sábado, 4 de maio de 2013

O CUNHADO


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Todos na vigília do defunto e o cheiro de flores deixava o ambiente mais triste. Vizinhos, familiares e o padre, ninguém tinha certeza de quem tinha morrido. “Quem morreu? Morreu quando? Morreu do quê?”

-  Morreu de tiro. Alguém disse e um Fulano ao fundo perguntou.

-Tiro, de quem?

-Ninguém sabe, só se sabe que foi ladrão.

- Quem morreu, Pascoal?

- Mortinho da Silva. Uma pena. Sentenciou Dr Oliveira advogado e vizinho da família há anos.

- Tão dizendo que quem morreu foi Felix.

- Imagine Lola, não tá vendo a viúva chorando como criança, quase morta como o marido?! Constatou Miro, marido de Lola e primo dos irmãos Félix e Pascoal.

Lola então previne: - Isso aí é choro de amante e não de viúva.

- Basta mulher! Quanto veneno nessa boca, te levo pra casa agora se não deixar de falar besteira. Ameaçou o marido e Oliveira resolveu intervir naquele buchicho: - Vocês fazem o favor de respeitar essa hora de dor, hein?! Ponho os dois para fora.

Cada vez chegava mais gente na casa e o velório já parecia reunião de condomínio. Tinha gente ali que não tinha qualquer afeto, nem por um, nem por outro, mas a curiosidade de saber quem se fora "dessa para melhor" atiçava o povo. "Quem foi que morreu gente?" "Mas morreu mesmo, hein?" "Quem, quem?"

É importante dizer que Félix e Pascoal eram irmãos gêmeos, tão iguais que a própria mãe confundia-se.
Pascoal era o mais esperto, elegante e vaidoso visitava o salão de beleza com mais frequência que a mulher. Casado com Terezinha há cinco anos quase, mantinha em casa a imagem de bom marido, fiel e carinhoso, mas na rua todos sabiam que Pascoal não perdoava nem mãe de amigo. "Gostar de mulher não é pecado, ou é?" se justificava para os amigos na mesa do bar e Fontoura que era amigo de infância concordava com a cabeça e brindavam com o copo de cerveja.

Pascoal tinha tantas amantes que para não correr o risco de trocar os nomes das moças chamava todas de "meu anjo" e elas adoravam. Porém, em casa com sua mulher era tão sério quanto o irmão. Não permitia que a mulher em hipótese alguma usasse roupas curtas e mantivesse qualquer amizade com outro homem, nem os primos de Terezinha podiam falar com ela sem a presença do marido.

Já Terezinha era mulher tímida, fora oprimida pelo pai desde menina e continuava agora pelo marido. Ingênua como criança colocava as duas mãos no fogo pela fidelidade do esposo e viviam assim.

Pascoal trabalhava como caixa no banco, saia do trabalho e religiosamente parava no bar perto da agência que usava como ponto de encontro para seus casos. Terezinha não trabalhava fora, dona de casa exemplar, mantinha o horário do jantar mesmo com os atrasos do marido.

A casa então era sempre bem arrumada e com cheiro daqueles produtos de limpeza com aroma do campo. E todos os dias sua rotina era assim, limpava a casa e assistia televisão. Via o casal romântico na novela e suspirava pensando em como era boa sua vida com Pascoal.

A única visita que a dona de casa recebia era a de seu cunhado Felix, este era solteiro e mais contido que seu irmão. Puxou a religiosidade da mãe e vivia com a bíblia debaixo do braço, só bebia em dia de festa e olhe lá.

Pascoal tinha duas vidas é bem verdade, era um em casa e outro na rua, mas a única que não sabia disso era sua mulher. Felix sofria do mesmo mal que o irmão, no entanto escondia de todo mundo, solteirão que era, nunca fora visto com uma mulher e as más línguas já falavam pelas suas costas que o que ele gostava mesmo era de homem.

- Irmão, você tem que casar, eu vou apresentar um casinho meu que eu queira dispensar pra você tirar o atraso. Prometia Pascoal.

Mas a única mulher que Felix se interessava Pascoal não poderia lhe ceder, pois era casado com ela. Terezinha sempre foi o amor da vida do cunhado e este só não se declarava com medo do irmão. Porém, depois que descobriu que Pascoal traia a mulher passou a tentar abrir os olhos da cunhada.

- Você confia demais no Pascoal, não acha estranho ele chegar tarde todos os dias?

- Ele trabalha no banco Felix, só pode sair de lá depois do último cliente. Ponderou a ingênua.

- Ainda acho que você deveria segui-lo para ver com seus próprios olhos o que ele faz e fala no bar. Insistiu o irmão invejoso sem muito sucesso.

- Como se eu não conhecesse vocês homens. Vivem inventando causos para parecer mais macho que o outro. Muito me admira você no bar, sempre tão regrado. Rebateu a cunhada.

Felix por ser gêmeo não conseguia escapar das comparações com o irmão e sempre fora julgado como o mais correto entre os dois, o que na opinião dele era ser menos esperto. Então ao ouvir sua amada fazer também aquela comparação não conseguiu conter-se. Pegou a cunhada pelos braços e lhe deu um beijo que as línguas chegaram às orelhas. A mulher sem ar tentando recuperar o fôlego repreendeu o cunhado - Você nunca mais faça isso, ouviu?! Sou uma mulher casada e tal e tal.

- Eu vou provar que Pascoal te passa pra trás e você vai se vingar dele comigo, ouviu?! Vai se vingar comigo! Prometeu Félix com um sorriso satisfeito na boca e saiu batendo a porta.

E ele cumpriu a promessa. Pediu para que um amigo, o Lorenzo, do tempo de escola, fotografasse as puladas de cerca de Pascoal. Lorenzo era estagiário no Jornal do Metrô e como todo estagiário come a unha para ter o que comer não pensou duas vezes em aceitar os trezentos conto que Felix ofereceu para pegar o irmão no pulo. Então o Lorenzo ficou do outro lado da rua, em frente o Bar do Caju e esperou que Pascoal entrasse com mais uma conquista.

No dia seguinte Felix chegava à casa de Terezinha no mesmo horário de sempre e dessa vez tinha um envelope debaixo do braço.
Após ouvir a campainha Terezinha foi abrir o portão para o cunhado já com o envelope apontado para o seu rosto.

- Aqui está a prova que te prometi.

- Ainda com essa história Felix? Você deveria ter vergonha de falar mal do seu irmão assim.

- Só quero que você enxergue a verdade e deixe de ser enganada por aquele safado. Felix falava e sorria pelo sucesso do plano.

Terezinha não pegou o envelope, deu passagem para o cunhado entrar e foram para a cozinha. Felix sentou-se cuidando para que o envelope pardo ficasse em cima da mesa à vista da cunhada amada.

Terezinha serviu duas xícaras de café e começou a desconversar - Um calorão que tá hoje né?!

- Você vai abrir o envelope ou não? Adiantou-se o cunhado cheio de libido.

- Não adianta Felix, tudo o que você fala eu não acredito por que eu amo o Pascoal e sei que ele me ama.

- Agora eu tenho provas. Provas! Veja as fotos.

Felix abriu o envelope pardo e aproximou as fotos do rosto da cunhada.
Ela por sua vez, numa tentativa de negação desviou o olhar, mas Felix enfiou os dedos nos longos cabelos da mulher por trás da cabeça e forçou que ela olhasse. Terezinha passou a ver as fotos e misturou choro por ver seu marido com outra e por ter seu cabelo puxado com violência pelo cunhado. Uma a uma o irmão traidor mostrava as fotos do irmão adúltero e Terezinha deixou-se cair ao pé da pia da cozinha em prantos (veja, eu disse prantos e não pratos).

Félix não via a hora de ter seu prêmio nas mãos, ele cumpriu a promessa e agora queria que a cunhada se vingasse do marido através do corpo dele. Desabotoou a camisa, primeiro os punhos depois o resto. Já tinha o peito nu e partiu pro cinto retirando a calça e Terezinha o olhava de baixo com olhos cheios de lágrimas sabendo o que o cunhado queria e num misto de raiva e desejo de vingança não negou Felix. O sexo começou ali mesmo na cozinha.

***

Fontoura aflito esperava pelo amigo Pascoal na mesa do bar, mas dessa vez trocara a cerveja pelo San Remy, pois tinha uma má notícia para dar ao amigo. Quando o viu atravessar a rua e se dirigir ao bar.

Pascoal alegre como sempre - Fala, meu querido. Começou tomando um quente hoje?

- Senta aqui, senta aqui que eu tenho uma bucha pra te mostrar. Apressou-se Fontoura.

- Fala aí que que tem?

Fontoura então mostra o Jornal do Metrô com uma foto de Pascoal e Lidiane, a mulher que conhecera no banco e tinha levado ao motel no dia anterior. Lorenzo, o fotógrafo amigo de Felix, misturou as fotografias de Pascoal e o casal de atores que deveria fotografar para o jornal.
Pascoal gelou ao ver a foto.

- Mas que merda é essa Fontô? O que eu to fazendo na porra do jornal?

- Isso eu não sei, mas se sua mulher ver você tá na bosta. Profetizou o amigo.

- Deixa eu ver que jornal é esse. "Jornal do Metrô?" Ah, relaxa meu amigo, a Terezinha não sai de casa, jamais vai ver esse jornal. Pascoal tranquilizou-se, mas o amigo o preveniu:

 - Ela não, mas notícia ruim corre rápida. E se alguém mostrar pra sua mulher?

-Você tá certo Fontô, em todo caso... Melhor eu ir, abraços.

Pascoal tomou o San Remy de Fontoura num gole só e partiu com pressa para sua casa.

Chegando lá se ouvia barulhos do cunhado e Terezinha na cozinha. Gemidos que foram facilmente identificados por Pascoal. Não pensou duas vezes, nem esperou para ver quem era o maldito que estava em sua cozinha com sua mulher. Foi até o móvel da sala e apanhou sua pistola e seguiu o barulho.
Ao adentrar a cozinha era como assistir a um filme pornô onde ele era o ator e sua mulher a atriz. Vira seu irmão gêmeo por trás de Terezinha adentrando a moça com toda sua força e os dois transpiravam em bicas até notarem a entrada do dono da casa que apontava a arma para os dois.

- Seus dois filhos da puta! Inconformou-se Pascoal.

Felix parou ao ver o revólver.
Terezinha ainda mantinha o prazer do sexo no rosto suado.

- E você sua vadia, na minha casa e com o meu irmão? Terezinha ameaçou falar, mas Felix tomou a frente:

 - Não chama ela assim. Você não está falando com essas putas que você come na rua não.

-Seu merdinha invejoso, sempre quis tudo que é meu. Pascoal retrucou.

- Você me traiu todo esse tempo meu filho, você só tá colhendo o que plantou. Terezinha mostrava a força e atitude que nunca tivera.

- Você vai acreditar no que esse merda fala Tereza? Não tá vendo que ele morre de inveja por você ter casado comigo e não com ele? Pascoal tentou se defender.

- Está tudo aí, olha as fotos mano.

E Felix apontou para as fotografias que estavam na mesa.
Pascoal só precisou olhar de longe a foto que lhe entregara e que já tinha visto no jornal que seu amigo segurava no bar.

Pascoal era tudo, menos um assassino. E não iria começar a matar justamente sua mulher e seu irmão. Desconsolado deixou o revólver cair no chão e virou as costas a caminho da saída. Eis que Terezinha nua abaixa-se para apanhar o 22. e descarregou toda a munição nas costas do marido. Continuou atirando mesmo depois das balas terem acabado e só parou quando Felix tirou a arma de suas mãos.

- D-Droga! E agora? A traída agora vingada se lamentava.

- Calma meu amor, eu dou um jeito nisso, vá se lavar.

Quando Tereza voltou a encontrar Felix na cozinha ele já tinha tudo planejado. Seria fácil como descer um barranco rolando.

- Tereza minha vida, tive uma grande ideia para limpar essa bagunça toda. A partir de hoje, eu sou Pascoal e este que está no chão, o Félix. Morto num assalto. Fácil, fácil...

- Mas e se descobrirem que quem está vivo é você? Como é que você vai se passar por Pascoal? Indagou a assassina traída.

- Como? Só quem consegue nos diferenciar é você e mamãe, mas esta já está no céu. Que Deus a tenha.

 - Mas tem o pessoal do banco. Os amigos de Pascoal...

 - Não se preocupe amor, eu dou um jeito neles. Corto as amizades se for o caso e digo que é por culpa da depressão de ter um irmão assassinado por um ladrão.

E assim foi o velório até o enterro. A assassina de Pascoal se fazia de cunhada inconsolável. Tanto que Félix, que se passava por Pascoal dizia para sua ex-cunhada e agora mulher para chorar um pouco menos, que já tava dando pinta.
Já Pascoal descansava em seu caixão, morto à balas, maquiado, com roupas e sentimentos oferecidos em nome de Félix.


Bento.

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Um comentário:

Mari disse...

Meu Deus! Que conto fabuloso!