sexta-feira, 10 de agosto de 2012

DEUS, A VODKA E OS MISERÁVEIS.


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Era uma segunda-feira e eu decidi sair de casa. Estava calor, um belo dia. Choveu o final de semana inteiro, em plena segunda-feira fazia um sol de 30 graus.
A vida na cidade não era fácil, as pessoas trabalhavam a semana inteira, andavam pelo centro de terno debaixo de um sol de vinte e um desertos e no final de semana chovia como no dilúvio. Vida de trabalhador não é fácil.

Bem, não faz diferença para mim, eu estava e ainda estou desempregado. Então resolvi sair de casa e andar um pouco. Minha casa estava cheia de goteiras e sempre que chovia era um cheiro de mofo que deixava minhas narinas derretendo como uma calota polar em pleno verão.

Peguei meus cigarros e bebi uma dose de alguma coisa forte num copo em cima da pia que restara da noite passada e sai.

Realmente era um dia quente e as pessoas andavam para lá e para cá, indo ao trabalho, estudar, fazer compras e cuidar de suas vidas inúteis.
Ninguém olhava ao redor, ninguém reparava em nada. O mendigo ajoelhado na calçada com a mão estendida esperando alguns trocados era invisível aos olhos dos passantes.

Eu andava e pensei em ir ao mercado comprar algum congelado e uma garrafa de qualquer coisa alcoólica para me ajudar a dormir.
Decidi parar numa praça para descansar, eu mancava e tinha dificuldade em respirar por causa da briga no bar que arrumei duas noites atrás. Não sou de briga, mas estava bêbado e eu disse "que foi?" para um sujeito que não parava de me olhar. O tal cara tinha quase o dobro do meu peso, mas pensei "foda-se", vou arrebentar esse merda se ele continuar me encarando, ele é um só. Ele disse "que foi o quê?" Foi o suficiente para partimos pra briga.

Eu levava a melhor no início, apesar de bêbado tinha as mãos rápidas, porém ele não estava sozinho. Quando fui derrubado no chão só tive tempo de proteger a cabeça, o resto era só pontapés e socos por todo o meu corpo.

Enfim sentei num banco de uma praça no meio do caminho da minha casa até o mercado. Era bom assim, um pouco de paz e ar puro. Só ouvindo os pássaros e automóveis e o apito do guarda de trânsito. Bem tranquilo. De repente sentou um velhote ao meu lado. Cabeludo, a barba que parecia um ninho de passarinho, um vestido de algodão grosso para o verão que estava naquele dia. Mas em São Paulo nunca se sabe quando vai precisar de um agasalho ou um guarda-chuva. Dizem que um homem prevenido vale por dois. Tinha chinelos de tiras de couro também. Pensei que seria mais um hippie vendendo suas bugigangas no centro. Aparentava uns trinta e poucos anos sofridos, queimado do sol.

Sentou-se bufando. Parecia estressado. Fingi que não vi e acendi um cigarro, então ele passou a me olhar.

 - Que foi? Eu disse.
 
 - Que foi o quê? Nunca viu? Ele disse.

- Um velho de vestido? Não, nunca vi.

- Como assim, velho? Esse corpo deve aparentar três ou quatro anos a menos que o seu. Ele disse.

E eu: - Como pode saber? Você não sabe quantos anos eu tenho.

- Você tem trinta e dois e diz que tem 25 achando que vai parecer mais novo por causa disso.

Como é que ele sabia daquilo? Deveria trabalhar na receita federal.

- Você é sabidão. Tá achando que é quem? Deus?

- Isso. Limitou-se a dizer.

- Isso o quê?

- Esse negócio de Deus que você disse.

- Você não pode ser Deus...

- Deus, Jeova, Big Boss, Senhor, Alá. Esses nomes que vocês me dão, sou todos eles.

- Você é Deus e não consegue comprar uns sapatos que preste? Eu perguntei.

- O quê você tem contra minhas sandálias? Isso já foi moda algum tempo atrás.

Assim que ameacei responder Ele me cortou.

- Quer saber, meu filho? Por que você não vai à merda e me deixa aqui pensando em paz?

- Você não pode falar palavrão, não é Deus? Perguntei só de sacanagem.

- Eu inventei o palavrão, porra! Eu posso usá-lo quando bem quiser. Vá comprar seu congelado e sua vodca caralho!

- Como sabe que eu ia ao mercado?

- Porra! Você é burro? Eu sei de tudo, sou Deus.

- Mas eu ainda não me decidi se compro vodca ou conhaque.

- Vodca. Você vai acabar escolhendo a vodca, pois vai estar na promoção. Ele me revelou. Provavelmente já tinha passado no mercado antes de sentar-se naquela praça.

- Se você é Deus, por que não está resolvendo os problemas do mundo e ouvindo as preces dos pobres? Então, respondeu Deus:

- Primeiro porque pobre é um saco. Só sabe pedir e, o mundo é uma merda. Mesmo com minha ajuda. De qualquer forma, eu sou onipresente, posso estar em vários lugares ao mesmo tempo.

- Como assim? Eu perguntei.

- Cara, você não lê a bíblia?

- Não. Respondi. E Ele - eu imaginei. Mas não tá perdendo muita coisa, a maioria das coisas ali é besteira.

- Por exemplo?

- Tipo, eu não sou TÃO misericordioso como dizem, então que tal você parar de me irritar com essas suas perguntas?

- Por que não faz com que eu saia? Você é Deus.

- Não posso. Ele disse.

Era difícil imaginar Deus dizendo que não poderia fazer alguma coisa no mundo que Ele criou, ainda mais se tratando de um bêbado como eu, com a perna machucada.

- Não pode por quê?

- O livre arbítrio. Não posso obrigar ninguém a fazer nada.

- Que merda pra você em Deus. Vou ter que continuar aqui descansando minha perna machucada. Eu disse para irritá-lo e Ele estava começando a ficar vermelho e emputecido.

- Descansar? Você é um preguiçoso vagabundo.

Fiquei ofendido com aquilo: - Você parece um hippie que não toma banho há meses, como pode ser Deus?

- Você parece um bêbado, assim como seu pai falava. Ele me rendeu falando do meu pai. Aquele velho idiota só sabia me bater e me amaldiçoar.

- Mas você ainda parece um hippie maconheiro.

- E você parece um mendigo bêbado na fila da sopa. Ele esbravejou.

- Mas eu sou um bêbado! Só que pelo menos eu confesso.

- Eu inventei o hippie e a maconha. Confesso que dei uns tapinhas antes da estreia. É o que um homem faz antes de lançar qualquer coisa...

- Eu imaginei. Só estando muito chapado para inventar esse mundo maluco. Falei dando-lhe um tapinha no ombro.

- Você ainda não viu nada. Precisa ver os evangélicos. Eles sim são uns comédias. Só chapado para aturá-los. Deus disse.

- Você falando assim me deu vontade de ficar chapado também.

 - De novo? Já não basta a briga que você arrumou? Se você e os outros idiotas tratassem a vida com mais valor, quem sabe eu teria um ou dois dias de folga?

 - Espere! Deus está praguejando, é isso mesmo? Continuei provocando-o.

 - E quem disse que praguejar é pecado? Deus revidou.

 - A bíblia, oras.

 - E quem foi que disse que não lia aquele livro idiota mesmo? Ironizou o Criador.

 - É verdade. Estou arrependido. Confessei-me.

 - Por quê?

 - Porque acabei de mentir para Deus.

 - Ah, tá porra nenhuma. Era estranho ouvir alguém falando mais palavrão que eu, principalmente quando esse ALGUÉM era Deus.

 - Estou sim. Juro por Deus... Digo, por você. Eu acabei gaguejando na confusão que fiz com a frase e nós dois caímos na risada. Deus gargalhava da minha cara como se fosse perder o fôlego.

 - Então prove. Ele disse.

 - Ok. Me desculpe. Eu disse.

 - Não vem com essa de "me desculpe". Depois que inventei a desculpa nunca mais consegui castigar ninguém sem peso na consciência.

 - E o que quer que eu faça? Perguntei.

 - Não faça nada meu filho. Eu te perdoo. Afinal, não sacaneio tanto alguém desde quando conheci Jó. Eu agradeço por me ouvir.

 - Não agradeça, não tinha nada melhor para fazer mesmo - eu sei - Ele respondeu de imediato.

- Também, não é todo dia que eu tenho a oportunidade de falar com Deus assim, ao vivo. Concluí.

 - Pois é. Tenho andado ocupado com tanta gente medíocre no mundo.

 - Você precisa relaxar um pouco. Que tal dividirmos aquela vodca que está na promoção e tirarmos o dia de folga? Convidei Deus.

 - Não gosto de vodca. Prefiro vinho. Ele me disse.

- Só tenho dinheiro para a vodca. E era verdade, estava pobre demais. Há meses vivia com o seguro desemprego.

 - Bem, não é uma má ideia. Se tiver água na sua casa eu providencio o vinho.

Foi quando percebi que ser Deus tinha seu lado bom.

- Tem água lá, fique tranquilo.

 - Ótimo! Vamos? Ele se levantou alisando sua túnica branca de algodão pesado e ajeitando as sandálias nos pés. Também levantei e percebi que não sentia mais dor na perna e conseguia caminhar normalmente.

- Só não repara na bagunça.



Bento.

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