quinta-feira, 25 de abril de 2013

FRACASSADOS PÓS-VENCEDORES E VENCEDORES PÓS-FRACASSADOS

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Desde muito cedo eu tenho quatro amigos.
O Rogério era o bruta montes da turma, nunca mais precisei correr de uma briga depois de tê-lo conhecido. O Garcia que era o talentoso. Tocava guitarra como ninguém. Montamos uma banda juntos.
Tinha também o Assencio, esse era um atrevido, era tão bom de bola que saíamos odiados das peladas nas ruas ou nas quadras públicas. Sorte nossa o brutamontes estar sempre por perto.
Por fim tem o Júnior que de tão simples e sem sal esse nome eu pensei em inventar um outro para o Júnior, mas não seria justo com ele. Sequer tinha apelido o garoto e seu primeiro nome também era Rogério, sendo assim, não seria de bom tom reivindicar a titularidade do nome, quem teria coragem de fazê-lo quando o dono do nome era o brutamonte? Então voltemos ao Jr, esse era o beberrão. Começou beber tarde, é bem verdade. Eu até então, era o beberrão, mas passei o rótulo para ele. Não que eu tivesse parado de beber, ou diminuído os porres, mas ele já era o segundo da turma em seu próprio nome. Fiz uma caridade de cristão que nunca fui. Então, desde muito cedo, éramos quatro amigos e eu. Os quatro estudavam juntos e eu em outra escola.

Enfim vamos falar do Warley. Mas quem é Warley? Este é outro amigo que estudava na mesma escola que eu. É de um nome desses que o Jr. precisava, um nome tão incomum que parece inventado pelo autor, mas Warley era real.

Warley e eu nos odiamos no momento em que nos vimos. Curioso é que todas as minhas grandes amizades começou através do ódio, mas éramos jovens, nem ódio tínhamos. Era como na política, pois éramos oposição e situação, partidos diferentes - o que quero dizer é que tínhamos idades diferentes, ele aparentava velho, muito velho perto dos outros alunos - mas políticos são inimigos até encontrarem um bom motivo para tornar-se amigos.

Eu e o Warley que já era calvo naquela época, por algum motivo descobrimos que seria melhor sermos amigos. O motivo dele eu não sei, o meu motivo era porque ficava impossível odiar um cara que mais parecia meu tio de tão velho. Bem como é mais difícil odiar os senhores de cabeça de neve, aqueles com cabelos grisalhos, talvez porque lembre natal e comercial da Coca-Cola, só sei que é difícil.

Na verdade, quando mais jovem, era bem mais fácil odiar qualquer pessoa, qualquer coisa, ou música. Éramos cheios de inimigos. Porém, quando jovem, tudo é passageiro. Tudo é de supetão. Você odeia hoje, ama amanhã e depois nem se lembra mais. Com garotas era assim também.
Num dia eu jurava amor eterno com tanta convicção que convencia até eu mesmo. Não passava da mais pura verdade. Eu amava, mesmo. Só que ao acordar e ver os desenhos animados na TV antes do café da manhã o tal amor acabava.

Claro que um amor, naquela época, só acabava para começar outro.
Cheguei a amar três garotas numa semana. Mais volúvel impossível. Mas quem ligava? Eu era jovem e o que dizem dos jovens é que se tem a vida toda pela frente. Exceto os fracassados. Esses têm a vida de todo mundo pela frente, menos a própria.

Existiam já naquela época jovens fracassados. Alguns cresceram e venceram, outros não. Outros fracassaram mais tardiamente, depois de envelhecer. Viver nunca é fácil. Ninguém ensina, muito menos a vida.

Aí você só nota quando encontra os fracassados pós-vencedores e os vencedores pós-fracassados. Em ambas as situações você pensa; poderia ser eu. Ou não.


Bento.


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segunda-feira, 22 de abril de 2013

O SUICÍDIO PALMEIRENSE

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Homero era só desespero. Num quarto de hotel barato ele bebia no gargalo de uma garrafa de vodca barata. Na escrivaninha havia uma pistola carregada que serviria para tirar sua vida após terminar seu drink e o cigarro que fumava. Entre um trago e outro ele teve uma visão que o deixou confuso. Não se sabia se aquilo que via era real ou seria a vodca fazendo efeito em seu cérebro. Porém ele viu um anjo, um ser luminoso e cheio de graça entrar pela janela do hotel e aproximar-se. Após estar bem próximo ele reconheceu a face de Deus o olhando com carinho e afeto.

 - Você é Deus? Ele perguntou.

 - Não homem. Sou Miguel, o arcanjo. Nosso Pai me enviou e sei que existe outro caminho para seu sofrimento. Não tire a vida que o Senhor te deu. O anjo falava e Homero arrepiava-se não se sabe se por medo ou emoção.

 - Mas Miguel, eu perdi tudo. Família, amigos, dinheiro. Não tenho nada, nem ninguém. Ainda mais desesperado Homero agora chorava copiosamente.

 - Você acredita em Deus homem? O Arcanjo perguntou.

 - Sim Miguel. Acredito. Acredito.

 - Então tudo na sua vida rumará para o caminho da felicidade. Tenha fé. Jogue fora essas drogas do Demônio.

Meio descrente Homero perguntou se teria sua família de volta e o anjo respondeu que sim.

 - E meus amigos? O anjo respondeu que sim. Perguntou se teria seu dinheiro de volta e o anjo também respondeu que sim.

Então uma esperança divina tomou conta do quarto de hotel e Homero buscou o lixo e começou jogar as drogas fora. Primeiro os cigarros. Depois o isqueiro. Jogou também a garrafa de vodca. Por fim, tomou o revólver. Pegou na mão, olhou para o anjo e perguntou:

 - Vamos filho, jogue a arma fora.

 - Vou jogar Miguel, vou jogar... Mas antes me diga uma coisa. E o Palmeiras?

 - O que tem o Palmeiras homem de Deus?

 - Ele será grande de novo?

 - O Palmeiras?

 - Isso Miguel. Uma das coisas que me fizeram ter vontade de me matar é a situação do meu time. Homero tinha fé que teria uma resposta positiva do anjo também sobre seu time do coração.

 - O Palmeiras? O anjo perguntou tentando achar uma resposta viável.

 - Isso Miguel. Isso. O Palmeiras! E então?
Homero já demonstrava impaciência. Até que o anjo finalmente respondeu gesticulando a ação para que o homem soubesse como fazer.

 - Ora homem. É melhor mirar na boca, pois na têmpora corre o risco da bala alojar-se no cérebro e não funcionar. Assim partiu o anjo.



Bento.

domingo, 14 de abril de 2013

24 LATAS DE HEINEKEN

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Eu caminho dia e noite pela rua. Não importa. Caminho e vejo loucos infinitamente mais loucos que eu e tento imaginar como seria se eu fosse mais louco ainda e meu estômago revira. Bem, talvez seja fome. Mas eu acabei de jantar, ou almoçar, ou tomar o café da manhã no bar e isso tudo ainda não significa nada. Só que o meu estômago revira, logo, não é fome e eu não sei o que é. Eu me alimento. Eu como e como e quanto mais eu como mais afrouxam minhas calças. Cada vez que a comida entra tenho de fazer um furo novo no cinto e então eu desisto. O trigo, o lúpulo, a cevada... Tudo isso será suficiente para me manter caminhando e aprendendo com os loucos.

Finalmente sento-me na cadeira do lado de fora do bar e chamo a atenção do garçom e este também é mais louco do que eu. Estou sentado e em minha mesa tem mais quatro ou cinco cadeiras e todos que se sentam nelas são mais loucos do que eu. Cada um com suas loucuras e demônios. Todos mais loucos.

Meus olhos miram as bocas dos loucos falantes, depois uma bunda passante. Mira um outro louco que encosta pedindo moedas e eu digo: moedas não tenho, se quiser um copo sirva-se. Ele rejeita, pois, é mais louco que eu. Contínuo a mirar meus olhos nos loucos falantes e sorrio de uma piada maldosa. E outra e depois outra e estamos todos alegres com montes de garrafas vazias em cima da mesa. Falamos cada vez mais alto, rimos cada vez mais alto e todos dão uma pausa de frações de segundos nas risadas e piadas para olhar mais uma bunda passante. Desta vez não era só uma bunda, junto havia um belo rosto. Todos suspiram e alguém rompe o silêncio momentâneo para mais uma piada. Ora, somos homens.

Pego o isqueiro, abro o isqueiro, acendo um cigarro, fecho o isqueiro, volto a abri-lo e a fecha-lo mais algumas vezes. A lua segue seu ciclo, as bundas passantes seguem seu ciclo, alguém na mesa cede a tentação de falar de trabalho e nós logo o censuramos. Somos homens, loucos, com sonhos frustrados e falamos sobre isso. Falamos também sobre os sonhos e fortunas que torcemos adquirir. Em certo momento já trocamos quase todo o sangue de nossas veias por álcool, o garçom continua seu trabalho visando também a fortuna que deseja adquirir, porém, não com nossa caixinha, pois, esta é nula.

Cada louco com a sua loucura e minha ideia de fortuna raramente é igual a ideia de fortuna dos outros à mesa. Na verdade todos nós odiamos o fato de acordar cedo e ter de trabalhar para imbecis mais loucos e incompetentes que nós. Eu gosto ainda menos de trabalhar, por isso que escrevo. Minha ideia de fortuna é escrever e ganhar o suficiente para repor o estoque de cervejas, whiskys, e vodcas. Uma TV tão grande quanto meu sedentarismo e se possível uma bela vista do trânsito de São Paulo para eu sempre lembrar do quão cansativo é trabalhar. Bom, eu ainda terei de ir ao mercado para trazer as garrafas e congelados, logo, não sou tão sedentário assim.
Uma vez uma garota me disse que sou magro demais. O que eu posso dizer? Um homem só precisa de força suficiente para carregar aquilo que ele vai beber. Ou comer, ou os dois. Dia desse eu passei no mercado. Carregava 24 latas de Heineken divididas em duas sacolas. Dose latas em cada mão. Confesso que esse dia eu exagerei um pouco. Eu tinha 24 latas de cervejas e ainda tinha que fumar. No início estava indo tudo bem, mas quanto mais eu andava mais as latas ficavam pesadas. Como se elas estivessem multiplicando-se. Uma pena elas não estarem, era o peso e os braços cansados.
Eu jamais desperdiçaria latas de cervejas só por causa de uma pequena dor no braço e a vontade de fumar. O sol da tarde também não estava ajudando. Então decidi parar e descansar um pouco. Sentei na calçada, acendi o cigarro tão aguardado e abri uma lata. E depois outra e outra e no total foram quatro latas de Heineken ali, na calçada, debaixo do sol. Levantei novamente as sacolas e agora sim, estava resolvido o problema. Vinte latas eu conseguiria carregar tranquilamente. Já em casa, coloquei-as para descansar no congelador. Força só é necessária para os imbecis que não pensam. Os medíocres de imaginação. Loucos como eu nunca usam de sua força, exceto em dia de churrasco.


Bento.

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

NÃO PERCA SEU TEMPO PROCURANDO-SE EM MEUS PARÁGRAFOS, ESTÁ EM TODOS ELES

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Não é que eu não te queira. Pelo amor de Deus. Sonhei anos com isso e por vezes, ainda hoje, em belas noites de mariposas de lâmpada ainda penso ser um sonho tão somente. Mas não daquelas coisas clichês e água com açúcar. Sabe que não sou disso. Sabe, pois sou como tu.
Bem, tem também toda aquela coisa de Destino e as minhas coisas acontecem sempre quando elas querem e não quando eu planejo. Isso tudo é um saco, eu acho. Medo não. Isso não me apetece. Acontece que, é só essa disparidade de abismos. Sei sei, parece complicado, porém posso explicar: Eu sou do inferno. Não, não quero dizer literalmente. Do inferno astral eu digo. Sou um poeta clandestino. Um escrevinhador de realidades infames e tenebrosas. Não sou de final feliz. Minhas letras são vomitadas com odor etílico. Transborda em mim um sentimento de romantismo pouco visto por aí, só que ninguém acredita. Não acreditam, afinal, sou um poeta das sombras, das sarjetas úmidas de urina. Das esquinas tendo como companhia as putas e cachorros famintos. Quem acreditaria que num monte de estrume pode nascer uma flor? Todos sabem que pode, mas quem acredita?
Já você é o que existe de mais indecentemente sexy e elitista. Uma combinação de pecado original com apocalipse. É toda a mistura do meu melhor, com todas as coisas que eu gostaria de ser e falhei. Você minha querida, é o pecado do Criador. Pois até Deus encheu o peito de vaidade dizendo ao Diabo: Sabe aquela ali? Eu que fiz!

Eu poderia colocar todo o meu clichê que jurei guardar para fora, guardá-lo para resumir tudo isso em “A Dama e o Vagabundo”. Só não o faço para não quebrar a promessa. Mas que dá vontade, ah isso dá. Eu poderia escrever, escrever, escrever e mesmo em minha mente criativa eu não poderia por no papel, em letras garrafais ou não. Mesmo que nos meus dias mais inspirados, o que é e o que foi aquele beijo e todos os outros que vieram. Seria infâmia de minha parte. Volto a dizer para que não me entenda mal. Isso não é desistir, apenas estou pegando o meu chapéu e indo para casa para melhorar-me de alguma forma. Moldar-me como barro para chegar, pelo menos aos seus pés. De alguma forma que eu nem sei. Mas ei de me achar em algum lugar. Não me pergunte como, nem onde. Nem eu sei. Talvez você pudesse me ajudar, pois conhece-me mais do que eu posso imaginar. Você tem todos os meus defeitos, a diferença é que em ti eles parecem tão melhores.

Eu escrevo, escrevo e sorriu. Aquele mesmo sorriso trouxa de que falei outrora. Talvez você pudesse me ajudar, só que estou eu, sendo um egoísta asqueroso só para me maltratar. Coisa que eu faço costumeiramente. Numa sandice desgraçada de tentar fazer tudo sozinho e provar qualquer coisa que eu nem vou fazer questão daqui há algum tempo. Só o que terei em mente é o objetivo mesmo. A musa de minhas letras. A inspiração dos meus contos e a aspiração de meu ego.
Por isso digo, não perca tempo procurando-se em meus parágrafos, está em todos eles.

E no alto deste meu egoísmo eu não quis perguntar sua opinião. Achei que não devia. Não quis precipitar e perder a lembrança de um último diálogo amigável. Talvez e só talvez, suponho agora como suponho a existência de deuses e E.Ts. Talvez você me afagasse e diria o quanto eu estou errado e que tudo isso é fruto de minha mente nada convencional. Minha teimosia que não deixou. Suposição ou desejo? Não sei dizer.
Então aqui estou eu com meu chapéu, meus cigarros, uma dose de algo alcoólico e amargo para dizer que vou tentar adivinhar sim. E tendendo sempre para o meu lado, claro.


Bento.

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segunda-feira, 8 de abril de 2013

SE NENHUM GRANDE POETA DISSE ISSO DEVERIA TER DITO


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 - Onde estão minhas moedas? Eu preciso de um cigarro.

 - Relaxa cara. Eu tenho um cigarro aqui. Eu dizia para Vinny, enquanto ele mordia os lábios e passava os dedos nos cabelos bagunçados. Fora uma noite daquelas. Estávamos bêbados desde manhã. Lá fora já tinha chovido, feito sol, a passeata do Raul já tinha passado inteira e nós ainda estávamos bêbados. Só que Vinny estava mais. Era complicado para ele. Sua garota estava grávida há poucos meses e o deixou. E ele tinha ameaçado se matar, tirar a própria vida, se jogar da ponte, essas coisas. Pois sua garota o tinha deixado com a barriga cheia.
Eu dizia que talvez fosse melhor assim. - Vinny, cara. Criar um filho não é fácil. Vai ver foi melhor assim.

Mas ele queria aquilo. Achava que queria pelo menos. Nós nunca queremos as coisas que temos e sempre desejamos o que não podemos ter. Algum grande poeta disse isso, se não disse, deveria ter dito. Sempre queremos o que não podemos. Uma cerveja é tão mais gostosa quando está na geladeira lá de casa e nós no trabalho. Quando finalmente batemos o ponto e corremos entre os carros para finalmente chegar em casa a cerveja é uma maravilha só. Corremos e passamos nos faróis abertos, empurramos pessoas no metrô e a cerveja dá água na boca. Ao abrir a porta enferrujada da geladeira e Deus, como estávamos esperando por esse momento, pegamos a lata na mão, nesta hora até agradecemos aos deuses e esquecemos de pedir perdão por quase matar aquela velhinha de susto no caminho. Tiramos o lacre da lata e agora só Jesus pode nos compreender tamanho prazer e ereção por ter uma lata de cerveja geladíssima em nossas mãos naquele calor insuportável, tanto que esquecemos de afrouxar o nó da gravata. Humm o primeiro gole. Delícia. Mas nunca é lá grande coisa. Não foi tudo aquilo que imaginávamos quando corremos como desesperados. Quanto mais perto você está da lata, menos gostosa ela será. Logo, você chega á conclusão que se estivesse parado em algum bar e tomado meia dúzia de latas seria bem mais prazeroso.

Bem, queremos algo só enquanto não podemos ter, depois que temos, acabou. Posso jurar que algum grande poeta disse isso, mas Vinny diz que não. Eu digo que Vinny não entende nada de literatura, ele só gosta de quadrinhos japoneses. Ele diz o nome de algo que me fez achar que tirou de um cardápio de restaurante japonês, mas ele diz ser o maior poeta da atualidade, maior até que Nelson Rodrigues. É então quando eu tenho certeza que ele não entende nada de literatura.

 - Cadê minhas moedas, preciso de um trago. Vinny diz enfiando as mãos nos bolsos tentando achar alguns trocados.
Eu digo que tenho dinheiro e que se quiser podemos ir buscar uma ou duas garrafas de uma vodca barata para acabar a noite bem. Eu não quero dizer com isso que o que estávamos fazendo era certo. Afinal, ficarmos bêbados durante dois ou três dias seguidos para esquecer um grande pé na bunda não é a melhor opção para os covardes. Nós éramos fortes. Bem, eu pelo menos já estava acostumados. Já tive meus demônios e tive que expulsá-los com grandes doses de álcool.  Não consegui fazê-los irem embora, mas pelos menos me tornei amigo deles.

Algumas pessoas não foram feitas para beber. Não para beber como nós, como gente grande. Daqueles que bebem e voltam pra casa. Conheço vários caras que bebem e batem na mãe, nas esposas e amantes, nos filhos. Arrumam brigas e quebram o bar. Não éramos desses. Eu só saio pra beber de segunda à quinta. Os outros dias eu prefiro beber em casa. Nos finais de semana têm muitos bêbados de fim de semana. Bêbados amadores que não sabem beber e saem fazendo merda por aí. Nós éramos bêbados profissionais. Com carteirinha e diploma.
Você sabe quando é um bêbado profissional quando o garçom já te conhece pelo nome e o nome de seus filhos, pois já ficou de porre várias vezes e contou sua vida inteira para o garçom e até para os mendigos que passava na rua pedindo um ou dois reais para comprar um "barrilzinho" de pinga e espantar o frio e a fome. Por isso eu prefiro beber em casa. Vinny não era um bêbado profissional igual a mim, mas estava no caminho certo. O fato é que ainda estávamos com as pernas firmes e eu tinha um bônus no bar próximo da casa de Vinny, logo, uma ou duas garrafas de vodca não seriam nada difícil de arrumar. Ele disse: Tudo bem, tudo bem.

Acendemos nossos cigarros e partimos em direção ao bar. Agora caia uma fina garoa lá fora e as pontas dos nossos dedos estavam congelados. Andávamos e fumávamos com uma das mãos no bolso e depois trocávamos. Era uma garoa gelada, o frio cortava o bigode e faziam os olhos lacrimejarem. Vinny foi o caminho inteiro contando como era namorar Ludimila e podia jurar que sabia o exato momento em que a engravidou. Dizia que pôde sentir seu esperma fecundando o óvulo de Ludimila. - Eu ouvi cara. Eu vi com esses olhos aqui. É como se eu pudesse ver através dos olhos da porra que acertou o alvo. A gente pode ver essas coisas cara.

Eu falei que era impossível. - É impossível cara. Porra não tem olhos.

 - E como é que eles acham a sementinha?
Está aí uma pergunta que eu não podia responder. - Sei lá cara. Tem coisas que simplesmente acontecem.

 - Eu vi cara. E Vinny começou a chorar e contar como conheceu Ludimila.

Estava difícil de aturar um marmanjo daquele tamanho choramingando ao meu lado, mas amigo também serve pra isso. Só que apertei o passo, pois, mesmo sendo muito amigo de Vinny, eu precisava daquelas vodcas para continuar sendo amigo dele.

Finalmente compramos as vodcas e os cigarros e tomamos o caminho de volta para casa de Vinny. Ele continuou a reclamar da vida, colocando a culpa em Deus, no diabo, no álcool. Disse que iria parar de beber se Ludimila voltasse para ele. Eu disse que Deus, o diabo e o álcool não tinham nada a ver com aquilo. Afinal, fora Vinny quem decidiu trair Ludimila com a melhor amiga da garota. - Você não viu através dos olhos de sua porra que você derramou na boca da amiga dela a merda que estava fazendo cara?  Vinny não achou meu sarcasmo tão engraçado e começou a chorar novamente, sem parar, eu não queria aquilo, mas porra! Toda aquela fossa já estava dando no saco. Decidimos abrir umas das garrafas de vodca e ir bebendo pelo caminho.

 - Meu brother, uma coisa eu te prometo. Se a Ludimila me perdoar eu nunca mais vou olhar para uma garota. Nunca mais, você tá me entendendo? Vinny disse olhando em meus olhos, tentando manter certo equilíbrio nas pernas.

 - Não prometa essas coisas que dá azar cara. Eu disse sem acreditar na promessa.

Vinny fez que não me ouviu e voltamos em direção de sua casa quando ouvimos seu celular tocar. - Ei cara. Shiuuu. É a Ludimila.

Eu acendi mais um cigarro e dei outro gole na vodca.

 - Oi meu amor. Como é bom ouvir sua voz... Uhum sei. Claro amor. Me perdoa. Nunca mais vai acontecer. Eu juro... Eu juro. Não chora. Eu prometo... Uhum. Não, não, não. Nunca mais... Fica tranquila. Nos vemos amanhã então. Uhum. Dorme bem amor. Te amo também. E desligou.

 - E então? Perguntei curioso.

 - Ela me perdoou cara. Ela me perdoou.

 - Ufa! Vamos beber a isso então. Entreguei uma das garrafas para Vinny.

 - Vamos cara, vamos encher a cara. Vinny deu um grande gole tomando a direção contrária a sua casa.

 - Ei cara, aonde vamos? Eu quis saber.

 - A Úrsula me tá dando uma festa na casa dela. Tem várias garotas lá. Vem comigo cara.

 - Mas cara, e a Ludimila? E aquela história de "se ela me perdoasse"? Perguntei lembrando-o das promessas que ele tinha acabado de fazer a si próprio.

 - Que isso cara? Ela já me perdoou, vamos comemorar. E outra. Eu disse que não transaria mais com a melhor amiga dela. A Ludimila odeia a Úrsula.

 Bem, eu não tinha prometido nada a ninguém. - Ok. Tô dentro.

É verdade. Só queremos aquilo que não podemos ter.



Bento.

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

EU NÃO SEI NADA DE MATEMÁTICA, MAS SOU PERITO EM ANATOMIA

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Eu nunca fui um bom aluno. Nunca.
Sempre fui daqueles de sentar no fundo da sala e destilar minha vaidade para as garotas. Eu queria chamar atenção e conseguia. Com isso levava algumas mentes ocas comigo. Eram idiotas imitando um tonto, ou um bando de tontos seguindo um idiota, escolha a alternativa que quiser.

Meu trabalho ali era dificultar ao máximo o trabalho dos professores e nisso eu tinha grande sucesso. Não que eu fizesse questão disso, eu era um cara, só um cara e não fazia questão de nada. Só de confundir as cabeças já muito confusas dos outros alunos. Tão confusos quanto eu.
Digo que se houvesse justiça no mundo eu teria me tornado professor, só para sentir na pele tudo o que causei aos mestres.
Eu era um desserviço a educação calamitosa das escolas públicas. Se alguém na administração das escolas pelas quais passei tivesse um pingo de juízo eu sequer teria terminado os estudos. Faça-se justiça que eles até tentaram expelir o grande mal que eu era expulsando-me duas ou três vezes, porém, não se alcançou grande resultado quando eu, expulso, poderia entrar em qualquer outra escola que quisesse. Logo, como uma praga (todos os meus professores concordariam com isso) eu seguia confundindo e aniquilando algumas promessas estudantis por onde passava.

Eu falava fácil, com a voz mansa. Usava palavras difíceis apenas para passar a imagem que sabia do que estava falando, mas não sabia. Era um argumentador. Levava a história do Brasil e do mundo sempre para o lado pessoal e invertia os fatos. Os alunos entendiam, os professores tentavam entender como poderia sair tanta bobagem de uma mente tão jovem.

Tinha mania "do contra". Fazia discursos inflamados como os ditadores que eu ainda nem conhecia. Os professores diziam que eu era uma mente brilhante desperdiçada. Nunca me achei inteligente. Achava-me um bom ator, um fingidor, eu diria. Enganava bem, bem até demais. Sempre disse que não importa o tamanho do absurdo que você conta, O que importa é a segurança com a qual você conta. Mas nunca, nunca me achei inteligente. O que eu tinha demais para a minha idade era esperteza e atrevimento. Uma combinação que usava para o mal. Um talento nato para humilhar os meus colegas de sala. Tudo isso muito antes de o Bulling existir. Se já existisse eu estaria nos cartazes de prevenção. A minha foto estampada com uma cara de culpado confesso. Eu poderia ser crucificado em praça pública. Decapitado e esta pendurada nos portões da escola como exemplo. Duvido que nenhum professor tenha se sentido tentado a fazê-lo.

Eu era um carrasco de CDFs. Tornei-me um fomentador de intrigas femininas. Acabei com relacionamentos bonitinhos, típicos de filmes adolescentes de Hollywood. Destruí autoestima de garotos roubando-lhe garotas e aniquilei a vaidade das garotas chutando-as logo após.

Então, você que já deve me odiar pelo que leu até aqui e por fazer perder seu tempo, deve estar se perguntando onde é que eu quero chegar com essa confissão de adolescente maldito. Eu respondo que não sei. Mas se consegui deixar bem claro que era eu um péssimo aluno e a última coisa que eu fazia na escola era estudar então cheguei ao meu objetivo. Uma matéria em particular sempre foi o meu purgatório, a matemática. Esta sim era minha intenção. Para então, poder dizer que depois de velho, descobri que no mundo real, na vida em questão, nesta matemática, menos é mais. A multiplicação apesar de encher os olhos, engana. Somar vaginas e bocas com o intuito de chegar a algum lugar é de um erro tão grande que nenhuma prova Real pode resolver. E que algumas relações só podem dar certo quando existem dois números na casa da divisão. Um mais um só é dois quando estamos dispostos a subtrair coisas de que gostamos para agradar o próximo. Volto a falar da multiplicação para chegar a números assustadores de nomes, telefones, tickets de motéis, pernas que se abrem, pernas que se cruzam. Inúmeros casos e narizes que irritam-se a tocar seu abdome. Soma-se tudo isso as mordidas em seu órgão sexual e o cansaço dele de trabalhar tanto em tão pouco tempo a ponto de você achar que não dará conta, que pode ser que tenha que passar por um constrangimento. Pegue a calculara para não errar na conta e o saldo será sempre negativo. Perdeu-se mais que ganhou. Está no vermelho, pois, menos é mais. Todo mundo deveria saber disso. Porém, o único que se saia mal em matemática era eu.


Bento.

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terça-feira, 2 de abril de 2013

QUANDO A FELICIDADE É DEMAIS A TRISTEZA DESCONFIA

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Da turma de amigos, Lúcio e Selma eram o casal mais feliz. A garota, uma graça. Calma, equilibrada e bastante inteligente. Dessas garotas com cara de professora de maternal. Roupas simples, sem acessórios e exageros. Lúcio não ficava atrás. Bermudas longas, camisetas curtas, boné infantil e tênis de corrida, ou seja, típico jogador de vôlei. Porém, era estudante de bioquímica, quase um conde, sempre sorridente, compreensivo e educado. Desses tipos que adora a sogra e a sogra o adora. Dito isso, eram um casal perfeito, casal de comercial de margarina. E assim o tempo foi passando.

Lúcio estudava de noite, trabalhava meio período de dia e amava Selma em tempo integral. Já Selma ainda não tinha decidido qual curso fazer, tinha o dia todo livre para mandar mensagens do celular para o namorado e planejar o tempo que ficariam juntos. Os amigos diziam "é o casal perfeito", outros diziam "o casal perfeito perde pra eles". Grande casal era.

Tão iguais suas almas, tanta sensibilidade que envolvia os dois que não sobrava espaço para brigas. Sendo assim, sempre que um amigo do casal tinha problemas em seus relacionamentos corriam para se consultar e pedir conselhos para Lúcio e Selma, os gurus do amor. Como velhos com bodas de ouro recém completadas, só que ainda apaixonados.

Num dia desses, Edinho amigo de Lúcio foi lhe pedir ajuda. Tinha problemas com seu namoro recente. A moça era de um ciúme incontrolável, já ele era de uma impaciência ímpar e, tudo indicava o fim do relacionamento que, se dependesse de Lúcio e toda sua sabedoria, duraria muitas primaveras.

Justiça seja feita, o casal do ano adorava o posto de cupidos da turma. Fazia bem a eles mostrar para quem quisesse ver toda competência que possuíam em manter a chama ardente da paixão por tanto tempo. Beirava a arrogância tanta felicidade, mas fazer o quê? Eles eram assim.

Lúcio correu sem pestanejar para ajudar o amigo tão necessitado.

 - Fala assim assim pra ela Edinho, meu camarada.

 - Mas ela é louca de ciúme Lúcio, só fala comigo por mensagem de celular. Respondeu o amigo apreensivo.

E o genial Lúcio teve então, uma ideia brilhante que faria com que a garota ciumenta corresse de volta aos braços de Edinho.

 - Eu envio uma mensagem com o quê você tem que falar para o seu celular e você reenvia para ela. Assim, quando ela responder você envia para o meu celular as respostas.

 - Você é um gênio Lúcio. É o melhor amigo do mundo, obrigado. Agradeceu o amigo aliviado.

Um dia depois estavam os dois colocando o plano em prática. Lúcio declarava-se com poemas e promessas de amor em forma de mensagens que enviava para Edinho, ele por sua vez, repassava para sua namorada e vice-versa. Tudo isso durou no máximo uma semana e no fim, Edinho, graças a Lúcio, reconquistou a paz em seu relacionamento.

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Então se encontraram rapidamente num café ali perto de onde se reuniam, os dois casais, Lúcio e Selma, Edinho e Quênia. Saudações e felicitações pela volta do namoro dadas e logo, foi cada casal pro seu lado.

À caminho da casa de Selma, ela suspirava .

 - Como é bom ver os dois juntos novamente. De pensar que Quênia desconfiava que Edinho estivesse lhe traindo, acredita?

 - Edinho? Não! Ele é teimoso, mas não trairia Quênia, ele a ama.

- Você acha que ele seria capaz de traí-la algum dia, Lú? Perguntou Selma, preocupada com a amiga.

 - Não diria nunca, mas acho muito difícil. Respondeu Lúcio.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala de Selma, Lúcio se despede com beijos apaixonados e roçar de narizes.

 - Eu te amo. Dizia um.

 - Não. Eu te amo mais. Dizia o outro.

 - Eu que te amo mais. Diziam os dois, até que Lúcio partiu.

Selma ao voltar à sala percebeu o celular de Lúcio esquecido no sofá e tratou de correr até a rua para ver se alcançava o amado, mas não conseguiu. Não se sabe até hoje o motivo de Selma mexer no celular do amado. Se por desconfiança, curiosidade, afinal, eram tão seguros do amor, os dois. O fato é que ela leu as mensagens que Lúcio enviava para Edinho na tentativa de ajuda-lo a reconquistar Quênia e também viu as respostas que Edinho mandava para o celular de Lúcio.
Foi o que bastou para a garota perder toda aquela calma e equilíbrio pensando nas coisas mais mirabolantes possíveis, bem como o caso entre Lúcio e Edinho. Não podia ser. Eles eram tão felizes, Lúcio e Selma, como poderia ele traí-la e pior, com outro homem.

Nessa hora suas mãos já transpiravam e tremiam, tudo ao mesmo tempo. Imagine jogar a felicidade que tinham pelo ralo com uma pouca vergonha como essa. O que diriam seus pais? E os amigos que sempre o invejaram, o que diriam? Selma dizia pra si mesma que não podia ser verdade, mas algo dentro dela a avisara, a própria Quênia suspeitou que estava sendo traída e Selma nem achava que a amiga era das mais inteligentes, porém, foi mais esperta que a própria Selma em perceber o que acontecia debaixo de seus narizes. Ela, Quênia, só não imaginava que era traída com outro homem, pior, o amor da vida de Selma. Pensou em ligar para Lúcio e tirar essa história toda a limpo, mas o celular dele estava em suas mãos. Tentou ligar para Quênia e só caía na caixa postal, provavelmente comemorando a reconciliação. Quando pensou nisso soltou um risinho perverso de canto de boca, no entanto, se deu conta, afinal, estava rindo do quê? Acabara de descobrir que seu homem transava com outro homem. Passou a imaginar os dois transando assim como transavam ela e Lúcio e a visão foi tão grotesca que lhe deu ânsia e acabou vomitando no tapete felpudo da sala. Passou a se sentir muito mal, quase sem conseguir parar de pé. Precisava se deitar, relaxar e tentar esquecer pelo menos por hora tudo aquilo. Era forte demais. Lembrou-se dos calmantes que a mãe guardava no banheiro, não seria má ideia um ou dois comprimidos para lhe ajudar a dormir.

Encontrou os calmantes, colocou um comprimido na palma da mão, jogou-o goela abaixo, encheu a boca com água da torneira e engoliu.
Olhava seu rosto no espelho do banheiro e não conseguia entender como Lúcio pôde troca-la por outro macho. Era tão linda, não tanto quanto aquelas garotas da escola sem cérebro, mas tinha sua beleza própria, os olhos verdes, os cabelos lisos e virgens, o nariz perfeito. Tomou outro comprimido, mais água.

E as promessas de viverem juntos quando Lúcio terminasse os estudos, a casinha que planejaram comprar num bairro tranquilo. Tudo foi pro lixo. Outro comprimido e mais água. Depois outro comprimido e outro e depois outro...
Até que, em algum momento, seu corpo caiu desfalecido no chão do banheiro, abdicando de saber a verdade.


Bento.