sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ESSA NORMALIDADE QUE ME MATA


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Certa vez eu disse que só me relacionei com santas. Todas inocentes, pessoas perfeitas e puras. Nenhuma dessas mulheres que passaram na minha vida tem nada, mas nada mesmo, para lamentar-se ou se arrepender. Pois bem.

Hoje dormi bem, o que é muito raro. Geralmente pego no sono momentos antes de ter de me levantar para mais um dia árduo de trabalho. Não hoje. Hoje dormi como um defunto. Duvido que não gelei como morto e parei de respirar. Foram mais de doze horas de sono profundo sem despertar nem para atender os desejos da bexiga. Tanto dormi que acordei naturalmente meia hora antes do despertador. Não, não pense que deixarei de chegar atrasado ao trabalho por causa disso, pois existe uma ordem natural para as coisas, um ciclo original, uma força maior para tudo. Assim como a noite dá lugar ao dia, assim como os pulmões exigem ar, assim como os amantes necessitam discutir para voltarem mais fortes, eu tenho de chegar atrasado em tudo. É assim.

Só sei que dormi como um gato e acordei disposto. Muito disposto para o meu gosto. Acordei e no caminho para o trabalho minha mente trabalhava com energia total bolando planos mirabolantes para o decorrer do meu dia. A barriga vazia exalava uma ansiedade e eu sentia-me feliz. Uma felicidade sem motivo, sem compreensão. Me peguei pensando: De onde vem essa felicidade toda? É esse o segredo? É só dormir e pronto?

Uma mente descansada normalmente é uma boa coisa. Só que nada que venha a ser normal se aplica muito bem quando se trata da minha vida. Digo isso porque tudo é uma questão de costume.
Não é tão simples assim, é preciso um tempo de adaptação e, normalidade e tempo são duas coisas que não fazem parte do meu cotidiano, logo, fiquei sem saber como agir. Então uma mente sã e descansada tende a agir com essa tal normalidade para pessoas normais. Já a minha mente, normalmente anda a mil, pensa em coisas que eu não quero pensar. Acelera como um maldito motor possante numa estrada reta e vazia. Já cansada é preciso freiá-la com noites mal dormidas, ressaca e desligamento do mundo. Quando descansada então... Quase entra em pane.

O dia foi passando e me vi desejando bom dia a todos. Fazendo favores para malditos filhos da puta que eu sequer gostava. Me vi tratando todas as pessoas bem, sem exceção. Sem fazer diferença de ninguém.  Entenda, estava eu cometendo uma puta injustiça sem tamanho e, se tem uma coisa de que não gosto, é exatamente essa tal injustiça. Nem todas as pessoas merecem o seu melhor. Se for assim, você coloca tudo no mesmo saco, os monte de estrume com bacanas e se mata. Corte os pulsos, dê um tiro na cabeça, sei lá. Não comigo amigo. Não trabalho desse jeito. Tomei uma atitude até então, drástica.

Meti o pé na porta do bar, acordei o dono daquele moquifo e ordenei: quero essa garrafa de conhaque, agora!

O cidadão ainda com seu pijama meteu a cara na janela: - Mas ainda são nove da manhã, me deixe dormir.

 - E daí? No Japão já são nove da noite e passou da hora de beber - Eu retruquei e passei a próxima hora tomando doses cavalares de destilado amargo, como a vida deve ser.


Bento.

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Um comentário:

Optymus disse...

forte como o conhaque, e bom como deve deve ser...