terça-feira, 5 de junho de 2012

QUERO VOAR


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Eu fui dormir Amapolo Fernandes, com 42 anos de idade, dois casamentos e três filhos que não queriam me ver nem pintado de ouro. Fui dormir e era o velho funcionário dos Correios divorciado, morando numa casa minúscula e imunda com dois aluguéis atrasados. Pense como é difícil pagar três pensões e ainda manter uma casa.

Fui dormir Amapolo e acordei um pombo.
Literalmente um pombo, com penas e pulgas.
Estava eu numa grande praça e aquele gramado era enorme. Na minha cara havia um grande bico e meu pescoço mantinha um ritmo para frente e para trás conforme eu andava que já estava me irritando. Parecia um TOC, andava com minhas pernas que pareciam dois gravetos e o pescoço ia para frente e para trás. PARA FRENTE E PARA TRÁS. Parei e tentei manter meu pescoço parado, dei um passo para frente e lá se foi meu pescoço. Desisti.

O que meu médico diria se me visse agora como um pombo. -Parabéns! Pelo menos você emagreceu. Ou então. - Coma as pulgas, tem baixa caloria.

Olhei novamente para minhas pernas e faltavam-me dedos. Eram quatro apenas. Reparei que minhas unhas precisavam ser cortadas, mas eu não tinha braços. Disso eu gostei, sempre odiei cortar as unhas dos pés. Bethânia sempre gritava comigo. -Amapolo. Corte essas unhas filho de Deus.
Bethânia foi minha primeira esposa. Sempre achei unhas nos pés uma coisa inútil. Para que servem as unhas do pé? Tenha dó.

Comecei a sentir falta dos braços quando minha bunda começou a coçar. Era impossível coçar minha bunda com um par de asas, porém lembrei que, se eu tinha asas, poderia voar e isso seria sensacional. Sentia fome, mas abri as asas, eu só queria saber como era voar. Abri as asas e comecei a batê-las para cima e para baixo. Não sai do lugar. Agora minha bunda coçava ainda mais.

Tentei correr para pegar impulso e bater minhas asas o mais rápido possível e só o que consegui foi ter meu pescoço indo para frente e para trás, para frente e para trás. Agora com mais velocidade do que antes. Pensei que àquilo ainda me daria câimbra mais tarde.

Decidi parar um pouco, pois estava cansado com toda correria e avistei um casal de namorados sentados na grama da praça. Faziam um piquenique.
- Talvez eles possam arrumar um pouco de comida para um velho pombo e me dizer onde eu estava.

Fui andando até lá com meu pescoço dançante. - Com licença, podem me arrumar um pedaço de bolo? Não me ouviram.

Cheguei mais perto e repeti o pedido. Não me deram atenção. Desta vez eu gritei.
- ME ARRUMEM UM PEDAÇO DE BOLO SEUS MISERÁVEIS! Estava tão perto do casal que quando ele jogou a lata de refrigerante em mim não houve tempo de desviar e eu fui lançado alguns metros de onde eu estava, rolando como um pombo atingido por uma lata de refrigerante.

- Puta que pariu! - eu desabafei - Um pombo que não sabe voar. Grande bosta eu sou.

Antes de me recompor comecei a raspar a bunda no chão. - Essa merda de coceira que não passa!

- Psiu... - alguém me chamava - Psiu... Ei, colega.

Girei meu corpo de pombo procurando quem falava comigo.

- Ei colega, aqui ó.

Atrás da raiz de uma grande árvore havia um outro pombo e parecia meu irmão gêmeo. Penas iguais, bico igual, com uma exceção, ele não tinha um dos olhos.

 - Cola aqui, rápido.

Fui até o pombo andando com dificuldade devido a pancada da lata, ainda estava meio zonzo.

- Você é novo por aqui, não é?

- Sim.

 - Logo vi. - Ele sussurrava como se estivesse fugindo de alguém. - Usa o bico.

- Como?

- Usa o bico.

 - Usar o bico pra quê?

 - Para coçar a bunda, porra!

Como não pensei nisso antes? Meu pescoço "vai e vem" chegava até a minha bunda e eu comecei a coça-la, que sensação maravilhosa. Que alívio.

- São as pulgas. Ele continuou sussurrando.

Após estar livre da coceira agradeci.

- Muito obrigado, cara. Isso tava me matando.

- To aqui para isso, chefe.

Apresentamos-nos e seu nome era Mauro.

- Como vai?

- Bem, o que eu posso dizer? Eu sou um pombo.

- Pois é.

- O que fazia antes de chegar aqui?

Comecei a explicar o caso da lata que acertou a minha cara e ele me interrompeu. - Estou falando antes de virar pombo.

 - Como sabe que eu nem sempre fui pombo?

 - Você não sabia coçar a própria bunda - não tinha argumentos para isso - e também não sabe voar.

Ele esteve me observando o tempo todo, perguntei a ele.

- Bem chefe, quando se é pombo não se tem muito o quê fazer para passar o tempo. De qualquer forma, a latada foi engraçada. Começou a gargalhar.

Eu lhe contei sobre meu emprego nos Correios, meus dois casamentos falidos e meus filhos ingratos.

- Você nasceu pombo?

- Ninguém aqui nasceu pombo. As pessoas simplesmente acordam com asas e pulgas. É como se estivéssemos pagando nossos pecados.

 - Então minhas duas ex-esposas virarão galinhas com certeza.

Mauro deu mais uma gargalhada.

- Então nós morremos?

 - Não sei colega, só sei que você terá que se adaptar.

- Por exemplo?

 - Os cachorros - ele disse - cuidado com os cachorros. Eles são grandes e rápidos.

 - Só isso? Eu ainda estava com fome.

- Não. Fique longe dos esgotos.

 - Qual o problema dos esgotos?

 - Nenhum problema com os esgotos. São bons lugares para se proteger das chuvas, o problema são os ratos.

 - Os ratos?

 - Sim, os ratos. Eles comem qualquer coisa que se mexe. E que não se mexe também.
 Mauro falava e olhava para os lados com seu único olho como se estivesse esperando alguém, ou com medo de alguém. - E eles têm uma coisa que nós não temos.

- O quê? Perguntei

 - Dentes - Mauro levantou a pata esquerda e faltava um dos dedos. - Um rato filho da puta levou meu dedo e meu amigo. Por pouco eu não virei pombo assado no banquete do esgoto.

 - E o que houve com seu olho?

- Isso foi há muito tempo.

Por algum motivo ele não queria falar sobre ele. - E seu amigo?

- Isso é uma entrevista? Mauro perguntou rispidamente.

- Me desculpe.

 - Enfim, ele chegou mais ou menos na mesma época que eu. Estávamos andando por aí atrás de comida e vacilamos. Uma ratazana do tamanho do mundo mordeu meu dedo e iria me levar com ela quando esse meu amigo entrou na briga. Começou a dar bicadas no olho da tal ratazana e ela se virou contra ele. Ferido, não pude fazer nada.

Mauro contava e fazia os gestos da luta como um ator em cena. Fazia o papel da ratazana e do tal amigo e seu próprio num monólogo muito bom por sinal. Enquanto contava ouvimos um latido e Mauro paralisou.

Rodamos sobre os próprios pés procurando a origem do latido. Foi tão rápido que não houve tempo para muita coisa. Um labrador de cor caramelo vinha em nossa direção, Mauro tentou bater as asas e voar, sem sucesso. Era uma rixa antiga, pois o labrador passou por mim sem olhar-me. Ele queria o Mauro, que já estava a um metro de altura quando teve seu peito atingido por uma das patas do cachorro enorme e raivoso.
Por sorte ele caiu no buraco da raiz da árvore onde estava escondido quando o encontrei. O pombo de um olho só estava um pouco zonzo e o cachorro continuava tentando pegá-lo, porém era muito grande para o buraco.

Era uma batalha, coisa de filme mesmo. Nunca tinha visto um animal tão grande em toda minha vida.

- Corra Amapolo. Corra! Fui despertado do meu transe pelos gritos de Mauro para que eu fugisse. Eu corri. Mas com aquelas patas...  Bem, eu corria e minha cabeça ia para frente e para trás. Bati minhas asas em vão, eu não sabia voar. O labrador atrás de mim e estava quase me alcançando. Senti o asfalto debaixo de minhas patas e pensei em ir para algum esgoto. Eu estava assustado e era melhor enfrentar ratos do que aquele cachorro gigante.

Para frente e para trás. Corria sem olhar para ver onde o cachorro estava. Para frente e para trás. Outros pombos que voavam sobre minha cabeça, outros que estavam empoleirados nos fios de alta tensão, nas árvores, todos eles diziam para eu voar, correr e etc. Para frente e para trás. Estava cansado, minhas pernas e meu pescoço doíam. Para frente e para trás. Eu já podia ver o esgoto, estava perto e continuava correndo. Para frente e para trás. De repente ouvi um barulho ensurdecedor se aproximando, foi tão rápido. Senti os ossos do meu corpo sendo esmagados. Era um caminhão, uma roda enorme passou por cima de mim e só minha cabeça estava intacta, talvez por isso eu ainda estivesse consciente. Gosto de sangue na garganta, minhas tripas espalhadas pelo asfalto. Algo que mais parecia macarrão cozido me fez pensar ser meu intestino. Quando vi aquilo me deu vontade de vomitar. “Pombos vomitam?” eu pensei. Não sentia mais fome. Algumas penas planavam e caiam lentamente onde eu estava. Pelo menos alguma parte de mim aprendera voar.

Pude ver Mauro se aproximando. O cachorro também tinha sido atingido e estava sangrando do outro lado da avenida onde tinha sido arremessado pela força do caminhão de carga.

- Mauro? É você Mauro? Tinha dificuldades para enxergar. Acho que estava chegando minha hora. Pensei na minha vida curta de pombo e fiquei imaginando como seria voar.

- Sou eu colega. Não faça força para respirar, facilite as coisas e sentirá menos dor.

- Eu vou morrer? Perguntei já sabendo da resposta.

- Infelizmente sim chefe, infelizmente sim.

- E o que acontece com pombos como nós quando morrem?

- Voltam a suas antigas vidas. Mauro era muito esperto. O pombo mais esperto que eu já tinha conhecido.

- Minha vida passada? Com minhas ex-esposas, filhos medíocres, aluguéis atrasados e tudo mais?

Mauro assentiu com a cabeça. Minhas últimas palavras, além do berro desesperado, foram: - NÃO! Quero ser pombo, prefiro ser pombo! Quero voar.



Bento.

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2 comentários:

Pandora disse...

Me lembrou Kafka!!! E um pouco a mim mesma, não é a toa que amo o Kafka... Só que eu queria ser um gato!

Devaneios disse...

Gostei muito do texto:da surrealidade, do inusitado e da reflexão sobre a vida que perspassa o personagem durante o conto. Pena que, nem em uma vida, nem na outra, ele conseguiu voar... mas a vontade estava lá!
O modo como conduziste a história foi muito hábil e envolvente, parabéns!