quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

VALORIZEMOS AS NÁDEGAS QUE TEMOS EM CASA

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O ônibus saia do terminal às cinco em ponto. Todos os dias, com chuva ou sol era assim.

Não importa se o ônibus é novo ou velho, ônibus sempre terá cheiro de trabalho. O ambiente do ônibus é como uma terceira dimensão que te leva a crer que todo dia é segunda-feira.

Godói era cobrador desde adolescente. Desde a época dos passes com fotos de pontos turísticos da cidade de São Paulo.
Durante um tempo teve seu trabalho ameaçado pela tecnologia e os bilhetes eletrônicos que tornavam seu cargo um tanto quanto menos necessário. Mas passou por isso e agora continuava cobrador.

De seu banco lateral observava o ir e vir de centenas de pessoas diariamente.

Godói era jovem ainda, com seus vinte e poucos anos e um filho recém nascido fazia horas a mais no trabalho para as fraldas e leite, mas também por causa do choro da criança que já o levava a beira da loucura. A criança mal nascera e já conhecia todas as formas de lhe irritar. Chorava sempre na hora do jogo de futebol e nos programas esportivos.

Sua esposa, mãe de primeira viagem tentava de tudo para calar o choro da criança, em vão. E Godói seguia trabalhando.

Numa dessas segundas-feiras o cobrador viu entrar no ônibus a mulher mais absurdamente linda que já havia passado diante de seus olhos. Godói era assinante de revistas masculinas e sites pornôs, mas aquela mulher era excepcional.

Uma senhora de no máximo trinta anos, vestida formalmente para o escritório, imaginava Godói. Após uma passada de olhos rápida pelo corpo escultural o cobrador foi direto no dedo anular da mão esquerda daquele anjo maravilhoso e viu uma aliança de ouro que pelo tamanho pagaria todas as horas extras dele durante os últimos seis meses.

A moça tomou para si os olhos de Godói. Cabelos negros que brilhavam com a luz do sol e se deitavam por toda suas costas. De pele clara e um rosto de mulher firme, inteligente, independente e ao mesmo tempo jovem, iluminado e indiferente ao que estava ao redor.

Então o cobrador desceu mais um pouco para avaliar o que mais tinha naquele corpo esculpido pelo demo. Pois ele acreditava que Deus não seria capaz de criar algo tão belo e tão instigante como aquela mulher. Era o próprio pecado de salto alto.
Seus olhos desceram e encontraram aquela bunda que artista plástico nenhum seria capaz de reproduzir nem naqueles quadros vendidos por milhões de reais. E por alguns segundos, após sentir-se desconfortável tendo seu membro rijo esticando a calça de linho da companhia municipal Del Plata, pensou em sua mulher em casa cuidando de seu filho. Pensou no pastor da igreja dizendo durante o culto dominical "O satanás tentará levá-lo ao pecado das mais diferentes formas e situações. Colocará mulheres belíssimas no seu caminho para que traia a confiança de sua família..." e Godói pegou-se dizendo "Glória a Deus".

Ele tentou desviar os olhos daquele corpo enlouquecedor, pensou na derrota de seu time no fim de semana. Pensou na esposa com os cabelos desgrenhados ao levantar de madrugada para ninar o bebê que acordara chorando, mas o desejo era forte demais, tão forte que puxada seus olhos em direção àquela bunda tentadora. Pensou até na sua sogra vestindo aquele micro biquíni com estampa de zebra durante o feriado que passaram na Praia Grande e mesmo assim continuava pulsando sangue em direção ao pênis. Era como uma enguia apontando para o ar.

Aquela bunda insultava os passageiros do ônibus.
Os homens sentiam-se incomodados talvez pelos mesmos motivos que o cobrador. As mulheres olhavam comparando-se com aquela mulher de aparência tão magnífica e poderosa.

Godói percebeu que não era o único homem que tentava esconder a área da pélvis e mesmo Seu Porfírio, motorista há mais de trinta anos, quase causa um acidente passando no farol vermelho com o ônibus, a freada brusca quase derruba a moça da bunda ameaçadora. Bunda que deixava os egos masculinos ao léu, afogados em pessimismo e autopiedade.

Aquela bunda abusava da libido masculina.
Acuava os pais de família, intimidava o juízo dos senhores de mais idade.
"Que obra prima" pensavam alguns. "Ah! Mas se meu dinheiro desse..." sonhavam outros.

Até o bebê que estava sentado no colo da mãe num banco próximo parecia querer brincar com aquelas nádegas dos infernos, apontando as mãos e fazendo gestos de quem queria apanhar o brinquedo de natal.

O cobrador agradeceu pela empresa não ter ouvido sua queixa sobre os amortecedores do ônibus que lhe davam dores nas costas, pois o trepidar causado pelos buracos nas vias faziam aquela bunda ganhar o balanço dos deuses. Para lá e para cá. Para cima e para baixo. E Godói sentia como se aquele balanço tivesse o dom de hipnotizá-lo. Podia jurar que ouvia daquela bunda e seu balanço o chamado "GO-DÓI, GO-DÓI".

Mas como toda alegria de pobre dura pouco. Uma zinha qualquer que estava sentada próxima Da Bunda que deveria estar com seus cotovelos queimando em febre latejando de dor, decide acabar com aquela farra de hormônios. Então ela se levanta "moça, senta aqui que eu vou descer" dando lugar a mulher dona de cadeiras estupendas e baixando as cortinas daquele espetáculo de bunda. E logo adormeceram os pintos.

Aquele ônibus tornou-se tão tenso quanto a faixa de gaza. Todos queriam enfiar uma bomba atômica no rabo da invejosa maldita e explodi-la. A ideia de linchar a "bondosa" passava pela cabeça de todos.

Porfírio passou dois pontos após o sinal da estraga prazeres só de pirraça. Era um ódio coletivo.
Centenas de maldiçoes foram jogadas em cima da boa samaritana que assim que desceu do ônibus quebrou o salto.

Por fim a bunda milagrosa acabou descendo no ponto final esperando o momento em que todos já estivessem partido.

No fim do dia, Godói já em casa apressara-se para fazer seu bebê dormir. Colocou a criança no berço e avançou no corpo da mulher lhe enchendo de beijos.
Tabata, a esposa, ainda tentara frear Godói dizendo que precisava terminar de preparar a janta, mas o cobrador não lhe deu ouvidos. Precisava desesperadamente descarregar toda aquela vontade e desejo que o possuía. Tabata nunca vira o marido tomá-la com tanta intensidade, nem mesmo no começo do namoro. Godói deitava-se com sua mulher, mas seus pensamentos estavam na bunda de horas atrás.



Bento.

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3 comentários:

Angelus disse...

Essa é uma cena comum do cotidiano de quem pega ônibus.
Desejo masculino... inveja feminina...
Uma bunda dessas é só pra quem pode mesmo. Na falta dela, vai a que tem em casa.
Ótimo texto!

Luciana Santa Rita disse...

Oi Bento,

Sabe que no início cheguei até ter pena do Godoi. Ainda bem que foi passageiro, pois com aquele final, prefiro matá-lo.

Beijos.
Lu

Bento Qasual disse...

hahaah Ora, matá-lo pq Lú???? É só libido... rsrs