terça-feira, 17 de julho de 2012

OLHOS D'ÁGUA

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Era uma rodoviária grande, mas ele sabia o ônibus e a plataforma. Ele já conseguira achar a garota e agora estava escondido atrás de uma senhora gorda que tomava um milk-shake num dos quiosques do lugar. Ela estava linda, a garota que fora sua namorada durante dois anos agora parecia ter ficado mais linda ainda. Era a distância que mantinha dele que fazia bem a ela. Quando se conheceram ela era apenas uma garota, no entanto agora, mantinha o rosto angelical, o corpo deliciosamente magro, só que era uma mulher feita. Tinha postura de mulher.

Plácido então pediu um café para disfarçar e não tirava os olhos d'água do grande amor de sua vida. Saula mantinha seus cabelos negros com mechas loiras atrás das orelhas deixando seu rosto pálido à mostra. As pernas cruzadas sustentavam botas que subiam até os joelhos. Ele adorava àquelas botas. Só não gostava das malas que Saula mantinha ao seu lado. Era isso. Ela iria embora, para outro estado, matando assim, a esperança de Plácido de um dia, reviver aquele amor que o fez tão feliz.

O ônibus partiu e ele ficou ali, morto. Era como se sentia, um corpo, frio, sugando ar, mas morto. Transpirava de desespero silencioso, porém morto.
Despejou todo o açúcar que havia no balcão em seu copo e mesmo assim o café continuava amargo, pois não era o café, era seu paladar. "Morto não tem paladar" ele pensou.

Plácido tinha dezoito anos e não pisava na faculdade de gastronomia desde que perdeu Saula e já haviam se passado seis meses. Ia até a faculdade e parava no bar, quinze passos antes do prédio da universidade. Era ali que afogava suas mágoas no álcool e era ali também que conseguia a heroína que esperava, de capa e tudo, devolver-lhe a vida.

Era sábado, não tinha aula, mas mesmo assim ele pegou o caminho da universidade. Precisava de uma boa dose de "heroísmo" para conseguir dormir o final de semana todo.

Já em seu quarto. Preparou a dose e amarrou a tripa de mico no braço esquerdo. Fizera uma tatuagem no braço para esconder as picadas da agulha dos olhos vigilantes de seus pais.

Não era só a perda do amor que o abalava. Não era só a partida de Saula que o amargurava. O problema de Plácido não era só a abstinência de carinho e cumplicidade. Era também, a perda do amor por tudo que o cercava. Mas o problema de Plácido era procurar a garota que um dia foi sua em todas as outras e, haviam outras. Muitas outras. Mas era a boca de Saula que ele beijava quando beijava outra boca. Em outros corpos era o corpo de Saula que ele acariciava. E sempre que tinha uma garota em seus braços era o rosto de Saula que ele via.

Plácido não sabia o que era àquilo. Talvez fosse efeito da heroína. Talvez fosse efeito de Deus, punindo-o por não ter dado valor a criatura planejada por Ele. O garoto não sabia o que era, mas tinha de dar um jeito naquilo.

Era sua terceira picada. No auge do efeito químico da heroína, penetrou a agulha em seus dois olhos. Primeiro em um, depois em outro. Não sentira dor, sentiu alívio. Não veria mais o rosto de sua amada em nenhum outro rosto, nenhum outro cômodo de sua casa, ou esquina de qualquer outro lugar. Enfim se despediu: - Adeus Saula. Adeus.


Bento.

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Um comentário:

Jaqueline Cristina disse...

Nossa, que trágico! A sequência bem escrita prendeu-me do início ao fim,
mas como na vida real as drogas acabaram com ele e com qualquer expectativa na vida...
Bjoks