quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MATADORA DA RUA AUGUSTA

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Em um dos quartos do Motel Libelillun que ficava num bairro afastado do centro da cidade, Valber se espreguiçava e tentava manter a garganta úmida com a pouca saliva que lhe restara na boca. Tinha sede, mas o transe o impedia de levantar para buscar um copo d'água. Era muito bom para ser verdade, estar ali, naqueles lençóis de algodão, com seu corpo esquelético desnudo, seus cabelos compridos colados ao peito por conta da transpiração. O esforço fez seus poros derreter em bicas. Gotículas de suor escorriam desde o bigode ralo de adolescente até a pelves de cabelos emaranhados.
Estava ali, deitado na mesma posição durante sabe lá quantos minutos repassando a última hora em sua mente e fora maravilhoso em todos os sentidos. Não conseguia pensar em mais nada. Exceto na garota que o chupou da forma mais maravilhosa que ele podia imaginar.

Ela não deixou que fizesse esforço algum. Foi ela que tomou toda a iniciativa, como chupá-lo, montar em cima dele, colocar a camisinha, desnuda-los. Tudo. Ela tinha o controle. Sempre que tentara apertar as nádegas da garota ou colocar os seios dela em sua boca ela interrompia.
Era como se ele fosse apenas um brinquedo na mão dela, como se estivesse sendo um objeto de prazer. "um boneco inflável" pensou Valber, sorrindo em silêncio. E ele não se importava, era um garoto de dezoito anos, a maioria das garotas com quem tinha feito sexo eram prostitutas ou alunas do colégio no qual estudava e essas, deixavam todas as ações por conta dele. Era diferente ter uma garota no comando de seu corpo para variar.

Totalmente deliciado com a transa, já pensava em possuir a garota de cabelos longos e raspado em um dos lados da cabeça para si. Era amor de pica, neste caso, amor pelos lábios rosados da vagina depilada de Alicia.

Naquele momento percebeu que estava farto das garotas infantis de sua escola, com Alicia era diferente. Enfim, o amor o pegou de jeito, estava num caminho sem volta. Assim que ela saísse do banheiro transariam intensamente mais uma vez e ele se declararia. Já pensava na cara dos seus amigos de sala de aula quando aparecesse na porta do colégio com a garota tatuada, linda, magra e o que era melhor, dois anos mais velha que ele.

Finalmente Alicia sai do banheiro vestindo apenas uma pequena calcinha preta com listras brancas, seus pequenos seios à mostra, magra, era magra como um manequim de loja de shopping. A diferença eram as tatuagens que lhe cobriam grande parte do corpo. Dos ombros aos pulsos, inclusive o punho e dedos da mão direita que com uma letra em cada dedo formava a palavra "DEAD".
As tatuagens continuavam também em sua coxa direita terminando no joelho com um crânio humano pintado de preto como todas as outras que estavam do lado direito de seu corpo. Já nos membros do lado oposto as tatuagens eram todas coloridas, como uma dupla personalidade, como dois lados de uma moeda.

Alicia saiu do banheiro desfilando o corpo pálido como uma folha de papel, desenhado é claro. Valber a seguia com os olhos como uma obra de arte, um quadro de um pintor famoso que ele desconhecia. Viu a garota caminhar com suas pernas longas e finas até sua bolsa e dela tirar um maço de cigarros e um isqueiro metálico. Com tanto charme quanto uma estrela de cinema dos anos 60 acendê-lo e puxar um longo e demorado trago. Alicia apagou as luzes do quarto e voltou a guardar o maço e o isqueiro. Valber viu a brasa do cigarro refletir no metal do isqueiro e a próxima coisa que viu foi a sexy garota sentando em cima de seus quadris e beija-lo, voltava a fumar e depois beijá-lo. Daquela forma, os dois dividiam o cigarro enquanto transavam novamente, devagar.

Era um sonho que Valber não gostaria de acordar. O vai-e-vem aumentava o ritmo e finalmente o jovem estudante sentiu o ápice do prazer. A sensação inigualável do coração disparando o máximo de sangue por entre as veias de seu corpo. Os dedos de seus pés contraindo-se e era tão bom que ele cravou as mãos nas pequenas nádegas de Alicia e gemeu. Alicia também chegou ao orgasmo no mesmo instante, mas ao invés de cravar as unhas em seu amante, finalmente concluiu o que tinha planejado.
Valber ainda tinha as pernas moles, as nádegas de Alicia entre os dedos e seu membro dentro da garota quando sentiu o metal em sua garganta, tão rápido que sequer teve tempo de notar o que estava acontecendo. Seus cabelos compridos já não estavam grudados em seus ombros e peito por causa do suor e sim pelo sangue que jorrava do corte em sua traqueia feito por Alicia que se deliciava com aquilo. Mais do que com o sexo.


Bento.

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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O QUE PENSAM OS MEDÍOCRES?


Não sei o que pensam os sonhadores, aqueles que se deixam levar por boatos do inconsciente remediando um futuro catastrófico.

Não sei o que pensam os inocentes. Aqueles que se julgam alheios às peripécias do Destino e se incluem nos grupos seletos de uma força maior, de Deus, do plano desconhecido e etc., etc., etc. Não acredito nem em inocentes e nem em planos mirabolantes.

Não sei no que acreditam os odiosos incontroláveis que se dispõem a apontar seus dedos gangrenados e pobres ao léu na busca incessante de jogar a culpa em alguém e se indispõem até consigo mesmo.

Nem sei o que pensam os felizes, aqueles que têm chaves para todas as portas e desejos realizados. Num mundo onde todos pisam em ovos, eles flutuam como anjos etéreos domesticando os infelizes mais ignorantes e desistentes.

Não pense que estou alheio a tudo isso. Admito minha ignorância, porém observo.
Analiso como telespectador comedor de pipoca e bebedor de Coca-Cola. Transmito os risos e lágrimas como num filme de terror-documentário de comédia-romântica-dramática. Não paguei meio ingresso, assisto num todo, praticando minha pieguice e fanatismo pelos personagens mais incorretos. Admiro só o que posso visualizar em mim mesmo. Culpa, culpa, culpa minha, assumo. Nem sempre, digo, quase nunca torço pelo mocinho tedioso de tão correto.

Deve estar se perguntando por que faço tanta alusão a filmes e ao cinema. Respondo que é mais um dos vícios e fracos. Tão fraco e com tantos vícios, que eu insisto em lembrá-los nas comparações mais inoportunas.

Eu se pudesse faria filmes tristes, mas sem finais e explico: você nunca verá ninguém sair de uma sala de cinema reclamando do começo ou do decorrer do filme. As críticas sempre se tratam do final. Se o mocinho morre, desagradam os hipócritas-bom-samaritanos. Se o vilão morre no fim, desagrada os antipáticos–underground–antissociais-maquiavélicos. Ou seja, impossível agradar a todos, tanto quanto agradar-me nessa incessante tragédia da vida literária que criei para a personagem vivida por mim todos os dias de minha vida. Tudo bem, talvez não tenha escolhido eu mesmo, talvez me tenha sido entregue numa incontinência pirata e irreparável de me prejudicar. No entanto não ligo, não me ligo, não mais, pois não sei o que pensam os deuses, o Deus, o Diabo, o canhoto. Não sei o que pensam os bons ou os maus, os nômades e os lázaros. Não sei o que pensam os bárbaros e os civilizados. Só me entendo com os lunáticos e malucos e doidos e insanos e...



Bento.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

UM CRENTE QUASE ATEU, CÉTICO, AGNÓSTICO, COM ARES DE JOGADOR DE POKER

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Apesar de usar um terço no pescoço posso contar nos dedos quantas vezes entrei em uma igreja católica, se for tirar os poucos casamentos eu fui em toda a minha vida eu reduzo esse número para quase zero.
Sendo assim pouco tive a oportunidade de estar na presença de uma freira, uma ou duas vezes, que me lembre, andando pela rua em pares indo sei lá para onde, sabe Deus fazendo o quê. Aliás, o que faz uma freira eu sinceramente não sei.

Aquelas coisas de criança como catequese e outras coisas? Nunca participei. Sou um ignorante no assunto. Confesso.
Curioso é que no dia de hoje passou por mim duas freiras. Não sei dizer se eram as mesmas, não reparei tanto assim, de qualquer forma é curioso.

Se você está se perguntando onde eu vou chegar com isso a resposta é simples: em lugar nenhum. É só coisa de quem não tem sobre o que falar, mas é preciso começar o texto de algum lugar, o que vier depois é luxo.

Mas ainda falando sobre freiras, fico pensando o que leva uma mulher a dedicar-se totalmente à Deus ao ponto de abdicar de todo um mundo repleto de pecados deliciosos por cometer.

Porém depois de algum tempo refletindo chego a conclusão, que pode não ser a verdadeira, de verdades cada um que fique com a sua, no máximo deixo que peguem a minha emprestada desde que devolva-me do jeito que encontrou. Vamos para minha reflexão: penso nas mulheres do meu convívio e até aquelas que ouço falar e afirmo que não existe ser no mundo tão capaz de abrir mão de coisas pelo amor. A mulher deixa-se tomar por tal poder de se dedicar por completo. Abre sim, mão de tudo o que gosta apenas pela promessa de ser ainda mais feliz com a vida da qual sempre sonhou. Talvez por isso somente a mulher tenha o dom de dar a vida, de ser mãe. Vejo as mulheres que sofrem com a traição do amor e abrem mão do orgulho para que mantenham a imagem de uma vida amorosa perfeita e assim assegurar o sonho do príncipe encantado que tinham desde a infância.

Já o homem é incapaz de abrir mão de qualquer coisa, exceto se houver sexo no meio da história. Não que o homem ame menos, nós só somos mais teimosos e traiçoeiros. Vejam os padres e seus casos de pedofilia, abrem mão do sexo em nome da fé, mas dão um jeitinho.


Bento.

Dedica-se a Diego Schaun

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

GIULIARD BORSANDI VII


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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VI


Eu já pensava na morte da bezerra, pensava em como estaria Nelia, Ricardinho e a puta que pariu.
Ficar bêbado é uma merda, beber sozinho também. Começamos a pensar em coisas que não queremos pensar, em pessoas que não queremos pensar.
Aquela música de merda tocando no meu ouvido e fazendo meus tímpanos explodirem, já estava clamando pela tal bandinha que iria tocar naquela noite. Não que fosse muito boa, mas era melhor que aquela música eletrônica de retardado que me dava vontade de cortar os pulsos. Mais meia hora daquilo e eu acharia a banda Qasual, que era a atração da noite, quase um Led Zeppelin. Exagero meu, mas aquela música eletrônica me dava nos nervos. Jamaica gostava.

O bar já estava cheio e Jamaica não parava. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneca e consequentemente a sexta dose de whisky - Jack Daniels, abaixo disso é água suja - quando me surpreendo com uma mulher sentando ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Suculenta. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela, era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".

- Claro que pode. Você pode tudo.

Respondi dando mole para ela, pois realmente fiquei interessado naquele vestido e em tudo o que continha debaixo dele, porém me contive. Pô! O pastor iria me pagar uma bala por àquilo. Valia mais que uma transa com uma vadia qualquer.

Transar com vadias não pagava conta. E eu estava com muita sorte para ela aparecer ali, num dia de folga, quando eu já tinha perdido vários dias atrás de uma oportunidade de pegar aquela safada prevenida. Hoje ela tinha se descuidado, não por querer, mas o destino às vezes coopera. Quem diria que a puta apareceria no mesmo bar que seu delator, num dia de folga e num dia que o pastor estaria em casa dormindo. Pelo que eu sabia.

A mulher me olhava com cara de desejo, eu já estava bêbado e de pau duro, ela era gostosa e o álcool sempre me deixava mais excitado.

Era a sétima caneca, servi uma para ela, eu pensava em quanto eu ganharia com essa história do pastor e pensei em avisá-lo. Mas mesmo que eu a levasse para um quarto de motel, como eu poderia fotografar ou filmar esse tipo de coisa quando eu mesmo estivesse fazendo parte. Corria-se também o risco do pastor ficar puto comigo e não querer me pagar, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um corno, principalmente um corno evangélico. Então fui devagar...

Paguei uns drinks para a moça e continuamos conversando. Ela me queria, estava claro para quem quisesse ver, não que eu fosse muita coisa, ela escolheu o primeiro que estava na frente dela, quis o destino que fosse eu, mas poderia ter sido o Zé, o Mané, ou até o Guião, se ali estivesse.

Era isso! Por isso que eu bebo, penso melhor assim. Dou um fora na mulher e ela vai procurar qualquer outro cara para satisfazer sua libido de mulher da vida.
Talvez eu até entenda o motivo para ela sair às escondidas para trair o marido, pelo pouco que conheci do pastor, duvido muito que ele tenha gás para apagar o fogo de uma gostosa como esta. Puta mulher gostosa.

 - Bem Janaina, gostei muito de conversar com você, mas sei que você deve estar querendo diversão essa noite e não ficar aqui perdendo tempo comigo...

Então Janaina me interrompe fazendo a sua cara mais sensual da noite:
 
 - Então nós vamos nos divertir em outro lugar?

Eu não consegui segurar o riso de criança que ganha um brinquedo novo. Porra! Meus hormônios me diziam para mandar o pastor para a puta que pariu e comer àquela senhora quantas vezes fosse possível, afinal, era meu dia de folga. Mas minha razão ainda estava sóbria e se eu tivesse que fazer uma social com ela depois do sexo provavelmente eu iria querer me matar, tamanho tédio, ou acabaria soltando alguma indireta que faria com que ela percebesse que eu sabia de sua vida mais do que ela já tinha me revelado.
Pensei que esse puritanismo ainda iria me foder, mas...

 - Não, gata. O que eu quero dizer é que sou casado e não quero atrapalhar sua noite, portanto, acho melhor você ir se divertir.

 - Mas eu também sou casada e se isso não é problema para mim, acredito que não será para você. Ela era uma profissional. Já devia ter feito aquilo várias vezes. Estava acostumada e totalmente disposta a arrumar uma transa.

 - Olha, não vou te julgar. Você deve ter seus motivos para isso. Porém, não traio minha esposa. Continuei mentindo.

Ela desistiu. Tomou o restante de seu Martini e me deu um beijo molhado no rosto. Quase enfartei com aqueles seios deliciosos próximos ao meu rosto. Senti seu perfume doce e meu pau ficou ainda mais rijo. Eu iria explodir.

Fiquei olhando ela se sentar numa mesa mais próxima do palco.
Uma mulher como aquela, rica, madura e muito gostosa, só poderia estar sozinha num bar como aquele com um só propósito; sexo selvagem com um cara que sequer perguntasse seu nome e que nunca mais o encontrasse na vida.

 - To te estranhando guri. Tá dispensando mulher, agora? Perguntou Jamaica sem me deixar notar que estava observando minha conversa com a mulher do pastor.

 - Só tenho olhos pra você magrela.

Respondi com um sorriso irônico nos lábios. Ela sorriu balançando a cabeça percebendo a ironia.
Evidente que eu não desperdiçava uma oportunidade de trepar se não houvesse um bom motivo. Como o de hoje com a mulher do pastor. Mas a parte de só ter olhos para Jamaica não era tão inverdade assim. Como já disse, ela era a única garota que eu conhecia que poderia me fazer esquecer a vadia da Nelia. Mas enfim...

Não demorou muito para que um roqueiro musculoso sentasse na mesma mesa que Janaina e começassem a conversar intimamente. Era agora, assim que saíssem do bar eu os seguiria e completaria meu trabalho. Afinal, eu sou Giuliard Borsandi, detetive particular. Mesmo que a contragosto.



Bento.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

VIANCO, CARPINEJAR, NELSON, RAUL E BUKOWSKI


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Passei a contestar o fato de trabalhar o mês todo e o salário nunca - repito - NUNCA durava o bastante, assim passei a me interessar por política e para quem eu estava dando meu voto de confiança. Assim como na vida que percebi que eu já escolhia quem eu queria por perto ou não.

Algum tempo se passou e assim como o país minha vida financeira melhorava, mas nada que a inflação e os juros do meu cartão de crédito não tratassem de acabar com minha alegria.

Minha vida sentimental fora tomando rumos extremos e meus defeitos vinham à tona como espinhas na adolescência. Bem como os mensalões e quedas de ministros. Então um dia decidi que precisaria fazer alianças para governar minha vida que já era quase uma guerra civil, logo, criei uma lei de que passaria longe de qualquer mulher comprometida. Como se estivesse de frente à uma prateleira de supermercado e deixasse de escolher produtos que não tivessem acordos de redução de tributos para importação.
Afinal, ser amante é como pedir empréstimo, depende da disponibilidade de crédito para enfim, gozar.

Foi quando me tornei presidente de minha vida. Eleito com cem por cento de aceitação sem segundo turno.
Nomeei alguns "desconhecidos" do qual eu confiava plenamente para me ajudar como ministros. Raul Seixas, por exemplo, era meu Ministro do Planejamento, indicando caminhos certos e investimentos de alto risco no qual eu poderia chamar de "maluquices características em torno de autoabsolvições".

Já Nélson Rodrigues era o meu Ministro da Justiça, com ele aprendi que, até os caminhos mais prazerosos podem acabar mal e, os caminhos não tão prazerosos assim podem acabar piores ainda.

André Vianco era meu Ministro da Cultura e me ensinou a acreditar no inimaginável, apostar no que ninguém acredita, afinal, o credo é uma opção de escolha.

Fabrício Carpinejar me influenciou a ver as coisas mínimas, a solidão das multidões e a alegria de uma tarde de barriga para cima no sofá calçando apenas meias. Portanto, era meu Ministro de Relações Exteriores.

Por fim, Bukowki, o da Casa Civil, me mostrou que até os mais sérios políticos têm seus dias de fúria, com drinks em festas particulares e prostitutas descartáveis e ensandecidas em busca de peças para completar o vazio de suas vidas, bem como eu.


Bento.

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terça-feira, 2 de outubro de 2012

VIDA DE QUINTA CATEGORIA


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Eis que os anos passam, mas o relógio não anda.
As rugas surgem ao lado da morte e os pés permanecem intactos e fincados no mesmo lugar.
O sol continua seu ciclo apocalíptico, a chuva rega as flores nos campos, as violetas nos jardins. A neblina embaça os vitrais e as crianças brincam de desenhos usando o bafo quente de seu hálito e a ponta dos dedos pedindo seus desejos mais singelos aos deuses. Enquanto eu, mantenho a cruz em meu peito servindo somente de enfeite burlando um religioso que eu poderia ser e nunca fui.
Todavia, minhas mãos trêmulas só resistem ao prego para levar o cigarro até a boca. É seu único hábito, seu único prazer. Não existe mais o entrelace dos dedos, o atrito dos nós.

Como um filme em preto e branco, um drama de quinta categoria, as personagens surgem e somem sem qualquer explicação, sem enredo digno de atenção. Nem para ser chamado de trash ou clean, ou clássico servem. Não se inventa um gênero para isso, não merece os festivais, pois, a mente falha adapta o presente e o futuro conforme os lapsos de memória do passado. As personagens, os roteiros, os cenários? Nunca serão relíquias de colecionador, foram esquecidas.
Do elenco, o ator principal foi o mais mal pago, o menos reconhecido.
Não houve imprensa, nem entrevistas e os créditos no final da película só continham seu nome como punição. Nunca por glamour.

O diretor é desconhecido, o roteiro tão velho quanto andar para frente e o figurino, bom, era melhor quando não existia. Porém, como todo filme ruim com orçamento irrisório, sempre existe grande possibilidade de uma sequência. Com outros personagens e cenários mais divertidos, ou não.


Bento.

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