segunda-feira, 16 de julho de 2012

PORRES, PORRES E MAIS... BEM, VOCÊS ENTENDERAM

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Quando você acorda com o crepúsculo depois de ter quase acabado com o estoque de destilados do bar, na verdade, você não acorda. Seu corpo permanece no transe clínico da maledicência. É uma máquina que antes da sua noite autodestrutiva, perfeição de engenharia fomentada pelo Criador, hoje, com a maior ressaca do mundo, não passa de uma lata velha com motor a lenha. Nada funciona direito.
A cabeça não funciona, o reflexo apresenta defeitos. Após passar alguns minutos na privada você percebe que o intestino, rins e grande parte dos órgãos também estão temporariamente fora do ar. Então, sai do banheiro ciente de que a morte está próxima, o cheiro já é de defunto putrefato. Não se engane, somos todos um amontoado de carne que está em constante processo de putrefação.

Eu ainda estou na noite anterior e, o que é pior, a noite passada ainda está em mim. Só o que eu fiz foi dar uma pausa, uma cochilada de uma ou duas horas. A cabeça lateja e me avisa; mais algumas noites como esta e os danos serão irreversíveis. Grande merda. Como se eu já não estivesse num caminho sem volta.

Quando se está num caminho sem volta, o que te resta é continuar seguindo em frente. Há mais inconsciência que verdade nisso tudo. Seguimos andando, então.

Bem, após o banho já estava atrasado e o café me dava ânsia de vômito, mesmo assim continuei bebendo. Curioso é que minhas ânsias nunca se concluem. Acho que meu corpo gosta tanto de álcool que não quer desperdiçar nem uma gota. É o pecado do desperdício. Como um fígado ciente de seu compromisso de sustentabilidade. Talvez não faça sentido, mas essa palavra está tão na moda que quis usá-la para alguma coisa.

Já estou atrasado para o trabalho e ao apertar o tubo da pasta de dente errei três vezes a escova. Esses reflexos...
Minhas mãos tremem há anos. O porquê eu só suspeito, mas não vem ao caso.
Enfim, acertei as cerdas com a pasta na tentativa inútil de tirar o gosto de whisky amanhecido da boca. Nunca soube com o que se parece tal gosto, meia velha e suja talvez.

Olho-me no espelho e o álcool só mantém jovem as cobras e fetos no pote, pois eu estou mais velho do que nunca.
Olhei no espelho e não vi meu reflexo. Calma, não estou dizendo que virei nenhum vampiro, apesar da palidez e do gosto de sangue na boca por ter rasgado a gengiva com a escova de dentes, eu adoro alho. O que eu quero dizer é que o cara que eu vi ali, me olhando, nem de longe se parecia comigo.

Não sei quanto tempo se passou, mas ficamos um bom tempo nos encarando. Só fui desviar o olhar quando senti meus dedos sendo queimados pelo aviso do fim do cigarro. Joguei a bituca na privada e continuei a encarar aquele cara estranho. Lembrava vagamente o meu rosto, mas não era eu. Foquei em seus olhos e tentei achar-me naquelas esferas castanhas e lembrei que meus olhos costumavam ter um brilho que me orgulhava. Não poderia ser eu, pensei. "Como esse cara entrou aqui"?

Continuava encarando aqueles olhos e reconhecia que eram meus pelo farelo. Claro! Só poderiam ser meus, eu é que não encarava-os há uns dois ou três anos. Malditos olhos.

Eis que depois de toda essa viagem de espelhos e olhos que provavelmente se deve ao excesso de álcool em meu corpo e a falha de alguma parte do cérebro essencial para manter a sanidade, passei a buscar algum motivo forte para eu não deixar o trabalho pra lá e voltar a me deitar na cama e colocar o sono em dia. Trabalho esse um tanto quanto difícil quando se trata de um sujeito entediado como eu.

Pensei nas contas a pagar. No salário que viabiliza meus porres homéricos. Pensei até na garota de olhos cerrados que me faz sorrir inconscientemente. Bastou a imagem de sua franja caindo aos olhos e o cara no espelho me olhou sorrindo. Um sorriso tímido é bem verdade.
A legging e esmeraldas já não são suficientes para me fazer sorrir, muito menos para fazer-me levantar da cama.
Eu sempre tenho os piores pensamentos de manhã. É sempre como o apocalipse, o fim dos tempos. Tudo é um grande balde de merda e eu estou com a cabeça afundada nela. Não importa se de ressaca ou não, de manhã é sempre bosta por todos os lados. Pelo menos durante a meia hora que eu demoro para despertar com minha caneca de café e meus dois cigarros, antes do banho.

Hoje, ontem e, amanhã, acredito eu, serão os olhos levemente cerrados que me farão colocar o primeiro pé no chão e dizer uns três ou quatro palavrões à menos antes de me levantar.

Por hora, é só o que eu posso prometer. Porém, quem sabe, eu não dure tudo isso.


Bento.

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2 comentários:

Centelha Luminosa disse...

Boa noite Bento!!

Não sei se esse texto é um relato de um fato real contigo, ou apenas ficção. Seja como for, foi escrito com grande liberdade de expressão, mostrando sem nenhuma trava nas palavras, o que teve vontade de escrever, como se fosse a revelação de um segredo, que já não cabia em si.
Gosto desse teu jeito de escrever, livre e solto. Depois você me conta, se a bebedeira foi real, ou ficção, ok? rsss...( curiosidade, me dá até urticária...kkkk)

Beijinhos da Lu...

Bento Qasual disse...

Parte de tudo o que escrevo é verdade, a outra nem tanto. A parte que nem tanto deixo para você imaginar...

Grande beijo Lu!!!!