domingo, 27 de maio de 2012

BEM VINDA OUTRA VEZ


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Parei de andar, que no meu caso é semicorrer. Enfiei os dedos no bolso e com o indicador e o médio quase como uma pinça consegui retirar o molho de chaves para abrir o portão.
Todos os dias o mesmo horário, o mesmo caminho e geralmente os mesmos pensamentos habitando a cabeça. Só que hoje não tinham cachorros para me recepcionar, até meus cachorros descobriram compromissos em suas rotinas e eu continuava com os mesmos problemas, o mesmo caminho e horários.

Passei pela garagem rapidamente porque eu tinha pressa. Logo ela chegaria e do portão gritaria meu nome, alto, seco, só a primeira silaba, já era o bastante, mesmo que não dissesse nada, mesmo que falasse em hebraico, japonês, mandarim. Mesmo que resmungasse já era o bastante para eu reconhecer a entonação de sua voz.

Tinha pressa para me aprontar, louças, roupa de cama, banho, tudo. Abri a gaveta da cômoda e deixei a garrafa de conhaque repousando sobre as camisetas velhas, queria esconder que ainda precisava do líquido amargo para acordar, dormir, comer, andar, pensar com equilíbrio e para parar de pensar às vezes.

Sumiram também os gatos e eu passei a vista rápida ao telhado sem encontrar nenhum deles. Sem gatos, sem cachorros, sem vizinhos gritando, sem carros na rua e sem telefone tocando. Comecei achar que era meu dia de sorte e logo pensei em servir uma dose para comemorar, mas aí lembrei que ela estava vindo e tentei imaginar com que roupa ela estaria, de que forma teria preso o cabelo, ou se estaria solto. Tênis, sapato, sapatilha, chinelo? Não importava, não havia roupa alguma que a deixasse feia, era incrível.

Tão incrível que no começo ela acabava com minha autoestima, perto dela eu sempre parecia do avesso, desarrumado, tímido, burro e incapaz. E eu não dava a mínima. Estar ao seu lado me bastava e era tudo lindo. Agora não, agora ao seu lado eu me sinto esbelto, esperto, de uma soberba incomparável. Sinto-me o herói alado guardando a mocinha indefesa. Não que ela seja indefesa, bem longe disso, mas ela acha que eu não sei que ela finge precisar de mim só para que eu me sinta o homem dela e ela se sinta a minha mulher. Menos hoje.

Hoje ela reservou para ser minha heroína, com direito a capa, identidade secreta e tudo mais.
Ela quis assim e eu fiquei pensando se eu já fiz por merecer tais cuidados, se sou bom o bastante, se posso melhorar em alguma coisa, essas coisas de insegurança que toma conta do peito de vez em quando.

Encostei na cama esperando que ela chegasse e peguei no sono, quando acordei ela já estava ao meu lado vigiando meu sono, ao abrir os olhos ela recepcionou-os com um sorriso lindo, sorriso dela.
E ela disse que hoje era meu dia, disse para que eu não pensasse em nada e eu não pensei. Para que eu não me preocupasse que ela resolveria todos os problemas e eu não me preocupei.
Não me deixou sequer levantar, pois suas pernas seriam as minhas e que se eu quisesse algo logo ela traria.
Tentei dizer o quanto estava feliz pela visita mas fui interrompido por seus lábios rosados tocando os meus. Ela não queria que eu falasse e eu não falei

E para mim não poderia haver momento mais perfeito, puxando pela memória descobri que não havia mesmo, em toda minha vida.

Foi quando comecei ouvir latidos do lado de fora, eram os cachorros que tinham voltado. Ouvi os miados, eram os gatos que estavam no telhado outra vez.
O telefone tocou, era o silêncio indo embora de novo.
Os vizinhos brigando, era a realidade voltando ao normal.
Mas nada importava, pois ela estava ao meu lado, então me sentei, passei os olhos ao redor e não encontrei vestígios dela. Tudo ali estava exatamente como deixei antes de pegar no sono e me dei conta que ela nunca estivera lá.
Claro que não, ela se fora há muito tempo. Era a solidão pedindo passagem.
Então abri a gaveta e fui beijado pelo conhaque várias vezes, era a vontade de esquecer novamente.



Bento.

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terça-feira, 22 de maio de 2012

BUKOWSKI RESERVADO

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Eis que eu indiquei a leitura de Bukowski para um amigo contista e me deu vontade de ler o autor.
Já li algumas coisas, mas foi quase nada.
Sei que fui comprar um livro do Bukowski na banca e o Antônio, o chamo de Toninho, me diz com a cara lavada: 20 conto, Bento.

Porra! 20 conto?

Eu não tenho 20 conto para pagar num livro. Ok! Gasto com meus cigarros e Drehers bem mais que isso mensalmente. Mas já é fim de mês para mim. Mais duro que eu só o tórax daquela mulher do pagodeiro que foi preso.

Agora vão aumentar meu cigarro, e nem fumar eu poderei mais. Minha marca vai para 6 conto e eu provavelmente terei de parar de fumar, ou roubar para manter o vício. Na minha casa sumirão torneiras, micro-ondas e outras relíquias para comprar meu maldito cigarro. “Fui vencido pelo sistema”, diriam os pregos metidos a Che Guevara maconheiros que temos espalhados pelo país. Trabalho como um condenado e não me sobram 20 conto para ler Bukowski.

Aí tive a brilhante ideia de ir até a biblioteca, claro, como pude ser tão burro de não pensar nisso antes?
Fui até a biblioteca Mário de Andrade e eis que me deparo com o Destino me esperando na porta, pronto para rir da minha cara. Deveria ter previsto que ele me pregaria uma peça diurna de segunda-feira. É esse o dia favorito do Destino.

 - Todos os títulos de Bukowski estão alugados. Disse a bibliotecária.

Velha nariguda. Eu pensei.

 - Tem certeza? Olha de novo.

 - Senhor... Todos os títulos de Bukowski estão alugados.

Velha maldita parece uma máquina repetindo a mesma frase assim. Quem em sã consciência torna-se bibliotecária? Pude imaginar na hora ela dizendo "É, eu tenho 20 conto para comprar um livro" e ela nem precisa, trabalha num biblioteca.
Velha safada exploradora de livros gratuitos. Só ela deve estar com uns três títulos do Bukowski.

Voltei puto para o trabalho. Quem lê Bukowski? Ninguém que eu conheço lê Bukowski! Um ou dois no máximo.
Onde estão essas pessoas que leem o velho alemão depravado para que possamos sentar num bar e conversar tomando uma?

Fiquei puto, reclamando da vida e amaldiçoando os miseráveis que alugaram os livros que eu queria. Um reclamão chato. Reclama, reclama, reclama e fica chato. Fumei uns dois cigarros pensando nisso e cheguei numa conclusão.
Se existem tantas pessoas assim que leem Bukowski na cidade, o mundo ainda tem salvação.

Bom saber.


Bento

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domingo, 20 de maio de 2012

GIULIARD BORSANDI IV

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Indica-se ler os episódios anteriores: "GIULIARD BORSANDI III"



Em alguns capítulos anteriores eu falei sobre um amigo de redação que cuidava dos classificados do jornal. Só que na verdade não era bem um amigo, um colega, no máximo. Quando eu caí não tinha ombro amigo para me escorar, a única que poderia ter feito isso era Nelia, que como vocês já sabem se bandeou para o outro lado, o lado mais forte. Eu não estou reclamando, tudo que tive foi por méritos próprios, sem a ajuda de ninguém. O mundo é assim, todos querem ficar por perto quando você tem dinheiro, fama e mulheres, quando não se tem nada disso ficam só os covardes, os falidos, que acham que um grupo de coitados se torna mais forte. A vida não é uma cooperativa, porra! Você está sozinho, num mundo de bilhões de pessoas, você está sozinho!

Mas aí, depois do sonho que tive com Nelia, onde acordei babado, finalmente abri a porta e quem eu vejo ao lado do Cabelo foi justamente esse colega, o Tadeu.

 - Essa campainha está dando choque sabia?

Ele nem me dera bom dia e já estava reclamando da merda da minha cabra, digo, campainha. É por isso que não gosto de dar moral para as pessoas, ela acham que podem fazer o que bem entendem só por achar que tem intimidade com você. Está dando choque nesse filho da puta e mesmo assim ele continuou enchendo meu saco até me acordar e me tirar do sonho com Nelia. Eu deveria usar o 38. e meter uma bala no meio dos olhos deste marqueteiro metido a jornalista.
Eu acordo mal humorado, na verdade, estou todo tempo de mau humor, só quem está na minha pele pode entender, ou seja, só eu.

 - É um teste! Para saber se realmente estão precisando de um investigador ou só estão querendo encher o meu saco.

Virei às costas e fui até a gaveta do scotch tomar o primeiro trago do dia, acordei cedo. Geralmente só acordo depois das 13 horas, ninguém acorda cedo disposto a contar para um desconhecido que está sendo passado para trás. E geralmente eu durmo muito tarde.

 - Então eu passei no teste.

Tadeu entrou atrás de mim e sentou na cadeira que tinha do lado oposto ao meu da escrivaninha. Cabelo parado na porta olhava para o sujeito que havia entrado no meu escritório com ar de desconfiado, mas Cabelo era igual a mim, não tinha muita paciência e nem confiava em muita gente.

 - Tá de boa aí Giu?

 - Suave Cabelo. E obrigado.

 - Precisando, eu to lá embaixo.

Então Cabelo nos deixou a sós para falarmos, eram dois lances de escadas de madeira oca comida pelos cupins que habitavam aquele prédio desde o tempo do Brasil colônia.

 - Bom, Tadeu. O segundo teste é: Você me acordou cedo e eu não gosto disso. Então vou te dar cinco minutos do meu tempo para você me convencer que merece minha atenção.

Ele parecia feliz em me ver, mas tinha bebido recentemente, bebido muito. Seu rosto magro como eu lembrava depois de tantos anos era agora bem mais magro, barba por fazer. Os lábios brancos denunciavam a ressaca e os olhos, denunciavam a tristeza.
Percebi na hora que o problema era mulher.
Um homem só se acaba desse jeito quando tem mulher na história. Por isso tem gente que diz que a pior droga do mundo são as mulheres e nada pior na vida de um homem que uma vadia.
Um homem aguenta tudo; levar porrada, trabalho pesado, eliminação do time do coração, morte da mãe... Homem só não aguenta uma vadia em sua vida. É assim desde que o mundo é mundo.


 - Primeiro eu quero dizer que lamento muito o quê aconteceu lá no jornal.

 - Poupe o meu tempo e o seu. Passado é passado. E sei que você não veio aqui depois de tanto tempo só para dizer que lamenta.

Esse animal não entendeu nada. Quero me livrar dele o mais rápido possível e ele aí dando voltas. Eu não gosto de ver ninguém do meu tempo de jornalista. Todos eles me fazem lembrar do fato ocorrido e de Nelia. E eu não preciso de ajuda para lamentar o meu amor perdido. Vadia!
Meu dia vai ser ótimo, já estou até vendo.
Uma vadia no sonho e um corno na minha frente. O que virá depois? Minha mãe?

 - Vá direto ao assunto Tadeu. O que é? Casamento?

 - Não, não me casei.

 - E o que você quer de mim?

 Tadeu me contou sua história, ele não casara, mas tinha uma namoradinha. Disse que desconfiava dela, o que é normal, todo mundo desconfiava de todo mundo, alguns só não assumem. Por isso é que eu prefiro ficar sozinho, na verdade não prefiro, porém não vou me entregar a qualquer vagabunda só pela solidão, para isso inventaram o sexo casual. Mas isso é outra história, voltando ao Tadeu...

Ele estava disposto a casar com essa tal namoradinha, já tinha pagado as alianças, faltava só o convite. Então me procurou para ter certeza se ela era a mulher certa. Como se eu fosse Deus, porra! Mesmo se eu for atrás dela e achar alguma coisa, não quer dizer que ela não seja a pessoa certa. Existem milhares de casamentos que só sobrevivem por causa das traições, eles saem da rotina e voltam para casa renovados, sem falar nos voyeurs, nos que transam a três. Cada um sabe onde o calo aperta. Não vou julgar.

Resumindo era isso; eu iria investigar a garota para saber o que ela andava fazendo quando não estava sentando no pau do Tadeu. Passei meus honorários e disse que não iria dar desconto pela nossa "amizade" e tal e tal. Sabe como é, amigos, amigos... Mas dei um toque:

 - Eu vou investiga-la, mas uma vez ouvi um ditado que quem procura acha. Você está pronto para o que eu posso encontrar?

 - Sim...

Não botei muita fé, é por conta e risco dele.

 - Então, negócio fechado. Eu mantenho contato, agora saia.

Nos despedimos e eu pedi para que fechasse a porta quando saísse.

Ao invés de procurar informações da namoradinha de Tadeu eu me servi de mais uma dose de scotch e acendi um cigarro, era meu café da manhã. Eu tinha tempo, afinal a mulher do pastor só sairia para dar o rabo na sexta-feira, que era quando ele iria viajar e hoje ainda era segunda.

 E logo o sonho com Nelia invadiu minha mente. Maldito sonho...



Bento.

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quinta-feira, 17 de maio de 2012

NÃO SEI DIRIGIR

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E então eu estava ao volante e encosta um policial. - O senhor está alcoolizado! Ele disse.
Foi impossível conter o riso, fez lembrar-me de minha infância, lá pelos 12 ou 13 anos, quando ouvia isso da minha mãe e professores.
- O senhor está alcoolizado? Ele agora perguntava.

Voltei de meu devaneio infantil para olhá-lo nos olhos e responder com segurança.

- Evidente que estou meu caro. Porém, como não estar nesta sociedade onde o micróbio é tratado como gente e gente é tratada como micróbio? Nesta sociedade careta que se reprimi em sua hipocrisia de parecer bons samaritanos para eles mesmos?
Onde a verdade é tratada como utopia e a mentira como subterfúgio de uma socialização medíocre e podre.
Sociedade essa que trata a literalidade como démodé e a anticultura como cordão umbilical para ignorância.
Nesta podridão de dedos apontadores de amores financeiros.
Sociedade de sorrisos melancólicos veneradores de um futuro engenhoso só para os bárbaros de caráter.
Como manter-se sóbrio derivando de uma classe que não financia e não tem demérito bastante para ser financiada?
Numa sociedade decadente terceiro-mundista que se equivalem aos gersons, valérios e dirceus.
Numa filantropia carniceira de tostões sonegados.
De uma autenticidade reprimida para a exaltação da cópia e a versão cretina.
Há de embriagar-me, e digo mais, embriague-se o senhor também, para que não compartilhe dessa visão infernal que presencio - E ofereci a garrafa de cachaça que naquele automóvel era a única coisa nacional que resistia à globalização.

O guarda é claro, negou afastando a garrafa: - O senhor não pensa em sair com o carro neste estado, pensa?

Mais uma vez o sorriso foi inevitável e respondi ainda sorrindo: - Pode ficar despreocupado seu guarda, só estou fugindo de uma reunião de família que acontece lá em casa onde discutem sonhos e planos para o futuro. Tão leigos, pois não sabem que o Destino é quem conduz essa merda toda de vida. Este carro sequer é meu e muito menos sei dirigir sóbrio, quanto mais bêbado. Fique tranquilo.

E assim o guarda entrou na viatura e partiu.


Bento.

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sábado, 12 de maio de 2012

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA RESSACA


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Confesso que penso em minha insistência de exaltar o álcool, bem, convenhamos, me saio melhor falando sobre o que gosto.

Então estamos todos no bar e o testemunho da alegria está estampado no rosto de todos em volta. É uma fraternidade talvez ilusória -- sei que alguns vão dizer -- e eu não vou argumentar, porém acredito que transborda a sinceridade no porre, pois bêbado não mente, assim como as crianças e quem não gosta de voltar a ser criança mesmo que só nas verdades vomitadas?

Eis que tenho a ressaca como uma das minhas melhores amigas, tanto que a trato como senhora Ressaca, assim como trato o tédio como Tédio. Tanto respeito que sinto que merecem nomes próprios.
Sempre disse que escrevo melhor quando a Ressaca me faz companhia, assim, desacelerando meus pensamentos e dando um rumo as palavras como um quebra-cabeça. Recita em meus ouvidos frases flutuante de meu inconsciente.

Eu não tenho a pretensão de explicar o que é uma ressaca daquelas de deixar os pelos do corpo arrepiados e as mãos trêmulas. Prefiro que sintam na pele, mas como disse para uma amiga “nipo-nordestina”, gosto de analisar as coisas, mais que isso, dentre tantos vícios, sou viciado em análise. A ponto das pessoas próximas dizerem "Bento e suas teorias", a reflexão é o lubrificantes das engrenagens do cérebro.

Então eu falo de ressaca como se fôssemos parentes próximos. Ela me dá o que eu quero e eu tiro proveito disso.
É desnecessário dizer que em toda relação existem abalos nas estruturas e nem sempre são flores.

 Quem conhece sabe que a Ressaca é tendenciosa, tenderá sempre para a falta de escrúpulos que tem consigo mesmo, o segredo está em colocá-la em seu devido lugar.
Não sei quanto ao resto, mas a pós-embriaguez possui personalidade, portanto haverá dias que ela te visitará com um humor totalmente lamentável, que chega a lembrar o Tédio, é quando ela inspira músicas, parábolas e apelidos como "Maldita Ressaca".

Tem dias que ela baterá na sua porta com flores e chocolates fazendo você sorrir com as histórias da noite anterior, mesmo daquelas que não nos orgulhamos tanto. É como encontrei-a parada no pé da minha cama hoje cedo, vigiando meu sono  e coleções de sonhos esquecíveis. Me deu um belo beijo de bom dia e serviu-me de café fresco e cigarros. Então sentei na cama para ouvi-la e juntos criamos planos mirabolantes para consertar as falências de pudor da noite anterior. Como é sábia a Ressaca.

Vou confessar aqui que algumas vezes bebo só para ter a ressaca em minha companhia, uso os destilados como convite -- venha tomar um café comigo e colocamos a fofoca em dia. Eu digo.

Agora eu vou mais longe e dizer que existe uma purificação na ressaca, há um desprendimento das canalhices mundanas no sentido de criar uma hegemonia dos sentimentos passionais que ficam todos ao seu favor na intenção de arquitetar uma compreensão mútua entre você e esses sentimentos.

Dito isso, sinto uma imensa vontade de achar que a origem da palavra ressaca deveria ser "cura da alma" mesmo em sua falência.

Mas eu sei que sou um romântico e possuo a tendência de fazer parecer "bom moço" todos e tudo que me faz bem, porém tenho adquirido uma política de "morde e assopra" que nem mesmo eu entendo e sei donde houve início. Sendo assim, fingirei polemizar citando àquelas características físicas e lúcidas como dores de cabeça, apologia à preguiça e sede que beira a demência. Bom, na verdade eu mudei de ideia, não vou cometer a sobriedade -- até porque não estou sóbrio -- de citar as características físicas da ressaca. 


Bento.

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

MALDIÇÃO DE POBRE É O BOM GOSTO


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Eu pensei muito para falar sobre isso, queria achar uma forma de me colocar que não fosse parecer dor de cotovelo, que não fosse parecer inveja barata, ou golpe publicitário.
O fato é que sei que as mulheres, muitas delas, não terminarão de ler. Outras vão espernear, gritar, se indignar e me chamar de machista. Mas eu vou falar: - mulher gosta mesmo é de dinheiro, e muito. Quanto mais, melhor.

Já estou imaginando as maçãs do rosto agora vermelhas de raiva, o ranger dos dentes e meu nome sendo amaldiçoado várias e várias vezes. Minha orelha já arde neste instante e eu penso "todo mundo sabe disso, para que fingir?" Ora, isso é o mais natural, talvez eu, se fosse mulher, faria o mesmo, convenhamos, não há pessoa mais mesquinha que o pobre, claro.

Eu já contei isso aqui, acho, se não contei vou contar agora, mas creio que já falei sobre isso. Certa vez uma namorada minha me disse: "você dá muito valor para seus bens materiais", claro que tinha todo um contexto, falávamos sobre o fim da relação e todas essas coisas que causam mais dor que solução. Mas ela estava coberta de razão, estranho é que depois que acabou o relacionamento com ela, eu dei razão para tudo que ela falou ou fez. Antes disso eu só vivia para lhe tirar a razão, mas enfim, sem me estender sobre tal relação que não é o foco agora, ela estava com a razão. Sim eu era (e ainda sou) materialista.

Na época trabalhava em dois turnos para pagar minhas contas e vícios. Ainda hoje não mudou muito, aumentou o dinheiro, aumentam os vícios. Tudo, desde a infância, sempre fora de um sacrifício enorme, impossível não me apegar nos bens matérias tão suados.

Eu também já falei aqui de bolinhas de gude e brinquedos feitos de madeira. Falei com tanto sabor, com tanto paladar e poesia que talvez tenha passado a sensação de ter sido uma boa infância, mas não foi. Não comparado com as infâncias de hoje.

Porém, não me entendam mal, esse não é um texto de lamentações, não de minha parte pelo menos. Eu lamento é pelas garotas que derramam os melhores anos de suas vidas ao lado de homens que só tem por qualidade os bens que podem oferecer a elas.
Não sou hipócrita, não vou criar flores na pobreza, pois não existe. A pobreza é arada, é deserta e seca.
É deserto com cactos e carcaças de animais mortos pela falta de alimento.
Entendam, não falo do pobre, estou falando da pobreza.

O amor, dizem: - não se compra.
Eu digo, compra-se o amor, compra-se a felicidade e tudo mais que estiver à venda.
Mas sem julgamentos, a intenção não é essa. Isso trata-se de uma constatação.
Mesmo os cientistas explicam isso, desde os primórdios, no mundo animal, as fêmeas procuram os machos alfas, os mais fortes, aqueles que podem proteger sua prole das ameaças de predadores e do clima. Isso está no instinto da fêmea de qualquer natureza. Instinto de proteção e a mulher, a rainha das fêmeas não foge disso.

Num mundo capitalista dos tempos modernos, nossos machos alfas são justamente os patrícios bem nascidos que oferecem segurança e principalmente conforto as mais belas fêmeas de nossa sociedade.

O homem não. Nós não nos importamos onde vamos dormir ou acordar. O homem só precisa de dinheiro para beber, de resto somos escravos das mulheres. Sim, escravos das mulheres. O homem por si só viveria com um salário mínimo e ainda teria uma poupança. De tão largado que somos, nossas roupas durariam décadas de uso e serviços prestados. Mas o homem é escravo da mulher, pois sua libido deriva delas. Homem só gosta de dinheiro por atrair mulher, caso contrário seríamos todos socialistas e dividiríamos tudo o que temos com os mais necessitados, todos aspirantes a São Francisco de Assis.
Veja os homens na mesa do bar, por exemplo, cascatas de cervejas descem por nossas goelas e não queremos saber quem está pagando, o importante é ter nossas gargantas lubrificadas para continuarmos falando de mulheres.

Ah, mas as mulheres não. Mulheres precisam se sentir seguras diante da proximidade do envelhecimento, garantem o seu e os da sua possível e futura prole, sacrificando como eu já disse, os melhores anos de suas vidas.
Mas quem pensa que eu quero dizer que nossas madonas do capitalismo são infelizes, errou. Diante do luxo até o rato se corrompe e passa a comer queijo, vejam os ratos hollywoodianos por exemplo. São criados a base de gorgonzolas e queijos prato, pois são estrelas de cinema.

Mas e o amor? O amor também está lá, afinal o amor está no conforto, nas possibilidades que só o dinheiro pode conceder.

Mas e o pobre? Se perguntam agora milhões de humildes miseráveis em busca de uma salvação, algo neste texto que lhe traga esperança. Desculpem-me, pois eu penso no pobre e... O pobre. Ah, o pobre. A pior coisa que pode acontecer com o pobre é o bom gosto.



Bento.

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