sábado, 22 de setembro de 2012

CAFÉ EXPRESSO


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Às vezes eu confabulo com o Destino mesmo sabendo que ele quer me passar a perna. É simples, algumas rasteiras que ele me deu me trouxeram coisas boas. Então por que não tentar?

Trabalhei numa antiga empresa que eu tinha um emprego tão estressante quanto descascar batatas. Já trabalhei em várias coisas para sobreviver nesses meus quarenta anos, nunca cortei batatas. Mas era como se fosse.

Aí tinha que fugir daquela zica do pântano de alguma forma. Saía no meio do expediente para tomar um trago no bar em frente à empresa. Pedia um conhaque e um expresso. Jogava o expresso fora, sem beber, colocava o conhaque na xícara de porcelana e mimava meu fígado, o cérebro e o espírito com meu expresso alcoólico. Diretores, gerentes e supervisores da tal empresa passavam por mim e nem se davam conta. Era legal.

"Bom dia Artur" eles diziam. E eu os cumprimentava como se estivesse são, mas estava longe disso, bem longe. Eu na verdade estava simpático, semi bêbado, pois, bêbado mesmo era depois do expediente.

Íamos todos os amigos ao bar para desabafar sobre nossos empregos medíocres e libertar o demônio dentro de nós.
Éramos todos fodidos e mal pagos. Lamentávamos por estarmos onde estávamos, mas nunca fazíamos nada para muda àquilo. Exceto beber. Bebíamos como porcos e só íamos embora quando o dinheiro acabava ou quando a conta no bar ultrapassasse o limite sábio do Barcelar, o dono do bar. Este era um homem baixo, mas com quilos sobrando para mais dois. Era careca e usava uma peruca que mais parecia pelos de ratazana.

Eu achava Barcelar um personagem de livro. Era um completo clichê, careca, um pente no bolso da enorme camisa de manga curta cobrindo-lhe a enorme barriga de chopp. Fumava um cigarro de palha que fedia até mesmo do outro lado da rua. Ah! E o bigode, também tinha o bigode esbranquiçado contrastando com os poucos cabelos acima das orelhas que eram seus de verdade, pintados de um negro de graxa de sapato. Nunca acreditei muito no velho, nunca acreditei em clichês. Porém, assim levávamos a vida, trabalhando e bebendo religiosamente como nossas mães iam a igreja quando jovens. Nosso divertimento se baseava nas besteiras contadas após o efeito etílico, bem como piadas de português, loiras, bichas, gaúchos. Os derrotados na última rodada do Brasileirão e a chegada de uma nova garçonete no Bar do Barcelar.

 - Ei, conhecem aquela da puta aleijada? Cobra o dobro pra transar de quatro. hahaha

Entre outras coisas tão sem graça quanto, só que todos gargalhavam como criança.

As piadas se repetiam, as garçonetes nem tanto. O velho Barcelar só contratava meninas novas em busca do primeiro emprego, achava que eram elas que nos faziam fregueses assíduos. Mal sabia ele que não estávamos ali por causa das garotas e sim pela cerveja barata e por ser o único maluco dono de bar que deixava-nos comprar fiado durante meses.

Riamos também, de doer a barriga e cuspir amendoins sobre as histórias de nossos casamentos e como, um dia, planejávamos voltar ao tempo de solteiros e comer mulheres como engolíamos os amendoins e ovos de codorna. No entanto não passavam de teorias hilárias de sofreguidão. Éramos covardes demais e velhos demais para uma aventura juvenil, mas planejar era sempre muito engraçado e de certa forma trazia um pouco de vivacidade para nós, um bando de homens casados, pobres e saudosistas.

Houve até uma vez que uma das garçonetes se engraçou pro lado de Jânio do almoxarifado. Imaginem, a garota devia ter uns vinte anos recém-completados e Jânio tinha isso só de tempo de casamento. De tanto trocarem olhares e elogios terminaram no motel. Só que Jânio ficou com tanto peso de consciência que decidiu comprar um cachorro para a mulher, esses cachorros de madame, com pedigree. Pagou o olho da cara. Foi uma pena ele descobrir que sua mulher lhe traia com um primo recém-chegado do interior. Jânio tratou de levar o cachorro com ele, tomando o presente de volta. Imaginem só, um velho e um cachorro numa pensão cheia de velhos e mais cachorros. Caíram na depressão, o cão e Jânio. Está de licença até hoje, recebendo pela Caixa.

Essa história assustou a todos nós a ponto de ficarmos alguns dias sem pisar no bar de Barcelar. Queríamos todos chegar cedo em casa para ver se nossas mulheres não nos traia com um parente ou vizinho, como aconteceu com nosso velho amigo Jânio. Alguns permaneceram pegando o caminho do bar, se suas mulheres lhe plantavam chifres, não queriam saber. Duas ou três semanas depois tudo voltou ao normal. Um bando de velhos bêbados olhando para as bundas das garçonetes, rezando pelo prêmio da Sena e contando piadas.

 - Ei, conhecem aquela do gaúcho bilíngue?



Bento.

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