terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A CIGANA

-


Estava sol. Um sol desgraçado e eu precisava de água.
Minha gastrite atacando há dias, puta gastrite desgraçada...

Depois de esperar o ônibus, pegar o ônibus, descer do ônibus, esperar metrô, pegar metrô, descer do metrô, dor. Ô dor...

Tenho uma multidão me seguindo, isso é São Paulo meu amigo, aonde quer que vá haverá sempre uma multidão te seguindo, em todos os lugares...

Multidão, táxis, camelôs, panfleteiros, hippies e... Ciganos.
Fala sério! Ciganos?

Pensei logo em atravessar a rua, não queria ninguém lendo a minha sorte até porque a dor falava alto, quase gritava para eu chegar em casa, beber água e dormir. Minha cama e meu ventilador...

Mas o farol estava aberto, ao meu lado corriam pela avenida carros, caminhões, motocicletas, ônibus. Do outro lado era só grade e mais grade e a multidão me empurrava ao caminho da cigana...

E o tempo que perdi pensando na cama e no ventilador só fez com que eu me aproximasse mais da cigana velha e ela já olhava para mim. Mirava-me com aqueles olhos amarelos, ela já havia escolhido seu alvo e era eu, certeza. Percebia-se sua respiração ofegante só me aguardando e a minha respiração também ofegante pela dor e pela possibilidade de ter que parar, fingir-me interessado, ouvir lorotas e sandices e ainda ter de pagar por isso. Fora a dor...

Desesperado eu já pensei se não era melhor eu tentar atravessar no meio de carros, caminhões, motocicletas, ônibus torcendo para chegar do outro lado ileso, ou quem sabe ter a sorte de um carro me acertar no meio da corrida e assim ganhar uma carona para casa, sem dor, do que ter que enfrentar a cigana velha e suas mãos imundas, suas unhas enormes e pretas de sujeira com seu esmalte vermelho desbotado e mal pintado. Sua pele cinza fazia parecer que ela era ainda mais velha... E morta. É bem verdade que ela não fazia parte do clichê de verrugas no nariz, mas nem por isso deixava de ser grande àquilo que tinha no rosto. Era sem sombra de dúvidas o maior nariz que eu já tinha visto e olha que de tamanho de nariz eu entendo um pouco.
No caso desta cigana as verrugas abriram mão do nariz e escolheram a testa como moradia, duas verrugas grandes e negras que lembravam chifres e ela não fazia questão nenhuma de esconder com seu pano encardido e empapado de suor que tinha amarrado na cabeça, era agora...

Mais seis ou sete passos e a nariguda de vestes coloridas iria pegar o meu pulso e me forçar sentir aquele hálito podre, com seus poucos dentes - três ou quatro- também podres e seu sorriso macabro sem que eu nada pudesse fazer.
Voltar era impossível, parar também, os passantes me atropelariam como fariam os carros, caminhões, motocicletas, ônibus. Era agora...

Se o que não tem remédio remediado está, eu estava pronto, com músculos contraídos, já separei mentalmente as notas da carteira que daria para ela, nada mais do que cinco paus e já tava de bom tamanho. E o momento chegou, a cigana se colocou na minha frente, pediu a minha mão com seu sorriso de Lúcifer, me segurou com firmeza e ficou muda ao baixar os olhos amarelos para minha palma.

Passaram-se dois ou três minutos, impossível afirmar ao certo. E a cigana sem dizer uma palavra. Seus olhos amarelos cor de pus não saíam das rugas em minha mão, e nada de abrir a boca para me dizer qualquer coisa.
Então quando eu estava prestes a arrancar minha mão daquelas unhas putrefatas ela me larga, me dá as costas e vai para o meio das outras ciganas como se nada tivesse acontecido, como se eu não existisse e nem sequer esperou pelo pagamento.

A curiosidade mata o gato e com certeza os passantes com gastrite e irritadiços, logo, fui atrás dela para saber o que me aguardava, eram tantas perguntas. Aquela dor iria passar? O maldito calor iria embora? Eu conseguiria chegar em casa? O mundo acabaria mesmo em 2012? O Corinthians seria campeão da Libertadores?... Enfim. Tanto para saber.

Com o dedo indicador cutuquei seu ombro meio enojado afim de que ela se virasse para que eu pudesse olhá-la e ela virou-se. E parecia agora ainda mais feia.

-Vai-te embora daqui caboclo. Gritou a nariguda.

-Eu adoraria, você nem imagina. Mas eu quero saber o que você viu quando leu minha mão.

-Não posso. Saia daqui! Voltou a gritar.

-Eu tenho dinheiro, veja... E eu já deixei as notas pequenas de lado e quis entregar-lhe uma de vinte paus para convencê-la a falar. Mas ela negou.

-Mas e minha sorte? Perguntei já desesperado.

-Você filho, não tem sorte. Cuide-se.



Bento.


-

6 comentários:

Elaine Cristina disse...

Caracas!!!
Ótimo texto, como sempre Bento!!!

Qdo eu crescer, quero ser igual vc...

Bjos!

Luciana Santa Rita disse...

Bento,

Posso falar que essa foi genial, estupenda ou diria manjar. Vejo que você fugiu da sorte ou quem sabe se perdeu nela. Talvez, o próximo passo seria entender a sorte e aí você poderia se ver nela.

Beijos.

Lu

Bento Qasual disse...

Obrigado Laine, mas bate na boca, não deseje essas coisas para você não, eu não desejo nem para mim.

rsrs

Obrigado pela visita meu anjo!
bjobjo

Bento Qasual disse...

Lú, eu acredito que sorte e destino são a mesma coisa e como eu costumo dizer, o destino gosta de satirizar com a minha vida na maioria dos casos. Pense em mim como o pão com manteiga, que quando cair será sempre com a cara no chão!

rsrs

bjobjo Luzinha. Obrigado por sempre setar-se a mesa comigo.

Anônimo disse...

Olha, o Corinthians não será campeão da Libertadores, isso qualquer um sabe! uhauhauhahua

Bento Qasual disse...

Puxa!!!Um comentário tão original para não ser assinado meu caro...