sexta-feira, 30 de novembro de 2012

TIM & BARTÔ – Psicologicamente Falando – por TIM

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Talvez fosse isso que eu mais odiava em Bartô, ele falava demais. Um tagarela de marca maior. Estávamos ali para amassar a cara de um drogadinho metido a bandido, "metido a bundidinho" eu dizia para Bartô.

Tínhamos juntado uns trocados e comprado uma garrafa de vinho barato, daqueles de garrafa plástica, sem rolha. Bartô sempre disse que vinho bom tem de ter rolha e aquele era péssimo. Da pior qualidade, de tingir os lábios de roxo e o hálito com gosto de comida estragada. Mas o que eu posso dizer? Éramos dois caras fodidos de dezesseis e dezessete anos, entediados e loucos por qualquer coisa que pudesse nos ajudar a matar o tal tédio.

Eu era novo nessa coisa de beber até cair, por isso ia devagar, não tanto, porém, não com tanta vontade quanto Bartô. Quase não se via ele sem a garrafa na mão, quase não se via o vinho azedo descer por sua garganta de tão rápido e febril que eram seus goles. A garrafa ia para suas mãos e voltava semivazia.

Em certo ponto, meu pé atrás com a bebida era bom. Um de nós dois precisaria manter um pingo de consciência, caso contrário mataríamos alguém, ou vários.
Então éramos os dois no frio da noite que começara a pouco e sabíamos que não teria hora para acabar.

O tal do malandro passaria por ali em algum momento, conhecíamos aquele bairro como a palma de nossas mãos. Sabíamos de cada boteco e quem o frequentava e estávamos ali, de frente a enorme Praça Santo Vigário esperando o momento do bote. Conosco havia outros moleques que chegaram com mais vinho e garrafas de cachaça misturada com refrigerante sem marca. Eram tempos de seca e qualquer coisa que tivesse um teor alcoólico decente era usado para tornar a noite mais tragável.
Riamos de piadas sujas, histórias de vandalismos cometidos em noites anteriores e transas com garotas. Mas na maioria dos casos pegávamos um dos moleques mais fracos física ou psicologicamente para cristo e fazíamos ir para casa chorando e humilhado. Até que nosso alvo finalmente deu o ar da graça e fomos bater um papo com ele.

 - Deixa que eu falo com ele. Disse Bartô.

Não me lembro do motivo de estarmos ali, sei que era um ódio causado por algo que nossa vítima tinha feito, ou pensado em fazer. Isso acontecia às vezes. Se passasse por nossa cabeça que qualquer cara do bairro pudesse fazer-nos mal, acabávamos com ele antes mesmo de fazer. Então Bartô se aproximou do cara e eu fiquei três passos atrás. Talvez fosse exatamente isso que eu menos gostava em Bartô. Ele falava demais.

Por mim, partiria para cima do cara e só sairia de lá quando meus braços acusassem câimbra de cansaço. Bartô falava mais, gostava de mexer com o psicológico das pessoas. Entrava em suas cabeças e destruía tudo que tinha lá dentro. Sempre fora bom com palavras. Tanto para o bem quanto para o mal. Já eu era de ação. Falava somente o necessário, quando necessário e com quem achasse necessário. Porém, quando nervoso, eram minhas mãos e longos braços que falavam por mim. Não é preciso ser um orador quando se tem quase dois metros e força suficiente para levantar um carro. No fim, as pessoas acabam fazendo minha vontade, de uma forma ou de outra. Éramos uma dupla perfeita, dois gênios bêbados do mal. E era isso que fazíamos.

Bartô fazia seu trabalho de entrar na mente do babaca e destruí-lo. Destruir sua autoestima, sua brisa e sua reputação com os amigos que assistiam tudo calado. Estavam chapados demais e assustados demais com meu tamanho o intuito era humilhá-lo a tal ponto que jamais, sequer, miraria os olhos em nossa direção. Eu queria espancá-lo só por diversão. Bartô sempre disse que qualquer um pode curar-se de um olho roxo ou um dente quebrado, mas se reabilitar de uma humilhação psicológica em público era para poucos. Naquela noite, tive de concordar com ele.


Bento.

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