domingo, 19 de agosto de 2012

QUEM SABE EM OUTROS MUNDOS...


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O despertador tocou e marcava 06h10, mas Cidão já estava tomando banho. Acendera um cigarro e entrou no box com metade do corpo debaixo do chuveiro para não correr o risco de molhar o bastão de nicotina. No aparelho de MP3 tocava uma seleção de músicas que sua namorada fizera especialmente para o casal.

Saiu do banho e com o corpo parcialmente úmido passou creme por todo o corpo. Pescoço, seios, pernas. Cidão era obesa, trinta ou quarenta quilos acima do peso, mas ela já não ligava mais para isso.

Vestiu a lingerie com calma, quase que com sensualidade. Serviu uma dose de vodca, misturou café e acendeu outro cigarro. Estava atrasada, sabia disso, pois queria estar linda e seu cabelo estava dando problemas nas últimas semanas para ficar como ela gostava. Tudo tinha de estar perfeito.

Vestiu seu jeans preferido, presente de Helena, o grande amor de sua vida. O tênis igualmente preferido e uma camisa xadrez. Outra vodca, outro café e outro cigarro.

Foi ao banheiro, escovou os dentes, cuspiu o antisséptico bucal e começou a guerra com o cabelo teimoso.
Cidão tinha os cabelos curtos e arrepiados e, detalhista como era, cada fio teria de estar em seu devido lugar. Ela não saia de casa enquanto não obtivesse sucesso.

Vinte minutos e três cigarros depois o cabelo teimoso estava como Cidão queria. Perfeito. Tomou mais uma caneca de café, desta vez puro, para evitar o hálito alcoólico e partiu.

Um cigarro até o ponto de ônibus. Olhava o relógio com impaciência, talvez não desse tempo. Ela estava decidida, se deixasse para amanhã seria tarde e ela hesitaria. Era hoje e pronto! Tinha de ser. No MP3 ainda tocava a seleção de músicas feita por Helena e nos fones de ouvido era John Mayer que cantava.

Finalmente o ônibus chegou e Cidão parou de roer as unhas e mexer uma das pernas devido a impaciência. Ela agora só tinha que rezar para que o motorista do coletivo pisasse no maldito acelerador devolvendo a moça os minutos preciosos que perdeu com o cabelo rebelde.

Trânsito, faróis, passageiros que davam sinal nos pontos querendo subir e descer do ônibus. Tudo isso atrasava ainda mais os seus planos. A impaciência em pessoa. Tanta pressa que gritou duas vezes para que o motorista acelerasse aquela merda de ônibus. Na verdade ela disse "Porra". "acelera essa porra desse ônibus seu filho da puta!". Alguns passageiros atrasados para o trabalho concordaram, outros fizeram cara de espanto. O motorista devolveu-lhe um "vai toma no cú sapatão!" e ficou por isso mesmo.

Cidão não se importava de ser chamada de sapatão, nem ser comparada com homens. Vestia-se como tal, andava e falava como tal e, apesar de ser gorda, seu rosto delicado não deixava mentir. Era uma garota. Uma garota grande e não muito gentil nem educada como suas irmãs e primas, nem como Helena, ainda assim era uma garota.

Já Helena odiava o termo "sapatão", achava-o pejorativo e machista e, não era raro as vezes que a feminista discutia em bares e ruas por ser chamada assim. Esse era um dos motivos das brigas do casal. Helena não gostava da falta de interesse de Cidão pela causa gay. Palestras, passeatas, tudo isso fazia parte da vida de Helena e tantas outras lésbicas, mas não da de Cidão.
Cidão não se importava com nada, exceto Helena.

Ela sabia que Helena também a amava. Talvez não tanto quanto ela, mesmo assim, sentira-se amada nos anos em que moraram juntas, só que em suas próprias palavras: Fiz muita merda com Helena.

Cidão era explosiva, quase como seu pai que a espancava quando adolescente pelo modo que se vestia, falava e por passar horas trancada em seu quarto com outras garotas. Levava nas costas, até hoje, as marcas do cinto de couro que seu pai usava para castiga-la. Sua mãe, tentando livrar a filha das surras dizia ser normal. "É coisa de garota", no entanto seu pai sabia da preferência sexual da filha.

Apesar de odiar o pai, puxou o gênio do velho e isso serviu, também, de ajuda para o fim de seu relacionamento com a mulher mais linda que Cidão conheceu. Helena.

O ônibus enfim chegou à estação do metrô e Cidão foi uma das primeiras a descer. Subiu as escadas rolantes andando, pela pressa, porém, com dificuldade por seu tamanho. Colocou o bilhete na catraca e atravessou-a tão rápido que a máquina travou quase levando a moça a um tombo. Vermelha de raiva, a garota roliça xingava com todos os palavrões que ela conhecia. Todos a olhavam com cara de reprovação e ela pensava em avançar no pescoço do usuário do metrô mais próximo e descontar sua ira, mas não tinha tempo para isso. Helena já deveria estar na estação. Não deixaria que seu gênio atrapalhasse seus planos novamente. Precisava falar com sua amada uma última vez.

No caminho de casa para a estação, Cida desistira de seus planos inúmeras vezes, porém, retomava logo depois. Já tinha deixado Bad, seu poodle branco com sua vizinha e um saco de ração novinho. Se despediu do cão de estimação chorando copiosamente e sua vizinha dizia: - calma minha filha, é só uma viagem de alguns dias, em breve você o verá de novo.
Cidão sabia que não seriam só uns dias, sabia que não era uma viagem a trabalho como contou. Bad também sabia e chorava como a dona. A garota já estava na estação quando lembrou de Bad e tentou afastar a imagem do cachorro de sua mente, pois corria o risco de desistir. Andava olhando para todos os lados procurando Helena. Olhou o relógio da estação e estava atrasada cinco minutos. Helena tomava o metrô sempre no mesmo horário, todos os dias para ir trabalhar. 

Eram várias pessoas na estação, todas indo ao trabalho, escola, universidade. Só Cidão tinha um destino diferente de todos.
A grande garota pensava se era àquilo mesmo que gostaria de fazer. Poderia talvez, haver outro jeito. Ela queria que houvesse. Talvez fosse só uma fase de Helena, só um momento de descoberta. Quem sabe, seu grande amor só queria curtir a vida sozinha um pouco. Um tempo solteira, quem sabe no fim terminariam velhinhas e felizes. Com certeza era o que Cida desejava. Até achar Helena, bem na sua frente. Ela vestia sua calça jeans mais justa, seu maior salto alto, que deixava suas pernas mais torneadas e suas nádegas ainda mais empinadas. Sua miniblusa rosa com rendas deixava os pequenos furos acima da cintura a mostra e, àquilo sempre deixara Cida louca de desejo. Os cabelos de Helena estavam presos num coque feito com certo relaxo planejado e seu pescoço e ombros eram lindos.

Cidão tinha o coração saltando pela boca de desejo. Tinha arrepios de saudade. Possuía tremedeiras de amor contido. Enfim era Helena. Era muito amor. Talvez mais que isso, ou tudo isso.

Os olhos de Cida percorreram Helena dos pés, passando pelos joelhos e coxas, parou no quadril. Vira as marquinhas que pareciam suportes para dedos em sua cintura, foi ao pescoço e parou no rosto, ali, derramou duas lágrimas. Era saudade de doer nos nervos da alma, se é que alma tinha nervo. Beliscou as orelhas e seus alargadores brancos com os olhos e, finalmente desceu pelos ombros, escorregou pelos cotovelos passando pela grande tatuagem que Helena tinha no antebraço, quando chegou às mãos que um dia estivera agarradas em seus seios e viu outra mão rústica, máscula, agarrada a ela. Piscou os olhos com força e não era ilusão. Aqueles dedos delicados que um dia esteve dentro de seu sexo agora estavam entrelaçados nos dedos calejados e tortos de um: VELHO!

Cidão pensou tão alto que saiu um grito. UMA PORRA DE UM VELHO? A pergunta era mais para seus olhos do que para Helena. Pena, ou não, que Cida tinha errado a escada e saído do lado errado, tendo assim, os trilhos separando o casal da mulher com orgulho ferido.

Helena notou a presença de sua ex-namorada e largou a mão do colega de trabalho que agora era seu noivo, com direito a anel e tudo. Assustada e, também confusa. Não queria que Cida a visse com o noivo. Não agora. Cida agora chorava de soluçar e ter coriza lavando seu buço. Os dentes e punhos cerrados com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Quando resolveu falar, só conseguia repetir: - Mas eu te amo tanto. Não pode... Eu te amo tanto. Não pode se!

Helena agora também chorava e borrava a maquiagem. O noivo ali estava avulso. Não sabia nada do passado de sua futura mulher. Helena quando deixou Cidão mudou de vida. De personalidade, opção sexual, credos. Tudo.

Cida então teve certeza. Sem tirar os olhos da amada, sem interromper as lágrimas. Apenas com os ouvidos calculou, pelo barulho do trem em alta velocidade, o momento certo. Ainda cabia mais uma frase; - Pois é... Eu te amo tanto. Sem você não... Quem sabe em outros mundos...
O baque que viria não causaria dor maior do que já havia sofrido aquela mulher.

Então saltou.


Bento.

Um comentário:

Rodrigo Nolasco disse...

Desde o titulo do Blog até as postagens, textos e artigos de sua autoria, tudo interessante e legal, jovem e inteligente. Parabéns pelo blog, vou seguir e com certeza me tornar leitor fiel!

Att,
Rodrigo Nolasco
http://viaspensantes.blogspot.com.br/