domingo, 12 de fevereiro de 2012

NO CAMINHO CERTO PARA O DESTINO ERRADO

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Agenor acordou na cama do hotel, na suíte presidencial e tateou o criado mudo em busca de um cigarro e sua cabeça latejava como o sino da igreja que lhe acordava todos os dias.
O primeiro trago do cigarro é o mais gostoso pelo longo período de ausência de nicotina no corpo enquanto dorme.
Senta-se na cama e após uma, duas, três tragadas seguidas resolve olhar para trás para saber quem era a infeliz que dividira mais uma noite de insanidades e bebedeira. Com a ponta dos dedos puxou o lençol e descobriu que não era a infeliz, mas sim as infelizes, duas garotas aparentando dezoito anos recém completados e eram gêmeas.
Agenor não pôde conter um sorriso de canto de boca.

-Gêmeas? Essa é nova. Pensou alto.

Vestiu-se depressa e do telefone do quarto ligou para a recepção.

-Jonas?

-Bom dia senhor Agenor, como posso ajudá-lo?

-Cuide para que as garotas não saiam do hotel sem um bom café da manhã, ok? Ordenou o dono do hotel.

-Sim senhor.

Agenor era o dono deste e mais uma dúzia de hotéis espalhados pela cidade além de uma grande porcentagem de ações em empresas de tecnologia, uma dezena de carros importados e uma mansão no bairro mais nobre da metrópole que mal usara no último mês devido sua recaída ao alcoolismo.

O empresário apesar da pouca idade, tinha 35 anos, mas aparentava rosto e corpo de mais jovem, era respeitado até por seus inimigos pela inteligência, senso de justiça e filantropia. Recebera a chave da cidade do prefeito por doar centenas de casas populares às vítimas das enchentes. Também doara aparelhos novos para os hospitais localizados em pontos estratégicos e de maior movimento da grande cidade entre outras coisas.
Outro motivo que alimentava esse respeito para com Agenor era sua origem pobre e de ex-dependente químico.
Nascera na Zona Leste de São Paulo onde não tinha pai nem mãe, sua criação ficou por conta de uma tia alcoólatra, Lizete, não muito mais velha que ele e seu marido Olegário que espancava o sobrinho e a mulher com o fio da tomada da televisão que não funcionava mais.

Era um trio dos infernos, Lizete perdera um braço num acidente de carro quando dirigia embriagada ao tentava fugir do marido agressor, seu braço ficou preso entre as ferragens e os bombeiros não tiveram escolha, ou o braço, ou a vida. A verdade é que o fusca ganhou um braço todinho para ele.

A tia após ter alta do hospital ainda tomou uma surra pelo carro destruído, pela fuga e pelo alcoolismo.

Olegário não bebia, em compensação usava qualquer tipo de drogas que se possa imaginar. Não se sabe se foi nas agulhas da heroína ou no sexo com prostitutas, só sabia que a AIDS era real.

Já Agenor era o garoto problema do bairro, fora preso algumas vezes por vandalismo antes de completar dezoito anos. Começou a beber roubando as garrafas da tia e na adolescência já tinha se entregado ao alcoolismo como Lizete.
Nesta mesma época Agenor frequentava os bares, garagens e porões mais sujos que existiam atrás das bandas de rock dos seus amigos e fizera sexo em praticamente todos os monumentos históricos e pontos turísticos da cidade de São Paulo. Foi por esse motivo que depois que virou empresário de sucesso ele financiou cartazes e placas de “FAÇA SEXO SEGURO” nesses mesmos lugares, ninguém entendeu sua iniciativa, mas ele sabia que a maioria dos jovens também faziam os parques e estátuas de motel.

A sua turma de amigos era formada por jovens perdidos, drogados, ladrões, traficantes e aidéticos. As garotas só deixavam o grupo quando engravidavam, mas voltavam assim que os bebes não dependiam mais do leite materno.

O garoto alcoólatra só valorizava uma coisa na vida, na sua maldita vida. Tal coisa tinha nome e endereço fixo, Dorothy, uma garota ruiva de inúmeras sardas espalhadas por seu corpo de ninfeta. De família rica, mimada e irritantemente mal educada era o sonho de todo garoto do bairro. Os mauricinhos beijavam o chão por onde a ruiva passava, imensos ursos de pelúcia, caixas de chocolates finos e perfumes importados eram enviados com juras de amor e poemas shakeasperianos na tentativa inútil de conquistá-la.

Tentativa inútil, pois uma garota com as características de Dorothy, que tinha tudo que ela quisesse só bastava pedir, só poderia se apaixonar por àquilo que ela não poderia, em tese, ter. Que era exatamente o jovem mais maldito do bairro.

Todos já sabiam do futuro de Agenor, "ou morre, ou vai preso. Ou os dois..." diziam os vizinhos e ver aquela garota que tinha um grande futuro pela frente andando para cima e para baixo com um ladrãozinho que mal tinha saído das fraldas era uma calamidade. É bem verdade que Agenor jamais deixara que a menina sardenta fizesse uso de qualquer tipo de droga ilícita, de vez em quando os dois dividiam um maço de cigarros e algumas cervejas, mas só o bastante para que ela se sentisse um tanto quanto embriagada.

Na casa de Dorothy, seus pais foram avisados do caso de amor e ameaçaram:

-Deixe esse garoto de lado ou vamos te mandar pra uma escola na Europa. A filha fez que não ouviu e seus pais cumpriram a promessa.

Agenor ficou arrasado, bebeu, se drogou, brigou na rua e só parou quando caiu de cama. Ascênsio que era um grande amigo e tinha se curado do vício foi fazer uma visita e ver como o amigo estava. Ouviu sobre o coração partido e o abandono de Dorothy e deu a ideia.

-Você ama mesmo essa tal de ruiva?

-Amo mais que tudo.

-Então faça por merecê-la Agenor.

-Como? Ela está na Europa e eu não tenho nem o do ônibus.

O amigo que já não era mais viciado continuou: - Também não bastava só você ir para a Europa, você tem que mostrar para os pais dela que você pode ser bom para a filha deles e é claro, parar de roubar e etc etc etc.

-O que você quer que eu faça, que eu vá trabalhar?


-O Agenor que eu conheço sempre foi o mais inteligente do bairro. Vai pensar em alguma coisa... E o amigo foi embora deixando o doente pensando e ele pensou e se passaram sete anos.

O garoto problema sabia que trabalhar de carteira assinada não o levaria a enriquecer muito rápido, então usou o que tinha de melhor, seus contatos com todo tipo de gente e sua esperteza. Ele começou vendendo drogas e para que não consumisse todo o estoque parou de se drogar. Formou uma cooperativa e fez com que as drogas de todos os traficantes fossem estocadas em pequenas porções pelas casas e comércio do bairro, assim, numa possível batida da polícia perdia-se apenas uma pequena porção das drogas, diminuindo então o prejuízo. Ganhou a confiança dos traficantes mais poderosos e partiu para a aliança com policiais e políticos. Com o respeito ordenou para que todos os bares, comércios e mercados o negassem qualquer tipo de bebida alcoólica, mesmo que ele implorasse e os ameaçassem. E qualquer um que descumprisse a ordem pagaria com a morte e assim parou de beber. Internou a tia numa clínica e quando seu tio tentou impedir cuidou para que seus novos amigos poderosos sumissem com ele.

O ex ladrãozinho agora elegia deputados e prefeitos e fez seu sonho se tornar realidade, buscou Dorothy na Europa, investiu em negócios  lícitos e deixou o reinado do crime para um sucessor.

Então casaram e viviam felizes, muito felizes. Dorothy e Agenor. Seus sogros tratavam o empresário como o filho que não tiveram.

Mas o amor é tão misterioso quanto a morte e juntou-se com o destino para escreverem no livro da vida.

Lizete a tia aleijada que outrora drogada fora salva pelo sobrinho rico soubera que o "sumiço" do marido teve ordem direta de Agenor e precisou se vingar.
Um braço apenas foi suficiente para empunhar um revólver, entrar na casa do sobrinho e atirar contra o peito daquele que tanto lhe ajudou.
Se não fosse verdade seria uma típica cena novelesca, Dorothy ao ver que seu grande amor seria baleado colocou-se na frente da bala e morreu instantaneamente após ser atingida no coração. Os seguranças do empresário entraram em cena e seguraram a tia enlouquecida que gritava "Você não tinha o direito, eu o amava". "Ninguém vai querer uma velha aidética e sem braço".

Ao ouvir os gritos histéricos e ver a garota ruiva ensanguentada no chão, Agenor acabou por pegar a arma que estava na mão de um dos seguranças e disparou mais uma vez no meio da testa da assassina escandalosa e fez-se silêncio. Foi o minuto mais longo da vida daquela família.

Logo, passado um mês da morte de seu grande amor Agenor revivia tudo o que passara até ali, todo o sacrifício para viver ao lado de sua alma gêmea. Buscava dentro de si algo que pudesse satisfazê-lo, manter seu equilíbrio. Na mesa do escritório não havia mais documentos para assinar, nem planos de investimento. Somente uma lata de querosene, cigarros, uma montanha de dinheiro e uma garrafa de Scotch.

Então, no último andar de um dos prédios mais caros no centro financeiro da cidade o maior empresário do ramo hoteleiro embriagava-se no meio do expediente, fez-se uma cama com notas de cem reais e ateou fogo ao seu corpo e as centenas de cédulas juntando-se assim, com sua amada por toda eternidade.


Bento.


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4 comentários:

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Olá!
É um grande prazer conhecer seu blog e poder ler o que escreves.
Acredito que quando escrevemos com prazer conquistamos amigos e fiéis amantes das palavras. Sabemos o quanto é difícil levar a nossa voz, as nossas angustias os nossos sonhos às pessoas. Mas o mais importante é saber que você e eu gostamos daquilo que fazemos.E acreditamos que o mundo pode se tornar bem melhor através de nossos escritos.
Grande abraço
Se cuida

Ricardo Sampaio disse...

Fala amigo Bento...



Muito bom o seu texto... Como sempre! Ah só retificando... De vez enquanto não existe e sim de vez em quando dividiam um maço de cigarro.


Abs mlk

Victor Von Serran disse...

A vida é assim mesmo...o cara com gemeas na cama, bota fogo em dinheiro e se mata. Será que pobre nasceu pra sofrer ?

abraço Bento.
OBS: pessoal sente tua falta lá na blogosfera !

Juliane disse...

Cada melhor sem palavras.