segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

DEUS DO ÉBANO

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O ônibus acabara de chegar à rodoviária da Barra Funda, depois de tanto tempo de viagem famílias inteiras desembarcavam com seus olhos arregalados ao ver tanta gente junta. Rapazes que tentavam a sorte na cidade grande. E se tratando de São Paulo, põe grande nisso.

Todos fadigados pela viagem longa, apertados no ônibus de viagem sem ar condicionado esticavam os músculos do corpo se espreguiçando, menos Apolinário.
Vinte e cinco anos de muita saúde, o rapaz tinha uma negritude de dar inveja no dono da palavra ébano. Baiano nascido em Salvador, veio direto do pelourinho tentar a sorte aqui na capital. Lá na cidade de todos os santos tentara de tudo, de dançarino de axé até vendedor de acarajé. Mas Apolinário queria mais, queria ser empresário, vestir terno e tudo mais, sua mãe sempre dizia com a pretensão de tirar-lhe um pouco dos sonhos da cabeça: -Meu filho negro, baiano, cum esse cabelo cheio de vela vai trabaia do quê em Sunpaulo? Vai é quebra a cara lá longe!

Mas Apolinário fez as trouxas mesmo assim.
Na altura de seus 1,95 metros passava grande parte do seu tempo na academia Palácio onde gastava o dinheiro adquirido com a venda de acarajés, colares e pulseiras que fazia com as conchas recolhidas na beira do mar e vendia para turistas europeus e americanos. Logo, tinha um corpo estrutural a ponto de apelidar a si mesmo de Apolo, o deus grego. O moço sequer sabia quem fora Apolo, mas sabia que era deus e assim chamava-se.

Logo, saiu da rodoviária e buscou no bolso o endereço de Bartolomeu, seu antigo professor de capoeira e dança dos tempos de escola que fizera sucesso na cidade da garoa com um estúdio.

Chegando lá deparou-se com seu conterrâneo que era seu oposto. Baixo, gordo, careca e aviadado.

- É vida de rei essa que leva aqui na cidade Bartolo.Comemorou Apolo.

Bartolomeu com toda sua pompa de fresco paulistanizado reforçou.

-Chamei de “Studio Of Dance” porque aqui pra sê chique tem que tê ingrêis.

-Estudi ófe dence é? Num é que se mainha visse ia dizê que é paulista memo.

Passaram-se semanas e Apolinário continuava dormindo no estúdio de dança de Bartolomeu, sem emprego e curtindo a noite paulistana.
Bartolo que namorava Alex, um sujeito com seus cinquenta anos e proprietário de uma danceteria numa esquina onde já havia funcionado uma padaria, dava passe livre ao antigo aluno para entrar de graça no forró. Apolinário que não bebia nem fumava não gastava dinheiro com nada, só tinha um vício na vida. Mulheres mais velhas, como ele mesmo dizia: - Quanto mais madura mais fácil de caí do pé.

Numa dessas noites de diversão no bar conhecera Clarinda e foi um desejo mútuo. A senhora muito distinta de quarenta e poucos, viúva há alguns anos tinha um corpo que não condizia com sua idade. Cabelos compridos e descoloridos com água oxigenada, um corpo duro e cheio de curvas que dava inveja a grande maioria das garotas do bairro, vestia roupas curtas que deixava os homens com a libido na altura dos olhos.
Os vizinhos diziam nunca terem visto Clarinda sem um salto alto e batom nem na feira de sábado que era montada na Rua João Goulart, parte de baixo do bairro Vila Nova York, onde morava.

No aniversário de um mês de namoro entre Clarinda e Apolinário o baiano já residia na casa da viúva. Continuava sem trabalhar e às custas da pensão do falecido sargento da polícia metropolitana. E o deus do ébano não demonstrava grande intenção de mudar sua rotina, acordava somente a tempo de ver o jornal de esportes e passava o dia satisfazendo a mulher que lhe sustentava, na cama até os passeios ao parque e ao shopping. Na feira a senhora andava sempre com seu namorado musculoso a tiracolo, Apolo não deixava sua amada carregar uma sacola sequer.

Neste conto de fadas havia apenas um problema, o filho já rapaz de Clarinda. O menino acabara de completar dezoito anos e toda a vizinhança comentava que ele parecia uma flor de tão educado e sensível. Diego nunca fora visto com uma garota e no bairro todos suspeitavam de seu relacionamento com seu amigo de infância Buiú Tripé. Tal apelido surgira dos vestiários da pelada nos fim de semana que Buiú frequentava.

Clarinda então irritadíssima com os comentários falsos dos vizinhos cobrava Apolo por uma atitude.

- Afinal você é o homem da casa ou num é? Meu falecido marido, que Deus o tenha, já teria tomado uma atitude há muito tempo. Será você tão afeminado como Dieguinho?

O baiano cansado da cobrança de sua mulher e receoso de perder a boa vida que levava decide-se apanhar a antiga pistola do falecido policial e seguir o enteado desmunhecado numa noite de sexta-feira, que era quando se encontrava na casa de Buiú com a desculpa de saírem para ver um lançamento qualquer no cinema.

Diego saia tomado banho de perfume e pedia para a mãe “Não me espere que volto tarde” e todo serelepe entrava na casa sendo aguardado por um Buiú nu, vestido apenas com seu quepe de capitão da marinha sentado no sofá, com velas espalhadas por todo o cômodo de cozinha e vinho barato.

Apolinário com a intenção de pegar o casal homossexual em flagrante, decide invadir depois de dez minutos ou mais. Pulou o portão num pulo só como um gato e em instantes já estava com a mão na maçaneta da porta que dava para a cozinha e o quarto do cubículo, foi quando viu os dois jovens deitados na cama sem roupa, só o quepe permanecia.

Mas que pouca vergonha é essa aqui Diego? Surpreendeu-se Apolo.

- Os garotos de súbito deram um pulo com a visita inesperada e tentavam se desculpar e vestir-se.

Não é nada disso que você está pensando. Precipitou-se Diego.
E os olhos do casal só miravam o revólver 38. do baiano.

Muito bonito memo. Quero ver até onde vai essa pouca vergonha. Ordenou Apolinário.

E com a arma apontada na direção da cama orquestrava o namoro dos garotos.

-Bora, continua. Puxa o cabelo dele Buiú. Beija esse peito cabeludo Diego. Continuava o deus negro.

Abriu a braguilha de seu jeans e disse: - Continua que eu to ficando doidin pra pula aí cum cês.



Bento.

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Um comentário:

Luciana Santa Rita disse...

Divino! Acho que Apolinário antes de sair da Bahia nem tinha pedido para os Orixás abençoarem tanta fartura, como se fala por aqui.
Beijos.
Lu