domingo, 26 de fevereiro de 2012

TODO POETA É TRISTE POR PROFISSÃO

-


Ser sozinho é observar o silêncio como um semelhante.
A solidão é a madrasta rechonchuda que compartilha de suas derrotas, mas nunca o seu sucesso.
A solidão será sempre mais requintada, sempre mais bela e admirada. É por isso que filmes dramáticos sempre ganham o Oscar e não as comédias.

Esse negócio de "tô sozinho, tô feliz" é tão inventivo como os contos que eu crio.

O solitário não é feliz porque não tem com quem compartilhar a felicidade, não tem com quem dividir piadas e sorrisos e rir sozinho é tão constrangedor como chorar em público.

O feliz esconde o sucesso com medo de lhe roubarem a felicidade. Já o solitário é exibido, faz questão de chamar atenção, por isso alguns suicidas preferem morrer com platéias.

O solitário não é infeliz pela abstinência de felicidade, ele é infeliz pela overdose de autopiedade.

Mas uma coisa devemos admitir, o solitário será sempre mais intelectual, pois tem mais tempo para refletir sobre os problemas do mundo na esperança de resolvê-los diante da impossibilidade de resolver os próprios problemas.

Toda solidão deve vir sempre acompanhada de uma boa dose de pessimismo, assim como o vinho para ser bom tem de ter rolha.

É dessa intelectualidade que surgem os poetas e todo poeta é triste por profissão. Assim como o solitário é autodidata, não existem escolas para poetas.

O diploma do poeta é o insucesso na vida sentimental. Só é reconhecido quando passa, no mínimo, por mais de três casamentos. Exceto se a morte vir antes.

A diferença do solitário e o feliz é que o solitário tomou consciência de que a felicidade é algo impossível de ser alcançado, só que mesmo assim não desiste, pois apesar de pessimista todo solitário é teimoso. Já o feliz é iludido e acomodado.

As pessoas tomam o solitário como o exemplo a não ser seguido, "tudo que ele disser, faça o contrário e assim será feliz" o que nem sempre é verdade, afinal grande parte deles agem diferente do que dizem.

Você deve se perguntar "por que os solitários não se juntam e são felizes?" É simples, nem os solitários se aguentam.
Principalmente aqueles que passam o tempo todo lamentando o sofrimento.

O feliz se aproxima do solitário porque a tristeza alheia potencializa a felicidade, no entanto a recíproca é verdadeira e assim, permanecem solitários.

Outra coisa do solitário é que ele é exigente demais, ele não vai entregar-se diante de qualquer declaração de amor. O feliz sim vai até se enganar diante de um falso amor porque tem medo da solidão, mas não o solitário, pois ele já é mestre na arte de ser sozinho.

E é por isso que no meio de tanta tragédia, roubos e corrupção ainda tem gente que deseja com todas as forças ter seu peito invadido e o coração roubado.

Ter seu corpo tomado pelo terremoto de uma paixão, mesmo que de verão e ter seus pensamentos e sonhos sequestrados por um bandido ou bandida linda, sexy, compreensiva, carinhosa...


Bento.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O BRASIL É O PAÍS DA INCOERÊNCIA

-


Eu cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. As revistas especializadas em economia futurista concordam. Os BRICs estão aí para comprovar isso.

Um europeu meio desinformado vai dizer que o Brasil é o país do futebol. Porém o Barcelona e Messi começam a contestar isso.

Um gringo folião no ápice do efeito etílico da caipirinha afirmará que aqui é o país do carnaval.

Cubanos, haitianos, coreanos, chineses e presos políticos italianos dirão que o Brasil é o país das oportunidades. Sempre tão acolhedor.

O desavisado que ligar a TV ou ler o jornal vai achar que aqui é o país da corrupção.

O PT, o PMDB e os ministros de diferentes partidos vão esbravejar gritando para quem quiser ouvir que o Brasil é o país da injustiça. Afinal, todos eles são acusados gratuitamente, caluniados pela “grande mídia” só por esconderem alguns milhões ali, desviar outros milhões aqui e deixar de declarar meia dúzia de empresas acolá. Quem não faz isso hoje em dia gente? É a coisa mais normal do mundo. Quanta injustiça.

Aos pastores evangélicos donos de mansões, carros de luxo, proprietários de emissoras de televisão e pequenas fortunas no exterior, o Brasil é um país abençoado. "Glória a Deus". Deus é brasileiro. Viva!

E se pararmos para pensar que o brasileiro, antes tido como povo alegre e feliz, hoje prefere rir das piadas no tribunal, podemos dizer que o Brasil é um país sério. Ou um país do mau humor, da falta de senso de humor. Na verdade é o país do mal comido.

Se me perguntassem o que eu acho diria que o Brasil é o país da incoerência. Pois só no Brasil que o funk é carioca, o forró é eletrônico e o sertanejo que há séculos, de sertanejo não tem nada, hoje é universitário e faz intercâmbio na Europa. Vide Michel Teló.

Só neste país tropical é que as crianças vão para a escola aprender a falar errado. Que é para manter viva a cultura.

E é só aqui que o melhor presidente da história, economicamente falando, fora um cara sem o segundo grau completo.

Tudo isso é tão trágico que chega ser cômico e apesar de sermos todos mal comidos, este ainda é o país dos palhaços.


Bento.

-

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

UM BABÃO APAIXONADO

-

Eu estou extremamente apaixonado.
Estou como aqueles apaixonados bobos que pensa na amada todas as horas, minutos e segundos. Daqueles que fala do grande amor em qualquer lugar e para qualquer um.
Tão apaixonado que gosto de acordar de madrugada, desprezo o sono só para acender um cigarro para pensar nela e volto a dormir para permitir que ela habite meus sonhos.

Fico eu aqui, me perguntando como pude viver tanto tempo sem ela? E me vejo na mesa do bar com os amigos, me tornando O Chato falando e falando de nosso relacionamento.

Posso dizer com toda certeza que ela é o amor da minha vida. Meu amor de almas.
Sei que vai parecer discurso melodramático de apaixonado, mas tudo bem, deixe que pensem assim, porém grito ao mundo que ela é perfeita. Sem tirar nem por. “Rodrigueando”: da cabeça aos sapatos.

É ela que me acalenta em meus dias mais nebulosos e é somente ela que me abraça nas noites de inverno sem me pedir nada em troca.
Ouve meu desabafo sem qualquer julgamento e não se importa se é começo ou fim de mês, pois ela se interessa por minha essência e não pelo que eu posso pagar.

Minha amada conhece todos os meus defeitos e segredos mais malditos e não hesita sequer um momento em permanecer ao meu lado.

Meus olhos deslizam por seu corpo e o êxtase é tão intenso quanto o inverno europeu. Ela decifra meus sentimentos mesmo quando tento disfarçá-los com subterfúgios, adjetivos incompreensíveis e objetividade oportunista.

Pense em alguém que para tudo o que estiver fazendo só para atender seus caprichos. Sou eu.
Pense em alguém que guarda todos os sorrisos no bolso para entregar-me de presente depois. É ela.

Somos uma dupla perfeita.

Alguns indivíduos nos invejam pela nossa afinidade de 10 mil anos e isso, por vezes alimentou ainda mais nossa complacência.

Ela é a amante perfeita, pois é fiel aos meus sentimentos, no entanto nunca me deixa esquecer o quanto me é importante mantê-la por perto. E ela também precisa de afagos para se satisfazer por completo.

Os meus erros ela já enumerou e só me lembra deles quando eu realmente preciso.
É somente em suas entrelinhas que eu me reconheço e é olhando para ela que as pessoas me reconhecerão.

Após tantos anos de convívio entre nós posso dizer que ela nunca me abandonou, mas é bem verdade que em algumas situações tive que apagá-la por breves momentos para começarmos tudo de novo depois de um trago.

Ela compartilha de minhas bebedeiras e rebeldias mesmo quando não tenho motivos.

Logo, por todos estes motivos e outros que só divido com meu amor entre quatro paredes, afirmou sem medo de parecer um babão apaixonado que a escrita é e será por toda a eternidade o grande amor da minha vida.


Bento.

-

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

EPITÁFIO II

-


Vocês não entendem. Talvez nunca entenderão. Precisará alguém dar a deixa para que somente no fim compreendam o que está à mostra de todos, abaixo de seus narizes verruguentos e com uma floresta imaginária de cravos.

Ao meu velório, velas e castiçais, meu corpo em pecado a caminho da putrefação e um singelo sorriso de canto de boca, quase como feliz. Minhas mãos cruzadas sobre o peito e alguém dirá: "ele bebia demais". O outro que "ele fumava demais". "Não, ele dormia de menos".

E enfim alguém deixará escorrer pelos lábios toda a sabedoria de quem sabe enxergar "ele amava demais". E todos assentirão.

Morrerei de amor, é evidente.


Bento.

-

domingo, 12 de fevereiro de 2012

NO CAMINHO CERTO PARA O DESTINO ERRADO

-


Agenor acordou na cama do hotel, na suíte presidencial e tateou o criado mudo em busca de um cigarro e sua cabeça latejava como o sino da igreja que lhe acordava todos os dias.
O primeiro trago do cigarro é o mais gostoso pelo longo período de ausência de nicotina no corpo enquanto dorme.
Senta-se na cama e após uma, duas, três tragadas seguidas resolve olhar para trás para saber quem era a infeliz que dividira mais uma noite de insanidades e bebedeira. Com a ponta dos dedos puxou o lençol e descobriu que não era a infeliz, mas sim as infelizes, duas garotas aparentando dezoito anos recém completados e eram gêmeas.
Agenor não pôde conter um sorriso de canto de boca.

-Gêmeas? Essa é nova. Pensou alto.

Vestiu-se depressa e do telefone do quarto ligou para a recepção.

-Jonas?

-Bom dia senhor Agenor, como posso ajudá-lo?

-Cuide para que as garotas não saiam do hotel sem um bom café da manhã, ok? Ordenou o dono do hotel.

-Sim senhor.

Agenor era o dono deste e mais uma dúzia de hotéis espalhados pela cidade além de uma grande porcentagem de ações em empresas de tecnologia, uma dezena de carros importados e uma mansão no bairro mais nobre da metrópole que mal usara no último mês devido sua recaída ao alcoolismo.

O empresário apesar da pouca idade, tinha 35 anos, mas aparentava rosto e corpo de mais jovem, era respeitado até por seus inimigos pela inteligência, senso de justiça e filantropia. Recebera a chave da cidade do prefeito por doar centenas de casas populares às vítimas das enchentes. Também doara aparelhos novos para os hospitais localizados em pontos estratégicos e de maior movimento da grande cidade entre outras coisas.
Outro motivo que alimentava esse respeito para com Agenor era sua origem pobre e de ex-dependente químico.
Nascera na Zona Leste de São Paulo onde não tinha pai nem mãe, sua criação ficou por conta de uma tia alcoólatra, Lizete, não muito mais velha que ele e seu marido Olegário que espancava o sobrinho e a mulher com o fio da tomada da televisão que não funcionava mais.

Era um trio dos infernos, Lizete perdera um braço num acidente de carro quando dirigia embriagada ao tentava fugir do marido agressor, seu braço ficou preso entre as ferragens e os bombeiros não tiveram escolha, ou o braço, ou a vida. A verdade é que o fusca ganhou um braço todinho para ele.

A tia após ter alta do hospital ainda tomou uma surra pelo carro destruído, pela fuga e pelo alcoolismo.

Olegário não bebia, em compensação usava qualquer tipo de drogas que se possa imaginar. Não se sabe se foi nas agulhas da heroína ou no sexo com prostitutas, só sabia que a AIDS era real.

Já Agenor era o garoto problema do bairro, fora preso algumas vezes por vandalismo antes de completar dezoito anos. Começou a beber roubando as garrafas da tia e na adolescência já tinha se entregado ao alcoolismo como Lizete.
Nesta mesma época Agenor frequentava os bares, garagens e porões mais sujos que existiam atrás das bandas de rock dos seus amigos e fizera sexo em praticamente todos os monumentos históricos e pontos turísticos da cidade de São Paulo. Foi por esse motivo que depois que virou empresário de sucesso ele financiou cartazes e placas de “FAÇA SEXO SEGURO” nesses mesmos lugares, ninguém entendeu sua iniciativa, mas ele sabia que a maioria dos jovens também faziam os parques e estátuas de motel.

A sua turma de amigos era formada por jovens perdidos, drogados, ladrões, traficantes e aidéticos. As garotas só deixavam o grupo quando engravidavam, mas voltavam assim que os bebes não dependiam mais do leite materno.

O garoto alcoólatra só valorizava uma coisa na vida, na sua maldita vida. Tal coisa tinha nome e endereço fixo, Dorothy, uma garota ruiva de inúmeras sardas espalhadas por seu corpo de ninfeta. De família rica, mimada e irritantemente mal educada era o sonho de todo garoto do bairro. Os mauricinhos beijavam o chão por onde a ruiva passava, imensos ursos de pelúcia, caixas de chocolates finos e perfumes importados eram enviados com juras de amor e poemas shakeasperianos na tentativa inútil de conquistá-la.

Tentativa inútil, pois uma garota com as características de Dorothy, que tinha tudo que ela quisesse só bastava pedir, só poderia se apaixonar por àquilo que ela não poderia, em tese, ter. Que era exatamente o jovem mais maldito do bairro.

Todos já sabiam do futuro de Agenor, "ou morre, ou vai preso. Ou os dois..." diziam os vizinhos e ver aquela garota que tinha um grande futuro pela frente andando para cima e para baixo com um ladrãozinho que mal tinha saído das fraldas era uma calamidade. É bem verdade que Agenor jamais deixara que a menina sardenta fizesse uso de qualquer tipo de droga ilícita, de vez em quando os dois dividiam um maço de cigarros e algumas cervejas, mas só o bastante para que ela se sentisse um tanto quanto embriagada.

Na casa de Dorothy, seus pais foram avisados do caso de amor e ameaçaram:

-Deixe esse garoto de lado ou vamos te mandar pra uma escola na Europa. A filha fez que não ouviu e seus pais cumpriram a promessa.

Agenor ficou arrasado, bebeu, se drogou, brigou na rua e só parou quando caiu de cama. Ascênsio que era um grande amigo e tinha se curado do vício foi fazer uma visita e ver como o amigo estava. Ouviu sobre o coração partido e o abandono de Dorothy e deu a ideia.

-Você ama mesmo essa tal de ruiva?

-Amo mais que tudo.

-Então faça por merecê-la Agenor.

-Como? Ela está na Europa e eu não tenho nem o do ônibus.

O amigo que já não era mais viciado continuou: - Também não bastava só você ir para a Europa, você tem que mostrar para os pais dela que você pode ser bom para a filha deles e é claro, parar de roubar e etc etc etc.

-O que você quer que eu faça, que eu vá trabalhar?


-O Agenor que eu conheço sempre foi o mais inteligente do bairro. Vai pensar em alguma coisa... E o amigo foi embora deixando o doente pensando e ele pensou e se passaram sete anos.

O garoto problema sabia que trabalhar de carteira assinada não o levaria a enriquecer muito rápido, então usou o que tinha de melhor, seus contatos com todo tipo de gente e sua esperteza. Ele começou vendendo drogas e para que não consumisse todo o estoque parou de se drogar. Formou uma cooperativa e fez com que as drogas de todos os traficantes fossem estocadas em pequenas porções pelas casas e comércio do bairro, assim, numa possível batida da polícia perdia-se apenas uma pequena porção das drogas, diminuindo então o prejuízo. Ganhou a confiança dos traficantes mais poderosos e partiu para a aliança com policiais e políticos. Com o respeito ordenou para que todos os bares, comércios e mercados o negassem qualquer tipo de bebida alcoólica, mesmo que ele implorasse e os ameaçassem. E qualquer um que descumprisse a ordem pagaria com a morte e assim parou de beber. Internou a tia numa clínica e quando seu tio tentou impedir cuidou para que seus novos amigos poderosos sumissem com ele.

O ex ladrãozinho agora elegia deputados e prefeitos e fez seu sonho se tornar realidade, buscou Dorothy na Europa, investiu em negócios  lícitos e deixou o reinado do crime para um sucessor.

Então casaram e viviam felizes, muito felizes. Dorothy e Agenor. Seus sogros tratavam o empresário como o filho que não tiveram.

Mas o amor é tão misterioso quanto a morte e juntou-se com o destino para escreverem no livro da vida.

Lizete a tia aleijada que outrora drogada fora salva pelo sobrinho rico soubera que o "sumiço" do marido teve ordem direta de Agenor e precisou se vingar.
Um braço apenas foi suficiente para empunhar um revólver, entrar na casa do sobrinho e atirar contra o peito daquele que tanto lhe ajudou.
Se não fosse verdade seria uma típica cena novelesca, Dorothy ao ver que seu grande amor seria baleado colocou-se na frente da bala e morreu instantaneamente após ser atingida no coração. Os seguranças do empresário entraram em cena e seguraram a tia enlouquecida que gritava "Você não tinha o direito, eu o amava". "Ninguém vai querer uma velha aidética e sem braço".

Ao ouvir os gritos histéricos e ver a garota ruiva ensanguentada no chão, Agenor acabou por pegar a arma que estava na mão de um dos seguranças e disparou mais uma vez no meio da testa da assassina escandalosa e fez-se silêncio. Foi o minuto mais longo da vida daquela família.

Logo, passado um mês da morte de seu grande amor Agenor revivia tudo o que passara até ali, todo o sacrifício para viver ao lado de sua alma gêmea. Buscava dentro de si algo que pudesse satisfazê-lo, manter seu equilíbrio. Na mesa do escritório não havia mais documentos para assinar, nem planos de investimento. Somente uma lata de querosene, cigarros, uma montanha de dinheiro e uma garrafa de Scotch.

Então, no último andar de um dos prédios mais caros no centro financeiro da cidade o maior empresário do ramo hoteleiro embriagava-se no meio do expediente, fez-se uma cama com notas de cem reais e ateou fogo ao seu corpo e as centenas de cédulas juntando-se assim, com sua amada por toda eternidade.


Bento.


-

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DE CORPO E ALMA

-


É incrível como seu corpo acusa exatamente os sentimentos mais profundos de sua alma.

O ódio é anunciado pela garganta seca.
As mãos trêmulas entregam o nervosismo.
O medo faz a pele perder o brilho e a cor.
A ansiedade divide as borboletas do estômago com a paixão.
A solidão pega o tempero do paladar para si.

E a sua felicidade causa tudo isso nas outras pessoas.


Bento.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

VALORIZEMOS AS NÁDEGAS QUE TEMOS EM CASA

-


O ônibus saia do terminal às cinco em ponto. Todos os dias, com chuva ou sol era assim.

Não importa se o ônibus é novo ou velho, ônibus sempre terá cheiro de trabalho. O ambiente do ônibus é como uma terceira dimensão que te leva a crer que todo dia é segunda-feira.

Godói era cobrador desde adolescente. Desde a época dos passes com fotos de pontos turísticos da cidade de São Paulo.
Durante um tempo teve seu trabalho ameaçado pela tecnologia e os bilhetes eletrônicos que tornavam seu cargo um tanto quanto menos necessário. Mas passou por isso e agora continuava cobrador.

De seu banco lateral observava o ir e vir de centenas de pessoas diariamente.

Godói era jovem ainda, com seus vinte e poucos anos e um filho recém nascido fazia horas a mais no trabalho para as fraldas e leite, mas também por causa do choro da criança que já o levava a beira da loucura. A criança mal nascera e já conhecia todas as formas de lhe irritar. Chorava sempre na hora do jogo de futebol e nos programas esportivos.

Sua esposa, mãe de primeira viagem tentava de tudo para calar o choro da criança, em vão. E Godói seguia trabalhando.

Numa dessas segundas-feiras o cobrador viu entrar no ônibus a mulher mais absurdamente linda que já havia passado diante de seus olhos. Godói era assinante de revistas masculinas e sites pornôs, mas aquela mulher era excepcional.

Uma senhora de no máximo trinta anos, vestida formalmente para o escritório, imaginava Godói. Após uma passada de olhos rápida pelo corpo escultural o cobrador foi direto no dedo anular da mão esquerda daquele anjo maravilhoso e viu uma aliança de ouro que pelo tamanho pagaria todas as horas extras dele durante os últimos seis meses.

A moça tomou para si os olhos de Godói. Cabelos negros que brilhavam com a luz do sol e se deitavam por toda suas costas. De pele clara e um rosto de mulher firme, inteligente, independente e ao mesmo tempo jovem, iluminado e indiferente ao que estava ao redor.

Então o cobrador desceu mais um pouco para avaliar o que mais tinha naquele corpo esculpido pelo demo. Pois ele acreditava que Deus não seria capaz de criar algo tão belo e tão instigante como aquela mulher. Era o próprio pecado de salto alto.
Seus olhos desceram e encontraram aquela bunda que artista plástico nenhum seria capaz de reproduzir nem naqueles quadros vendidos por milhões de reais. E por alguns segundos, após sentir-se desconfortável tendo seu membro rijo esticando a calça de linho da companhia municipal Del Plata, pensou em sua mulher em casa cuidando de seu filho. Pensou no pastor da igreja dizendo durante o culto dominical "O satanás tentará levá-lo ao pecado das mais diferentes formas e situações. Colocará mulheres belíssimas no seu caminho para que traia a confiança de sua família..." e Godói pegou-se dizendo "Glória a Deus".

Ele tentou desviar os olhos daquele corpo enlouquecedor, pensou na derrota de seu time no fim de semana. Pensou na esposa com os cabelos desgrenhados ao levantar de madrugada para ninar o bebê que acordara chorando, mas o desejo era forte demais, tão forte que puxada seus olhos em direção àquela bunda tentadora. Pensou até na sua sogra vestindo aquele micro biquíni com estampa de zebra durante o feriado que passaram na Praia Grande e mesmo assim continuava pulsando sangue em direção ao pênis. Era como uma enguia apontando para o ar.

Aquela bunda insultava os passageiros do ônibus.
Os homens sentiam-se incomodados talvez pelos mesmos motivos que o cobrador. As mulheres olhavam comparando-se com aquela mulher de aparência tão magnífica e poderosa.

Godói percebeu que não era o único homem que tentava esconder a área da pélvis e mesmo Seu Porfírio, motorista há mais de trinta anos, quase causa um acidente passando no farol vermelho com o ônibus, a freada brusca quase derruba a moça da bunda ameaçadora. Bunda que deixava os egos masculinos ao léu, afogados em pessimismo e autopiedade.

Aquela bunda abusava da libido masculina.
Acuava os pais de família, intimidava o juízo dos senhores de mais idade.
"Que obra prima" pensavam alguns. "Ah! Mas se meu dinheiro desse..." sonhavam outros.

Até o bebê que estava sentado no colo da mãe num banco próximo parecia querer brincar com aquelas nádegas dos infernos, apontando as mãos e fazendo gestos de quem queria apanhar o brinquedo de natal.

O cobrador agradeceu pela empresa não ter ouvido sua queixa sobre os amortecedores do ônibus que lhe davam dores nas costas, pois o trepidar causado pelos buracos nas vias faziam aquela bunda ganhar o balanço dos deuses. Para lá e para cá. Para cima e para baixo. E Godói sentia como se aquele balanço tivesse o dom de hipnotizá-lo. Podia jurar que ouvia daquela bunda e seu balanço o chamado "GO-DÓI, GO-DÓI".

Mas como toda alegria de pobre dura pouco. Uma zinha qualquer que estava sentada próxima Da Bunda que deveria estar com seus cotovelos queimando em febre latejando de dor, decide acabar com aquela farra de hormônios. Então ela se levanta "moça, senta aqui que eu vou descer" dando lugar a mulher dona de cadeiras estupendas e baixando as cortinas daquele espetáculo de bunda. E logo adormeceram os pintos.

Aquele ônibus tornou-se tão tenso quanto a faixa de gaza. Todos queriam enfiar uma bomba atômica no rabo da invejosa maldita e explodi-la. A ideia de linchar a "bondosa" passava pela cabeça de todos.

Porfírio passou dois pontos após o sinal da estraga prazeres só de pirraça. Era um ódio coletivo.
Centenas de maldiçoes foram jogadas em cima da boa samaritana que assim que desceu do ônibus quebrou o salto.

Por fim a bunda milagrosa acabou descendo no ponto final esperando o momento em que todos já estivessem partido.

No fim do dia, Godói já em casa apressara-se para fazer seu bebê dormir. Colocou a criança no berço e avançou no corpo da mulher lhe enchendo de beijos.
Tabata, a esposa, ainda tentara frear Godói dizendo que precisava terminar de preparar a janta, mas o cobrador não lhe deu ouvidos. Precisava desesperadamente descarregar toda aquela vontade e desejo que o possuía. Tabata nunca vira o marido tomá-la com tanta intensidade, nem mesmo no começo do namoro. Godói deitava-se com sua mulher, mas seus pensamentos estavam na bunda de horas atrás.



Bento.

-

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

BOLA DE SABÃO

-


Quem é você? Onde está que não atende minhas chamadas? Chamadas maquiadas de intransigência.

Quem sou eu que estou aqui a imaginar donde estas e me pego pensando quanto tempo é necessário para compor-me refrão para alguém? Ó vida real...

Quem é você que supunha que o amor nunca fora o bastante e suportou a distância como quem nascera para isso? E é possível que nascera.

Quem sou eu para criticá-la se ao menor sinal de fumaça eu mesmo ateava fogo no meu próprio corpo na intenção de chamar sua atenção. Como os índios. Olha eu aqui ó!

Quem é você que passou pela minha vida e como um arrastão levara tudo o que havia de mais valor? Amor, alegria, sonhos e até o coração. Ficaram os anéis, o cofre, os carros, a prataria, ou seja, nada que eu pudesse penhorar em troca de barganhar qualquer sentimento.

Quem sou eu que ainda assim mantinha a oração agradecendo por ter você em minha vida, mesmo não tendo mais?

Eu descobri quem é você, pena que fora tarde demais.

Descobri quem sou eu, um trago num dia frio e cinza que pode ser bom ou ruim, porém sempre levará alguém a ilusão da capacidade de ser aquilo de que não pode.

Você é o amor que estava no ar, se foi com o sopro, que deu vida a bola de sabão, que subiu ao céu e explodiu.
Deixando pedacinhos de solidão.


Bento.

-