sábado, 30 de junho de 2012

PS: LEVEI SEU WHISKY

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Alguns anos atrás conheci uma garota com os cabelos azuis e a pele branca como papel.
Tinha um corpo de criança, magra, baixa, uma criança de cabelos azuis.
Essa garota tinha um demônio naquele corpo magro e branco, sem exagero, ela era verdadeiramente possuída.
Certa vez saímos e a levei até minha casa. Nós dois estávamos tão bêbados que dificilmente faríamos alguma coisa diferente que não fosse deitar na cama e dormir.
Mas estávamos longe de casa e ela tagarelou o caminho todo. Falava dos shows que ela tinha ido, dos porres que ela tinha tomado e com os roqueiros que tinha transado e percebi que era isso que ela fazia. Ia a shows, transava com os músicos e comigo não seria diferente, apesar de que seria difícil transar depois de tanta cerveja e destilados que havíamos bebido.

Só que ela tagarelou tanto que meu porre foi passando e estávamos longe da minha casa. Então resolvi parar no caminho para mijar e ela também. Urinei e depois fui cobri-la com minha jaqueta para que ela pudesse mijar, nem mijando ela parava de falar. Estava de cócoras e falando.
Falava da sua escola e como ela fugia das aulas para fumar maconha e beber.
Disse que uma vez, decidiu fumar no banheiro para evitar a chuva que caía lá fora, falava que em sua escola era comum os garotos fumarem no banheiro masculino que ficava no último andar, algumas meninas idem. Mijava e falava como seu professor a encontrou fumando no banheiro e pediu que o chupasse para que não levasse o caso até o diretor que com certeza a expulsaria. Enfim ela parou de mijar, mas não de falar.

Eu desejava chegar logo em casa para que ela se calasse.
O efeito do álcool já estava me deixando e eu não lembrava como tinha conhecido aquela garota de cabelos azuis. "Quem é você e por que falava tanto?" eu pensei. Não me lembrava se ela havia dito seu nome. "Prazer, meu nome é Paulo" eu disse. Ela sorriu e parou de falar um instante: - Mas você me disse que se chamava Rodrigo. "É, se eu disse deve ser verdade. Meu nome é Rodrigo Paulo".

 Ela disse que seu nome era Milena e parecíamos recém conhecidos. Claro que uma garota que eu levaria para casa e tinha acabado de conhecer deveria ser beijada como manda o script, logo, enfiei os dedos entre seus cabelos azuis da nuca e beijei-a. Foi um bom beijo, durante alguns minutos nos beijamos e agora estávamos perto de casa.
Em compensação eu já sentia sinais de ressaca e o sono começou a me atormentar. Então resolvi cantar para espantar o sono. Cantava e a garota de cabelo azul sorria e aplaudia.
Todos em volta olhavam com cara de poucos amigos e eu continuava cantando, exceto quando parei para xinga-los: - Vão se foder seus malditos! Não sabiam reconhecer uma boa música. O dia já estava claro, as pessoas tinham acordado e estavam a caminho do trabalho e nós estávamos indo dormir cantando "O Diabo é Careta".

Meus olhos davam a sensação de estarem cheios de areia de tanto sono que havia em mim e Milena reclamou pela primeira vez sobre a demora em chegarmos à minha casa quando já estávamos em frente o prédio.

- Chegamos. Eu avisei.

Entramos e fomos direto ao banheiro mijar. Eu sempre mantenho uma garrafa de alguma coisa alcoólica para esse tipo de ocasião. Servi uma dose de Whisky para os dois e a garota saiu do banheiro já nua.

Tomamos mais duas ou três doses deitados na cama e depois de fumar um cigarro começou a me beijar.
Nos beijamos um bom tempo até que ela começasse a mostrar o demônio que havia em seu corpo de criança.
Eu estava em cima dela e suas unhas começaram a rasgar minha pele das costas. Depois suas mãos foram ao meu cabelo e o puxava como se fosse arrancá-los e afastei suas mãos. Depois começou a arranhar meu pescoço e peito e àquilo tudo me causava dor e prazer, até eu ver o sangue escorrendo de meu peito e perceber que nossa brincadeira estava indo longe demais. Novamente afastei suas mãos e ela começou a me dar tapas no rosto me xingando de filho da puta e foi quando eu disse:

- Escuta garota, se começar a me dar tapas eu vou te dar tapas e você poderá não gostar.

Ela disse que gostava. Dei três tapas bem dados em sua face e a garota concordou que era melhor pararmos de nos bater.

Continuamos transando. Eu dei umas duas cochiladas e quando acordei ela ainda estava em cima de mim como se nunca fosse se esgotar. Ela gostava daquilo. Enfim ela terminou e dormimos.

Acordei e pela janela notei que já era noite novamente. Estava sozinho na cama e tudo parecia estar como deixei antes de dormir, exceto a TV que tinha um bilhete pendurado com chiclete:

- Tive de ir a um show
até mais
ps: Levei seu Whisky

bjos

Milena.


Bento.

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO MORRER?

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Sempre que me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse eu sempre tive um milhão de respostas diferentes para responder a isso. Já pensei em tanta coisa.

Hoje se me fizessem a mesma pergunta eu diria que não gostaria de crescer, mas agora é tarde. De qualquer forma, continuo não simpatizando com a tal pergunta.

O correto seria; O que você quer ser quando MORRER?

Para essa pergunta eu respondo sem pestanejar. Quero ser eterno.

Independente de como vou viver, foi sempre a eternidade que fez meus olhos de criança brilharem como ao ver um brinquedo novo.

“Minha” eternidade não tem nada a ver com religião, paraíso, ou viver em graça ao lado de Deus e toda essa ladainha dos desesperados que buscam um objetivo para a vida e também para a morte. Apesar do nosso egocentrismo de querer ser a menina dos olhos do universo, somos como tudo que habita nele. Nascemos, vivemos (ou sobrevivemos - que é bem diferente de viver) e morremos. E é só isso.

Eu, definitivamente, não quero viver uma vida de privações esperando ser feliz nos jardins do Éden, quero aproveitar tudo o que há de bom aqui, em vida. Sentir na pele todos os prazeres da carne.

 Aliás, meu relacionamento com Deus é um tanto quanto peculiar, com tantas reclamações que tenho para lhe fazer é bem provável que se morresse hoje seria enviado diretamente ao inferno. Estaria sentado numa mesa de bar junto com alguns políticos do PT, pastores evangélicos, tomando algo gelado e alcoólico para resistir ao calor e uniríamos forças para falar mal Dele. Mas isso é outra história para um outro texto, voltando a falar da eternidade...

Também não estou falando daquela famosa eternidade idealizada por vilões dos filmes. Longe de mim querer perambular pela terra por centenas de anos como um vampiro ou coisa do gênero. Ficaria extremamente insatisfeito se passasse mais tempo neste mundo do que me foi destinado. Nem um segundo a mais, nem menos.

Estou falando de ser lembrado, de deixar uma herança ao mundo. Algo que poderá ser usado depois que eu me for, algo além de meus órgãos.

Talvez por isso me identifique com a escrita, nada resiste mais ao tempo que a comunicação por extenso.

Não precisa ser nada tão grandioso quanto Shakespeare, mas também não alcançaria meu objetivo com a inutilidade de um ex-big brother. Deve ser algo que esteja inevitavelmente ligado ao meu nome, que fosse repassado as outras gerações através dos livros de histórias ou jornais.

Já deixo bem claro que não tenho nenhuma vocação para virar santo, nem herói. Também não tenho vocação para terrorista ou criminoso como Bin Laden. Muito menos recebo mensagens do além como Chico Xavier. Portanto quero ser lembrado por palavras minhas, uma frase, uma crônica, uma música. Assim, nos dias dos finados, as velas acesas em minha homenagem não serão somente de meus parentes próximos.



Bento.

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terça-feira, 19 de junho de 2012

UM OLHO NO PEIXE E OUTRO NA GATA (FUTEBOL)


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Hoje é dia de Corinthians e estamos todos no bar, é claro.
Todos devidamente uniformizados e com cervejas nas mãos, menos eu. Eu tomo Dreher, afinal, além da "dureza", é a forma mais fácil de ficar "simpático" gastando pouco.

Ao meu lado -- não ao lado exatamente, mas em meu campo de visão -- existe uma estudante de jornalismo inteligentissima e linda de uma forma pré-colegial. Aquela que lembra professoras do jardim de infância, mas agora eu tenho libido de adulto, uma combinação quase explosiva.

Então temos a estudante com uma sensualidade de mulher e um rosto de menina conversando com um qualquer. Logo estamos dividindo a atenção dos lances perigosos na área do meu time em pleno jogo de libertadores com o (tomara que não) casal conversando.

Falando do jogo, está chato. Truncado no meio de campo o time adversário ataca mais. São as faltas que fazem o jogo travar no zero a zero, bem como o casal que eu observo. Eu gosto do placar do casal, do jogo, eu quero mais é ver gol do Timão.

Por falar em zero a zero, observo sem ouvir a conversa do casal por causa dos corintianos no bar pulando e cantando os hinos da torcida como no estádio.
Eu não pulo para não derrubar o Dreher e porque acho que em bar não se pula, sim no estádio, mas não no bar.
Quero beber, ver o Corinthians ganhar e a lindíssima estudante, agora já bêbada, sair ao menos, sozinha.

Eu levo um terço no pescoço, não que seja religioso ou devoto, eu diria que é mais estética, porém nada impede de apelar para Deus quando o jogador do time adversário está de frente ao nosso gol. Não apelo pelo casal, pois não acredito que haja intervenção neste caso.

Meus olhos seguem lá e cá e penso que poderia prestar mais atenção no jogo, afinal dependemos da vitória hoje, para seguir em frente no campeonato. Só que a garota me encanta de tal maneira que dependerei da situação entre a estudante e o desconhecido para terminar a minha noite bem.

O juiz causa discórdia no jogo apitando mais faltas para o outro time, mas pode ser só a visão de torcedor. Claro que a essa altura do jogo, o empate jogando fora de casa, não é de todo ruim. Meu time entende isso e passa a jogar na defesa, bem como a estudante que se afasta do periculoso e eu me animo.

A torcida adversária passa a jogar copos de mijo em nossos jogadores ao cobrar escanteios e meu sangue começa a subir, da mesma forma meu ódio ao ver a linda universitária começar a colocar os cabelos atrás da orelha e arrumar a bolsa em seu ombro, inquieta, sinal clássico de que o indivíduo estava obtendo sucesso em sua empreitada. Algumas mulheres dão sinais, que o homem que se preze tem de saber identificar.

Bom para o autor que o menino não soube aproveitar da embriaguez e gestos da garota e excelente que o zagueiro do meu time tirou uma bola praticamente em cima da linha. Logo, eu fiquei dividido entre a TV, a garota, as pernas da garota, o Dreher e o cigarro. Nessa soma, agora o jogo tinha mais de minha audiência para que passasse despercebido na observação do casal.

O cronometro corre sem parar, quem não corre é a bola, que não chega ao ataque para que possamos abrir o placar. O Dreher tomando conta de minhas veias e o casal tomando minha atenção, afinal a garota das pernas maravilhosas voltara a colocar os cabelos atrás das orelhas, sorrir, mexer na bolsa e se aproximar do maldito que também era estudante.

Os torcedores continuavam a gritar e pular ao meu lado, até que acontece uma falta perto de nossa área, muito perto. Apreensivo eu já estava, pois a garota estava preste a se despedir da ameba ambulante que passou conversando durante todo o jogo. Se fosse, seria agora, na despedida, que aconteceria o beijo que faria eu, no mínimo, querer ficar muito bêbado e desanimar.

A barreira estava feita, os jogadores se empurravam e andavam para frente disfarçadamente no intuito de diminuir o espaço e visão do batedor. Eu disfarçadamente cruzada os dedos para que a garota fosse embora sozinha e sem beijo.

O juiz tomava distância pronto para apitar e permitir a cobrança, os torcedores do estádio e do bar roendo as unhas. Um silêncio tão devastador que quase consigo ouvir o que o casal conversava, quase, mesmo assim não era possível.

O juiz apita, o cobrador não vai imediatamente para a bola. Faz drama. O mesmo drama que a garota faz para se despedir. O cobrador já está a dois passos da bola e o casal tem agora, suas bocas tão próximas que sentiam o hálito um do outro. O camisa 11 bateu na bola com jeito e ela viaja sem pressa em direção ao gol. Meu goleiro dá passos largos para o lado como um caranguejo e mantém seus olhos esbugalhados. A mão do cretino está no pescoço bem abaixo das orelhas da estudante. Queria eu, ser vesgo neste momento para poder olhar para os dois lances. Um olho no peixe e outro no gato. A bola ia em direção ao gol e o goleiro tentava acompanhá-la. As bocas se aproximaram e já faltavam poucos centímetros para que até seus cílios se tocassem.

Em onde eu fixaria os olhos eu não sabia. Na bola ou nas bocas? O goleiro pulou e passou despercebido pela gorducha seguindo seu caminho em paz até a rede. Nada poderia lhe impedir, nada a abalava. Os zagueiros já não se mexiam dentro da área. O cobrador inconscientemente já se dirigia a sua torcida para comemorar o gol da classificação que parecia inevitável. Eu já me preparava para o beijo inevitável. A bola foi. NA TRAVE! E caprichosamente saiu de campo por cima do travessão. A boca do garoto seguiu em direção a linda e deliciosa boca da garota e numa esquiva típica de mulher difícil encontrou apenas sua face esquerda.

Todos pularam e comemoraram como se fosse um gol do nosso time, a bola para fora, é claro. Até eu pulava e o Dreher foi pelos ares e serviu aos santos. Mas eu. Eu comemorava a solidão da garota a caminho de casa.

E o jogo? Ora, quem liga para o jogo?


Bento. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

GIULIARD BORSANDI V


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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI IV


Segunda-feira e eu tinha uma semana para resolver o caso do Tadeu antes de ir atrás da crente safada, a mulher do pastor. Provavelmente só vou vê-la na sexta de noite. Toda vez que penso no pastor e sua esposa dando para o obreiro fico curioso com a situação. Nunca entendi esse negócio de religião.
Mesmo antes de Nelia, Ricardinho e Dr. Hernandes desgraçarem minha vida eu não me ligava em religião. Acredito em Deus tanto quanto ele acredita em mim e quem me vê hoje, depois de todo o futuro que eu tinha planejado, acho que Ele nem lembra meu nome, ou finge que não lembra.

"Quanto mais alto está, maior o tombo", foi o que Tadeu me disse uma vez e agora ele está pedindo minha ajuda para descobrir se a putinha dele está sentando em outro pau.

Acho que termino este caso em dois ou três dias, hoje é segunda, quarta-feira eu acabo e me livro do Tadeu. Uma estudante de vinte poucos anos, auxiliar de escritório, não deve ser muito difícil de ser seguida. E não é que não goste do Tadeu, na verdade ele não fede e nem cheira, mas qualquer pessoa da redação ou da faculdade me faz lembrar meu auge e a vida que eu tinha antes, aí eu fico puto e quero beber.

Só me ligo nos dias da semana por causa dos trabalhos, para mim tanto faz, contanto que eles passem o mais depressa possível. Não me lembro do último aniversário que tive.
Não quero parabéns, nem bolo de aniversário. Muito menos parabéns de gente falsa, que bate nas suas costas desejando felicidades, sucesso e a puta que pariu. Esses são os piores. Tem gente que sabe o aniversário de todo mundo que conhece, anotam na agenda para não esquecer só para fazer essa merda de social, dar presentinhos, lembrancinhas. "Lembrei de você". Lembrou uma porra! Vai é me foder na primeira oportunidade que tiver.

Chega disso, não quero ficar aqui resmungando sozinho. Estou feliz, nem tanto, não pense que vou ficar todo serelepe pulando de alegria que nem uma bicha e dando bom dia para qualquer imbecil, porém esses 500 conto que Tadeu me adiantou vai ajudar bastante, a gasolina do DelRey já estava no osso e me lembrei que fazem dois dias que não tomo banho, então vou para casa.

Eu evito ir para casa porque tudo que está lá me lembra de Nelia. Nelia e a porra toda. Você deve ter percebido que eu tento me desvencilhar de meu passado de qualquer forma, mas é impossível, não consigo. Sou um fracassado. Sou um fracasso que já foi alguma coisa, o que é muito pior.

Cheguei em casa e tomei um banho enquanto a lasanha congelada esquentava no micro-ondas. Minha casa era na verdade um cômodo só, que eu dividia com móveis.
Cama num canto, guarda-roupa e TV em outro, um sofá no meio e no outro canto um micro-ondas e a geladeira. Comi a lasanha sentado do sofá vendo TV e tomando uma Heineken.

Curioso é que consigo passar dias com minha dieta especial a base de cigarros, café e Whisky, mas foi só colocar algum alimento no estômago para correr ao banheiro. Passei trinta minutos lá dentro sentado no vaso.

Depois de ver um pouco de TV e escrever alguns contos peguei no sono e só acordei às 21h00min. Adivinhem com quem sonhei enquanto dormia...

E lá se foi meu dia de folga, sobrara a noite para eu me divertir um pouco, resolvi ir para o bar.


Bento.

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PUDESSE EU TER LIDO O FUTURO...



Direitos de Autor Reservados a: DIFFUSE - creative film studios
Actor: Diogo Lopes
Escrito por: Ana Luisa Bairos, Joana Pacheco
Texto revisto por: Margarida Vaqueiro Lopes
Operadores de câmara: Ana Luisa Bairos, Duarte Domingos
Pós-produção vídeo: Ana Luisa Bairos
Pós-produção áudio: Alexandre Pereira
Música original: Alexandre Pereira
Realização: Ana Luisa Bairos
Agradecimentos especiais: Eva Barros, Isa Pinheiro

sábado, 9 de junho de 2012

O PERDEDOR NEM SEMPRE É O MAIS TRISTE, PENA


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Eu tenho alguns ídolos na minha vida. São pessoas nas quais eu me inspiro e me identifico.
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem ou acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.
Abdiquei desde a infância de torcer pelos mocinhos pé no saco e chatos como corrida de São Silvestre.

Digo isso porque após anos, eu na mistificação de tornar o passado fresco - ninguém faz isso de caso pensado, eu não sou diferente disso, adianto - fico pensando sobre como é possível idolatrar uma lembrança. É como assistir um compacto de jogo de futebol e mesmo sabendo o placar final torcer para o atacante perna de pau fazer aquele gol perdido debaixo da trave, ou rezar para que o goleiro pegue aquele pênalti que mexeu o placar. E se sentir maravilhado com o jogo do campeonato passado mesmo com seu time perdendo.

Essas lembranças que me trazem você para perto por reflexo me faz chegar à conclusão que sou seu fã e só não peço autógrafo pelo fato de já ter um, dedicado ao meu nome, com cheiro e coração ainda guardado na caixa de charutos que chamei de "CAIXADE PANDORA DE AMORES FINADOS" num outro texto.

Sou presidente-fundador e único membro do fã clube mais antigo dedicado a você.
Não nego não nego. Busco sim algumas informações sobre sua vida, mas na maioria dos casos são os paparazzi que insistem em me manter informado sobre affaires, festas e aquela coisa toda de ídolos que deixam os fãs satisfeitíssimos de compartilhar.

Em resumo, sou seu fã por tudo que você pôde e pode fazer e eu não. Sou fã de sua beleza e sua liberdade de pensar e agir, não necessariamente nessa mesma ordem.
Sou seu fã por saber enganar-me - e aos paparazzi - tão bem e só deixar vazar notícias felizes. Eu não. Como já citei acima, invariavelmente gosto da dramatização, do final trágico e épico. E isso, claro, é culpa sua. Mas não vou entrar neste mérito.

Prefiro reforçar que tenho em meus ídolos uma inspiração e você definitivamente é a campeã em me inspirar. No intuito de fazer bem a você e mal para mim partindo, me deixou de presente um leque de opções e a força de me levantar da lona após o nocaute. E ainda hoje, sempre que dá o ar da graça - aliás, me pego pensando no último sorriso de meses atrás e não consigo desvendá-lo - sou atirado contra a lona e obrigado a beijá-la, porém me levanto antes do fim da contagem.

E caio, levanto, caio, levanto. Ali no ringue, na disputa de pontos perdi de lavada e continuo caindo e você permanece me vencendo.

Mas para quem ainda não entendeu eu repito pela última vez:
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem e acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.


Bento.

terça-feira, 5 de junho de 2012

QUERO VOAR


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Eu fui dormir Amapolo Fernandes, com 42 anos de idade, dois casamentos e três filhos que não queriam me ver nem pintado de ouro. Fui dormir e era o velho funcionário dos Correios divorciado, morando numa casa minúscula e imunda com dois aluguéis atrasados. Pense como é difícil pagar três pensões e ainda manter uma casa.

Fui dormir Amapolo e acordei um pombo.
Literalmente um pombo, com penas e pulgas.
Estava eu numa grande praça e aquele gramado era enorme. Na minha cara havia um grande bico e meu pescoço mantinha um ritmo para frente e para trás conforme eu andava que já estava me irritando. Parecia um TOC, andava com minhas pernas que pareciam dois gravetos e o pescoço ia para frente e para trás. PARA FRENTE E PARA TRÁS. Parei e tentei manter meu pescoço parado, dei um passo para frente e lá se foi meu pescoço. Desisti.

O que meu médico diria se me visse agora como um pombo. -Parabéns! Pelo menos você emagreceu. Ou então. - Coma as pulgas, tem baixa caloria.

Olhei novamente para minhas pernas e faltavam-me dedos. Eram quatro apenas. Reparei que minhas unhas precisavam ser cortadas, mas eu não tinha braços. Disso eu gostei, sempre odiei cortar as unhas dos pés. Bethânia sempre gritava comigo. -Amapolo. Corte essas unhas filho de Deus.
Bethânia foi minha primeira esposa. Sempre achei unhas nos pés uma coisa inútil. Para que servem as unhas do pé? Tenha dó.

Comecei a sentir falta dos braços quando minha bunda começou a coçar. Era impossível coçar minha bunda com um par de asas, porém lembrei que, se eu tinha asas, poderia voar e isso seria sensacional. Sentia fome, mas abri as asas, eu só queria saber como era voar. Abri as asas e comecei a batê-las para cima e para baixo. Não sai do lugar. Agora minha bunda coçava ainda mais.

Tentei correr para pegar impulso e bater minhas asas o mais rápido possível e só o que consegui foi ter meu pescoço indo para frente e para trás, para frente e para trás. Agora com mais velocidade do que antes. Pensei que àquilo ainda me daria câimbra mais tarde.

Decidi parar um pouco, pois estava cansado com toda correria e avistei um casal de namorados sentados na grama da praça. Faziam um piquenique.
- Talvez eles possam arrumar um pouco de comida para um velho pombo e me dizer onde eu estava.

Fui andando até lá com meu pescoço dançante. - Com licença, podem me arrumar um pedaço de bolo? Não me ouviram.

Cheguei mais perto e repeti o pedido. Não me deram atenção. Desta vez eu gritei.
- ME ARRUMEM UM PEDAÇO DE BOLO SEUS MISERÁVEIS! Estava tão perto do casal que quando ele jogou a lata de refrigerante em mim não houve tempo de desviar e eu fui lançado alguns metros de onde eu estava, rolando como um pombo atingido por uma lata de refrigerante.

- Puta que pariu! - eu desabafei - Um pombo que não sabe voar. Grande bosta eu sou.

Antes de me recompor comecei a raspar a bunda no chão. - Essa merda de coceira que não passa!

- Psiu... - alguém me chamava - Psiu... Ei, colega.

Girei meu corpo de pombo procurando quem falava comigo.

- Ei colega, aqui ó.

Atrás da raiz de uma grande árvore havia um outro pombo e parecia meu irmão gêmeo. Penas iguais, bico igual, com uma exceção, ele não tinha um dos olhos.

 - Cola aqui, rápido.

Fui até o pombo andando com dificuldade devido a pancada da lata, ainda estava meio zonzo.

- Você é novo por aqui, não é?

- Sim.

 - Logo vi. - Ele sussurrava como se estivesse fugindo de alguém. - Usa o bico.

- Como?

- Usa o bico.

 - Usar o bico pra quê?

 - Para coçar a bunda, porra!

Como não pensei nisso antes? Meu pescoço "vai e vem" chegava até a minha bunda e eu comecei a coça-la, que sensação maravilhosa. Que alívio.

- São as pulgas. Ele continuou sussurrando.

Após estar livre da coceira agradeci.

- Muito obrigado, cara. Isso tava me matando.

- To aqui para isso, chefe.

Apresentamos-nos e seu nome era Mauro.

- Como vai?

- Bem, o que eu posso dizer? Eu sou um pombo.

- Pois é.

- O que fazia antes de chegar aqui?

Comecei a explicar o caso da lata que acertou a minha cara e ele me interrompeu. - Estou falando antes de virar pombo.

 - Como sabe que eu nem sempre fui pombo?

 - Você não sabia coçar a própria bunda - não tinha argumentos para isso - e também não sabe voar.

Ele esteve me observando o tempo todo, perguntei a ele.

- Bem chefe, quando se é pombo não se tem muito o quê fazer para passar o tempo. De qualquer forma, a latada foi engraçada. Começou a gargalhar.

Eu lhe contei sobre meu emprego nos Correios, meus dois casamentos falidos e meus filhos ingratos.

- Você nasceu pombo?

- Ninguém aqui nasceu pombo. As pessoas simplesmente acordam com asas e pulgas. É como se estivéssemos pagando nossos pecados.

 - Então minhas duas ex-esposas virarão galinhas com certeza.

Mauro deu mais uma gargalhada.

- Então nós morremos?

 - Não sei colega, só sei que você terá que se adaptar.

- Por exemplo?

 - Os cachorros - ele disse - cuidado com os cachorros. Eles são grandes e rápidos.

 - Só isso? Eu ainda estava com fome.

- Não. Fique longe dos esgotos.

 - Qual o problema dos esgotos?

 - Nenhum problema com os esgotos. São bons lugares para se proteger das chuvas, o problema são os ratos.

 - Os ratos?

 - Sim, os ratos. Eles comem qualquer coisa que se mexe. E que não se mexe também.
 Mauro falava e olhava para os lados com seu único olho como se estivesse esperando alguém, ou com medo de alguém. - E eles têm uma coisa que nós não temos.

- O quê? Perguntei

 - Dentes - Mauro levantou a pata esquerda e faltava um dos dedos. - Um rato filho da puta levou meu dedo e meu amigo. Por pouco eu não virei pombo assado no banquete do esgoto.

 - E o que houve com seu olho?

- Isso foi há muito tempo.

Por algum motivo ele não queria falar sobre ele. - E seu amigo?

- Isso é uma entrevista? Mauro perguntou rispidamente.

- Me desculpe.

 - Enfim, ele chegou mais ou menos na mesma época que eu. Estávamos andando por aí atrás de comida e vacilamos. Uma ratazana do tamanho do mundo mordeu meu dedo e iria me levar com ela quando esse meu amigo entrou na briga. Começou a dar bicadas no olho da tal ratazana e ela se virou contra ele. Ferido, não pude fazer nada.

Mauro contava e fazia os gestos da luta como um ator em cena. Fazia o papel da ratazana e do tal amigo e seu próprio num monólogo muito bom por sinal. Enquanto contava ouvimos um latido e Mauro paralisou.

Rodamos sobre os próprios pés procurando a origem do latido. Foi tão rápido que não houve tempo para muita coisa. Um labrador de cor caramelo vinha em nossa direção, Mauro tentou bater as asas e voar, sem sucesso. Era uma rixa antiga, pois o labrador passou por mim sem olhar-me. Ele queria o Mauro, que já estava a um metro de altura quando teve seu peito atingido por uma das patas do cachorro enorme e raivoso.
Por sorte ele caiu no buraco da raiz da árvore onde estava escondido quando o encontrei. O pombo de um olho só estava um pouco zonzo e o cachorro continuava tentando pegá-lo, porém era muito grande para o buraco.

Era uma batalha, coisa de filme mesmo. Nunca tinha visto um animal tão grande em toda minha vida.

- Corra Amapolo. Corra! Fui despertado do meu transe pelos gritos de Mauro para que eu fugisse. Eu corri. Mas com aquelas patas...  Bem, eu corria e minha cabeça ia para frente e para trás. Bati minhas asas em vão, eu não sabia voar. O labrador atrás de mim e estava quase me alcançando. Senti o asfalto debaixo de minhas patas e pensei em ir para algum esgoto. Eu estava assustado e era melhor enfrentar ratos do que aquele cachorro gigante.

Para frente e para trás. Corria sem olhar para ver onde o cachorro estava. Para frente e para trás. Outros pombos que voavam sobre minha cabeça, outros que estavam empoleirados nos fios de alta tensão, nas árvores, todos eles diziam para eu voar, correr e etc. Para frente e para trás. Estava cansado, minhas pernas e meu pescoço doíam. Para frente e para trás. Eu já podia ver o esgoto, estava perto e continuava correndo. Para frente e para trás. De repente ouvi um barulho ensurdecedor se aproximando, foi tão rápido. Senti os ossos do meu corpo sendo esmagados. Era um caminhão, uma roda enorme passou por cima de mim e só minha cabeça estava intacta, talvez por isso eu ainda estivesse consciente. Gosto de sangue na garganta, minhas tripas espalhadas pelo asfalto. Algo que mais parecia macarrão cozido me fez pensar ser meu intestino. Quando vi aquilo me deu vontade de vomitar. “Pombos vomitam?” eu pensei. Não sentia mais fome. Algumas penas planavam e caiam lentamente onde eu estava. Pelo menos alguma parte de mim aprendera voar.

Pude ver Mauro se aproximando. O cachorro também tinha sido atingido e estava sangrando do outro lado da avenida onde tinha sido arremessado pela força do caminhão de carga.

- Mauro? É você Mauro? Tinha dificuldades para enxergar. Acho que estava chegando minha hora. Pensei na minha vida curta de pombo e fiquei imaginando como seria voar.

- Sou eu colega. Não faça força para respirar, facilite as coisas e sentirá menos dor.

- Eu vou morrer? Perguntei já sabendo da resposta.

- Infelizmente sim chefe, infelizmente sim.

- E o que acontece com pombos como nós quando morrem?

- Voltam a suas antigas vidas. Mauro era muito esperto. O pombo mais esperto que eu já tinha conhecido.

- Minha vida passada? Com minhas ex-esposas, filhos medíocres, aluguéis atrasados e tudo mais?

Mauro assentiu com a cabeça. Minhas últimas palavras, além do berro desesperado, foram: - NÃO! Quero ser pombo, prefiro ser pombo! Quero voar.



Bento.

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