terça-feira, 18 de setembro de 2012

MEU PAI TRAVESTI

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Por volta das dez da manhã eu estava sentado num canto do bar dando fim a primeira garrafa de vodca. Eu sentava-me perto do banheiro por causa da minha bexiga, tão frouxa que a cada 15 minutos eu tinha que tirar água do joelho. Por um lado era bom, o médico me receitou caminhar para exercitar as pernas, pois eu passava muito tempo sentado e aquela cadeira de aço que mal cabia minha bunda só piorava as coisas.

Era um dia típico, deveria ser terça-feira ou não. Eu nunca tomava café da manhã, exceto se uma garrafa de vodca antes do almoço puder ser considerada uma refeição.

Eu já tinha passado dos 150 quilos e estava muito longe do meu peso ideal. Então mantinha uma dieta especial à base de vodca e cigarros que não estava apresentando muito resultado, mas pelo menos servia para me entreter. Aos 28 anos e sem emprego, não se tem muita coisa que possa fazer.
O bar era do meu pai, se é que se pode chamar de pai. Dona Margaret como gostava de ser chamado tornou-se travesti quando eu ainda era criança, minha mãe, descobriu sua homossexualidade e é claro, sumiu no mundo. Só não fiz o mesmo por ser covarde demais.

Então, quando meu pai, ou minha mãe, ou seja lá o que for, precisa ir ao banco eu tomo conta do bar. É o máximo de trabalho que já tive na vida.

- Lalau meu filho, pare de beber tão cedo e vá comer algo.

 - CALA A BOCA SEU TRAVECO!

Era assim nossa relação entre pai e filho.
Eu o odiava e ele fingia me amar. Na escola eu cansei de apanhar por ter um pai travesti. As garotas me olhavam com asco por isso e eu tive de aprender a me virar. Já não bastava eu ser gordo como um porco?

Certa vez, na escola, três garotos começaram a me xingar e me dar tapas na cabeça. "filho de bicha, bichinha é" eles diziam. Eu tinha de me defender, não pelo meu pai, ele era bicha mesmo. Não era justo comigo, logo, já tinha uma estratégia de ataque para derrubar os três garotos filhos da puta.

Eu acertaria o primeiro bem no meio do nariz com um de direita e o derrubaria. Pow! A mão esquerda logo acertaria a face do segundo. Pow! O terceiro me acertaria, era inevitável, então eu teria de me manter em pé para derrubá-lo também. Pow pow pow!

Nem preciso dizer que não saiu nada como eu planejei. Aceitei o primeiro, que não caiu e, ele me devolveu um cruzado que me deixou zonzo. Os outros dois me derrubaram e fiquei parecendo uma bola de praia, grande, redondo e recebendo chutes de todos os lados. Foram dois dentes para o saco, uma costela e o nariz quebrados, e o rosto estragado. Duas semanas no hospital e nunca mais voltei para a escola. Eu tinha na época 16 anos, comecei a beber e fumar depois disso.

Tenho uma vida difícil, ficar no bar o dia todo sem fazer nada, só bebendo, não é mole. Chega uma hora que você quer fazer alguma coisa diferente. É quando eu subo até o apartamento vago em cima do bar para fumar uma erva e curtir a brisa apoiado na janela, imaginando como seria minha vida se estivesse no lugar delas. Eu não tenho muita imaginação nem criatividade, mas a Cannabis ajuda abrir a mente.

Eu tinha fome, mas não iria comer. Não hoje pelo menos, talvez amanhã. Fumava meu cigarro de maconha quando vi uma garota entrando no bar. Pude ver o tamanho de seus seios mesmo de onde eu estava. Ela andava e eles balançavam seguindo o compasso dos passos. Belos seios, pele clara, porém avermelhada por causa do sol daquela tarde. Cabelo tingidos de preto, roupas pretas, maquiagem preta. Era uma dessas garotas que escondiam uma fraca personalidade debaixo do gosto discutível por músicas barulhentas.  Também notei que estava um pouco acima do peso, não muito. Mas convenhamos, eu era um porco de tão gordo e tirando as putas, nunca tive sorte com mulheres.

Fiquei imaginando o que aquela delícia viria fazer aqui e fui longe à imaginação.

Pensei nela encostando-se ao balcão de dona Margaret e dizendo que estava apaixonada por mim, meu pai indicaria o caminho do apartamento vago e transaríamos dias seguidos, parando só para fumar unzinho e buscar mais garrafas de vodca no bar.

Toda essa imaginação me deixara com tesão. Abaixei a calça, a cueca e comecei uma masturbação maravilhosa imaginando nossa transa. Eu e a garota desconhecida. Eu e aquele par de seios magníficos.

Meu rosto transpirava por causa do esforço, quando um braço cansava eu trocava. Eu era ambidestro na masturbação, um craque da punheta. E de repente ouço uma voz vindo da porta do apartamento. - Alaor?

Levantei da cadeira com pressa. Não sabia o que fazia primeiro, se escondia a paranga de maconha ou levantava a calça. Precisava esconder meu pinto. Então preferi investir o pouco tempo que meu pai levaria para atravessar a cozinha e chegar ao quarto onde eu estava para tentar me vestir.
Abaixei-me e puxei a calça, mas eu estava bêbado e muito louco de maconha. Gordo não tem equilíbrio sóbrio, o que dirá bêbado. Cambaleei para frente e dei com a cara no chão. Fiquei ali, com a bunda para cima e a calça nos joelhos. Meu pai parou debaixo do batente da porta com os braços na cintura. Eu olhava sua cara de desaprovação e imaginava que ele tinha tanta decepção por mim quanto eu tinha por ele. Medi-o das sandálias plataforma até a peruca ruiva, passando por seu vestido florido e seu batom vermelho.

Meu pai era um travesti e eu estava bêbado e chapado com a bunda para cima e a cara no chão. Que vida ótima essa minha. Mas como tudo pode ficar ainda pior a garota que eu tinha visto pela janela saíra de trás do meu pai e agora passava os olhos em minha condição trágica e sorria de canto de boca. Era um riso que dizia o quanto eu era estúpido. Um sorriso que gritava aos meus ouvidos o quanto medíocre eu era.

Quando vi a garota dei um jeito de levantar o mais rápido possível e me recompor. A minha cara gorda e branca estava agora rubra como a brasa do meu cigarro que queimava em cima da cadeira, o cheiro de maconha exalava no apartamento todo e ficaram os dois olhando para minha cara, mudos. A gostosa e o travesti. A única coisa que consegui dizer naquele momento para quebrar o silêncio constrangedor foi:

- Pois não?

- Soraia veio ver o apartamento.

- Ok! Vou ficar no bar.

- Lave as mãos. Ouvi a voz de meu pai dizer enquanto eu descia as escadas em direção ao bar.

No bar, eu abri mais uma garrafa de vodca, mas sentia que precisaria de algo ainda mais forte para esquecer a vergonha que tinha acabado de passar. Eu tinha uma pílula em algum bolso desses da minha calça.
O problema não era só ser gordo e feio e pobre. Era minha falta de sorte que me matava. Se eu ao menos tivesse nascido numa família decente, tivesse algum dinheiro, as coisas teriam uma perspectiva diferente.

A Cannabis dá uma fome maldita e tive que me render a ela, peguei uma coxinha no balcão e mordi um pedaço. Seria minha única refeição sólida durante alguns dias, inevitavelmente.

Terminei de comer e reparei a garota das tetas me olhando novamente. Ela diz oi. Eu respondo e ela continua: - Vou ficar com o apartamento.

- Legal. Eu disse.

- Lalau, meu filho. A garota ficará com o apartamento e você vai ajudá-la com a mudança, então pare de beber e vá tomar um banho.

- Legal. Esse meu "legal" foi ainda mais desanimado.

- Estarei de volta daqui à uma hora. A garota avisou.

- Ok. Não sairei daqui.

Era óbvio, eu nunca saia dali.

Enquanto esperava continuei bebendo, quando vi o carteiro se aproximando com sua sacola cheia de cartas. O carteiro da vizinhança era um velho próximo de se aposentar. Tanto que andar e respirar ao mesmo tempo já lhe criava certa dificuldade. Nunca soube seu nome, para nós moradores ele sempre foi o carteiro e pronto. Só que agora era um outro, bem mais jovem e atlético. Pelo jeito substituíram o velho carteiro por um novo.
O mundo é assim. Você envelhece e é substituído. Foi assim com meu pai quando minha mãe o trocou. Meu avô foi trocado na fábrica de gelo onde trabalhava e eu seria trocado por alguém em algum momento.

Enfim parou uma Belina e Soraia desceu com algumas malas de mão e uma gaiola com um rato branco dentro.
Um cara com roupa de exército desceu do banco do motorista e foi em direção ao porta-malas pegar duas caixas que imaginei serem roupas. Seria o namorado de Soraia?Muito velho, talvez. Me enchi de ódio assim que imaginei a possibilidade e senti que poderia matá-lo com minhas próprias mãos. Iria fazer aquele Rambo de meia tigela implorar pela vida.

- Boa tarde.

Era o carteiro novo.

Fiz um aceno com a cabeça para cumprimentá-lo.

 - Você trabalha no bar?

Outro aceno com a cabeça sem tirar os olhos de Soraia.

 - Pode entregar para Jorge Francisco Rubin, por gentileza?

 - Não tem ninguém aqui com esse nome, meu chapa! Respondi pela primeira vez.

- Ó, tudo bem então. Obrigado. Boa tarde.

Sequer mexi a cabeça desta vez.

Jorge era o verdadeiro nome de meu pai, mas não poderia facilitar o trabalho daquele merda logo no primeiro dia.
Então ele enfiou a carta em sua bolsa e partiu se desculpando. Um bosta ele era, um grande bosta.

Aproximei-me da Belina já quando partia - Oi de novo- ela disse.

- Oi!

 - Tive sorte. Amapolo estava de folga hoje e me trouxe até aqui.

 - Hum. Quem é esse cara, seu namorado?

A garota então sorriu com certo desdém. Ele se diz meu pai. Mas não em tempo integral.

 - Ah. Limitei-me a dizer.

Peguei as caixas e levei ao apartamento. Chegando lá ela me indicou onde poderia deixar as caixas, sabe, nem todo gordo é forte. Aquele exercício foi o único que eu fazia durante anos. O último foi quando tive que levar uma caixa de cerveja do caminhão até o estoque do bar porque o entregador estava com o braço engessado.

Coloquei as caixas no lugar indicado transportando em bicas. Se tem uma coisa que eu sabia fazer era transpirar. Mas mantive a pose, queria de alguma forma impressioná-la.

E depois de todas as caixas entregues ela perguntou. - e então, tem mais daquele aí com você?

Fiquei pensando no que ela queria dizer com aquilo. - daquele o quê?

 - daquele baseado...

 - Claro. Você fuma também? - Ô, fumo claro. Ela respondeu.

Enrolei mais um baseado e ficamos calados enquanto fumávamos até ela quebrar o silêncio.

- Me fale de você, sua namorada sabe que você gosta de se masturbar enquanto fuma um?

 - Eu não tenho namorada. Disse.

Já estávamos chapados e como ela percebeu, eu tinha um péssimo hábito de ficar de pau duro quando ficava na brisa.
Não sei se ela pode perceber o volume sob o meu calção que não tirava há dias. E aquele par de tetas não ajudava a esconder minha ereção.

 - Bem, agora entendo o porquê você estava se virando sozinho. Ela sorria com uma cara safada.

Mais um aceno de cabeça da minha parte.

- Então Lalau, posso te chamar de Lalau né? - Não esperou que eu respondesse que sim - já que me ajudou com a mudança e dividiu seu baseado comigo, acho que posso te retribuir o favor de alguma forma.

Então a garota ajoelhou-se em minha frente, baixou meu calção e começou a me punhetar. Passamos dias fazendo a mesma coisa. Eu levava meus baseados e algumas garrafas de vodca e ela me punhetava.
Tentei algumas vezes chupar seus seios ou até mesmo transar com ela, mas era só isso que ela fazia. Me punhetar em troca de álcool e maconha.



Bento.

2 comentários:

Rodolfo Soares disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk Me lembrei do Chandler de Friends... Gostei muito, cara! Um abraço! Já estou acompanhando seu blog

Rodolfo Soares
Um guarda-livros

Carlos Almeida disse...

Caramba! Você tem talento! Escreve bem, tem ritmo e prende a atenção. Parabéns!