quarta-feira, 25 de julho de 2012

CHORANDO O LEITE DERRAMADO

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Era uma véspera de feriado que não queria dizer muita coisa, eu estava desempregado havia meses. Ouvi a campainha tocar quando estava ao telefone falando com alguém que não lembro quem. Talvez pedisse uma pizza, talvez fosse o banco cobrando a dívida do cartão de crédito, talvez não fosse ninguém.

Fui até a porta ver quem era. Um homem de barba mal feita e olhar frio estava parado esperando. Suas roupas eram monocromática com uma cor indefinida. Parecia um uniforme. Ao me ver abriu um sorriso que parecia forçado.

- Não quero comprar nada, obrigado. Fechei a porta na cara do sujeito.

Parei no meio da sala tentando lembrar o que eu fazia antes de atender o telefone e a porta. Não conseguia me lembrar. Será que eu estava na privada, meu intestino dizia que sim. Parti para o banheiro quando a campainha tocou de novo. Merda de porta. Tiraram o dia para encher o meu saco?

Abri a porta com cara de poucos amigos e vi uma garota com mais ou menos 18 anos, o cabelo era loiro e estava dividido em duas tranças jogadas em frente o ombro, ela vestia a mesma roupa que o homem de olhar frio de segundos atrás.

- Pois não delícia, em que posso ajudá-la?

- Prazer em conhecê-lo Elias. Me chamo Dandara e estou aqui para roubar-lhe a alma.

Fechei a porta imediatamente. Essa juventude de hoje, tão estranha.

Sentei na privada e dei aquela cagada que gostaria de fazer há dias. Não sei como podia sofrer de prisão de ventre depois de todo whisky que tomei. Enfim, caguei desesperadamente.

Quando cheguei à sala com meu cigarro na boca, pensava em ir até a cozinha pegar uma cerveja, ouvi a campainha novamente.

Puta que pariu. Quem será o filho da puta da vez que vai levar com a porta na cara?
Abri a porta e lá estava uma senhora de saia até as canelas e um pano na cabeça. Ainda tudo monocromático. Era uma freira. E assim que abri a porta a ouvi dizer: - escuta aqui seu filho de uma vadia medíocre. Se der com a porra da porta na minha cara novamente eu vou enfiar sua cabeça em seu próprio cu e fazer com que você respire sua merda durante dias.

O impacto de ver uma freira falando daquela forma fez com que eu ficasse paralisado por alguns segundos. Estava confuso. Onde eles compravam àquelas malditas roupas horríveis? Nem eu que estava quase parecendo um desabrigado me vestia tão mal. A freira continuava a olhar para minha cara esperando que eu tivesse alguma reação e tive.
Bati a porta com tanta força que as janelas do apartamento estremeceram.

Fazia tanto tempo que eu não saia de casa para nada que poderia ter acontecido um apocalipse lá fora e eu não saberia. Nada de TV, nada de rádio. A única pessoa que eu via era o entregador do mercado em frente o prédio que me trazia comida, bebidas e cigarros. Agora esses cretinos se dizendo ladrões de almas. "Ladrões de almas". Grande besteira, isso sim. Quem é o safado do porteiro que deixa esses imundos subirem no meu prédio?

Houve uma época em que as pessoas tinham mais respeito. Ninguém entrava em prédios de desconhecidos, as pessoas não pediam nada, elas trabalhavam para possuir. Hoje ninguém quer saber de trabalhar. São grandes "um sete um". É isso que esses tais ladrões de almas devem ser. Enganadores baratos tentando me vender algo.

É isso!

Lembrei o que estava fazendo antes de ser incomodado pela campainha. Minha lista de compras. Peguei o telefone e disquei para o mercadinho. Congelados, vodcas, cervejas, conhaques, whisky e cigarros. Agora é só esperar. Peguei no sono e só acordei com a campainha.

Não era o mesmo entregador de sempre, era uma moça de terno cinza e cabelos loiros presos num coque bem apertado.
Um nariz empinado e fino logo abaixo de olhos cinzas e maliciosos. Linda e perigosa. Podia sentir o ódio com o qual olhava para mim. O queixo duro e pontiagudo mirava diretamente meu peito.

 - Trouxe suas compras, seu bosta. Agora me dê sua alma. Ela disse.

 - Obrigado, mas vou pagar com cartão mesmo. Respondi esticando as mãos para que a moça me passasse as sacolas.
Ela levou as compras até minhas mãos, porém não as largou.

 - Não vou pedir de novo, velho. Se não me deixar entrar e levar sua alma...

Interrompi seu discurso perguntando: - Convidar? Tipo um vampiro?

 - Como uma bruxa ladra de almas que sou. Ela respondeu fazendo seus olhos arderem como bolas de fogo.

 - É... Tipo um vampiro. Pensei alto.

Ela então continuou o discurso interrompido: - Vou fazer da sua vida um inferno se não me deixar entrar.

 - Para, para, para, para. Pode parar sua vadiazinha de merda. Olhe pra mim. Olhe bem pra mim. Veja onde eu moro. Você acha que eu não conheço inferno? E tem mais. Pra sua informação, eu já vendi minha alma para o diabo e tomei um grande calote. Baixei o tom de voz e concluí: - Estou até pensando em ir até o Procon.

 - Você está falando sério? Ela questionou surpresa.

 - Sobre o Procon?

 - Não. Sobre o diabo?

 - Sim. Respondi.

 - Droga! Aquele chifrudo chegou na minha frente de novo. Ela agora tinha lágrimas nos olhos ao invés de chamas.

 - Pois é minha filha, a vida é assim. O mundo é dos espertos. Fracassados como nós estamos fadados a chorar o leite derramado.

 - Tá difícil mesmo. A moça passou a chorar como uma criança. Soluçava, até.

 - Bem, não precisa ficar assim.

Continuava chorando.

 - Olhe garota. Tem uma bela garrafa de scocth aqui nesta sacola. Que tal me ajudar a acabar com ela?

 - Acho que talvez não seja uma boa ideia...

 - Ora, deixa disso. As almas que tem para roubar não vão a lugar nenhum. Você está precisando de um bom porre para animar. Insisti.

 - Ok.

 - Entre, por favor.



Bento.

Um comentário:

Vampira Dea disse...

É isso que assusta, julgamos pela aparência e aí é só surpresa nessa vida.