sábado, 22 de setembro de 2012

CAFÉ EXPRESSO


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Às vezes eu confabulo com o Destino mesmo sabendo que ele quer me passar a perna. É simples, algumas rasteiras que ele me deu me trouxeram coisas boas. Então por que não tentar?

Trabalhei numa antiga empresa que eu tinha um emprego tão estressante quanto descascar batatas. Já trabalhei em várias coisas para sobreviver nesses meus quarenta anos, nunca cortei batatas. Mas era como se fosse.

Aí tinha que fugir daquela zica do pântano de alguma forma. Saía no meio do expediente para tomar um trago no bar em frente à empresa. Pedia um conhaque e um expresso. Jogava o expresso fora, sem beber, colocava o conhaque na xícara de porcelana e mimava meu fígado, o cérebro e o espírito com meu expresso alcoólico. Diretores, gerentes e supervisores da tal empresa passavam por mim e nem se davam conta. Era legal.

"Bom dia Artur" eles diziam. E eu os cumprimentava como se estivesse são, mas estava longe disso, bem longe. Eu na verdade estava simpático, semi bêbado, pois, bêbado mesmo era depois do expediente.

Íamos todos os amigos ao bar para desabafar sobre nossos empregos medíocres e libertar o demônio dentro de nós.
Éramos todos fodidos e mal pagos. Lamentávamos por estarmos onde estávamos, mas nunca fazíamos nada para muda àquilo. Exceto beber. Bebíamos como porcos e só íamos embora quando o dinheiro acabava ou quando a conta no bar ultrapassasse o limite sábio do Barcelar, o dono do bar. Este era um homem baixo, mas com quilos sobrando para mais dois. Era careca e usava uma peruca que mais parecia pelos de ratazana.

Eu achava Barcelar um personagem de livro. Era um completo clichê, careca, um pente no bolso da enorme camisa de manga curta cobrindo-lhe a enorme barriga de chopp. Fumava um cigarro de palha que fedia até mesmo do outro lado da rua. Ah! E o bigode, também tinha o bigode esbranquiçado contrastando com os poucos cabelos acima das orelhas que eram seus de verdade, pintados de um negro de graxa de sapato. Nunca acreditei muito no velho, nunca acreditei em clichês. Porém, assim levávamos a vida, trabalhando e bebendo religiosamente como nossas mães iam a igreja quando jovens. Nosso divertimento se baseava nas besteiras contadas após o efeito etílico, bem como piadas de português, loiras, bichas, gaúchos. Os derrotados na última rodada do Brasileirão e a chegada de uma nova garçonete no Bar do Barcelar.

 - Ei, conhecem aquela da puta aleijada? Cobra o dobro pra transar de quatro. hahaha

Entre outras coisas tão sem graça quanto, só que todos gargalhavam como criança.

As piadas se repetiam, as garçonetes nem tanto. O velho Barcelar só contratava meninas novas em busca do primeiro emprego, achava que eram elas que nos faziam fregueses assíduos. Mal sabia ele que não estávamos ali por causa das garotas e sim pela cerveja barata e por ser o único maluco dono de bar que deixava-nos comprar fiado durante meses.

Riamos também, de doer a barriga e cuspir amendoins sobre as histórias de nossos casamentos e como, um dia, planejávamos voltar ao tempo de solteiros e comer mulheres como engolíamos os amendoins e ovos de codorna. No entanto não passavam de teorias hilárias de sofreguidão. Éramos covardes demais e velhos demais para uma aventura juvenil, mas planejar era sempre muito engraçado e de certa forma trazia um pouco de vivacidade para nós, um bando de homens casados, pobres e saudosistas.

Houve até uma vez que uma das garçonetes se engraçou pro lado de Jânio do almoxarifado. Imaginem, a garota devia ter uns vinte anos recém-completados e Jânio tinha isso só de tempo de casamento. De tanto trocarem olhares e elogios terminaram no motel. Só que Jânio ficou com tanto peso de consciência que decidiu comprar um cachorro para a mulher, esses cachorros de madame, com pedigree. Pagou o olho da cara. Foi uma pena ele descobrir que sua mulher lhe traia com um primo recém-chegado do interior. Jânio tratou de levar o cachorro com ele, tomando o presente de volta. Imaginem só, um velho e um cachorro numa pensão cheia de velhos e mais cachorros. Caíram na depressão, o cão e Jânio. Está de licença até hoje, recebendo pela Caixa.

Essa história assustou a todos nós a ponto de ficarmos alguns dias sem pisar no bar de Barcelar. Queríamos todos chegar cedo em casa para ver se nossas mulheres não nos traia com um parente ou vizinho, como aconteceu com nosso velho amigo Jânio. Alguns permaneceram pegando o caminho do bar, se suas mulheres lhe plantavam chifres, não queriam saber. Duas ou três semanas depois tudo voltou ao normal. Um bando de velhos bêbados olhando para as bundas das garçonetes, rezando pelo prêmio da Sena e contando piadas.

 - Ei, conhecem aquela do gaúcho bilíngue?



Bento.

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

MEU PAI TRAVESTI

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Por volta das dez da manhã eu estava sentado num canto do bar dando fim a primeira garrafa de vodca. Eu sentava-me perto do banheiro por causa da minha bexiga, tão frouxa que a cada 15 minutos eu tinha que tirar água do joelho. Por um lado era bom, o médico me receitou caminhar para exercitar as pernas, pois eu passava muito tempo sentado e aquela cadeira de aço que mal cabia minha bunda só piorava as coisas.

Era um dia típico, deveria ser terça-feira ou não. Eu nunca tomava café da manhã, exceto se uma garrafa de vodca antes do almoço puder ser considerada uma refeição.

Eu já tinha passado dos 150 quilos e estava muito longe do meu peso ideal. Então mantinha uma dieta especial à base de vodca e cigarros que não estava apresentando muito resultado, mas pelo menos servia para me entreter. Aos 28 anos e sem emprego, não se tem muita coisa que possa fazer.
O bar era do meu pai, se é que se pode chamar de pai. Dona Margaret como gostava de ser chamado tornou-se travesti quando eu ainda era criança, minha mãe, descobriu sua homossexualidade e é claro, sumiu no mundo. Só não fiz o mesmo por ser covarde demais.

Então, quando meu pai, ou minha mãe, ou seja lá o que for, precisa ir ao banco eu tomo conta do bar. É o máximo de trabalho que já tive na vida.

- Lalau meu filho, pare de beber tão cedo e vá comer algo.

 - CALA A BOCA SEU TRAVECO!

Era assim nossa relação entre pai e filho.
Eu o odiava e ele fingia me amar. Na escola eu cansei de apanhar por ter um pai travesti. As garotas me olhavam com asco por isso e eu tive de aprender a me virar. Já não bastava eu ser gordo como um porco?

Certa vez, na escola, três garotos começaram a me xingar e me dar tapas na cabeça. "filho de bicha, bichinha é" eles diziam. Eu tinha de me defender, não pelo meu pai, ele era bicha mesmo. Não era justo comigo, logo, já tinha uma estratégia de ataque para derrubar os três garotos filhos da puta.

Eu acertaria o primeiro bem no meio do nariz com um de direita e o derrubaria. Pow! A mão esquerda logo acertaria a face do segundo. Pow! O terceiro me acertaria, era inevitável, então eu teria de me manter em pé para derrubá-lo também. Pow pow pow!

Nem preciso dizer que não saiu nada como eu planejei. Aceitei o primeiro, que não caiu e, ele me devolveu um cruzado que me deixou zonzo. Os outros dois me derrubaram e fiquei parecendo uma bola de praia, grande, redondo e recebendo chutes de todos os lados. Foram dois dentes para o saco, uma costela e o nariz quebrados, e o rosto estragado. Duas semanas no hospital e nunca mais voltei para a escola. Eu tinha na época 16 anos, comecei a beber e fumar depois disso.

Tenho uma vida difícil, ficar no bar o dia todo sem fazer nada, só bebendo, não é mole. Chega uma hora que você quer fazer alguma coisa diferente. É quando eu subo até o apartamento vago em cima do bar para fumar uma erva e curtir a brisa apoiado na janela, imaginando como seria minha vida se estivesse no lugar delas. Eu não tenho muita imaginação nem criatividade, mas a Cannabis ajuda abrir a mente.

Eu tinha fome, mas não iria comer. Não hoje pelo menos, talvez amanhã. Fumava meu cigarro de maconha quando vi uma garota entrando no bar. Pude ver o tamanho de seus seios mesmo de onde eu estava. Ela andava e eles balançavam seguindo o compasso dos passos. Belos seios, pele clara, porém avermelhada por causa do sol daquela tarde. Cabelo tingidos de preto, roupas pretas, maquiagem preta. Era uma dessas garotas que escondiam uma fraca personalidade debaixo do gosto discutível por músicas barulhentas.  Também notei que estava um pouco acima do peso, não muito. Mas convenhamos, eu era um porco de tão gordo e tirando as putas, nunca tive sorte com mulheres.

Fiquei imaginando o que aquela delícia viria fazer aqui e fui longe à imaginação.

Pensei nela encostando-se ao balcão de dona Margaret e dizendo que estava apaixonada por mim, meu pai indicaria o caminho do apartamento vago e transaríamos dias seguidos, parando só para fumar unzinho e buscar mais garrafas de vodca no bar.

Toda essa imaginação me deixara com tesão. Abaixei a calça, a cueca e comecei uma masturbação maravilhosa imaginando nossa transa. Eu e a garota desconhecida. Eu e aquele par de seios magníficos.

Meu rosto transpirava por causa do esforço, quando um braço cansava eu trocava. Eu era ambidestro na masturbação, um craque da punheta. E de repente ouço uma voz vindo da porta do apartamento. - Alaor?

Levantei da cadeira com pressa. Não sabia o que fazia primeiro, se escondia a paranga de maconha ou levantava a calça. Precisava esconder meu pinto. Então preferi investir o pouco tempo que meu pai levaria para atravessar a cozinha e chegar ao quarto onde eu estava para tentar me vestir.
Abaixei-me e puxei a calça, mas eu estava bêbado e muito louco de maconha. Gordo não tem equilíbrio sóbrio, o que dirá bêbado. Cambaleei para frente e dei com a cara no chão. Fiquei ali, com a bunda para cima e a calça nos joelhos. Meu pai parou debaixo do batente da porta com os braços na cintura. Eu olhava sua cara de desaprovação e imaginava que ele tinha tanta decepção por mim quanto eu tinha por ele. Medi-o das sandálias plataforma até a peruca ruiva, passando por seu vestido florido e seu batom vermelho.

Meu pai era um travesti e eu estava bêbado e chapado com a bunda para cima e a cara no chão. Que vida ótima essa minha. Mas como tudo pode ficar ainda pior a garota que eu tinha visto pela janela saíra de trás do meu pai e agora passava os olhos em minha condição trágica e sorria de canto de boca. Era um riso que dizia o quanto eu era estúpido. Um sorriso que gritava aos meus ouvidos o quanto medíocre eu era.

Quando vi a garota dei um jeito de levantar o mais rápido possível e me recompor. A minha cara gorda e branca estava agora rubra como a brasa do meu cigarro que queimava em cima da cadeira, o cheiro de maconha exalava no apartamento todo e ficaram os dois olhando para minha cara, mudos. A gostosa e o travesti. A única coisa que consegui dizer naquele momento para quebrar o silêncio constrangedor foi:

- Pois não?

- Soraia veio ver o apartamento.

- Ok! Vou ficar no bar.

- Lave as mãos. Ouvi a voz de meu pai dizer enquanto eu descia as escadas em direção ao bar.

No bar, eu abri mais uma garrafa de vodca, mas sentia que precisaria de algo ainda mais forte para esquecer a vergonha que tinha acabado de passar. Eu tinha uma pílula em algum bolso desses da minha calça.
O problema não era só ser gordo e feio e pobre. Era minha falta de sorte que me matava. Se eu ao menos tivesse nascido numa família decente, tivesse algum dinheiro, as coisas teriam uma perspectiva diferente.

A Cannabis dá uma fome maldita e tive que me render a ela, peguei uma coxinha no balcão e mordi um pedaço. Seria minha única refeição sólida durante alguns dias, inevitavelmente.

Terminei de comer e reparei a garota das tetas me olhando novamente. Ela diz oi. Eu respondo e ela continua: - Vou ficar com o apartamento.

- Legal. Eu disse.

- Lalau, meu filho. A garota ficará com o apartamento e você vai ajudá-la com a mudança, então pare de beber e vá tomar um banho.

- Legal. Esse meu "legal" foi ainda mais desanimado.

- Estarei de volta daqui à uma hora. A garota avisou.

- Ok. Não sairei daqui.

Era óbvio, eu nunca saia dali.

Enquanto esperava continuei bebendo, quando vi o carteiro se aproximando com sua sacola cheia de cartas. O carteiro da vizinhança era um velho próximo de se aposentar. Tanto que andar e respirar ao mesmo tempo já lhe criava certa dificuldade. Nunca soube seu nome, para nós moradores ele sempre foi o carteiro e pronto. Só que agora era um outro, bem mais jovem e atlético. Pelo jeito substituíram o velho carteiro por um novo.
O mundo é assim. Você envelhece e é substituído. Foi assim com meu pai quando minha mãe o trocou. Meu avô foi trocado na fábrica de gelo onde trabalhava e eu seria trocado por alguém em algum momento.

Enfim parou uma Belina e Soraia desceu com algumas malas de mão e uma gaiola com um rato branco dentro.
Um cara com roupa de exército desceu do banco do motorista e foi em direção ao porta-malas pegar duas caixas que imaginei serem roupas. Seria o namorado de Soraia?Muito velho, talvez. Me enchi de ódio assim que imaginei a possibilidade e senti que poderia matá-lo com minhas próprias mãos. Iria fazer aquele Rambo de meia tigela implorar pela vida.

- Boa tarde.

Era o carteiro novo.

Fiz um aceno com a cabeça para cumprimentá-lo.

 - Você trabalha no bar?

Outro aceno com a cabeça sem tirar os olhos de Soraia.

 - Pode entregar para Jorge Francisco Rubin, por gentileza?

 - Não tem ninguém aqui com esse nome, meu chapa! Respondi pela primeira vez.

- Ó, tudo bem então. Obrigado. Boa tarde.

Sequer mexi a cabeça desta vez.

Jorge era o verdadeiro nome de meu pai, mas não poderia facilitar o trabalho daquele merda logo no primeiro dia.
Então ele enfiou a carta em sua bolsa e partiu se desculpando. Um bosta ele era, um grande bosta.

Aproximei-me da Belina já quando partia - Oi de novo- ela disse.

- Oi!

 - Tive sorte. Amapolo estava de folga hoje e me trouxe até aqui.

 - Hum. Quem é esse cara, seu namorado?

A garota então sorriu com certo desdém. Ele se diz meu pai. Mas não em tempo integral.

 - Ah. Limitei-me a dizer.

Peguei as caixas e levei ao apartamento. Chegando lá ela me indicou onde poderia deixar as caixas, sabe, nem todo gordo é forte. Aquele exercício foi o único que eu fazia durante anos. O último foi quando tive que levar uma caixa de cerveja do caminhão até o estoque do bar porque o entregador estava com o braço engessado.

Coloquei as caixas no lugar indicado transportando em bicas. Se tem uma coisa que eu sabia fazer era transpirar. Mas mantive a pose, queria de alguma forma impressioná-la.

E depois de todas as caixas entregues ela perguntou. - e então, tem mais daquele aí com você?

Fiquei pensando no que ela queria dizer com aquilo. - daquele o quê?

 - daquele baseado...

 - Claro. Você fuma também? - Ô, fumo claro. Ela respondeu.

Enrolei mais um baseado e ficamos calados enquanto fumávamos até ela quebrar o silêncio.

- Me fale de você, sua namorada sabe que você gosta de se masturbar enquanto fuma um?

 - Eu não tenho namorada. Disse.

Já estávamos chapados e como ela percebeu, eu tinha um péssimo hábito de ficar de pau duro quando ficava na brisa.
Não sei se ela pode perceber o volume sob o meu calção que não tirava há dias. E aquele par de tetas não ajudava a esconder minha ereção.

 - Bem, agora entendo o porquê você estava se virando sozinho. Ela sorria com uma cara safada.

Mais um aceno de cabeça da minha parte.

- Então Lalau, posso te chamar de Lalau né? - Não esperou que eu respondesse que sim - já que me ajudou com a mudança e dividiu seu baseado comigo, acho que posso te retribuir o favor de alguma forma.

Então a garota ajoelhou-se em minha frente, baixou meu calção e começou a me punhetar. Passamos dias fazendo a mesma coisa. Eu levava meus baseados e algumas garrafas de vodca e ela me punhetava.
Tentei algumas vezes chupar seus seios ou até mesmo transar com ela, mas era só isso que ela fazia. Me punhetar em troca de álcool e maconha.



Bento.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

APOCALIPSE JOÃO 6:66


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“Oh Senhor, tenha piedade dessas almas pecadoras... Derrame sua benção entre nós e faça dessa sua casa o paraíso para as boas almas... Oh Pai...”

Ao ouvir as palavras de pastor João os frequentadores da igreja Deus é o Caminho dos Justos no interior de São Paulo, os fiéis se inflamavam e soltavam exclamações clamando por Deus.

João era um senhor alto, magricela, de cabelos avolumados, parte grisalho e parte caju. Sempre de terno bem alinhado e sapatos de couro brilhante.

No púlpito ele era o foco principal, não permitia coro, nem músicos atrás dele. Que era para "não tentar os irmãos a dispersar quando a palavra de Deus está sendo passada", também fazia questão de chamar atenção e para isso pulava, corria, engatinhava, rastejava, rolava, gritava e tudo mais.

"... e Jesus voltará a terra através de meu corpo purificado pela fé e fará justiça. Os homossexuais, os impuros, infiéis e aqueles que duvidam do poder de Cristo queimarão no fogo de Deus. E o fogo está aceso. Findarão nas armas de Deus. E as armas estão carregadas. Ajoelhem-se diante de mim, pois só eu poderei levá-los ao colo Divino".

Eram essas ameaças e falsas premonições que assustavam D. Genoveva e D. Viridiana, as mais antigas seguidoras do pastor. Sentadas na primeira fileira de cadeiras trocavam olhares e cochichos a cada frase malfeita daquele que fora o mais famoso pregador da região. Caravanas de fiéis vinham de outras cidades para ouvir João Horácio.

"Eu tive uma visão. Deus me mostrou todos vocês ardendo com o fogo sagrado”.

Mas não agora. Na igreja que costumara ter filas enormes para ouvir as preces, naquele dia, domingo bem cedinho, que era o dia de maior movimento, contava apenas com as presenças das duas irmãs anciãs e mais meia dúzia de famílias que não possuíam carro para irem até a igreja mais próxima, que ficava a uns 20 quilômetros dali.

- Acho que não tem mais jeito irmã, endoido de vez. Sentenciou Genoveva.

- Doidin, doidin. Concordou a outra. - O Gusmão já disse para quem quisesse ouvir que não deixaria seus filhos perto do pastor louco.

- Como se Gusmão e aquelas filhas assanhadas dele fossem exemplo para alguém.  Continuou Genoveva, a caçula das irmãs e as duas soltaram risinhos maldosos que foram contidos pelo olhar raivoso do pastor.

A verdade é que a dupla estava mais preocupada com o dízimo das famílias da cidade do que com as bundas esquentando as cadeiras do templo. Cadeiras essas que ainda sequer estavam pagas, assim como toda a reforma do galpão onde se reuniam. Sem falar no financiamento da caminhonete novinha que João Horácio se deu de presente alguns meses atrás.

 - As contas tão atrasando, daqui pra pouco o banco vem buscar a caminhonete por falta de pagamento. Comunicou Viridiana.


- E o Galeão que disse num por mais um tijolo aqui. Disse a outra. - A gente tem que sumir com o Jão daqui e é pra ontem.

- Mas como Diana? Se ele é mais teimoso que uma mula!

E realmente era.

- Se ele não sumir daqui eu sumo com ele!

***

Era domingo e o roliço Moisés estava no sofá assistindo o programa de esportes com suas pantufas do Palmeiras quando ouve o telefone.

- Clemência! Olha o telefone. Clemência. Gritava para sua mulher.

Sem sinal da esposa e como o telefone continuava tocando, Moisés então, levanta com dificuldade por causa do seu corpo avantajado.

- Pronto!

Enfim atendeu e fez uma careta ao saber quem estava do outro lado da linha.

- Sim... Entendo... Sim, claro... Compreendo tia... Ele vem de carro? Tá certo então... Isso mesmo, Rua Platina 32. Não tem problema tia, tudo para ajudar meu pai. Ok! Desligaram.

Clemência que vinha do quintal dos fundos limpando a mão no pano de prato pergunta quem era ao telefone.
A dona de casa era uma morena forte, encorpada, longe de ser gorda como o marido. Era o que podemos dizer de uma mulher grande, ou segundo os maldosos: "gordinha gostosa". De beleza comum, nem bonita nem feira, era alguns anos mais jovem que o cônjuge que iria chegar à casa dos trinta.

- Não era nada, só Tia Viridiana, prima do meu pai perguntando se eu me importava dele passar umas férias aqui em casa.

- E o que você disse? Perguntou a mulher já com medo da resposta.

 - Ué, ele é meu pai.

- Mais essa agora. Já não dou conta de limpar a sua bagunça. Além do mais seu pai nunca quis te ver nem pintado.

 - O problema dele comigo é porque eu larguei a igreja, mas você quer o quê? Tia. Viridiana disse que ele tá doente, nada grave. Justificou Moisés.

 - E ainda vou ter que cuidar de velho doente.

 - Ô meu pãozinho, a última vez que tive notícias do velho ele tava arrancando dinheiro do povo igual água. Pensa na escola do Juninho que tá atrasada.

Nada como a possibilidade de pagar as contas para intensificar o amor.

 - E o salão então? Seu cheque voltou de novo. Não tenho mais cara de aparecer lá. Três meses que não coloco uma tinta no meu cabelo. Reclamou a vaidosa mulher.

-Pois então. Quem sabe isso não seja pro nosso bem?

Clemência não ficou muito convencida, voltou para a cozinha pisando duro e Moisés voltou ao sofá pensando em como fazer para tirar dinheiro de seu velho pai.

Ao cair da noite pastor João já estava estacionando a caminhonete em frente à casa da Rua Platina. O casal surpreso com a rapidez com que a visita chegara se alvoroçaram para dar os últimos retoques na casa. Garrafas de bebidas alcoólicas que preenchiam o bar da sala foram escondidas as pressas embaixo do sofá, o cinzeiro que repousavam as bitucas dos cigarros de Clemência foi parar no lixo.
Pastor João já diante da porta da casa grita e bate na porta.

- Tem alguém neste antro do pecado?

Moisés rapidamente abre a porta com a esposa olhando por cima de seus ombros.

- Benção pai, como foi de viagem?

- Nossa como está gordo! Disse o velho após medir o filho de cima a baixo. - Com certeza não se lembra do pecado da gula.

O gordo sentiu seus olhos arderem de raiva após o comentário do pai e o velho percebeu as bochechas redondas do filho ficarem vermelhas, mas não se abalou. Na verdade, humilhar o filho lhe trazia certo prazer.

 - Você vai me deixar entrar ou vou ter de pedir asilo ao vizinho? Continuou arrogante o candidato a messias.

Após aqueles segundos de um silêncio constrangedor e tenso a dona de casa decide se pronunciar: - Saia da frente de seu pai Moisés. Venha Seu João, fique a vontade, o senhor deve estar exausto da viagem.

 - Parece que a família de sua mulher teve mais sucesso ao educar seus filhos. Leve minhas malas. E o filho roliço levou as malas a contragosto.

***

Todos em volta da mesa de jantar e só se ouvia o barulho dos talheres em atrito com os pratos de louça e os dentes triturando a carne assada quando Moisés finalmente decide quebrar o silêncio:

 - E então pai, como está lá na igreja, muitos fiéis contribuindo?

 - Você parece sua mãe, só pensa em dinheiro. Então o pai vira-se para a nora...
 - Se depender deste vagabundo para lhe sustentar é melhor arrumar um emprego minha filha, pois mais falido que este nunca vi.

Moisés estava pronto para responder quando por debaixo da mesa levou um chute da esposa que o fez cuspir a carne mastigada de volta ao prato.

 - Moisés tem tido grande sucesso como corretor Seu João. E nós vamos muito bem financeiramente. Mentiu Clemência para não ficar por baixo. Mas a chatice do sogro não tinha limites.

 - Estou vendo, sequer tem um Scotch nesta casa, como conseguem viver assim? Jesus Cristo.

 - Achei que pastor não bebesse... Insinuou Moisés.

 - Deixe de ser imbecil meu filho. Eu fico me perguntando que pecado cometi para merecer você na minha vida?

Moisés apertava os talheres com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

 - Vou buscar a sobremesa. Apaziguou a dona de casa.

***

Passaram-se semanas e a rotina manteve-se na mesma. O pastor João provocando o filho e Clemência no meio daquela guerra familiar.

Clemência, como já foi informado aqui, era uma mulher com um corpo de chamar atenção. Pastor João não pretendia virar santo depois das sandices que já havia cometido pela vida. Clemência gostava de dinheiro e pastor João prometera-lhe dinheiro. Mentiu, mas mentiu jurando.

Certo dia após o expediente, Moisés chega em casa e não encontra seu pai em frente a TV esbravejando como de costume. Também não encontra a esposa na cozinha preparando o jantar como acontecia todos os dias. Estranhou e subiu as escadas que levava aos quartos do sobrado e encontrou o que lhe deixaria tão insano quanto o próprio pai. Na cama, Clemência em posição de cachorrinho vestia apenas uma camisola vermelha que deixava um de seus seios a mostra. Seios estes que balançavam como um pendulo devido as investidas de pastor João que por trás, com seu corpo nu e cadavérico, gargalhava e dizia: - Ô glória... Ô glória.

Eis que foi um Deus nos acuda. Moisés distribuía socos e pontapés em ambos. Pastor João acabou conseguindo escapar da fúria do filho e partiu em disparada dobrando a esquina como veio ao mundo gritando para quem quisesse ouvir: - Pois és o apocalipse. Vocês pecadores infiéis não acreditaram, mas enfim chegou o dia. És o apocalipse. Sintam a fúria de Deus.



Bento.