terça-feira, 21 de maio de 2013

EM MEIO A GARRAFAS VAZIAS

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Guedes desceu do ônibus e entrou no mercado como fazia todos os dias de sua vida. Na seção de congelados pegou todo tipo de alimento de preparo rápido e fácil e colocou no carrinho de compras.

Na seção de bebidas reforçou seu estoque de cervejas e destilados e foi até o caixa que já conhecia pelo nome e sabia de toda sua vida. Era um mercadinho de bairro e Duda era caixa e amigo de Guedes há anos. Os dois compartilhavam de vidas parecidas. Empregos medíocres, divórcios mal resolvidos e dívidas, muitas dívidas.

A mulher de Guedes fora embora para casar-se com uma outra mulher. Já Duda era gay, e seu companheiro recebeu uma oferta de trabalho no exterior e não pensou duas vezes em mudar-se. Vez ou outra os dois subiam ao telhado da casa de Guedes e sentados em cadeiras de praia enchiam a cara e choravam copiosamente lamentando seus amores perdidos.

 Guedes pagou a soma dos produtos e partiu para sua casa.

 - Passe lá em casa para bebermos algo Duda.

 - Estava pensando em ver o jogo hoje, tudo bem pra você?

 - Fechado.

 - Nos vemos quando eu sair.

 - Te espero... Se despediu Guedes.

No caminho de casa Guedes abriu uma longneck para matar a sede e foi pego por uma breve lembrança de sua esposa Serena. Quando como sentavam no sofá em frente à TV para verem seriados americanos antigos. Compravam todas as temporadas e todos os dias passavam horas assistindo Friends, Simpsons, Buffy entre outros. Guedes preferia mistérios como Arquivo X. Serena gostava de comédias. Era lindo, pensava Guedes.
O homem acabou sua cerveja no meio do caminho e procurava uma lixeira para descartar a garrafa vazia. Praguejou contra a Prefeitura por não repor as lixeiras vandalizadas.

 - Inferno de políticos filhos da puta.

Bem, pelo caminho haviam vários sacos de lixo nas calçadas em frente as casas. Era dia do caminhão de lixo passar por ali e Guedes então fez o que era mais fácil. Repousou a garrafa vazia de cerveja em cima de um dos sacos de lixo e seguiu seu caminho. Claro que quando os garis passassem levariam os sacos e sua garrafa e assim sua consciência estaria limpa. Guedes odiava aquelas pessoas que jogavam lixo na rua e ele nunca fazia isso.
Finalmente chegou em casa e tomou uma ducha rápida. Colocou as cervejas para gelar, preparou uma lasanha congelada e comeram e beberam, ele e Duda. Subindo no telhado após o jogo para ficarem bêbados e chorarem por seus amores perdidos ouvindo Bob Dylan como trilha sonora. No dia seguinte de manhã tentava superar a ressaca para mais um dia de trabalho medíocre. Como fazia todos os dias.

E como todos os dias Guedes voltou a descer do ônibus no mesmo ponto, passar no mercado, cumprimentar Duda, repor o estoque de cervejas e destilados. Pagar Duda, tomar o mesmo caminho para casa e abrir outra garrafa de cerveja no caminho. Todos os dias era a mesma coisa. A rotina, a monotonia e os porres ao som de Rock que faziam com que ele chorasse por seu amor perdido. Mas no dia seguinte do jogo que assistira com Duda ele passou pelo mesmo lugar que havia jogado a garrafa de cerveja e a viu lá ainda. Os sacos de lixo tinham sido recolhidos todos, menos a bendita garrafa verde de cerveja. Guedes aproximou-se e ela estava lá, repousando na grama que teimava em crescer por entre as rachaduras da calçada de concreto, como um leito.

Algo naquela cena da garrafa deitada ali sozinha na grama o fez identificar-se com a situação da mísera garrafa. Guedes já chorava por pensar na solidão dela. Na noite fria que ela passara sem ninguém para conversar, desabafar. Sem ninguém.
O homem então recolheu a garrafa com todo cuidado e levou consigo para casa.
Improvisou uma cama com caixa de ovos para a garrafa e jantou e viu TV com a garrafa ao seu lado.

Para Guedes esse mundo não era justo. Ninguém merecia permanecer assim sozinho, abandonado. Ele e a garrafa tinham muita coisa em comum. Ninguém mais os queriam por perto, foram descartados como lixo não reciclável. Só que agora isso tinha acabado. Tinham um ao outro. Nunca mais seriam solitários, pois tinham um ao outro.

Guedes levava a pequena garrafa de cerveja vazia para o telhado e bebia e chorava ao som de Aerosmith e The Beatles na companhia da garrafa vazia de cerveja. E Guedes só fazia isso. Passado algum tempo Guedes já não ia mais ao mesmo mercado para não encontrar Duda. Seu amigo insistia ligando e indo até sua casa para que pudessem desfrutar da companhia um do outro e Duda precisava muito disso. No entanto não conseguia encontrar o amigo nem com telefonemas, nem em suas visitas. Por vezes Guedes permanecia sem fazer barulho quando seu amigo tocava a campainha para não denunciar que estava em casa. Guedes só queria a presença de sua garrafa. Só isso bastava. Jantavam juntos, dormiam juntos e ouviam Rock Clássico juntos. E Guedes não precisava de mais nada.


Bento.

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