sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

QUEM AMA DESCONFIA.

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Carolline tinha tudo o que um namoro recente poderia oferecer. Carinho beirando o exagero, atenção incondicional como assistência 24 horas, a qualquer hora e lugar, mesmo longe bastava um telefonema.
Tinha afeto e se sentia totalmente protegida nos braços de seu recente amor.

Tão protegida que se esquecia do mundo e as pessoas em sua volta tornavam-se imperceptíveis quando estavam juntos. O som que ouvia era somente o sussurro no ouvido dizendo o quanto era amada.

- Eu te amo.

- Não, eu te amo mais. Disputavam o casal. Essa era a única divergência entre eles.

Os pelos do corpo de Carolline ganhavam vida ao menor sinal de calor do corpo de seu amado.

Venâncio por sua vez tatuaria na testa se pudesse, que estava apaixonado, enfim apaixonado. Não que precisasse, pois qualquer um que já tivesse sentido uma fração qualquer de amor notaria por seu sorriso constante, sua vaidade aflorada, disposição exacerbada e senso de humor inesgotável que ele, Venâncio, encontrara aquele tal do amor.
O rapaz tinha aquela sensação de ansiedade que durava o dia todo, no início confundiu o frio na barriga com fome e ganhou dois quilos nas primeiras semanas de relacionamento, mas logo depois percebeu que o que sentia eram as borboletas esvoaçantes que deram cria em seu estômago e agora era primavera.

O futebol no fim de semana com os amigos de infância já não era tão divertido, exímio atacante que era, acostumado a fazer gols e criar comemorações diferentes com seu companheiro de ataque, nem comemorava mais e a pelada do sábado perdia os dribles e firulas do atacante.
Venâncio queria mesmo era estar com Carolline, todo tempo, o tempo todo.

- Deixe de ser fominha Venâncio, parece que nunca viu mulher. Guarda um pouco de perna para a pelada com a rapaziada. Cobrava seu amigo Garcia.
Sem dar ouvidos, Venâncio era só Carolline e vice-versa.

O garoto sempre fora o dono da mesa do bar, todos paravam para ouvir suas histórias, teorias e segredos de conquistas. Também era politizado e aguentava um porre como nenhum outro. A mesa perdera seu dono, o bar seu melhor e maior freguês e seu fígado agradeceu.

Mas se o leitor que perde seu tempo com essa criatura contadora de causos conhecer um mínimo de histórias de amor saberá que, assim como toda vida termina em morte, todo amor, por maior que seja, terá sempre um defeito incorrigível que se tornará insuportável e isso vai consumir aos poucos tudo o que tem de bom no amor, tal qual erva daninha.

- Amor tão grande assim tende a virar obsessão. Alertava D. Dulce, avó do galã apaixonado.

Então, Carolline que era só felicidade guardava dentro de si a ganância de sentimento. Todas as qualidades de seu amado iam se tornando cada vez mais simples e corriqueira. Acostuma-se com o que é bom e queres cada vez mais. Carolline era mulher das mais belas que se possa imaginar, pele que imitava a neve, lábios que lembravam morangos inclusive no sabor e um corpo que deixava toda a existência mais pecaminosa e como toda mulher, precisava se sentir desejada, mais desejada que o ar pelos pulmões.

Sempre que se afastava mesmo que por algumas horas de seu par já imaginava coisas horríveis e bolava planos mirabolantes em sua cabeça sobre o que o proprietário de seu coração estaria fazendo quando longe de seus olhos.

- Você me trai Venâncio Silva, nada me tira da cabeça que você me trai. Acusava a garota.

Venâncio por sua vez não cansava de dizer que os dois olhos que Deus lhe dera só enxergava a beleza estonteante daquela que o fazia feliz.

- Furo meus dois olhos se isso fizer com que acredite em mim minha flor de laranjeira, só você me basta. Prometia em vão o garoto dono de olhos castanhos.

Nada que ele fizesse acalentava o coração de Carol. Por vezes seguira seu amado no caminho da venda onde trabalhava, chegara a pedir que uma amiga fosse até lá com a desculpa de comprar frutas e desse bola para o namorado afim de testar sua fidelidade. Mas Venâncio educadamente cortara as asas da amiga-auditora dizendo ter namorada e que a amava mais que tudo.

Claro que não fora o bastante.

- Aquele cachorro deve ter percebido o plano. Insistia a ciumenta.

Venâncio já se sentia sufocado e insultado pela desconfiança. Deixara algumas amizades femininas de lado para evitar acusações infundadas, sem sucesso.

- Quem tanto desconfia é porque tá devendo. Profetizava D. Dulce.

Mas o amor do neto de D. Dulce era grande demais para alimentar qualquer dúvida, porém, a avó nunca se enganava, pouco dizia, mas quando abria a boca era tiro certeiro.

Venâncio achava-se um idiota por desconfiar de sua namorada, achando que só o fato de pensar que era possível já era uma traição.

- Carol estava certa, eu sou uma ameba mesmo de desconfiar de uma santa. Punia-se o coitado.

E contra todas as suas forças o garoto decidiu aparecer de surpresa em frente à escola de idiomas onde Carolline estudava inglês. Na frente da escola havia um pequeno boteco onde Venâncio jogava dominó algum tempo atrás, encostara no balcão para saudar Seu Botelho, o dono e pedir o de sempre. Campari e um ovo colorido para acompanhar.

Donde estava era possível ver a saída do prédio escolar sem ser visto pelos estudantes devido a baixa iluminação da garagem que fora improvisado o Bar do Botelho e ficou aguardando enquanto falavam de futilidades e a zaga da Portuguesa para o Brasileirão. Contou ao amigo sobre o afeto incondicional pela garota de pele clara, o ciúme dela e o alerta de sua avó.

Botelho que ouvira milhares de histórias parecidas devido aos anos de balconista mantinha-se calado e com uma das sobrancelhas levantada enquanto o garoto desabafava. Ao término do testemunho, serviu mais uma dose para Venâncio e também uma para ele próprio. Já imaginava o que estaria por vir, então decidiu falar:

-Olha campeão, eu vim lá do interior desde muito cedo. Já me ajuntei cum três donas até hoje e agora tô só que nem quando cheguei aqui. E se tem uma lição que aprendi cum tudo isso é num fazê pergunta que eu num quero escutá a resposta. Entendeu?

Venâncio entendera, mas já estava decidido, ficaria ali até ver quem estava certo, ele ou D. Dulce.
Enquanto aguardava, a dupla vê estacionar em frente o bar um daqueles carros luxuosos, importado com certeza, vidros escuros e blindados. Carro de empresário.

- Esse aí tem até banheiro. Exagerou o barman.

O carro estaciona, recolhem-se os espelhos retrovisores automaticamente, abrem-se as portas e saem de dentro do automóvel um casal.
O motorista, homem por volta de seus quarenta anos, camisa aberta no colarinho, abotoaduras nos punhos e celular nos tímpanos. Alheio a tudo que acontecia a sua volta.
A garota que saíra do carro tinha a pele clara e um rosto estupidamente lindo, com óculos escuros para proteger os olhos do sol e um vestido que parecia tão caro quanto o carro, era uma madame sem tirar nem por.

Esse é o dono da escola aí da frente e mais o quarteirão inteiro. Noticiou Botelho ao amigo. - Só assim prum rabo de saia com essa idade andar pra cima e pra baixo cúm homão feito desse.

Essazinha aí tá sempre com ele? Perguntou o garoto e teve a resposta que não queria ouvir.

Todo santo dia. Como unha a carne.

Botelho ainda não sabia, mas a garota luxuosa, coberta de joias e encantadoramente bela já estivera nos braços de Venâncio um dia antes dizendo que o amava e fazendo da vida dele um inferno de tanto ciúmes. A madame era Carolline, coberta de luxo, mas ainda Carolline.
O coração do garoto da venda mantinha-se batendo em um ritmo impressionante dentro do peito que era de se surpreender que não pulara fora da camisa. Não se sabe até hoje como Venâncio teve autocontrole suficiente para pedir que Botelho servisse mais uma dose de Campari, que fora o pretexto para que o dono lhe desse às costas e ter tempo de pegar a espingarda guardada atrás do balcão. Todos que frequentavam o boteco sabiam da existência da arma, que servia para evitar quebra-quebras e brigas daqueles que bebiam além da conta, além de assaltos, é claro.

Com a arma de grosso calibre às costas Venâncio tomou a dose num só gole, limpou a boca com as costas da mão e saiu em disparada para fora do bar.

Puta que pariu! Ouvira o dono da arma dizer ao fundo.

O empresário que falava ao telefone portátil assustou-se com o estrondo e ao se virar para ver a origem da explosão avistou um jovem com os braços cobertos de tatuagens e camisa xadrez com os olhos marejados e uma espingarda ainda fumegante nas mãos. Sua mais recente conquista, uma garota linda que conhecera há algumas semanas, deitada no chão perto do carro, seu vestido novo todo ensanguentado e pedaços de tripas e estômago espalhados por toda a calçada.
Toda aquela cena o fez empalidecer e enjoar a ponto de querer vomitar, mas o medo era tanto que a única coisa que passou pela cabeça foi levantar os braços para o alto.

- Leve o carro mas não me machuque. Choramingou.

Venâncio caminhou como se não estivesse ouvido o empresário, ajoelhou-se rente ao corpo do grande amor de sua vida, com a mão na nuca de Carolline trouxe aquele rosto lindo próximo ao seu e chorou.

- Vê como eu te amo? Vê como não te traio? Ó meu amor...


Bento.

11 comentários:

Sabrina gomes disse...

Nossa, dificilmente um texto consegue me prender do começo ao fim. Adorei ! Carolinne e Venâncio retratam a maioria dos relacionamentos por aí que resultam em fins trágicos :/ Olha, gostei tanto que vou até seguir.

www.spiderwebs.tk

Victor Von Serran disse...

Tudo em excesso faz mal....até amor !

Cissa Romeu disse...

Bento, tudo bem?
Gostei do jeito que você escreve, achei fluente, criativo (coisa difícil de se encontrar...) :)
Deu a sensação de uma história de bar, daquelas que os amigos contam numa mesa, ficou bem interessante.

Excessos, descontrole... Bem que poderíamos ter controle no excesso, mas daí não seria excesso, seria abcesso? rsrs

Estou seguindo! Espaço muito bom este! Se quiser conhecer o meu, aparece lá.

Beijos

Malvo&Woodstock disse...

Muito legal o texto, forte e o tamanho - que é um pouco assustador no inicio - nem é percebido quando se perde entre as palavras. Gostei mesmo, vou seguir ;*

Raehli Hage
http://nidum.blogspot.com/

Jacqueline disse...

Muito bom o texto me surpreendi com o desfecho.Tanto amor! Estava esperando um final feliz e acabou em crime passional.

Ana Carolina Paiva dos Santos disse...

Está parecendo a situação que o meu irmão viveu mês passado,sem tirar nem por,exceto é claro,que ele enfiou o rabo entre as pernas e foi chorar escondido,tentou se matar mas não a ela que continua a sua pura e santa namorada. Ai,ai! Há amores e amores e reações improváveis. Eu sou assumidamente ciumenta,o que não adianta muito afinal o meu marido me trai do mesmo modo com um sorriso no rosto,tudo depende da personalidade da pessoa.Eu nasci para ser de um homem só e gostaria de ter reciprocidade,portanto a única opção que me resta é sofrer,não importa se vai ser perto ou longe,longe digo cada um para o seu lado, o fato é que sempre irei sofrer e isso é péssimo.Excelente texto,gostei muito do final,era um bom rapaz,ela é que não soube respeitá-lo.

Bento Qasual disse...

Ana Carolina - que é quase uma xará de nossa personagem - eu sou assumidamente contra a traição, o que sem sombra de dúvida traz um pouco de espanto quando na roda de amigos ou na mesa do bar. Claro que já errei na vida, mas o importante é corrigir as coisas que nos incomodam e incomodam aos que amamos.
O que tenho a te dizer é que assim como eu sou contra deve haver milhares de bons homens por aí que pensam como eu, sendo assim, se é algo que verdadeiramente te incomoda, corra para quebrar essas correntes do medo de se arrepender. Caso contrário será a mulher de um homem só, mas não a única mulher do mesmo homem.
Pena.

Obrigado pela visita e os elogios, volte sempre.
bjobjo

Bento.

Bento Qasual disse...

Obrigado ao Malvo&Woodstock e a Jaqueline. A vida também é meio assim, ficamos esperando um final feliz e de repente...


Bento.

Bento Qasual disse...

CISSA, "Deu a sensação de uma história de bar, daquelas que os amigos contam numa mesa, ficou bem interessante." a intenção de todos os meus textos é exatamente essa. "Histórias de bar", de acordo com você, cheguei a perfeição.

Obrigado pela visita.
bjobjo


Bento.

Viviane disse...

Olha, já vivi um caso de ciumes assim, e não é nada saudável, mas no meu caso deram certo as coisas, e hoje sou feliz. Amei seu texto, de tão real me peguei emocionada lendo. Vc escreveu a realidade das carências humanas. Parabéns, seguindo seu blog, adorei seu espaço.

Beijos
Viviane

Razão e Resenhas
http://vivianeblood.blogspot.com/

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

Caraaaaaaca man! que texto foda!
depois passsa lá:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2012/01/lobisomens-persas-origem-3-parte.html