terça-feira, 28 de agosto de 2012

W.O


-


Hão de reclamar, assim como reclamam da forma como ando, como falo, como respiro. Falam até do ar da graça que me habita.

Eis que se me perguntarem; quem é o melhor humorista para você? Respondo fácil; eu. Cínico! Vão dizer.

Não. É isso mesmo. Eu. Humoristas do Brasil existem vários muito bons, porém quem me diverte mais sou eu.

Ora, todo o sarcasmo e ironia me diverte mais que qualquer coisa. Trato-me pior que qualquer outra pessoa e me divirto com isso.
Toda compaixão, autopiedade e cegueira que existem nos outros não se aplica a mim. Me trato como um desconhecido sem coração.

Um sarro diário da minha própria cara. É uma autossuficiência do humor. Brigo já sorrindo.

Egoísta. Vão dizer. É isso. Egoísmo do riso. Conto a piada e sou o primeiro que ri. Afinal, eu sou o alvo da piada, sempre. Nada mais justo.

É uma masturbação do humor. Dedico-me a me dar de presente o primeiro riso do dia, depois disso tudo é lucro.

Mas por quê? Por quê? Por quê? Simplesmente porque egoísmo seria depender dos outros até para rir. Se preciso agradar alguém, logo, que este seja eu.

Isto está errado! Vão sentenciar. Pois não serei eu que vou argumentar nem discutir por isso. Não eu. Se disser que está certo estarei dando um mínimo de razão para meu interlocutor, pois num debate sempre há acertos para os dois lados. Ninguém erra totalmente e vice-versa. Neste caso, por minha parte, nada é discutível.

Logo você que debate sobre tudo? Tentarão fomentar. Isto é outra verdade. Digo isso, pois, só é possível treinar argumentos argumentando. Como um jogador que só treina bola jogando.
No ímpeto de conhecer seu desafiante, eis de contrariá-lo, caso contrário, os dois concordam e vão para casa, mudos. Eu procuro o convencimento a todo custo. Abro as portas para me dar uma boa razão de mudar de ideia e apoiar sua causa, só precisa me convencer. Ganhar por W.O não me agrada em nada.



Bento.

-

domingo, 19 de agosto de 2012

QUEM SABE EM OUTROS MUNDOS...


-


O despertador tocou e marcava 06h10, mas Cidão já estava tomando banho. Acendera um cigarro e entrou no box com metade do corpo debaixo do chuveiro para não correr o risco de molhar o bastão de nicotina. No aparelho de MP3 tocava uma seleção de músicas que sua namorada fizera especialmente para o casal.

Saiu do banho e com o corpo parcialmente úmido passou creme por todo o corpo. Pescoço, seios, pernas. Cidão era obesa, trinta ou quarenta quilos acima do peso, mas ela já não ligava mais para isso.

Vestiu a lingerie com calma, quase que com sensualidade. Serviu uma dose de vodca, misturou café e acendeu outro cigarro. Estava atrasada, sabia disso, pois queria estar linda e seu cabelo estava dando problemas nas últimas semanas para ficar como ela gostava. Tudo tinha de estar perfeito.

Vestiu seu jeans preferido, presente de Helena, o grande amor de sua vida. O tênis igualmente preferido e uma camisa xadrez. Outra vodca, outro café e outro cigarro.

Foi ao banheiro, escovou os dentes, cuspiu o antisséptico bucal e começou a guerra com o cabelo teimoso.
Cidão tinha os cabelos curtos e arrepiados e, detalhista como era, cada fio teria de estar em seu devido lugar. Ela não saia de casa enquanto não obtivesse sucesso.

Vinte minutos e três cigarros depois o cabelo teimoso estava como Cidão queria. Perfeito. Tomou mais uma caneca de café, desta vez puro, para evitar o hálito alcoólico e partiu.

Um cigarro até o ponto de ônibus. Olhava o relógio com impaciência, talvez não desse tempo. Ela estava decidida, se deixasse para amanhã seria tarde e ela hesitaria. Era hoje e pronto! Tinha de ser. No MP3 ainda tocava a seleção de músicas feita por Helena e nos fones de ouvido era John Mayer que cantava.

Finalmente o ônibus chegou e Cidão parou de roer as unhas e mexer uma das pernas devido a impaciência. Ela agora só tinha que rezar para que o motorista do coletivo pisasse no maldito acelerador devolvendo a moça os minutos preciosos que perdeu com o cabelo rebelde.

Trânsito, faróis, passageiros que davam sinal nos pontos querendo subir e descer do ônibus. Tudo isso atrasava ainda mais os seus planos. A impaciência em pessoa. Tanta pressa que gritou duas vezes para que o motorista acelerasse aquela merda de ônibus. Na verdade ela disse "Porra". "acelera essa porra desse ônibus seu filho da puta!". Alguns passageiros atrasados para o trabalho concordaram, outros fizeram cara de espanto. O motorista devolveu-lhe um "vai toma no cú sapatão!" e ficou por isso mesmo.

Cidão não se importava de ser chamada de sapatão, nem ser comparada com homens. Vestia-se como tal, andava e falava como tal e, apesar de ser gorda, seu rosto delicado não deixava mentir. Era uma garota. Uma garota grande e não muito gentil nem educada como suas irmãs e primas, nem como Helena, ainda assim era uma garota.

Já Helena odiava o termo "sapatão", achava-o pejorativo e machista e, não era raro as vezes que a feminista discutia em bares e ruas por ser chamada assim. Esse era um dos motivos das brigas do casal. Helena não gostava da falta de interesse de Cidão pela causa gay. Palestras, passeatas, tudo isso fazia parte da vida de Helena e tantas outras lésbicas, mas não da de Cidão.
Cidão não se importava com nada, exceto Helena.

Ela sabia que Helena também a amava. Talvez não tanto quanto ela, mesmo assim, sentira-se amada nos anos em que moraram juntas, só que em suas próprias palavras: Fiz muita merda com Helena.

Cidão era explosiva, quase como seu pai que a espancava quando adolescente pelo modo que se vestia, falava e por passar horas trancada em seu quarto com outras garotas. Levava nas costas, até hoje, as marcas do cinto de couro que seu pai usava para castiga-la. Sua mãe, tentando livrar a filha das surras dizia ser normal. "É coisa de garota", no entanto seu pai sabia da preferência sexual da filha.

Apesar de odiar o pai, puxou o gênio do velho e isso serviu, também, de ajuda para o fim de seu relacionamento com a mulher mais linda que Cidão conheceu. Helena.

O ônibus enfim chegou à estação do metrô e Cidão foi uma das primeiras a descer. Subiu as escadas rolantes andando, pela pressa, porém, com dificuldade por seu tamanho. Colocou o bilhete na catraca e atravessou-a tão rápido que a máquina travou quase levando a moça a um tombo. Vermelha de raiva, a garota roliça xingava com todos os palavrões que ela conhecia. Todos a olhavam com cara de reprovação e ela pensava em avançar no pescoço do usuário do metrô mais próximo e descontar sua ira, mas não tinha tempo para isso. Helena já deveria estar na estação. Não deixaria que seu gênio atrapalhasse seus planos novamente. Precisava falar com sua amada uma última vez.

No caminho de casa para a estação, Cida desistira de seus planos inúmeras vezes, porém, retomava logo depois. Já tinha deixado Bad, seu poodle branco com sua vizinha e um saco de ração novinho. Se despediu do cão de estimação chorando copiosamente e sua vizinha dizia: - calma minha filha, é só uma viagem de alguns dias, em breve você o verá de novo.
Cidão sabia que não seriam só uns dias, sabia que não era uma viagem a trabalho como contou. Bad também sabia e chorava como a dona. A garota já estava na estação quando lembrou de Bad e tentou afastar a imagem do cachorro de sua mente, pois corria o risco de desistir. Andava olhando para todos os lados procurando Helena. Olhou o relógio da estação e estava atrasada cinco minutos. Helena tomava o metrô sempre no mesmo horário, todos os dias para ir trabalhar. 

Eram várias pessoas na estação, todas indo ao trabalho, escola, universidade. Só Cidão tinha um destino diferente de todos.
A grande garota pensava se era àquilo mesmo que gostaria de fazer. Poderia talvez, haver outro jeito. Ela queria que houvesse. Talvez fosse só uma fase de Helena, só um momento de descoberta. Quem sabe, seu grande amor só queria curtir a vida sozinha um pouco. Um tempo solteira, quem sabe no fim terminariam velhinhas e felizes. Com certeza era o que Cida desejava. Até achar Helena, bem na sua frente. Ela vestia sua calça jeans mais justa, seu maior salto alto, que deixava suas pernas mais torneadas e suas nádegas ainda mais empinadas. Sua miniblusa rosa com rendas deixava os pequenos furos acima da cintura a mostra e, àquilo sempre deixara Cida louca de desejo. Os cabelos de Helena estavam presos num coque feito com certo relaxo planejado e seu pescoço e ombros eram lindos.

Cidão tinha o coração saltando pela boca de desejo. Tinha arrepios de saudade. Possuía tremedeiras de amor contido. Enfim era Helena. Era muito amor. Talvez mais que isso, ou tudo isso.

Os olhos de Cida percorreram Helena dos pés, passando pelos joelhos e coxas, parou no quadril. Vira as marquinhas que pareciam suportes para dedos em sua cintura, foi ao pescoço e parou no rosto, ali, derramou duas lágrimas. Era saudade de doer nos nervos da alma, se é que alma tinha nervo. Beliscou as orelhas e seus alargadores brancos com os olhos e, finalmente desceu pelos ombros, escorregou pelos cotovelos passando pela grande tatuagem que Helena tinha no antebraço, quando chegou às mãos que um dia estivera agarradas em seus seios e viu outra mão rústica, máscula, agarrada a ela. Piscou os olhos com força e não era ilusão. Aqueles dedos delicados que um dia esteve dentro de seu sexo agora estavam entrelaçados nos dedos calejados e tortos de um: VELHO!

Cidão pensou tão alto que saiu um grito. UMA PORRA DE UM VELHO? A pergunta era mais para seus olhos do que para Helena. Pena, ou não, que Cida tinha errado a escada e saído do lado errado, tendo assim, os trilhos separando o casal da mulher com orgulho ferido.

Helena notou a presença de sua ex-namorada e largou a mão do colega de trabalho que agora era seu noivo, com direito a anel e tudo. Assustada e, também confusa. Não queria que Cida a visse com o noivo. Não agora. Cida agora chorava de soluçar e ter coriza lavando seu buço. Os dentes e punhos cerrados com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Quando resolveu falar, só conseguia repetir: - Mas eu te amo tanto. Não pode... Eu te amo tanto. Não pode se!

Helena agora também chorava e borrava a maquiagem. O noivo ali estava avulso. Não sabia nada do passado de sua futura mulher. Helena quando deixou Cidão mudou de vida. De personalidade, opção sexual, credos. Tudo.

Cida então teve certeza. Sem tirar os olhos da amada, sem interromper as lágrimas. Apenas com os ouvidos calculou, pelo barulho do trem em alta velocidade, o momento certo. Ainda cabia mais uma frase; - Pois é... Eu te amo tanto. Sem você não... Quem sabe em outros mundos...
O baque que viria não causaria dor maior do que já havia sofrido aquela mulher.

Então saltou.


Bento.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ESSA NORMALIDADE QUE ME MATA


-


Certa vez eu disse que só me relacionei com santas. Todas inocentes, pessoas perfeitas e puras. Nenhuma dessas mulheres que passaram na minha vida tem nada, mas nada mesmo, para lamentar-se ou se arrepender. Pois bem.

Hoje dormi bem, o que é muito raro. Geralmente pego no sono momentos antes de ter de me levantar para mais um dia árduo de trabalho. Não hoje. Hoje dormi como um defunto. Duvido que não gelei como morto e parei de respirar. Foram mais de doze horas de sono profundo sem despertar nem para atender os desejos da bexiga. Tanto dormi que acordei naturalmente meia hora antes do despertador. Não, não pense que deixarei de chegar atrasado ao trabalho por causa disso, pois existe uma ordem natural para as coisas, um ciclo original, uma força maior para tudo. Assim como a noite dá lugar ao dia, assim como os pulmões exigem ar, assim como os amantes necessitam discutir para voltarem mais fortes, eu tenho de chegar atrasado em tudo. É assim.

Só sei que dormi como um gato e acordei disposto. Muito disposto para o meu gosto. Acordei e no caminho para o trabalho minha mente trabalhava com energia total bolando planos mirabolantes para o decorrer do meu dia. A barriga vazia exalava uma ansiedade e eu sentia-me feliz. Uma felicidade sem motivo, sem compreensão. Me peguei pensando: De onde vem essa felicidade toda? É esse o segredo? É só dormir e pronto?

Uma mente descansada normalmente é uma boa coisa. Só que nada que venha a ser normal se aplica muito bem quando se trata da minha vida. Digo isso porque tudo é uma questão de costume.
Não é tão simples assim, é preciso um tempo de adaptação e, normalidade e tempo são duas coisas que não fazem parte do meu cotidiano, logo, fiquei sem saber como agir. Então uma mente sã e descansada tende a agir com essa tal normalidade para pessoas normais. Já a minha mente, normalmente anda a mil, pensa em coisas que eu não quero pensar. Acelera como um maldito motor possante numa estrada reta e vazia. Já cansada é preciso freiá-la com noites mal dormidas, ressaca e desligamento do mundo. Quando descansada então... Quase entra em pane.

O dia foi passando e me vi desejando bom dia a todos. Fazendo favores para malditos filhos da puta que eu sequer gostava. Me vi tratando todas as pessoas bem, sem exceção. Sem fazer diferença de ninguém.  Entenda, estava eu cometendo uma puta injustiça sem tamanho e, se tem uma coisa de que não gosto, é exatamente essa tal injustiça. Nem todas as pessoas merecem o seu melhor. Se for assim, você coloca tudo no mesmo saco, os monte de estrume com bacanas e se mata. Corte os pulsos, dê um tiro na cabeça, sei lá. Não comigo amigo. Não trabalho desse jeito. Tomei uma atitude até então, drástica.

Meti o pé na porta do bar, acordei o dono daquele moquifo e ordenei: quero essa garrafa de conhaque, agora!

O cidadão ainda com seu pijama meteu a cara na janela: - Mas ainda são nove da manhã, me deixe dormir.

 - E daí? No Japão já são nove da noite e passou da hora de beber - Eu retruquei e passei a próxima hora tomando doses cavalares de destilado amargo, como a vida deve ser.


Bento.

-

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

DEUS, A VODKA E OS MISERÁVEIS.


-


Era uma segunda-feira e eu decidi sair de casa. Estava calor, um belo dia. Choveu o final de semana inteiro, em plena segunda-feira fazia um sol de 30 graus.
A vida na cidade não era fácil, as pessoas trabalhavam a semana inteira, andavam pelo centro de terno debaixo de um sol de vinte e um desertos e no final de semana chovia como no dilúvio. Vida de trabalhador não é fácil.

Bem, não faz diferença para mim, eu estava e ainda estou desempregado. Então resolvi sair de casa e andar um pouco. Minha casa estava cheia de goteiras e sempre que chovia era um cheiro de mofo que deixava minhas narinas derretendo como uma calota polar em pleno verão.

Peguei meus cigarros e bebi uma dose de alguma coisa forte num copo em cima da pia que restara da noite passada e sai.

Realmente era um dia quente e as pessoas andavam para lá e para cá, indo ao trabalho, estudar, fazer compras e cuidar de suas vidas inúteis.
Ninguém olhava ao redor, ninguém reparava em nada. O mendigo ajoelhado na calçada com a mão estendida esperando alguns trocados era invisível aos olhos dos passantes.

Eu andava e pensei em ir ao mercado comprar algum congelado e uma garrafa de qualquer coisa alcoólica para me ajudar a dormir.
Decidi parar numa praça para descansar, eu mancava e tinha dificuldade em respirar por causa da briga no bar que arrumei duas noites atrás. Não sou de briga, mas estava bêbado e eu disse "que foi?" para um sujeito que não parava de me olhar. O tal cara tinha quase o dobro do meu peso, mas pensei "foda-se", vou arrebentar esse merda se ele continuar me encarando, ele é um só. Ele disse "que foi o quê?" Foi o suficiente para partimos pra briga.

Eu levava a melhor no início, apesar de bêbado tinha as mãos rápidas, porém ele não estava sozinho. Quando fui derrubado no chão só tive tempo de proteger a cabeça, o resto era só pontapés e socos por todo o meu corpo.

Enfim sentei num banco de uma praça no meio do caminho da minha casa até o mercado. Era bom assim, um pouco de paz e ar puro. Só ouvindo os pássaros e automóveis e o apito do guarda de trânsito. Bem tranquilo. De repente sentou um velhote ao meu lado. Cabeludo, a barba que parecia um ninho de passarinho, um vestido de algodão grosso para o verão que estava naquele dia. Mas em São Paulo nunca se sabe quando vai precisar de um agasalho ou um guarda-chuva. Dizem que um homem prevenido vale por dois. Tinha chinelos de tiras de couro também. Pensei que seria mais um hippie vendendo suas bugigangas no centro. Aparentava uns trinta e poucos anos sofridos, queimado do sol.

Sentou-se bufando. Parecia estressado. Fingi que não vi e acendi um cigarro, então ele passou a me olhar.

 - Que foi? Eu disse.
 
 - Que foi o quê? Nunca viu? Ele disse.

- Um velho de vestido? Não, nunca vi.

- Como assim, velho? Esse corpo deve aparentar três ou quatro anos a menos que o seu. Ele disse.

E eu: - Como pode saber? Você não sabe quantos anos eu tenho.

- Você tem trinta e dois e diz que tem 25 achando que vai parecer mais novo por causa disso.

Como é que ele sabia daquilo? Deveria trabalhar na receita federal.

- Você é sabidão. Tá achando que é quem? Deus?

- Isso. Limitou-se a dizer.

- Isso o quê?

- Esse negócio de Deus que você disse.

- Você não pode ser Deus...

- Deus, Jeova, Big Boss, Senhor, Alá. Esses nomes que vocês me dão, sou todos eles.

- Você é Deus e não consegue comprar uns sapatos que preste? Eu perguntei.

- O quê você tem contra minhas sandálias? Isso já foi moda algum tempo atrás.

Assim que ameacei responder Ele me cortou.

- Quer saber, meu filho? Por que você não vai à merda e me deixa aqui pensando em paz?

- Você não pode falar palavrão, não é Deus? Perguntei só de sacanagem.

- Eu inventei o palavrão, porra! Eu posso usá-lo quando bem quiser. Vá comprar seu congelado e sua vodca caralho!

- Como sabe que eu ia ao mercado?

- Porra! Você é burro? Eu sei de tudo, sou Deus.

- Mas eu ainda não me decidi se compro vodca ou conhaque.

- Vodca. Você vai acabar escolhendo a vodca, pois vai estar na promoção. Ele me revelou. Provavelmente já tinha passado no mercado antes de sentar-se naquela praça.

- Se você é Deus, por que não está resolvendo os problemas do mundo e ouvindo as preces dos pobres? Então, respondeu Deus:

- Primeiro porque pobre é um saco. Só sabe pedir e, o mundo é uma merda. Mesmo com minha ajuda. De qualquer forma, eu sou onipresente, posso estar em vários lugares ao mesmo tempo.

- Como assim? Eu perguntei.

- Cara, você não lê a bíblia?

- Não. Respondi. E Ele - eu imaginei. Mas não tá perdendo muita coisa, a maioria das coisas ali é besteira.

- Por exemplo?

- Tipo, eu não sou TÃO misericordioso como dizem, então que tal você parar de me irritar com essas suas perguntas?

- Por que não faz com que eu saia? Você é Deus.

- Não posso. Ele disse.

Era difícil imaginar Deus dizendo que não poderia fazer alguma coisa no mundo que Ele criou, ainda mais se tratando de um bêbado como eu, com a perna machucada.

- Não pode por quê?

- O livre arbítrio. Não posso obrigar ninguém a fazer nada.

- Que merda pra você em Deus. Vou ter que continuar aqui descansando minha perna machucada. Eu disse para irritá-lo e Ele estava começando a ficar vermelho e emputecido.

- Descansar? Você é um preguiçoso vagabundo.

Fiquei ofendido com aquilo: - Você parece um hippie que não toma banho há meses, como pode ser Deus?

- Você parece um bêbado, assim como seu pai falava. Ele me rendeu falando do meu pai. Aquele velho idiota só sabia me bater e me amaldiçoar.

- Mas você ainda parece um hippie maconheiro.

- E você parece um mendigo bêbado na fila da sopa. Ele esbravejou.

- Mas eu sou um bêbado! Só que pelo menos eu confesso.

- Eu inventei o hippie e a maconha. Confesso que dei uns tapinhas antes da estreia. É o que um homem faz antes de lançar qualquer coisa...

- Eu imaginei. Só estando muito chapado para inventar esse mundo maluco. Falei dando-lhe um tapinha no ombro.

- Você ainda não viu nada. Precisa ver os evangélicos. Eles sim são uns comédias. Só chapado para aturá-los. Deus disse.

- Você falando assim me deu vontade de ficar chapado também.

 - De novo? Já não basta a briga que você arrumou? Se você e os outros idiotas tratassem a vida com mais valor, quem sabe eu teria um ou dois dias de folga?

 - Espere! Deus está praguejando, é isso mesmo? Continuei provocando-o.

 - E quem disse que praguejar é pecado? Deus revidou.

 - A bíblia, oras.

 - E quem foi que disse que não lia aquele livro idiota mesmo? Ironizou o Criador.

 - É verdade. Estou arrependido. Confessei-me.

 - Por quê?

 - Porque acabei de mentir para Deus.

 - Ah, tá porra nenhuma. Era estranho ouvir alguém falando mais palavrão que eu, principalmente quando esse ALGUÉM era Deus.

 - Estou sim. Juro por Deus... Digo, por você. Eu acabei gaguejando na confusão que fiz com a frase e nós dois caímos na risada. Deus gargalhava da minha cara como se fosse perder o fôlego.

 - Então prove. Ele disse.

 - Ok. Me desculpe. Eu disse.

 - Não vem com essa de "me desculpe". Depois que inventei a desculpa nunca mais consegui castigar ninguém sem peso na consciência.

 - E o que quer que eu faça? Perguntei.

 - Não faça nada meu filho. Eu te perdoo. Afinal, não sacaneio tanto alguém desde quando conheci Jó. Eu agradeço por me ouvir.

 - Não agradeça, não tinha nada melhor para fazer mesmo - eu sei - Ele respondeu de imediato.

- Também, não é todo dia que eu tenho a oportunidade de falar com Deus assim, ao vivo. Concluí.

 - Pois é. Tenho andado ocupado com tanta gente medíocre no mundo.

 - Você precisa relaxar um pouco. Que tal dividirmos aquela vodca que está na promoção e tirarmos o dia de folga? Convidei Deus.

 - Não gosto de vodca. Prefiro vinho. Ele me disse.

- Só tenho dinheiro para a vodca. E era verdade, estava pobre demais. Há meses vivia com o seguro desemprego.

 - Bem, não é uma má ideia. Se tiver água na sua casa eu providencio o vinho.

Foi quando percebi que ser Deus tinha seu lado bom.

- Tem água lá, fique tranquilo.

 - Ótimo! Vamos? Ele se levantou alisando sua túnica branca de algodão pesado e ajeitando as sandálias nos pés. Também levantei e percebi que não sentia mais dor na perna e conseguia caminhar normalmente.

- Só não repara na bagunça.



Bento.

-

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

MALDITA SEJA A ESPERANÇA


-


A pior coisa que existe chama-se; esperança.
Eu não me importo de estar no fundo do poço. Não me importo com os olhares de desaprovação como quem diz; tinha uma vida toda pela frente...
Não me importo.
Fazemos só aquilo que queremos fazer.
Somos quem podemos ser como já dizia um certo engenheiro famoso.
Estou cagando para o que acham ou deixam de achar sobre qualquer coisa que eu venha fazer ou escrever.

Se minhas linhas causam-lhe perturbação ou fervor.
Se às vezes pareço um suicida ou um beberrão desiludido e sujo.

O que me dói, o que me faz ter as tripas retorcidas como uma cólica pré-menstrual. O que me faz verdadeiramente querer quebrar a garrafa de destilado ainda cheia, desperdiçando assim o néctar dos deuses e enfiar os cacos em minhas artérias, é a esperança.

Nunca pedi por afagos. Nunca supliquei por compreensão. Cada um com seus problemas, eu não o ajudo com os seus e você não se mete nos meus. Vamos combinar que somos todos egoístas em busca de algo melhor para nós e pronto.

Não me façam de vítima que eu não me faço de herói. Se não posso ter a felicidade plena, também não quero esmolas.
Não sou eu quem vai pedir nada em troca. Deixei de pedir qualquer coisa há muito tempo e sinto que nada mudou. Sou eu, um Bon vivant admirador de fotos e sorrisos congelados e estava muito bem assim, obrigado.

Era sempre como um olhar desapercebido da calúnia que estava cometendo comigo mesmo.  
Sei que não é nada romântico. Mas imagine alguém apertando minhas bolas com toda força. Se acha que é pouco, use uma prensa. Imagine os olhos saltando das órbitas de tanta dor e a boca seca querendo engolir a própria língua. Tente imaginar seus ossos sendo quebrados em infinitas partes enquanto você ainda se mantém acordado mesmo com a dor. Tente pensar como é ter suas unhas retiradas por alicates à sangue frio com você suplicando misericórdia ao léu, sem ninguém para ouvi-la. Imaginou? É assim que me sinto quando olho uma fotografia sua. Porém repito, estava muito bem, obrigado.


Até alguém me dar uma porra de esperança de que um dia...
Um dia...

Isso tudo que me mata. O fundo do poço não é um lugar tão ruim assim. Pelo menos te isola das notícias boas. Àquelas notícias boas sem você.

Eu sou como um ex-viciado. Serei dependente até a morte. E um viciado em heroína, quando frente à frente com uma seringa se corrompe de imediato.
No meu caso, a heroína é você. A seringa são as pessoas dizendo que você pode tomar rumo e voltar a criar raízes, pois seu homem já não lhe serve mais, assim como eu também não lhe servi um dia.

Calma, calma. Essa esperança está dentro de mim, você não tem culpa nenhuma. Mas sou um viciado, lembra-se?

Qualquer menção ao seu nome me faz babar como um retardado. Qualquer proximidade do seu corpo me faz tremer. Voltamos à dependência de ocasião e minha clínica de recuperação é o exílio, como sempre.

Até quem sabe, um dia.


Bento.

-

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

TCHAU PARA QUEM FICA. ESCREVER, ESCREVER, ESCREVER

-


Está todo mundo indo para casa, parece. Tudo é cheio. Hora do rush tudo é cheio.
Quando você está prestes a deixar um lugar durante muito tempo parece que todos te reparam. E você repara em todo mundo.

Cheguei na sala de aula e não havia ninguém. Peguei um café e comecei a ler meu livro. Estava quase no fim, era um livro fino. Pena. O livro era bom.
No meio da leitura começou me dar um desassossego. Não! Não era essa a palavra. Era desespero mesmo. Tanto que me perguntei: "O que exatamente eu to fazendo aqui?”.

Já tinha sentido isso antes e fui ver a mostra do Raul numa estação de metrô.
Voltei no dia seguinte. Só que desta vez era diferente, não sei bem. Queria sair dali, era só isso que eu queria.
Eu comecei a pensar no quanto de dinheiro estava gastando com aquilo e percebi que não tinha a quantia. Um dinheiro que eu não tinha. Era isso! A conta não fechava.

Olhei em volta e os outros alunos começaram a chegar e me cumprimentar. "boa noite, boa noite", é segunda-feira, o que tem de bom? Quero meu quarto, meus textos e um trago.
Escrever é o que eu queria, porra!
Mas escrever não me dava dinheiro e aquela sala roubava meu dinheiro. Ou tomava seja a palavra certa, tanto faz.

Escrever não paga nem o cigarro, por isso tenho de trabalhar. Estudar não estava melhorando minha escrita, pelo contrário.
Estudar consumia meu dinheiro e atrapalhava a escrita. Aí pensei: "vou sair daqui" e parece que as pessoas reparam mais em você quando se está partindo.

Isso é uma merda. Dei uma última olhada nos outros alunos e parti. Ao descer as escadas encontrei todo o resto dos alunos perguntando onde eu ia. "Aonde vai? Aonde vai?" Foda-se onde vou. Não disse, mas poderia.

Mas eu sou dramático. Foi uma saída à francesa, como se fosse um adeus final. Não era nada disso, volto, ainda volto. Quando não sei, nem sei se volto, posso morrer amanhã. Pretendo voltar. Preciso me despedir do bar também, mas não hoje, um dia venho só para isso. Enquanto isso, vou. Preciso desafogar.

As contas precisam fechar, caso contrário, não estudo, não escrevo, só penso em contas. Simples assim.
Mas escrever é o que me dá mais prazer. Não preciso de mais nada, escrevo e pronto. Uns tragos, cigarros e algo para matar a fome e é só. Estudo só para poder viver da escrita, quem vai querer ler um cara que só escreve? Só um cara? Quem é esse cara? Não, tem que ter mais alguma coisa.

Sempre vi nesse tempo todo no bar uns mauricinhos que têm seus estudos pagos pelos pais passando o ano todo sentado na mesa do boteco reclamando da vida e do atraso nas matérias. Claro, ficam sempre no bar. Veja, não sou santo, também matei meia dúzia de aulas pelo bar. E daí? Não vou reclamar. Se não posso, não faço. Desistir de lutar é uma coisa. Insistir em tomar soco de um valentão com o triplo de seu tamanho e peso é burrice. A vida ensina, não tem atalho. Não para um tipo como eu.

Curioso é que escrever tem sido melhor até que transar. Prefiro.
Se dissesse isso há dez anos daria risada na minha própria cara e diria: "tá louco!" Sim! Quem não está louco está morto, acha que está vivo, mas está morto. Mortinho da Silva.

Reflito para ver se é isso mesmo e não tenho dúvidas, prefiro mesmo.
Escrever me faz bem, toma tempo, só que bem pouco. Não me custa nada e não tenho de ouvir reclamações do teclado me perguntando se vou ligar no dia seguinte. Ligo, eu sempre ligo, nem que seja para dizer: "vamos ser amigos, ok?"

Prefiro transar com as palavras porque tem sido mais prazeroso. Sou meio de fase, minha fase hoje é aquela de exclusão, não sei o que é. Com raríssimas exceções eu preferia me excluir.

Quando se passa muito tempo sozinho como eu você aprende a dar valor a quem te faz companhia e não cede seu tempo para qualquer pessoa. Você se acostuma e fica exigente ao mesmo tempo. Traduzindo: UM CHATO! Mas é isso que eu sou, um velho chato. Mas é isso que eu sou. Paciência.

Então repenso e não tenho dúvidas, escrever tem sido melhor que transar.
Faço isso só, a hora que eu quiser e quando não quero ligo a TV para matar o tempo. Tomo uns tragos, fumo, mato o tempo. É isso que eu faço e não ganho um puto para isso. Fazer o quê? Vivo disso, salvo a alma pelo menos. Salvo a alma enquanto ainda vivo, depois de morto que se foda.


Bento.

-

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

NÃO É ÓDIO, É PRAZER


-


Existe a incompatibilidade de gênios que deriva das situações mais estranhas possíveis. Pode ser qualquer um, vizinho, colega de trabalho ou faculdade, ou parente. Tanta incompatibilidade que se por um acaso, alguém que se enquadra nisso estiver passeando na rua, assim como quem não quer nada, feliz da vida de assoviar, passeando e de repente um caminhão enorme o acerta em cheio, no meio da rua enquanto atravessava e o caminhão esmaga-o espalhando órgãos por toda a via como se fosse um festival da carne. Tripas, rins, fígado, intestinos, todos pendurados nos fios elétricos, colados nas vitrines das lojas e menus dos restaurantes. Tudo como se fosse uma feijoada crua self-service. Acredito que se houvesse uma incompatibilidade de gênio você nem ficaria tão triste, duvido que gerasse mais que um comentário no seu dia "você não sabe quem morreu...", não mudaria em nada sua vida.

 É assim que eu me sinto com a grande maioria das pessoas que estão a minha volta. Não vou aqui premeditar qualquer desculpa ou autodefesa, pois sei que essas pessoas estão cagando para isso, apesar de um número mínimo de dois ou três idiotas que ficarão melindrados com a sinceridade.

Também não vou me eximir de culpa, afinal, isso se deve a um pequeno trauma de personalidade causado exatamente por outras pessoas que deveriam ser atingidas por raios, tendo assim seus corpos incinerados instantaneamente, fazendo um grande churrasco a céu aberto, os dedos colados pela pele derretida devido ao calor e seus olhos arremessados em cima dos passantes ocupados demais para notar retinas voadoras vindo em sua direção.

Você não será uma pessoa má por ter pensamentos assim, muito menos atrair coisas ruins para você. O que vai te fazer um mal danado é tentar enganar-se e insistir numa simpatia que não agrada nem você, nem o odioso.
Guardar os sentimentos é o que faz surgir os psicopatas. Pensar em fazer não é pecado. Errado é fingir que deseja o bem para pessoas que só querem massagear seu reto da maneira mais sacana possível.

Sei que parece um tanto grosseiro, mas não me entenda mal, não é desejo, é uma constatação, pode acontecer com todo mundo. Se por acaso acontecer com alguém que eu não tenha tanta afetividade assim, seria interessante.

Também não vou dizer que isso trata-se de ódio explícito, é mais como tédio, uma monotonia tamanha que precisa de vez em quando de uma distração para tornar o dia-a-dia mais tragável.

Alguém aí tem um caminhão?


Bento.