segunda-feira, 8 de abril de 2013

SE NENHUM GRANDE POETA DISSE ISSO DEVERIA TER DITO


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 - Onde estão minhas moedas? Eu preciso de um cigarro.

 - Relaxa cara. Eu tenho um cigarro aqui. Eu dizia para Vinny, enquanto ele mordia os lábios e passava os dedos nos cabelos bagunçados. Fora uma noite daquelas. Estávamos bêbados desde manhã. Lá fora já tinha chovido, feito sol, a passeata do Raul já tinha passado inteira e nós ainda estávamos bêbados. Só que Vinny estava mais. Era complicado para ele. Sua garota estava grávida há poucos meses e o deixou. E ele tinha ameaçado se matar, tirar a própria vida, se jogar da ponte, essas coisas. Pois sua garota o tinha deixado com a barriga cheia.
Eu dizia que talvez fosse melhor assim. - Vinny, cara. Criar um filho não é fácil. Vai ver foi melhor assim.

Mas ele queria aquilo. Achava que queria pelo menos. Nós nunca queremos as coisas que temos e sempre desejamos o que não podemos ter. Algum grande poeta disse isso, se não disse, deveria ter dito. Sempre queremos o que não podemos. Uma cerveja é tão mais gostosa quando está na geladeira lá de casa e nós no trabalho. Quando finalmente batemos o ponto e corremos entre os carros para finalmente chegar em casa a cerveja é uma maravilha só. Corremos e passamos nos faróis abertos, empurramos pessoas no metrô e a cerveja dá água na boca. Ao abrir a porta enferrujada da geladeira e Deus, como estávamos esperando por esse momento, pegamos a lata na mão, nesta hora até agradecemos aos deuses e esquecemos de pedir perdão por quase matar aquela velhinha de susto no caminho. Tiramos o lacre da lata e agora só Jesus pode nos compreender tamanho prazer e ereção por ter uma lata de cerveja geladíssima em nossas mãos naquele calor insuportável, tanto que esquecemos de afrouxar o nó da gravata. Humm o primeiro gole. Delícia. Mas nunca é lá grande coisa. Não foi tudo aquilo que imaginávamos quando corremos como desesperados. Quanto mais perto você está da lata, menos gostosa ela será. Logo, você chega á conclusão que se estivesse parado em algum bar e tomado meia dúzia de latas seria bem mais prazeroso.

Bem, queremos algo só enquanto não podemos ter, depois que temos, acabou. Posso jurar que algum grande poeta disse isso, mas Vinny diz que não. Eu digo que Vinny não entende nada de literatura, ele só gosta de quadrinhos japoneses. Ele diz o nome de algo que me fez achar que tirou de um cardápio de restaurante japonês, mas ele diz ser o maior poeta da atualidade, maior até que Nelson Rodrigues. É então quando eu tenho certeza que ele não entende nada de literatura.

 - Cadê minhas moedas, preciso de um trago. Vinny diz enfiando as mãos nos bolsos tentando achar alguns trocados.
Eu digo que tenho dinheiro e que se quiser podemos ir buscar uma ou duas garrafas de uma vodca barata para acabar a noite bem. Eu não quero dizer com isso que o que estávamos fazendo era certo. Afinal, ficarmos bêbados durante dois ou três dias seguidos para esquecer um grande pé na bunda não é a melhor opção para os covardes. Nós éramos fortes. Bem, eu pelo menos já estava acostumados. Já tive meus demônios e tive que expulsá-los com grandes doses de álcool.  Não consegui fazê-los irem embora, mas pelos menos me tornei amigo deles.

Algumas pessoas não foram feitas para beber. Não para beber como nós, como gente grande. Daqueles que bebem e voltam pra casa. Conheço vários caras que bebem e batem na mãe, nas esposas e amantes, nos filhos. Arrumam brigas e quebram o bar. Não éramos desses. Eu só saio pra beber de segunda à quinta. Os outros dias eu prefiro beber em casa. Nos finais de semana têm muitos bêbados de fim de semana. Bêbados amadores que não sabem beber e saem fazendo merda por aí. Nós éramos bêbados profissionais. Com carteirinha e diploma.
Você sabe quando é um bêbado profissional quando o garçom já te conhece pelo nome e o nome de seus filhos, pois já ficou de porre várias vezes e contou sua vida inteira para o garçom e até para os mendigos que passava na rua pedindo um ou dois reais para comprar um "barrilzinho" de pinga e espantar o frio e a fome. Por isso eu prefiro beber em casa. Vinny não era um bêbado profissional igual a mim, mas estava no caminho certo. O fato é que ainda estávamos com as pernas firmes e eu tinha um bônus no bar próximo da casa de Vinny, logo, uma ou duas garrafas de vodca não seriam nada difícil de arrumar. Ele disse: Tudo bem, tudo bem.

Acendemos nossos cigarros e partimos em direção ao bar. Agora caia uma fina garoa lá fora e as pontas dos nossos dedos estavam congelados. Andávamos e fumávamos com uma das mãos no bolso e depois trocávamos. Era uma garoa gelada, o frio cortava o bigode e faziam os olhos lacrimejarem. Vinny foi o caminho inteiro contando como era namorar Ludimila e podia jurar que sabia o exato momento em que a engravidou. Dizia que pôde sentir seu esperma fecundando o óvulo de Ludimila. - Eu ouvi cara. Eu vi com esses olhos aqui. É como se eu pudesse ver através dos olhos da porra que acertou o alvo. A gente pode ver essas coisas cara.

Eu falei que era impossível. - É impossível cara. Porra não tem olhos.

 - E como é que eles acham a sementinha?
Está aí uma pergunta que eu não podia responder. - Sei lá cara. Tem coisas que simplesmente acontecem.

 - Eu vi cara. E Vinny começou a chorar e contar como conheceu Ludimila.

Estava difícil de aturar um marmanjo daquele tamanho choramingando ao meu lado, mas amigo também serve pra isso. Só que apertei o passo, pois, mesmo sendo muito amigo de Vinny, eu precisava daquelas vodcas para continuar sendo amigo dele.

Finalmente compramos as vodcas e os cigarros e tomamos o caminho de volta para casa de Vinny. Ele continuou a reclamar da vida, colocando a culpa em Deus, no diabo, no álcool. Disse que iria parar de beber se Ludimila voltasse para ele. Eu disse que Deus, o diabo e o álcool não tinham nada a ver com aquilo. Afinal, fora Vinny quem decidiu trair Ludimila com a melhor amiga da garota. - Você não viu através dos olhos de sua porra que você derramou na boca da amiga dela a merda que estava fazendo cara?  Vinny não achou meu sarcasmo tão engraçado e começou a chorar novamente, sem parar, eu não queria aquilo, mas porra! Toda aquela fossa já estava dando no saco. Decidimos abrir umas das garrafas de vodca e ir bebendo pelo caminho.

 - Meu brother, uma coisa eu te prometo. Se a Ludimila me perdoar eu nunca mais vou olhar para uma garota. Nunca mais, você tá me entendendo? Vinny disse olhando em meus olhos, tentando manter certo equilíbrio nas pernas.

 - Não prometa essas coisas que dá azar cara. Eu disse sem acreditar na promessa.

Vinny fez que não me ouviu e voltamos em direção de sua casa quando ouvimos seu celular tocar. - Ei cara. Shiuuu. É a Ludimila.

Eu acendi mais um cigarro e dei outro gole na vodca.

 - Oi meu amor. Como é bom ouvir sua voz... Uhum sei. Claro amor. Me perdoa. Nunca mais vai acontecer. Eu juro... Eu juro. Não chora. Eu prometo... Uhum. Não, não, não. Nunca mais... Fica tranquila. Nos vemos amanhã então. Uhum. Dorme bem amor. Te amo também. E desligou.

 - E então? Perguntei curioso.

 - Ela me perdoou cara. Ela me perdoou.

 - Ufa! Vamos beber a isso então. Entreguei uma das garrafas para Vinny.

 - Vamos cara, vamos encher a cara. Vinny deu um grande gole tomando a direção contrária a sua casa.

 - Ei cara, aonde vamos? Eu quis saber.

 - A Úrsula me tá dando uma festa na casa dela. Tem várias garotas lá. Vem comigo cara.

 - Mas cara, e a Ludimila? E aquela história de "se ela me perdoasse"? Perguntei lembrando-o das promessas que ele tinha acabado de fazer a si próprio.

 - Que isso cara? Ela já me perdoou, vamos comemorar. E outra. Eu disse que não transaria mais com a melhor amiga dela. A Ludimila odeia a Úrsula.

 Bem, eu não tinha prometido nada a ninguém. - Ok. Tô dentro.

É verdade. Só queremos aquilo que não podemos ter.



Bento.

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