia, claro, o lado da liberdade e da libertinagem, mas me dei conta que eu mesmo não era praticante do alvo de minha própria defesa, não mais, não mais porquê, porquê, porquê... Porque carnaval todos os dias do ano perde toda a graça. Porque depois de algum tempo as fantasias perdem a originalidade, as plumas de pavão vão perdendo o brilho e todo folião esgota-se de cansaço e mesmo o mais festeiro sente saudades da rotina do escritório-casa e casa-escritório.

Hoje eu dou mais valor a simplicidade da serenata.


Bento.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O DEUS DO EU SOZINHO

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Eu sei de cada erro, cada defeito, de cada vírgula sobre o desagrado que é minha personalidade.
Ouço minha vida narrada por bocas alheias e concordo com tudo.
Sei de minha aspereza, sei do poder de estrago que minhas palavras exercem na minha vida e na vida dos que me rodeiam.
Sei que sou mal humorado, estressado, entediado, agressivo, irônico em excesso, sarcástico além do limite, estúpido fora de hora e rebelde sem causa, com causa e as claras.
Sei que pode parecer inevitável não vestir a carapuça, mas não o façam, isso não é indireta para ninguém, sou eu quem está dizendo. É mais um texto autoral, como sempre terá a minha assinatura no final disso tudo.

Aliás, muita gente me julga desta forma não por ter degustado deste veneno, mas sim porque ouviu essas características de minha própria boca, como um marketing pessoal. Às avessas.
E então, nessa revolta, dizem que eu não gosto de nada e isso nunca será verdade.
Gosto de um monte de coisas, porém poucas coisas me agradam.
Eu gosto do que é impuro por exemplo. Gosto de parecer velho mentalmente, às vezes.

Gosto do que é errado, mas sem ferir ninguém, a não ser que seja eu.
Gosto da vaidade.
Gosto do que é amargo, salgado, pois assim nunca me esqueço do sabor da vida.
Gosto da casualidade de acordar sempre alguém diferente.
Gosto de tudo que não tem pudor, gosto do sexual, do carnal, do pecaminoso.

Gosto do que é obscuro e não pode ser explicado, torna-se essencialmente reflexivo e faz exercitar a ferramenta de pensar.
Gosto de quebrar a cabeça.
Gosto de entrar numa sala e tentar imaginar quem são àquelas pessoas que eu nunca vi na minha vida e imaginar as piores coisas do mundo sobre elas.
Gosto de luz de velas porque são inconstantes como eu, nunca se sabe quando irá se apagar.

Gosto de predestinar o meu dia sabendo que no fim, a maior parte dos planos dará errado.
Gosto de saber que não tenho nada do que quero, as pessoas acham que tenho tudo de que preciso e assim a vida segue.
Gosto do que é velho, antigo, pois tudo isso me parece tão mais original do que o novo de hoje em dia. Por isso gosto de pessoas espontâneas, com pensamentos ativos e de personalidade. Aquelas que defendem suas opiniões, mas que não tenha vergonha de muda-las se acharem conveniente.
Aliás, gosto do que me é conveniente, mas nem sempre.

Gosto de lugares pequenos e aconchegante, fica mais fácil controlar os pensamentos, por isso, por mais que um dia eu venha ter a possibilidade jamais morarei em mansões enormes.
Gosto da liberdade de dizer, pensar e fazer o que bem entender. Cantar onde quer que esteja, dançinhas secretas em casa e rir das próprias piadas.
Gosto de ouvir risadas, principalmente as minhas.
Gosto de rituais, mas só os racionais.

Gosto mais dos aniversários alheios do que dos meus.
Gosto do frio em casa e calor na rua.
Gosto de olhos azuis, claro que gosto, mas os castanhos...
E por falar em gosto, houve época que já tive mais paladar.

Gosto do fato de que por mais que me odeiem ainda há respeito.
Gosto de pessoas sinceras e desequilibradas, tudo fica mais autêntico.
Ultimamente tenho gostado de ficar de pernas para o ar só ouvindo o escuro.
Gosto de saber que tudo que acontece de ruim é por minha causa, só por minha causa, logo as poucas coisas boas são méritos meus também e ninguém irá me tirar isso. E se sou eu o responsável pelo bem e pelo mal, chego à conclusão de que sou meu próprio deus. O deus do eu sozinho.


Bento.

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