terça-feira, 2 de abril de 2013

QUANDO A FELICIDADE É DEMAIS A TRISTEZA DESCONFIA

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Da turma de amigos, Lúcio e Selma eram o casal mais feliz. A garota, uma graça. Calma, equilibrada e bastante inteligente. Dessas garotas com cara de professora de maternal. Roupas simples, sem acessórios e exageros. Lúcio não ficava atrás. Bermudas longas, camisetas curtas, boné infantil e tênis de corrida, ou seja, típico jogador de vôlei. Porém, era estudante de bioquímica, quase um conde, sempre sorridente, compreensivo e educado. Desses tipos que adora a sogra e a sogra o adora. Dito isso, eram um casal perfeito, casal de comercial de margarina. E assim o tempo foi passando.

Lúcio estudava de noite, trabalhava meio período de dia e amava Selma em tempo integral. Já Selma ainda não tinha decidido qual curso fazer, tinha o dia todo livre para mandar mensagens do celular para o namorado e planejar o tempo que ficariam juntos. Os amigos diziam "é o casal perfeito", outros diziam "o casal perfeito perde pra eles". Grande casal era.

Tão iguais suas almas, tanta sensibilidade que envolvia os dois que não sobrava espaço para brigas. Sendo assim, sempre que um amigo do casal tinha problemas em seus relacionamentos corriam para se consultar e pedir conselhos para Lúcio e Selma, os gurus do amor. Como velhos com bodas de ouro recém completadas, só que ainda apaixonados.

Num dia desses, Edinho amigo de Lúcio foi lhe pedir ajuda. Tinha problemas com seu namoro recente. A moça era de um ciúme incontrolável, já ele era de uma impaciência ímpar e, tudo indicava o fim do relacionamento que, se dependesse de Lúcio e toda sua sabedoria, duraria muitas primaveras.

Justiça seja feita, o casal do ano adorava o posto de cupidos da turma. Fazia bem a eles mostrar para quem quisesse ver toda competência que possuíam em manter a chama ardente da paixão por tanto tempo. Beirava a arrogância tanta felicidade, mas fazer o quê? Eles eram assim.

Lúcio correu sem pestanejar para ajudar o amigo tão necessitado.

 - Fala assim assim pra ela Edinho, meu camarada.

 - Mas ela é louca de ciúme Lúcio, só fala comigo por mensagem de celular. Respondeu o amigo apreensivo.

E o genial Lúcio teve então, uma ideia brilhante que faria com que a garota ciumenta corresse de volta aos braços de Edinho.

 - Eu envio uma mensagem com o quê você tem que falar para o seu celular e você reenvia para ela. Assim, quando ela responder você envia para o meu celular as respostas.

 - Você é um gênio Lúcio. É o melhor amigo do mundo, obrigado. Agradeceu o amigo aliviado.

Um dia depois estavam os dois colocando o plano em prática. Lúcio declarava-se com poemas e promessas de amor em forma de mensagens que enviava para Edinho, ele por sua vez, repassava para sua namorada e vice-versa. Tudo isso durou no máximo uma semana e no fim, Edinho, graças a Lúcio, reconquistou a paz em seu relacionamento.

***

Então se encontraram rapidamente num café ali perto de onde se reuniam, os dois casais, Lúcio e Selma, Edinho e Quênia. Saudações e felicitações pela volta do namoro dadas e logo, foi cada casal pro seu lado.

À caminho da casa de Selma, ela suspirava .

 - Como é bom ver os dois juntos novamente. De pensar que Quênia desconfiava que Edinho estivesse lhe traindo, acredita?

 - Edinho? Não! Ele é teimoso, mas não trairia Quênia, ele a ama.

- Você acha que ele seria capaz de traí-la algum dia, Lú? Perguntou Selma, preocupada com a amiga.

 - Não diria nunca, mas acho muito difícil. Respondeu Lúcio.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala de Selma, Lúcio se despede com beijos apaixonados e roçar de narizes.

 - Eu te amo. Dizia um.

 - Não. Eu te amo mais. Dizia o outro.

 - Eu que te amo mais. Diziam os dois, até que Lúcio partiu.

Selma ao voltar à sala percebeu o celular de Lúcio esquecido no sofá e tratou de correr até a rua para ver se alcançava o amado, mas não conseguiu. Não se sabe até hoje o motivo de Selma mexer no celular do amado. Se por desconfiança, curiosidade, afinal, eram tão seguros do amor, os dois. O fato é que ela leu as mensagens que Lúcio enviava para Edinho na tentativa de ajuda-lo a reconquistar Quênia e também viu as respostas que Edinho mandava para o celular de Lúcio.
Foi o que bastou para a garota perder toda aquela calma e equilíbrio pensando nas coisas mais mirabolantes possíveis, bem como o caso entre Lúcio e Edinho. Não podia ser. Eles eram tão felizes, Lúcio e Selma, como poderia ele traí-la e pior, com outro homem.

Nessa hora suas mãos já transpiravam e tremiam, tudo ao mesmo tempo. Imagine jogar a felicidade que tinham pelo ralo com uma pouca vergonha como essa. O que diriam seus pais? E os amigos que sempre o invejaram, o que diriam? Selma dizia pra si mesma que não podia ser verdade, mas algo dentro dela a avisara, a própria Quênia suspeitou que estava sendo traída e Selma nem achava que a amiga era das mais inteligentes, porém, foi mais esperta que a própria Selma em perceber o que acontecia debaixo de seus narizes. Ela, Quênia, só não imaginava que era traída com outro homem, pior, o amor da vida de Selma. Pensou em ligar para Lúcio e tirar essa história toda a limpo, mas o celular dele estava em suas mãos. Tentou ligar para Quênia e só caía na caixa postal, provavelmente comemorando a reconciliação. Quando pensou nisso soltou um risinho perverso de canto de boca, no entanto, se deu conta, afinal, estava rindo do quê? Acabara de descobrir que seu homem transava com outro homem. Passou a imaginar os dois transando assim como transavam ela e Lúcio e a visão foi tão grotesca que lhe deu ânsia e acabou vomitando no tapete felpudo da sala. Passou a se sentir muito mal, quase sem conseguir parar de pé. Precisava se deitar, relaxar e tentar esquecer pelo menos por hora tudo aquilo. Era forte demais. Lembrou-se dos calmantes que a mãe guardava no banheiro, não seria má ideia um ou dois comprimidos para lhe ajudar a dormir.

Encontrou os calmantes, colocou um comprimido na palma da mão, jogou-o goela abaixo, encheu a boca com água da torneira e engoliu.
Olhava seu rosto no espelho do banheiro e não conseguia entender como Lúcio pôde troca-la por outro macho. Era tão linda, não tanto quanto aquelas garotas da escola sem cérebro, mas tinha sua beleza própria, os olhos verdes, os cabelos lisos e virgens, o nariz perfeito. Tomou outro comprimido, mais água.

E as promessas de viverem juntos quando Lúcio terminasse os estudos, a casinha que planejaram comprar num bairro tranquilo. Tudo foi pro lixo. Outro comprimido e mais água. Depois outro comprimido e outro e depois outro...
Até que, em algum momento, seu corpo caiu desfalecido no chão do banheiro, abdicando de saber a verdade.


Bento.

2 comentários:

Jota disse...

Fiquei sem palavras com essa história. O pior é que hoje em dia isso tem se tornado normal.
O texto ficou muito bom, mas se tivesse acrescentado detalhes do que diziam as mensagens seria mais interessante. Fiquei aqui imaginando tudo, rs.

Marina disse...

Poxa, isso me fez pensar em quantas pessoas destroem suas vidas por simplesmente não averiguar os fatos, ficando apenas com sua versão incompleta da história. Coisas como as narradas em seu conto acontecem mesmo, infelizmente.