terça-feira, 4 de setembro de 2012

APOCALIPSE JOÃO 6:66


-


“Oh Senhor, tenha piedade dessas almas pecadoras... Derrame sua benção entre nós e faça dessa sua casa o paraíso para as boas almas... Oh Pai...”

Ao ouvir as palavras de pastor João os frequentadores da igreja Deus é o Caminho dos Justos no interior de São Paulo, os fiéis se inflamavam e soltavam exclamações clamando por Deus.

João era um senhor alto, magricela, de cabelos avolumados, parte grisalho e parte caju. Sempre de terno bem alinhado e sapatos de couro brilhante.

No púlpito ele era o foco principal, não permitia coro, nem músicos atrás dele. Que era para "não tentar os irmãos a dispersar quando a palavra de Deus está sendo passada", também fazia questão de chamar atenção e para isso pulava, corria, engatinhava, rastejava, rolava, gritava e tudo mais.

"... e Jesus voltará a terra através de meu corpo purificado pela fé e fará justiça. Os homossexuais, os impuros, infiéis e aqueles que duvidam do poder de Cristo queimarão no fogo de Deus. E o fogo está aceso. Findarão nas armas de Deus. E as armas estão carregadas. Ajoelhem-se diante de mim, pois só eu poderei levá-los ao colo Divino".

Eram essas ameaças e falsas premonições que assustavam D. Genoveva e D. Viridiana, as mais antigas seguidoras do pastor. Sentadas na primeira fileira de cadeiras trocavam olhares e cochichos a cada frase malfeita daquele que fora o mais famoso pregador da região. Caravanas de fiéis vinham de outras cidades para ouvir João Horácio.

"Eu tive uma visão. Deus me mostrou todos vocês ardendo com o fogo sagrado”.

Mas não agora. Na igreja que costumara ter filas enormes para ouvir as preces, naquele dia, domingo bem cedinho, que era o dia de maior movimento, contava apenas com as presenças das duas irmãs anciãs e mais meia dúzia de famílias que não possuíam carro para irem até a igreja mais próxima, que ficava a uns 20 quilômetros dali.

- Acho que não tem mais jeito irmã, endoido de vez. Sentenciou Genoveva.

- Doidin, doidin. Concordou a outra. - O Gusmão já disse para quem quisesse ouvir que não deixaria seus filhos perto do pastor louco.

- Como se Gusmão e aquelas filhas assanhadas dele fossem exemplo para alguém.  Continuou Genoveva, a caçula das irmãs e as duas soltaram risinhos maldosos que foram contidos pelo olhar raivoso do pastor.

A verdade é que a dupla estava mais preocupada com o dízimo das famílias da cidade do que com as bundas esquentando as cadeiras do templo. Cadeiras essas que ainda sequer estavam pagas, assim como toda a reforma do galpão onde se reuniam. Sem falar no financiamento da caminhonete novinha que João Horácio se deu de presente alguns meses atrás.

 - As contas tão atrasando, daqui pra pouco o banco vem buscar a caminhonete por falta de pagamento. Comunicou Viridiana.


- E o Galeão que disse num por mais um tijolo aqui. Disse a outra. - A gente tem que sumir com o Jão daqui e é pra ontem.

- Mas como Diana? Se ele é mais teimoso que uma mula!

E realmente era.

- Se ele não sumir daqui eu sumo com ele!

***

Era domingo e o roliço Moisés estava no sofá assistindo o programa de esportes com suas pantufas do Palmeiras quando ouve o telefone.

- Clemência! Olha o telefone. Clemência. Gritava para sua mulher.

Sem sinal da esposa e como o telefone continuava tocando, Moisés então, levanta com dificuldade por causa do seu corpo avantajado.

- Pronto!

Enfim atendeu e fez uma careta ao saber quem estava do outro lado da linha.

- Sim... Entendo... Sim, claro... Compreendo tia... Ele vem de carro? Tá certo então... Isso mesmo, Rua Platina 32. Não tem problema tia, tudo para ajudar meu pai. Ok! Desligaram.

Clemência que vinha do quintal dos fundos limpando a mão no pano de prato pergunta quem era ao telefone.
A dona de casa era uma morena forte, encorpada, longe de ser gorda como o marido. Era o que podemos dizer de uma mulher grande, ou segundo os maldosos: "gordinha gostosa". De beleza comum, nem bonita nem feira, era alguns anos mais jovem que o cônjuge que iria chegar à casa dos trinta.

- Não era nada, só Tia Viridiana, prima do meu pai perguntando se eu me importava dele passar umas férias aqui em casa.

- E o que você disse? Perguntou a mulher já com medo da resposta.

 - Ué, ele é meu pai.

- Mais essa agora. Já não dou conta de limpar a sua bagunça. Além do mais seu pai nunca quis te ver nem pintado.

 - O problema dele comigo é porque eu larguei a igreja, mas você quer o quê? Tia. Viridiana disse que ele tá doente, nada grave. Justificou Moisés.

 - E ainda vou ter que cuidar de velho doente.

 - Ô meu pãozinho, a última vez que tive notícias do velho ele tava arrancando dinheiro do povo igual água. Pensa na escola do Juninho que tá atrasada.

Nada como a possibilidade de pagar as contas para intensificar o amor.

 - E o salão então? Seu cheque voltou de novo. Não tenho mais cara de aparecer lá. Três meses que não coloco uma tinta no meu cabelo. Reclamou a vaidosa mulher.

-Pois então. Quem sabe isso não seja pro nosso bem?

Clemência não ficou muito convencida, voltou para a cozinha pisando duro e Moisés voltou ao sofá pensando em como fazer para tirar dinheiro de seu velho pai.

Ao cair da noite pastor João já estava estacionando a caminhonete em frente à casa da Rua Platina. O casal surpreso com a rapidez com que a visita chegara se alvoroçaram para dar os últimos retoques na casa. Garrafas de bebidas alcoólicas que preenchiam o bar da sala foram escondidas as pressas embaixo do sofá, o cinzeiro que repousavam as bitucas dos cigarros de Clemência foi parar no lixo.
Pastor João já diante da porta da casa grita e bate na porta.

- Tem alguém neste antro do pecado?

Moisés rapidamente abre a porta com a esposa olhando por cima de seus ombros.

- Benção pai, como foi de viagem?

- Nossa como está gordo! Disse o velho após medir o filho de cima a baixo. - Com certeza não se lembra do pecado da gula.

O gordo sentiu seus olhos arderem de raiva após o comentário do pai e o velho percebeu as bochechas redondas do filho ficarem vermelhas, mas não se abalou. Na verdade, humilhar o filho lhe trazia certo prazer.

 - Você vai me deixar entrar ou vou ter de pedir asilo ao vizinho? Continuou arrogante o candidato a messias.

Após aqueles segundos de um silêncio constrangedor e tenso a dona de casa decide se pronunciar: - Saia da frente de seu pai Moisés. Venha Seu João, fique a vontade, o senhor deve estar exausto da viagem.

 - Parece que a família de sua mulher teve mais sucesso ao educar seus filhos. Leve minhas malas. E o filho roliço levou as malas a contragosto.

***

Todos em volta da mesa de jantar e só se ouvia o barulho dos talheres em atrito com os pratos de louça e os dentes triturando a carne assada quando Moisés finalmente decide quebrar o silêncio:

 - E então pai, como está lá na igreja, muitos fiéis contribuindo?

 - Você parece sua mãe, só pensa em dinheiro. Então o pai vira-se para a nora...
 - Se depender deste vagabundo para lhe sustentar é melhor arrumar um emprego minha filha, pois mais falido que este nunca vi.

Moisés estava pronto para responder quando por debaixo da mesa levou um chute da esposa que o fez cuspir a carne mastigada de volta ao prato.

 - Moisés tem tido grande sucesso como corretor Seu João. E nós vamos muito bem financeiramente. Mentiu Clemência para não ficar por baixo. Mas a chatice do sogro não tinha limites.

 - Estou vendo, sequer tem um Scotch nesta casa, como conseguem viver assim? Jesus Cristo.

 - Achei que pastor não bebesse... Insinuou Moisés.

 - Deixe de ser imbecil meu filho. Eu fico me perguntando que pecado cometi para merecer você na minha vida?

Moisés apertava os talheres com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

 - Vou buscar a sobremesa. Apaziguou a dona de casa.

***

Passaram-se semanas e a rotina manteve-se na mesma. O pastor João provocando o filho e Clemência no meio daquela guerra familiar.

Clemência, como já foi informado aqui, era uma mulher com um corpo de chamar atenção. Pastor João não pretendia virar santo depois das sandices que já havia cometido pela vida. Clemência gostava de dinheiro e pastor João prometera-lhe dinheiro. Mentiu, mas mentiu jurando.

Certo dia após o expediente, Moisés chega em casa e não encontra seu pai em frente a TV esbravejando como de costume. Também não encontra a esposa na cozinha preparando o jantar como acontecia todos os dias. Estranhou e subiu as escadas que levava aos quartos do sobrado e encontrou o que lhe deixaria tão insano quanto o próprio pai. Na cama, Clemência em posição de cachorrinho vestia apenas uma camisola vermelha que deixava um de seus seios a mostra. Seios estes que balançavam como um pendulo devido as investidas de pastor João que por trás, com seu corpo nu e cadavérico, gargalhava e dizia: - Ô glória... Ô glória.

Eis que foi um Deus nos acuda. Moisés distribuía socos e pontapés em ambos. Pastor João acabou conseguindo escapar da fúria do filho e partiu em disparada dobrando a esquina como veio ao mundo gritando para quem quisesse ouvir: - Pois és o apocalipse. Vocês pecadores infiéis não acreditaram, mas enfim chegou o dia. És o apocalipse. Sintam a fúria de Deus.



Bento. 


Um comentário:

Diego Schaun disse...

Muito bom, Bento! Adorei o tal do Horácio.