quinta-feira, 6 de junho de 2013

SENHOR APAIXONADO

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Então José Armando chegou à recepção do hotel muito orgulhoso. Deixou as malas no chão e pediu um quarto para a recepcionista que tinha os maiores seios que ele já tinha visto na vida. Tudo bem, a tal da recepcionista tinha tudo grande. Lábios enormes, bochechas de Bulldogs, mãos gordas com dedos gordos e unhas imensas pintadas de vermelho. Só que o que realmente chamou a atenção de José Armando foram as tetas gigantescas da funcionária do hotel que ela apoiava no balcão. José pensou que deveria pesar muito, por isso as tetas estavam espalhadas pelo balcão, assim como copos descartáveis de café, um maço de cigarros paraguaio e uma folha de controle de quem entra e quem sai.

 - Boa noite.

 - Boa...

 - Um quarto, por favor. Pediu o homem.

 - Só por hoje?

 - Por enquanto sim.

 - Débito ou dinheiro? Quis saber a moça.

José alcançou a carteira no bolso esquerdo do paletó, retirou o cartão e entregou para a atendente.

 - Débito...

 - Preciso de sua identidade. Falou a moça.

Armando voltou a abrir a carteira para entregar sua identidade surrada à gorda.

Agora com o cartão e a identidade em mãos a recepcionista com cara de Bulldogs riscava a folha de controle do hotel.

José mantinha um sorriso satisfeito no rosto. Estava ali por causa do trabalho. Acabara de ser promovido a gerente de vendas de uma empresa de cosméticos para cachorros. A empresa tinha como matriz um prédio caindo aos pedaços no interior de São Paulo e ele estava ali para dar uma palestra sobre técnicas de vendas para uma dezena de funcionários de uma filial na capital. Era um grande orgulho estar ali. Finalmente fora reconhecido em seu emprego. Depois de anos como o melhor vendedor de toda a rede de cosméticos, sua promoção chegou e agora ele iria passar todo o seu conhecimento para os novos funcionários. Já tinha ensaiado seu discurso dúzias de vezes em frente ao espelho. O terno era de seu falecido pai que sua mãe deixara horas sob o sol para que saísse o cheiro de mofo. Mas seu pai era um pouco maior e mais gordo que José o que fazia com que o terno ficasse largo. Os sapatos tinham sido comprados em 12 parcelas e a diária do hotel estava sendo paga com suas economias, pois o setor financeiro da empresa lhe entregou apenas cinquenta reais em notas amassadas de dez para despesas com hospedagem e alimentação. No entanto o novo gerente de vendas era só pose e para mantê-la preferiu usar seu cartão.

José Armando tinha o peito estufado enquanto dava asas ao seu devaneio sobre como seria a tal palestra. Já podia ver os olhares interessados e analíticos fuzilando seus gestos, suas pausas, sua dicção. Armando fez uma anotação mental para não esquecer de fazer gargarejo com o xarope caseiro que sua mãe preparou e colocou em sua mala.

Finalmente seus pensamentos foram interrompidos pela funcionária do hotel segurando o cartão, sua identidade e a chave do quarto nas mãos gordas, com unhas vermelhas em sua direção.

 - Aqui está Senhor Apaixonado. Quarto 12.

 - Como? O gerente perguntou.

 - Quarto 12. Só virar a esquerda.

 - Não, não. Do que você me chamou? Senhor o quê?

 - Apaixonado. A recepcionista falou arqueando uma das sobrancelhas e demonstrando a mesma impaciência de sempre.

 - Desculpe. Meu nome é José Armando. Disse o homem, um pouco sem graça.

 - Bem, que seja. Se você quer ser chamado de José Armando, José Wilker ou a puta que pariu. Desde que não roube nada do quarto.

José foi buscar em seu âmago toda a paciência de budista que não era para responder a moça. - Mas senhora... Posso te chamar de senhora? Não esperou que a gorda respondesse e prosseguiu. - Quero que me chame de José Armando, pois esse é meu nome.

Mostrou a identidade que a própria recepcionista tinha acabado de lhe devolver e a moça arqueou a sobrancelha novamente.

"Que porra de sobrancelha maldita." Irritou-se José e olhou para a identidade que tinha sua foto. Com cabelo engomado, óculos de grau e uma cara idiota. Abaixo da fotografia estava seu nome. Senhor Apaixonado.

 - Mas será o Benedito?! Só pode ser alguma brincadeira do pessoal do escritório.

Armando justificou-se para a mulher. Olhou seu cartão do banco e lá estava o mesmo nome. Senhor Apaixonado. Já vermelho de vergonha e de raiva José andou a passos largos para o quarto 12.

Mal colocou as malas para dentro do quarto e já estava ligando para o escritório para descobrir o maldito que fez aquela pegadinha com ele. Ninguém atendeu. Reparou que já era tarde e já havia acabado o expediente. - Mas amanhã aquele crápula não me escapa. Vou exigir sua demissão. Onde já se viu brincar assim com um Gerente de Vendas.

O homem andava de um lado para o outro tentando acalmar-se. De repente estavam batendo na porta do quarto. Ao abrir deparou-se com dois homens de terno escuro e correntes douradas penduradas ao pescoço que serviam de suporte para os distintos da polícia. Eram altos e fortes os homens. Cabelos bem cortados, rostos firmes. Um branco e um negro. O negro tratou das apresentações.

 - Boa noite. Eu sou o Detetive Franco e este é o Detetive Bráulio.

 - José Armando. Muito prazer detetives. Em que posso ser útil? Quis saber José e Franco falou novamente.

 - Pensei que seu nome fosse Senhor Apaixonado.

 - Não, não detetives. Está havendo algum mal entendido. O pessoal do escritório...

 - O senhor está mentindo para a polícia Senhor Apaixonado? Foi a primeira vez que Bráulio falou.

 - Evidente que não senhor Det. Eu jamais...

 - O Senhor está preso. Faça o favor de vir conosco. Bráulio tirou as algemas do bolso de trás e com agilidade torceu o braço de José Armando.

 - Mas, mas... Vocês não podem me levar. Eu tenho uma palestra para dar. Sou gerente de vendas...

 - Não diga nada senhor. Tudo que disser poderá ser usado contra você no tribunal. Sentenciou Franco.

José Armando entrou na viatura com seu terno maior que o corpo sem entender o que estava acontecendo.

Uma hora depois, Armando estava sentado numa cadeira de ferro, nu, numa sala que mais parecia um porão. Úmida, mal cheirosa e pouca iluminação. Só se via uma porta, a pequena lâmpada acima de sua cabeça e os dois Det. A sua frente.
Suas duas mãos amarradas atrás das costas e as duas pernas amarradas junto aos pés da cadeira. Sendo assim impossível movimentar-se. Os olhares dos detetives eram compenetrados e impiedosos. Próximos aos dois detetives havia uma pequena mesa que servia de suporte para uma série de objetos sortidos. Um balde plástico de água, uma toalha de rosto, um alicate, martelo, navalha, uma faca de açougueiro e um maçarico. José não sabia qual a utilidade daquilo tudo mas logo iria descobrir.

Bráulio foi até a mesa, pegou a toalha e colocou dentro do balde plástico. Seu companheiro se colocou às costas de José de modo que pudesse segurar a cabeça dele para trás.

 - Última chance safado. Qual o seu nome? Perguntou o Det. Franco.

 - O que vocês vão fazer comigo? Eu já disse, me chamo José Armando.

 - Bom Senhor Apaixonado. Você teve sua chance. Bráulio...

Era a deixa para o Det. Bráulio começar a forçar Armando a dizer o que os detetives queriam ouvir. Para tirar-lhe tal informação o Det vestiu a toalha no refém de forma que ela cobrisse todo o rosto do homem. Pegou o balde e começou a despejar toda a água que nele havia, simulando uma espécie de afogamento. Devagar e constantemente a água era despejada dificultando cada vez mais a respiração do torturado. José debatia-se tentando buscar ar.

 - Já está bom Bráulio. Não quero matá-lo tão rápido. Franco freou o ímpeto de seu parceiro.

Os dois detetives cessaram a água, mas passaram a agredir o homem com socos e pontapés. Mais socos e o rosto de Armando já estava todo ensanguentado.

 - Assuma logo homem. Diga qual seu verdadeiro nome. Diga que você é o Senhor Apaixonado para acabarmos com isso de uma vez por todas.

Franco falava tentando ser convincente de que queria acabar com as agressões e talvez quisesse mesmo. Enquanto José, agora com alguns dentes a menos na boca só repetia que não sabia o que eles queriam, mas que seu nome era José Armando.

 - Me chamo José Armando. José Armando...

Bráulio que sempre se mostrara mais agressivo foi até a mesa com objetos de tortura. Voltou com um alicate e Zé arregalou os olhos tentando imaginar qual seria a agressão da vez. Bráulio não fazia questão de esconder que aquilo era como um parque de diversões para ele. Mostrava habilidade com os instrumentos de tortura e agora tinha a orelha esquerda de Armando nas pontas do alicate e começou apertando a cartilagem que fazia com que o torturado gemesse de dor. Mas não era o bastante, Bráulio queria mais, então resolveu começar a torcer a orelha esquerda de José. Torceu, torceu e o homem que tinha sua orelha torcida gritava como uma criança. Franco limitava-se a segurar a cadeira para que o homem que debatia-se de dor não tombasse no chão. A orelha torcida sangrava e homem gritava. Bráulio sorria e torcia. Quando surpreendentemente a cartilagem desprendeu-se da cabeça de Armando ficando pendurada nas pontas do alicate. José agora gritava ainda mais, não pela dor, mas por ver sua orelha separada de sua cabeça. Franco fez cara de nojo e virou o rosto. Bráulio balançava a orelha causando mais desespero em José.

 - Agora já chega! Franco gritou chegando a assustar Bráulio e Armando. Retirou a 380. do coldre e puxou a cabeça do homem sentado na cadeira para trás. Enfiou o cano na boca dele e ameaçou. - Chegou sua hora cão.

Armando tentava suplicar pela sua vida, mas o cano da arma atrapalhava a fala.
O Det. engatilhou a pistola e perguntou ao homem.

- Você vai morrer agora. Aproveita para se despedir, alguém pra gente mandar o corpo?

 - B-bem, tem... Tem uma garota... Que depois de um beijo...

Armando tentava responder quando o gatilho da arma foi acionado e sua cabeça perdeu para trás com um buraco de bala na testa.



Bento.

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