quarta-feira, 11 de abril de 2012

LÍRIOS, SONHOS E DELÍRIOS


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Era um saco de frutas e nele haviam estrelas, planetas inabitáveis, luas, cometas entre outras coisas.
O garoto caranguejo caminhava pela escuridão distribuindo cada item de sua sacola como um quebra-cabeça, enfiava a mão dentro dos pertences, voltava com uma das estrelas entre os dedos e as jogava ao ar para clarear o caminho.

Assim ele caminhava e montava como bem entendia seu percurso. Os planetas e luas serviam de companhia para as estrelas solitárias.
Abaixo dos planetas surgiam flores e plantas que fixadas ao chão tinham as mais variadas formas. Rosas com cabeças de coalas, orquídeas com dentes de tubarão, margaridas que tinham em seus corpos bicos de pelicanos, jabuticabeiras com olhos que eram feitos de faróis de trânsito, pinheiros com tesouras nas pontas dos galhos que podavam seus próprios corpos e assim por diante.

O garoto continuava a caminhar como se tivesse passado a vida toda planejando aquele cenário.
No meio das plantas e flores estranhas surgira o leito de um rio e o garoto tirou da sacola uma nuvem rebelde que lutava para subir ao céu, mas o garoto a puxava para baixo com autonomia, pois se subisse ao céu ela ofuscaria o brilho das celestes. A nuvem cansada depois de tanto se debater era agora acariciada pelas mãos de seu dominador até pegar no sono e então ela cresceu preenchendo o leito do rio. Um rio de nuvem.

No rio surgiram embarcações enormes e até alguns barcos menores, no entanto todos eles eram feitos de jornais e folhas de cadernos velhos. De dentro de um dos navios de papel fez notar-se um lindo lírio que de dentro de suas pétalas brotavam frutos que eram sonhos e o garoto caranguejo decidiu chamá-lo de Pirata Sonhador. Continuou caminhando e por onde seus passos deixavam pegadas surgiam trilhos feitos de canudos coloridos, acima dos trilhos tomou vida uma Maria Fumaça com cabeça de urso polar e de sua chaminé expelia bolas de sabão que quando estouravam exalava um cheiro de chiclete de bola que faziam as plantas e o pirata gargalharem. Este cheiro fez com que o garoto da sacola sentisse seu nariz coçar acompanhado de um espirro e deste surgiu um vulcão grandioso com sua lava feita de espaguete, molho de tomate com almôndegas e tudo. Acima da macarronada planavam pássaros que despejavam queijo ralado e seus bicos tinham forma de garfos para que pudessem degustar do conteúdo do grande caldeirão.

Caminhando e arquitetando seu mundo o garoto caranguejo sorria e era feliz, pois ter o seu próprio mundo foi o que ele sempre desejara. Mas algo saíra de seu controle e do mar de nuvem surgiu um dente-de-leão com um rosto de garota, seus cabelos parafinados repousavam até abaixo dos ombros. Seu rosto era a coisa mais bela de todo aquele mundo e o garoto caranguejo se perguntava como era possível que ele tivesse criado algo tão maravilhoso.

Então o criador decidiu aproximar-se da planta que fizera seu coração disparar. Caminhava lentamente para não espantar a flor-moça. Sua garganta secara de tanto nervosismo com a possibilidade de poder dividir aquele mundo que era só seu com sua recente paixão. Tal nervosismo fez com que seu controle sobre o mundo fosse alterado e apesar da noite clara pelo poder das estrelas e a temperatura agradável o caranguejo-menino sentira uma leve brisa em seu rosto e ela aumentava cada vez mais.

Faltavam poucos passos para que pudesse ter em seus braços a futura rainha de seu mundo, mas a brisa leve atingiu tanta intensidade que tornou-se tempestade e o vento levou o dente-de-leão com rosto angelical para o céu, fora do alcance do poder do menino.

Ele tinha chego tão perto e ela se fora.
Num ato de desespero retirou a bolsa do ombro e virou-a do avesso na esperança de que entre tantas outras coisas saísse outro dente-de-leão igual ao que tinha lhe despertado o amor, mas ao invés disso só saíram demônios, trovões, tornados, pesadelos, dragões, terremotos e outras catástrofes. O garoto já não tinha controle de seu mundo.

Os demônios agora libertados voavam sobre o mundo recém-nascido e cuspiam fogo, queimando todo o trabalho do garoto caranguejo e ele sequer pensou na queimada, apenas continuou vasculhando a bolsa na esperança de encontrar aquela que fora o ser de mais valor em toda sua criação.


Bento.

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