quarta-feira, 31 de julho de 2013

QUEM NÃO RECONHECE UMA JANELA NÃO PODE RECLAMAR DO CHEIRO DE MOFO POR FALTA DE SOL

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Ainda bem que passamos anos em aulas de escrita, pois se tivéssemos que falar sobre o engenho de janelas estaríamos fadados ao ostracismo. Eu pouco sei, você se mostra saber menos ainda.

Isso foi um devaneio qualquer que teimava em latejar em minha cabeça enquanto esvaziava algumas latas de cervejas que sobrara na geladeira da festa privada que houve em meu quarto na noite anterior.

Por falar nisso, lembrei que uma vez fiquei trancado para fora, tinha perdido as chaves em algum lugar que sentei-me para beber. Nos raros momentos que não trago o bar para meu lar eu vou até Maomé como a montanha fez. Só para variar. Foi neste caso que percebi um grande problema em meu quarto. Não tem janelas. Tenho três vitrôs e nenhuma janela. Ninguém pula um vitrô. Essa é a diferença entre janelas e vitrôs. Vitrôs são como ilusões de liberdade, por eles você vê o mundo do lado de fora, mas jamais poderá desfrutá-lo através deles.

Uma janela sim. Você abre, pula, como criança fazendo arte e toma o mundo para si. Já um vitrô é como ir à praia de sapatos. Você vê a areia e o mar, mas não pode tocá-los. Entende a diferença?


E tudo bem também se está satisfeita com os diálogos quinzenais, bom, eu não. Mas se tem medo de perder o cargo de musa, fique tranquila, isso é vitalício.


Bento. 

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terça-feira, 30 de julho de 2013

DÉCIMO SÉTIMO DIA DESTE MÊS CANCERIANO

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Por um acaso eu lembrei que ficaria mais velho neste mês. Uma atendente nova na loja de bebidas que faço minhas compras semanalmente pedira minha identidade para provar que eu era maior de idade. Vê se pode? Com essa cara de Bon Vivant, escrevinhador dramático e incoerente, após tantos anos me vi tendo de provar idade para comprar uma bebida? Então por isso, acabei me lembrando que ficaria ainda mais velho neste mês. Por sinal, eu odeio aniversários.
Não o aniversário só, mas os telefonemas de pessoas que não dão a mínima para porra nenhuma que eu faço e se sentem na obrigação, como se fosse algo muito educado dar-me as felicitações.

Tudo bem, também não faz muita diferença quando você tem que lidar com idiotas o ano todo, um dia mais outro menos não me causaria muita dor de cabeça. O que realmente me assusta em todos esses dias dezessete deste mês canceriano são os cabelos brancos que insistem em multiplicar-se. Este cronometro que não para de regredir até chegar ao zero. E é muito mais nestes dias que eu me pego lembrando que eu não conquistei nem um quarto do que planejava há dez ou quinze anos atrás. Em contrapartida eu não estou careca, barrigudo e com alguns filhos pendurados em meu orçamento mensal. O que me permite gastar ainda mais com bebidas, cigarros e noites intermináveis. Ah essa minha teimosia de querer ver um lado bom para tudo.

O fato é que sou um cara velho, bem mais velho que minha idade diz. Abro um parênteses agora para dizer que a meia hora atrás eu via o presente como desesperado, após alguns drinks está tudo bem obrigado. Também é fato que sou um dinossauro contemporâneo com gostos estranhíssimos e um bom senso extremista que mais me atrapalha do que me ajuda. Portanto, é mais um ano, ou menos um ano de vida para raspar a merda do sapato que acumulei durante a idade e continuar caminhando.
E o corpo acusa.
Te faz lembrar que você não é mais um garoto de 16 anos que se regenera como um mutante. O fígado já te pede para pegar mais devagar, que talvez ele precise de férias. O problema é que quando trabalho bebo por ter de trabalhar e quando estou de férias, bebo por estar de férias, ou seja, meu fígado que vá atrás das leis trabalhistas que ele achar que tem direito. Ou até o dia dele me deixar na mão e eu não ter mais que me preocupar com aniversários, com pessoas idiotas se sentindo na obrigação de me dar felicitações quando passam o ano inteiro torcendo pela minha tristeza, afinal, nenhum escrevinhador que se preze pode se dar ao luxo de ser feliz o tempo todo.  Alguém me disse isso e eu concordo. E eu estou escrevendo isso exatamente neste dezessete de julho, sentado em minha varanda, bebendo whisky com cerveja e esperando anoitecer para poder ganhar um beijo de uma garota linda e prepotente, inteligente e pessimista, poetisa e musa, louca e saborosa. Que me dará um beijo que por pelo menos um momento me fará esquecer que ela ainda não me merece. Para o bem ou para o mal. Espero que seja pelo bem dela. Pois mal por mal eu tiro de letra.



Bento.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ESTE TEXTO NÃO É PRA VOCÊ, APESAR DE SABER QUE É, PELO MENOS DISFARCE

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A cada parágrafo que eu escrevo é um soco que dou em minha cabeça.
Mais um parágrafo, uma dose de whisky, acendo outro cigarro e volto a tentar não me envolver com algumas coisas medíocres que observo pelas janelas da alma. Só que é difícil.

Eu quero agora ir dormir e amanhã acordar mais razoável, só que não consigo, pois tenho um imenso desejo de xingar e amaldiçoar o mundo com todas as minhas forças. Talvez seja a grande quantidade de álcool que corre nas veias, numa cumplicidade de não ter o que eu quero e ter um monte de coisas que não me fazem diferença e que não me esforço quase nada para ter. Qualquer religioso imbecil poderia dizer que isto é derivado de alguma força divina, de um blablabla corriqueiro e que eu sequer vou gastar mais linhas para falar sobre isso. Só o que vou dizer é que o álcool deveria estar amenizando de alguma forma tudo isso, porém, que não está passando nem perto. E então, isso tem grande parcela nas bostas que eu faço e falo durante a madrugada, então se puder me perdoar por qualquer coisa, faça, mas somente se quiser, caso contrário, bem, foda-se.

Estou eu aqui procurando defeitos, tentando mediocrizar e tornar-te comum como toda e qualquer coisa, juntar o desejo com todos os outro na mesma caixa e colocar lá fora, para o lixeiro levar, junto com as garrafas de whisky, as latas de cerveja e os maços de cigarro. Tento e eu sou super criativo, usando artimanhas, insultos, me passando a perna, no entanto eu sempre saio como vilão. Ah maldição.

Eu, na minha raiva incontrolável, estou querendo ver tudo em pedaços e então estender meu chapéu, aquele mesmo que eu prometi colocar debaixo do braço e partir, para sobrar alguns pedaços comigo e outros que eu possa guardá-los nos bolsos.

Logo depois, como todo bêbado, mudo de ideia e esvazio os bolsos. Ora. Eu sou de preferir inteiros. Sou de preferir sonhos, sorrisos, lábios, pernas finas... Oh, as pernas finas.

Sou um intransigente. Para falar a verdade. Sou um dos poucos homens que conheço. Pois por aqui é preciso coragem e atitude. É preciso culhão e eu tenho bolas enormes num saco também gigante e é tudo o que eu tenho. Cérebro e bolas. No entanto, ninguém come cérebro e bolas, ainda bem, e ninguém vai ao shopping e passa as bolas na máquina de cartões de crédito. Ninguém vai ao bar e mostra as bolas na hora de pagar as contas. Ou gostaria de viver num lado do mundo onde os fracos não tivessem vez, mas não é preciso ter culhões para ser homem hoje em dia. Por isso, meu melhor seja por aqui, nas entrelinhas, parágrafos e contando com sua leitura e quem sabe convencimento, quem sabe o despertar do falecido.

Ainda que por aqui, as desilusões são rotineiras. Só os amaldiçoados como eu tem tanto bom gosto. Porém, sou um amaldiçoado e pronto. Ah esse meu bom gosto que ainda me mata.
O relógio já marca a hora das assombrações, três da manhã, o álcool acabou e as assombrações, almas penadas, todas elas, de todos os demônios que tive que trazer para o meu lado do balcão e eles torcem, rezariam se acreditassem em Deus. Rezam para que eu alcance todos os meus desejos, pois com o meu gênio...
Ou talvez eu só esteja bêbado. E o álcool acabou, assim tive que sair para comprar mais, pois a raiva ainda existe, a vontade ainda me domina e os olhos ainda enxergam os pés. Que espécie de bêbado eu sou que ainda enxerga os próprios pés? Preciso de menos sangue nas veias, volto com as garrafas e começa a chuva, que gelada me tira mais ainda a embriaguez. Então eu encontro vários amigos bêbados e até os bêbados desconhecidos que se tornariam meus amigos e qualquer um deles olham para os meus olhos com atenção, como são vislumbrados e atentos a todos os detalhes. A maquiagem improvisada no espelho, e você sabe o meu fraco por mulheres e o ato de maquiar-se, mesmo assim fez de propósito. Aliás, quem não sabe? Os olhos seguem os cabelos, a espinha que teimou em nascer na esperança de tirar-lhe uma pequena fração da beleza e eu digo: fracassou. Eu que sou teimoso, mais que qualquer espinha desviava o olhar só que ele é mais forte e volta para o deleite. Se isso não é paixão então o mundo não é mundo, é outra coisa.

Quem eu estou querendo enganar? Leia as coisas que eu escrevo e chegará numa conclusão que qualquer idiota poderia chegar, até quem não sabe ler. Até quem não me conhece e quem não me vê há anos. Sou um trouxa rendido pedindo asilo. Eu que tento terminar um livro só consigo escrever a mesma coisa, sobre a mesma coisa e estou perdido como escritor, fadado a cometer os clichês dos outros escritores cuzões que não conseguem separar as coisas. Se isso não é paixão então eu sou gordo com talentos santíficos.

Sou culpado de toda essa merda. Eu sei. Deveria eu ser suficientemente esperto para perceber que neste caso eu sou o budista em meio suas crenças greco-romanas com centauros, cupidos, ninfas e etc. Mas quer saber? Eu sempre fui metido a esperto e isso sempre me levou aos caminhos já tão conhecidos por mim. Chega ser ultrajante, riquezas masculinas adquiridas por tantos anos que eu poderia dar aulas sobre o assunto, caso fosse um militar seria eu um amontoado de honrarias imaculadas e invejadas, porém, sou um mal agradecido. Sou um incontente, não um infeliz, um incontente. Um amaldiçoado ingrato. Sou o que sou, mas também sou orgulhoso e arrogante, menos é claro quando sou ignorado, deixado de lado, ridicularizado, menosprezado, e todos os "ados" negativos que eu deixo de lado, pois a mínima atenção que recebo me traz um prazer inenarrável. Só não posso deixar que todos saibam disso para não abrir um precedente, então este será nosso segredo. Mas se isso não é paixão, então vamos todos sair na rua de roupas de banho neste inverno do Alasca que faz em São Paulo.

Pode até ser impressão minha, e talvez seja mesmo. Deve ser coisa de idiota apaixonado egocêntrico como sou, mas se pensa que não reparei nos olhos vidrados e ouvidos atentos enquanto ouvia minhas histórias desconhecidas até então com personagens que coincidiram em nosso caminhos alheios. Eu só não sei o significado do olhar, não sei se eram por mim ou pelas histórias, assim como não sei o motivo de rubrar por uma piada minha. No entanto, como eu frisei, sou um egocêntrico irremediável, logo, tomei para mim. E até sobre isso, eu repito. Se isso não é paixão, da minha parte é claro, se não é paixão, então eu deveria escrever coisas alegres e com finais felizes sobre situações que eu desconheço tomando como inspiração garotas fáceis, com personalidades completamente diferentes da minha e com sérios problemas de interpretação de texto. E por fim, o álcool finalmente fez valer o seu motivo de existência e eu passei a pensar mais rápido do que pude escrever, portanto, parei por aqui, pois mais que isso seria sem sentido.



Bento.

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terça-feira, 23 de julho de 2013

A SOCIEDADE DOS POETAS CALADOS

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As pessoas falam demais. Falam demais e pensam de menos, ouvem de menos. Também tem aqueles que falam demais e pensam demais. Na maioria dos casos elas só esperam a pausa do diálogo para começar a artilharia de besteira vocais.
Por vezes evito sair na rua para não ter que abrir a boca. O telefone toca e eu torno-me surdo e mudo. Não sei se isso vem da impaciência que tenho com os outros ou comigo mesmo. O fato é que geralmente quem fala demais é sempre o mais idiota da roda. Com raríssimas exceções. Temos algumas ocasiões que exige o falatório, como quando existe uma necessidade de desabafo. Já reparou como todo corno fala demais? Políticos falam demais e eu não simpatizo com nenhum. Mentirosos falam mais que a boca, pois é preciso dar muitas voltas para que a mentira pegue. E na maioria dos casos a única lição que você tira de quem fala demais é que se deve falar menos.

Eu sou um analisador de coisas e pessoas. Um chato analisador. Nunca soube de onde veio isso, talvez eu tenha algo de dislexo, mas não sei com certeza. Só que analiso, olho, espero, penso em várias possibilidades. Quando você fala demais fica difícil prestar atenção nas coisas ao seu redor. Uma boa bunda passante que você acaba não reparando por falar como uma matraca, entre outras coisas. E quando você começa a reparar você entende um pouco do que se passa na vida de seus amigos ou mesmo os desconhecidos que não se satisfazem em falar demais e baixo. Tem que falar para que todos ouçam. Então existem aqueles que choram por tudo, reclamam de tudo e você fica sem entender o motivo de tanto sofrimento reprimido, até aquele momento. "Vocês não entendem, não sabem" eles dizem. Bem, então conte-me, quem sabe... "Não. Você não pode ajudar, ninguém pode" você ganha como resposta. Então ok. Se não se pode ajudar não atrapalhe é o que eu penso.
Ou presenciamos os que fazem festa por tudo. Tudo é maravilhoso e se você não está feliz é um idiota, pois o mundo é uma festa. Você entende que geralmente os extremos são falsos? Ou doentio. Ninguém é tão feliz ou tão triste.

Eu passo dias em silêncio como eu disse. Como um voto de silêncio, quieto e tal. Eu entendo que preciso disso para descansar a mente do corpo. Se estiver silêncio e escuro então, melhor ainda. Depois de algum tempo você aprende a ouvir o silêncio e o que ele tem para te dizer.

Durante muito tempo eu tive medo do escuro. Via vultos e coisas que não me deixavam em paz. Talvez fosse impressão, talvez fosse a embriaguez me pregando peças, porém eu não tinha paz na escuridão. Até que aprendi a ouvir o silêncio e ele diz coisas extremamente coerentes. O sussurro do silêncio é o desabafo do inconsciente implorando para você deixar de ser um cretino de marca maior e finalmente deixar que sua vida tome um curso diferente. Existe certa poesia no silêncio e na escuridão sim. A poesia é como a política, está em todos os lugares, é só saber olhar e é no silêncio que está a poesia onde você é o autor, você é o poeta Pop Star, se você prestar atenção é claro. Porém, as pessoas sentem com os ouvidos, sonham com os olhos e gozam com cartões de crédito. A inveja é o oxigênio dos medíocres, o pulmão dos crápulas. Apesar do clichê enfadonho, é preciso cegar-se por momentos para se enxergar melhor e é por isso que a vida melhora significativamente quando se está apaixonado.

Respire, olhe em volta, repare na paisagem, e eu não estou falando de por do sol ou árvores de quinhentos anos. Estou falando de qualquer paisagem, eu, por exemplo, gosto da cidade fria, cinza e escura, apenas com as luzes de neon dando suas pinceladas de depressão. O cheiro de putas e mendigos e solitários caminhando para lá e para cá. Pode-se aprender tanto com o silêncio dos passantes. Prestar atenção é como uma droga, chega uma hora que você não quer mais falar, quer apenas sentir. Eu me coloco no lugar de cada pessoa que vejo na rua tentando pensar exatamente o que se passa naquelas cabeças, sou quase como um esquizofrênico assumindo várias personalidades num mesmo dia e isso é tão saudável, pois ficar preso ao meu corpo em tempo integral é chato pra cacete. Aventure-se a ser alguém diferente, por dez minutos que seja e pelo amor de Deus, enfie a cara na merda uma vez na vida, sem medo, ninguém morrerá por isso.



Bento.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

NÃO SOU DE EREÇÕES GRATUITAS

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A cada 1 real gasto é um dia a menos de folga que eu tenho. Só que eu não me preocupo com isso. Um ano de repouso em casa sem gastar um centavo é como viver 100 anos sem fazer uma merda sequer e isso é mais ou menos como jogar sua vida fora. Eu estaria jogando minha folga fora se não gastasse os milhares de reais com bebidas e cigarros e bebidas e cigarros e tatuagens.

Por vezes, quando minha autoestima está lá em cima penso que posso COMER a mulher que eu quiser. Desculpem as feministas e os religiosos que me leem agora pelo "comer", mas vamos combinar: estamos entre amigos. Não me culpem por isso. Só que neste momento em particular eu não penso só em sexo.

Nunca me dei o direito de mendigar nada. Nunca me fora entregue nada de mão beijada. Sempre tive que batalhar ou limpar os banheiros do inferno para conseguir o que queria. Caso precisasse seria um péssimo mendigo, pois não sei pedir.

Também não faço nada de graça para ninguém. Nem carinho, nem gentilezas e muito menos ereções. Tudo deve ser devidamente conquistado. É assim que a vida segue. E meu pênis segue a mesma filosofia que o dono, não aponta para o céu sem receber uma boa preliminar antes. Por isso eu deixei de transar com a maioria das mulheres que tive oportunidade. Acredite, boa parte das mulheres não são desejáveis. Outra boa parte das mulheres acham que você deve estar pronto para a ação simplesmente pelo fato delas terem uma vagina entre suas pernas, só que a realidade, pelo menos a minha, não é bem assim.

Quando eu digo que não penso só em sexo sei que alguns machos alfas pensarão: ele é gay. Outros vão ranger os dentes e exclamar: que belo imbecil este cara hein?! Bom, talvez eu seja. Mas quando digo que não penso só em sexo é o mesmo que dizer que não dou a mínima para a morte. Fatalmente acabará acontecendo, mesmo sem minha atenção. E mesmo a morte não vem de graça. É preciso passar por muitos perreios, tempestades, chuvas de canivetes para ter o direito de morrer. É necessário fazer muita merda durante a vida para ser digno de morte. Antes disso você só está vivendo ou sobrevivendo, como preferir.

Por isso eu não culpo as pessoas que tiram a própria vida. Nada mais que merecido por direito. Se alguém pode tirar a vida de alguém este é o próprio. O que acontece é que as pessoas se cansam. Entenda: estamos num mundo de merda onde a maioria das pessoas são medíocres e algumas pessoas ficam de saco cheio disso tudo e apertam o botão do foda-se. Nada mais justo. E quando você ainda não mergulhou na merda você simplesmente conhece alguém ou se apaixona por alguém que você esperava que fosse esperta, só que na verdade é tão idiota quanto a maioria. A vida é isso aí. Então tem gente que fica de saco cheio e chama o foda-se. Pode acontecer com todo mundo.

Sozinho é impossível manter-se em equilíbrio e é por isso que existem o álcool, as prostitutas e outras drogas. Isso, pois, achamos que nós somos todos santos e são os outros os escrotos, o que nos faz pensar que o mundo é injusto e que o Destino nos persegue. Só que na maioria das vezes o escroto é você mesmo, mas como admitir para si que você é um lixo que não vale a bosta que caga? É uma coisa muito difícil, é bem melhor achar um defeito no próximo e torná-lo insuportavelmente irritante, podendo assim culpá-lo por toda a desgraça que acontece quando suas vidas se cruzam.

Saiba, ninguém é santo. Exceto aqueles que se acham santos, esse são imprestáveis. Eu ando numa vibe de envenenar-me, mas calma, ninguém aqui está apressando o fim de nada. Exceto algumas garotas que me acham um vagabundo de mão cheia, umas que se perdem por aí dando esmolas para mendigos e outras teimosas que não entendem do mínimo a metade. Não entendem que o tempo é melhor que remédio, não entende que está começando agora neste jogo de noites mal dormidas e ressacas insuportáveis e eu praticamente inventei o termo. Não entende e talvez nem precise entender, apenas feche os olhos e beije-me. Só que prefere ser maluca, tão maluca, me chama de maluco, não que eu não seja, sou o primeiro a deixar isso bem claro, mas tão maluca que perde o disposto a fazer de tudo o que estiver ao seu alcance para alimentá-la de sentimentos bons, mensagens de madrugada, chupadas em lugares escondidos - que é para não chamar a atenção do mundo para a paixão - capaz de mover mundos e fundos para testemunhar tamanho merecimento, nem sei o motivo, talvez por qualquer coisa em seu caminho que, pelo que me parece, trata-a como um ser razoável e sem significado. Igual estas palavras. Que vida. Mas nem sei do que estou falando, estou sem dicas.

O que a maioria não entende é que após muito custo, e põe custo nisso, eu criei certa autossuficiência. Culpa de uma maluca que desejava o mundo mais que o amor. Eu não preciso de nada, porém, se escrevo para você, o motivo é simples e puro. O corpo chama. Eu nem queria, mas ele chama e quem sou eu para contrariá-lo. O corpo chama nega! Desde os pelos até os dedões do pé. Os olhos são uns aficionados, seus fãs de carteirinha, tanto que já nem dou mais bola para eles. Tão deslumbrados. As mãos vivem pedindo sua cintura, sua nuca, suas orelhas. Eu tenho uma coisa com orelhas. Vê que maluco?

Então, seja homem mulher uma vez na vida e não peça desculpas. Eu vou sair quebrado disso. No entanto, pode ser que eu não seja o único a ter de juntar os cacos. O meu mal é ainda torcer por você. Então antes mesmo que eu tivesse tempo de dizer tudo isso sou surpreendido por um beijo num beco escuro e volto a ser um adolescente virgem e cagão de tanto desejo. Mulheres...



Bento.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

CARTA DE DESPEDIDA DE UM LOUCO APAIXONADO PARA UMA DOIDA QUE NÃO SABE DO QUE SE TRATA

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Para você que não acredita, se meu fígado fosse um cara, ele tentaria me assassinar diariamente. Tamanho o trabalho que eu dou para ele.
Cheguei a ponto de dormir bebendo e acordar no meio da madrugada para fumar um cigarro e tomar uma dose. Só que isso foi antes, agora espero até de manhã, para tomar umas. Cheguei a ponto de dormir ao lado de garotas e acordar ao lado de outras que eu nem sabia de onde vieram, mas isso foi antes, antes de entender, ou me dar conta, que um apartamentozinho com uma vista para a avenida, uma xícara de algo quente e uma bela garota de camiseta e calcinha me é suficiente.

E eu era um cara cheio de asas para o seu lado. Fiz promessas, dediquei-lhe músicas e textos. Escrevi sobre você nas paredes do quarto. Vestia-me para sair como quem fosse para um encontro com você mesmo sabendo que não estaria lá. Adotei uma gata e coloquei seu nome. Adoro gatos, tão rebeldes e ela é marrenta e arisca como a dona do nome. Falei de você para os meus amigos e amigas e elas ficaram todas derretidas quando souberam que te mandei flores, menos você. Já os amigos todos já evitam me encontrarem no bar, pois o assunto tem sido sempre o mesmo. Até eu estou de saco cheio de mim. Até você.

Assisto novela só pelo motivo de ter uma garota que me lembra você e eu odeio novelas. Que situação a minha.
Já você me lembra aquele personagem de filme com tesouras na mão que vive me podando, vive cortando as minhas asas. Você insiste que não. Porém não me resta nenhuma pena.

Chegamos a um ponto de dizer que minhas palavras eram só palavras e não significavam nada, veja só. Logo eu, que sou um escrevinhador impulsivo e modéstia à parte, dos bons. Daqueles que não escreve clichês e coisas água com açúcar. Sou desses autores que conquistam pela realidade impiedosa, calamitosa e imperecível. Mesmo assim, para você, por você, preferiria que fosse qualquer idiota modista e medíocre que seguisse a linha do romantismo precário e de final feliz, se fosse para ter sua atenção.

E mesmo não dando a mínima atenção às minhas palavras eu saí dos palcos e do conforto de meu sucesso e fui além, no entanto, mesmo assim, não foi o suficiente. Mais que isso eu dependeria de seu aval, vamos lá, não que eu seja um bunda mole, só odeio a inconveniência de forçar algo que depende da vontade de um par e nesta, me parece um tesão individual. Uma masturbação de "Querer Muito".

Agora, não me force a uma sabedoria que eu não posso ter, sendo que me parece que até mesmo você tem dúvidas. Porém também não vou me enganar. Seus dias nublados só parecem ser tão ruins quando é para dividi-los comigo. De resto eles são límpidos e esbeltos. Talvez eu que traga sua má sorte. E é por isso, não só por isso, mas também por isso, que lhe escrevo esta última carta.

Garanto-lhe que não será por mim que acordará com mensagens inquisitoras. Prometo-lhe que não terá que me chamar pelo meu primeiro nome com uma falta de libido extrema. Garanto-lhe que não terá mais perguntas que te deixarão impaciente como as enxaquecas e problemas pessoais. Prometo-lhe que não precisará mais se fazer de desentendida por indiretas e insoluções pregadas por mim. Se usasse um chapéu estaria eu, neste exato momento, pegando-o, colocando abaixo do braço e partindo. Sem mais. Sem subterfúgios, sem cartões, sem desculpas. Desta vez eu parto, mas não por medo e sim por falta de zelo e cumplicidade. Por falta de carinho recíproco e por uma impaciência destinada a ambos. E eu fui paciente. Minha língua já tem seu gosto de tanto que te lambi. Parto por falta, falta de ti. E por excesso de confiança, quando o meu melhor que eu tenho para te oferecer tornou-se pouco. Baixam-se as cortinas e eu me despeço. Na verdade, acho que fui despejado de você. Logo, meus móveis estão pendurados numa Kombi caindo aos pedaços e o que me resta é o novo aluguel ou condomínio que possa vir por aí. Só não tente desmoralizar o que faço de melhor, pois você tem grande parcela de culpa por eu ser tão bom no que faço.



Bento.


NEM O DIABO GOSTA

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Eis que o cheiro de podridão era tão forte que chegava a lacrimejar os olhos.
Ratos se alimentavam de todo tipo de dejetos, humanos, animais e etc.
As paredes eram cobertas de lodo e merda que serviam de armadilha para as moscas, que serviam de alimento para as baratas, que serviam também de alimento para os ratos e, haviam tantos.

Cobria o solo daquele lugar horrendo uma água imunda e viçosa. Escura, tão escura que não se enxergava o fundo, apenas ossos de frango, carcaças de gatos que se arriscavam naquele ninho de cadáveres em busca de alimento e viravam presas dos animais filhos da sombra. Pneus, sacos de lixo, fraldas, absorventes femininos usados e todo tipo de lixo que se possa imaginar.

E ainda tinha aquele cheiro. Qualquer ser humano que sentisse aquele cheiro gorfaria de imediato. Desmaiaria em segundos e acordaria digerido pelos ratos, baratas e moscas. Ou pela própria bosta.

No teto haviam fezes e mais fezes formando um reboco de excrementos tão denso que poderia engolir uma criança. Um pântano invertido dos diabos. Dele respingavam gotas ácidas e fétidas. O lugar era um lixão horripilante, inviável para qualquer forma de vida, exceto aqueles que se alimentavam de lixo e insetos e morte.

Ainda havia o cheiro. Tinha algo naquele cheiro que lembrava a morte, ou melhor, chamava a morte. Suplicava pela inexistência. Era um altar dedicado ao fim da vida. A extinção da alma. Um templo da escuridão do quinto dos infernos.
O próprio Diabo se sentiria desconfortável naquele ambiente, nem os demônios sobreviveram.
Espíritos, almas penadas e fantasmas teriam asco, todas as lendas, urbanas ou não, de bruxas, monstros, espíritos das trevas, ali, naquele lugar não passariam de ursos fofos de pelúcia. Seriam devorados pela depressão, desespero, tragédia, que exalava de cada metro quadrado daquela tumba amaldiçoada.

Eu já conhecia aquele lugar. Já tinha visto tudo àquilo com meus próprios olhos, sentido a podridão me corroendo por dentro, transformando-me em mais um inseto, se alimentando de todo tipo de dejeto que tinha ali. Porém, agora, era a primeira vez que outro alguém colocaria um par de olhos naquilo tudo. Só gostaria de ter certeza que doutor  Makyoto aguentaria olhar para o inferno e manter-se são.

Eis que o médico tirou chapas, usou o estetoscópio gelado em meu peito e ainda não havia dito nada. Foi quando abriu o corte em minha pele e mirou os olhos para dentro do ferimento que eu pensei que ele não sobreviveria às condições obscuras e nojentas que se encontrava o interior do meu tórax, a podridão de meu peito.
Doutor Makyoto então voltou suas retinas para mim com aquela cara de interrogação que todos os médicos aprendem ainda na faculdade, bem como dissecar rãs, desentupir veias e medir pressão. Uma cara de interrogação e uma paz oriental. Eu provavelmente iria morrer, sabia disso. Mesmo assim não estava totalmente conformado, havia tanto ainda para conhecer, tantos lugares para visitar, livros para ler, porres para curar... Provável que meu corpo pedia pela pesada camada de terra cobrindo-lhe trazendo o descanso eterno, a mente queria mais, muito mais. Logo, eu era um turbilhão de sensações e depressões involuntárias. Eu já havia desejado a morte e agora que estava de mãos dadas com ela queria distância. Queria correr e correr e correr sem parar como sempre fiz quando as coisas saíam do controle. Um grande bundão me cagando com medo da morte e olhar para aqueles olhos puxados do doutor Makyoto que lembravam os olhos de minha avó quando sabia que eu estava prestes a fazer algo que me traria vergonha e arrependimento, a sabedoria dos velhos. Eu tinha que saber, independente da resposta, tinha que saber.

 - E então doutor, é grave?

 - Não se preocupe meu jovem,você tem uma saúde de ferro.

 - M-mas, como assim, não sentiu falta de nada aí dentro? Perguntei desconfiando da qualidade de doutor Makyoto como médico. Se ele percebeu eu não sei, mas manteve a mesma calma costumeira.

 - Se está falando sobre o coração que deveria estar aí dentro, admito, nunca vi um corpo sobreviver sem coração, porém, o seu está em plena forma. Não me pergunte como, mas está. E se sua saúde está em dia não temos motivo para nos preocuparmos.

Aquele médico só podia estar de sacanagem comigo. Eu acordei sem a porra do coração dentro da merda do meu peito e ele me diz que não é nada. Deveriam caçar a licença dele. Se eu não achasse que morreria em algumas horas o denunciaria, mas não tenho tempo para isso. Levantei-me e vesti a camisa pronto para sair da frente daquele médico maluco.

 - Ei, ainda não terminamos. Vou costurar e fazer um curativo para conter esse sangramento e evitar alguma infecção. Também vou pedir que retorne dentro de alguns dias para vermos como está se saindo.

Minhas camisas limpas estavam acabando por causa de tanto sangramento, então voltei a me sentar e acabar logo com aquilo.



Bento.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

NÃO SE CORROMPA TANTO PARA ESCREVER

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Tenho então, certa peculiaridade em viver. Uma coisa diferente em dar meus passos pelo asfalto neste mundo de malucos. Uma vez eu disse e nem sei de onde tirei isso, mas disse. Foi um vômito, não alcoólico, porém, bêbado quando disse: "gosto de fazer tudo com estilo próprio, sem inspirações". Eu nem sei o motivo pelo qual disse isto. Nem sei se concordo com o que disse. Só que as coisas me fazem mais feliz quando saem do meu jeito. Então eu saio na rua para comprar cigarros com a mesma roupa que dormi e não me importo muito, foco apenas no objetivo, que são os cigarros que me faltam naquele momento.

É certo que não ligo muito para situações rotineiramente planejadas. Não suporto nenhum compromisso religiosamente assumido. Odeio trabalhar, o problema é que eu gosto mais de dinheiro do que certos princípios, logo, o trabalho é a única coisa que aceito fazer obrigatoriamente.

Assim muita gente deve olhar para o meu estilo de vida e pensar que seja tudo maravilhoso, ou que eu não tenha nenhum futuro e só a segunda opção pode ter algum sentido. Estou dando voltas para dizer que o fato de acordar ao meio dia e que meus cafés da manhã geralmente são meia dúzia de garrafas de Heineken após uma boa dose de whisky para abrir o apetite, e que acendo um cigarro antes mesmo de abrir os olhos quando acordo não é tão bom quanto uma porção de gente pensa. E essa porção de gente que lê minhas narrativas sobre minha vida e adoram, sequer teriam estômago para viver elas mesmas de tal forma. As pessoas sempre admiram aquilo que não podem ter. Não se pode medir as coisas que eu abro mão para sobreviver da maneira que eu acho ideal e normalmente o que serve para mim não servirá para a maioria das pessoas que assistem ou leem uma situação como esta. Não servirá, pois como eu disse: é preciso estômago, mais até que estômago é preciso abdicar de um conforto sociável.

Meus amigos, por exemplo, além de poucos, não são tão presentes quanto os amigos comuns. No entanto, não os culpem, eu prefiro assim, afinal, com uma personalidade característica como a minha, para mantê-los é preciso que afastem-se para deixar que a saudade ajude-os a me aturar. O eu em excesso é prejudicial para qualquer sanidade e ainda assim só tenho amigos desequilibrados.

Com as garotas é a mesma coisa. É preferível que não se mantenham por muito tempo. Repare em seus olhos e perceba o quanto eles brilham ao ouvir minhas histórias. Sempre tão agradecidas retribuem uma preliminar ou outra, mas ainda assim é preferível que não se mantenham por muito tempo. Perde-se o encanto, pois eu não deixo de tomar os meus cafés da manhã alcoólicos, não deixo de escrever sobre minhas insanidades e de exercer minha displicência em relação ao futuro. E nenhuma garota se vê ao lado de um escritor possivelmente falido falando sobre as desgraças da vida. Então eu lembro do que me disseram uma vez, que um dia eu vou envelhecer, ficar feio, ultrapassado e o número de garotas entrando e saindo do meu quarto diminuirá drasticamente e que eu olharei para o passado com grande arrependimento. O que essa pessoa que me disse isso não sabe, é que eu já olho para o passado com grande arrependimento, ou seja, sem novidades. Se alguém aí não tem o mesmo problema me conte o segredo. E tem mais, odeio palpiteiros.

Olhe para o mundo de um débil com olhar de telespectador e tudo parecerá maravilhoso até os nossos caminhos se cruzarem e perceber que minha cama é muito mais aconchegante ao dormir do que quando acordar. E que apesar de prazerosas, muito prazerosas, todas as bebedeiras geram muito mais prazeres que as ressacas. E que a vida de Bon Vivant escrevinhador de contos desgraçados somente é atraente em películas e livros. Que a abstinência de álcool e nicotina torna-me um ser irreconhecível e insuportável. Que eu sou um sujeito calamitoso e que odeia cortar as unhas. E que eu passo metade dos meus dias sentado numa cadeira de praia, no telhado, ouvindo Rock em discos antigos, bebendo cervejas e escrevendo, já a outras metade eu passo dormindo. Por isso, não há motivo para invejar-me por qualquer coisa. Por mais que sua vida pareça ruim, eu sou o resultado de tudo que possa dar errado e me orgulho de tornar isso público. Levando sempre em conta que aumento algumas tragédias e fatos para dar um tom de dramaticidade e estilo próprio em tudo que eu escrevo.



Bento.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

ALGEMAS, VIBRADORES, BEIJO GREGO E ROTINA

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Toc toc toc.

Alguém batia na porta do apartamento e Rodolfo levantou-se da cama só de samba-canção para ver quem era.

 - Pois não.

Era um homem baixinho e careca vestindo um terno com ombreiras. Na verdade não era de todo careca. Ele tinha uma vasta cabeleira ao lado da cabeça, porém se via que era devidamente aparada. E no topo da cabeça havia meia dúzia de fios de cabelo penteados cuidadosamente para o lado.

 - É... Senhor Baunilha?

 - É Bonilha!

 - Oh, queira me desculpar. É italiano?

 - Não, sou cearense. O que quer?

O baixinho era síndico do prédio. Morava dois andares abaixo.

 - Bom, desculpe incomodá-lo, sou Juraci o síndico.

 - Tudo bem Juraci?

Os dois homens apertaram as mãos.

 - Estaria perfeitamente bem senhor Bonilha...

 - Me chame de Rodolfo.

 - Claro Rodolfo. Como eu ia dizendo, está tudo otimamente bem se tirarmos o fato de alguns vizinhos nossos estarem reclamando insistentemente do barulho que vem do seu apartamento durante o dia e principalmente durante a noite.

Juraci falava com a intenção de insinuar alguma coisa que não tinha coragem.
Essa coisa que Juraci quis insinuar era o fato de que Rodolfo e sua esposa faziam sexo o dia e a noite inteira. Todo o tempo os dois estavam se agarrando e gritando e arrastando os móveis e gemendo e aquilo só tinha fim quando os dois pegavam no sono. Só que quando acordavam começava tudo de novo. Logo, Rodolfo ficou orgulhoso pela insinuação que testemunhava sua virilidade.

 - Eu entendo, mas peço que o senhor também me entenda. Somos recém-casados e estamos comemorando nosso matrimônio.

 - Entendo perfeitamente o senhor. No entanto peço que considere o fato de que lamentavelmente temos alguns vizinhos idosos já, que não veem desta forma. Então para que não haja mais incômodo de ambas as partes...

 - Eu entendi perfeitaMENTE Juraci. Prometo que vamos tentar não incomodar mais, ok?! Obrigado.

Sem esperar resposta Rodolfo bateu a porta.

 - Quem era amor?

 - O síndico reclamando do nosso barulho.

 - Ora, mas como? Que barulho?

 - Barulho nenhum. Vem cá, faz aquela dança que você me prometeu.

E o casal passou mais alguns dias sem sair do apartamento transando e dormindo. Dormindo e transando e a cama já tinha seus parafusos todos soltos devido aos movimentos repetitivos. Preservativos usados transbordavam pelo lixo do banheiro. Caixas de pizzas, vasilhames de lubrificantes e garrafas de vinho estavam espalhados por todo o apartamento. O telefone estava fora do gancho para que não fossem incomodados. O domicílio cheirava a sexo e suor.

Rodolfo estava nu deitado no sofá da sala, com a cabeça pendurada para fora do móvel e seu membro flácido repousado e ainda sujo em sua coxa. Patrícia sua esposa estava no banho.

Não podia-se julgar um casal jovem como eram, recém-casados, por terem tanto desejo um pelo outro. Além de jovens eram bonitos, atléticos. Rodolfo era um moreno forte, viril e queixo largo. Patrícia era garota de academia, nádegas redondas e duras. Seios fartos e barriga sarada. Eram jovens, belos e de mente aberta. O sexo era uma maravilha. Os dois se completavam. Patrícia não dizia NÃO para nada e Rodolfo só se sentia satisfeito quando sua esposa ninfeta chegava ao ápice do prazer. Algemas, vibradores, beijo grego e fantasias sexuais estavam entre as coisas que faziam para agradarem-se.

Patrícia ao terminar seu banho dirige-se a Rodolfo.

 - Rodolfo, não quero mais.

Seu sonolento esposo se ajeita no sofá e diz: - O que foi, quer ir comer fora?

 - Não. Quero divórcio.

 - Como é que é?

 - Quero me separar de você.

 - Por quê?

 - Estamos transando há dias e eu não tenho assunto nenhum com você. Pensei em várias coisas para comentar, puxar conversa, mas somos muito diferentes.

 - Mas meu amor, estamos nos dando tão bem. Você está nervosa. É isso.

 - Estou muito calma. Andei pensando agora no banho. Você não gosta de novela, eu odeio seus autores preferidos. Você odeia futebol e eu sou corintiana fanática. Não combinamos em nada.

 - Bom, tudo bem. Quer ir embora vá.

Patrícia então fez as malas e partiu para a casa de sua mãe.
Rodolfo se viu ali sozinho no apartamento e aquele lugar estava uma zona. Recolheu as caixas de pizza e as garrafas de vinho. Recolocou o telefone no gancho, tornou a retirá-lo e discou alguns números.

 - Alô, Veridiana? É o Rodolfo. Tá fazendo o quê?



Bento.

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terça-feira, 2 de julho de 2013

NÃO SOU DE SORRISOS GRATUITOS. ( Chupadas, puxões de cabelo e arranhões)

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Finalmente depois de algumas semanas resolvi me barbear. Era uma barba tediosa. Curioso é que minha barba é vermelha. Como um pirata. Meu bigode é preto só que a barba é vermelha. Algo de minha progênie espanhola, porém pelo tanto que eu bebo, devo ter algo de irlandês também. Então foi uma boa ideia fazer a barba. Ok. Começo ruim. Se você conseguiu ler até aqui então parabéns para você. É isso o que o Tédio faz conosco. Até para um escrevinhador de realidades como eu, em algum momento falta-me inspiração. Quem sabe até o final não melhore.

O que acontece é que eu me comprometi com o "Jack" no rótulo da garrafa de que acabaria com todo o whisky esta noite e eu pretendo fazer isso. Mas ninguém bebe e olha para o teto. No máximo para uma janela, mas ninguém consegue beber e ficar olhando para o nada sem fazer nada pensando em nada. Porém isso aqui está péssimo e eu continuo pressionando as teclas sem direção e sem sentido. Tenho uma coisa prefixada em minha cabeça só que eu quero pensar em outra coisa agora. Odeio escrever sempre sobre a mesma coisa, é entediante, é chato. É estupidez.

Bom, o fato é que sem barba eu tirei uns 40 anos do rosto. Até pareço um jovem saudável de classe média se eu esconder todas as tatuagens e der um belo sorriso otimista. Só que eu não sou de sorrisos gratuitos.

Enquanto fazia a barba eu pensava no que eu faria depois disso e eu não consegui pensar em nada. Não tenho nada para fazer e isso é ótimo. Se eu caísse aqui no banheiro devido um infarto ou qualquer problema de saúde só me encontrariam depois de semanas. Não tenho planos, nem compromissos. Até um café que tinha marcado para terça-feira fora adiado. Adiado, espero. Sequer minhas roupas precisam ser lavadas. Compro cigarros e bebidas para durarem por dias para que não precise por a cara na rua.
Algumas pessoas dizem que quem escreve precisa estar no meio das pessoas para terem inspiração e eu discordo drasticamente. Minhas inspirações têm sido uma só. E eu já vi muito do mundo e não gostei do que vi.

Eu sou um VELHO acabei concluindo. Faço tudo devagar. Faço a barba devagar, me visto devagar. Até meu cigarro tem demorado mais para chegar ao filtro. Tenho tanto tempo sobrando que a pressa não faz nenhum sentido. Planejo há três dias cortar as unhas. Tempo, tempo, tempo. Que coisa é o tempo. Eu tenho um milhão de músicas no computador e já ouvi todas elas. Duas vezes. Sou um velho de vinte e poucos anos. Que depois de muito tempo pensando sem fazer exatamente nada decidi que não vou mais me envolver com garotas perto dos 18. Estou velho demais para isso. Também, no que eu estava pensando, que sou algum professor de ginásio por acaso?

Provavelmente você está pensando que tem alguma coisa a ver com sexo. Mas acredite, sexo é o que menos tem a ver com isso. Também não tem nada a ver com sentimentos ou esse tipo de coisas que as pessoas espalham por aí para que justifiquem suas anomalias e atitudes infundadas. É mais uma porta que se abre e você pensa: Ok. Porque não? O que vai passar na TV amanhã? Bem, aquele velho bar está falido. Vou ver o que tem nesta porta. Não tem nada de especial. Apenas aquela coisa INSUPORTÁVEL que me faz perder o rumo e querer achar um rumo juntos. Fora isso todo o resto não me apetece e todo esse desprendimento pode até parecer falsidade ou orgulho, porém, foda-se. Isso também está entre as coisas das quais eu não me importo muito. As poucas coisas que me interessam eu faço uso delas e estou bem, obrigado.

Meus cinzeiros estão todos transbordando de bitucas. Há copos vazios e sujos de alguma coisa alcoólica espalhado por todo lugar. E o único som alheio que eu ouço é a descarga vinda do banheiro do vizinho.

Descobri através de conversas que lá fora está um frio horrível e tempo de chuva sempre tem um tom de dramaticidade. Logo, eu fui também contagiado. Estou a dois dias de tirar um dente que me causa dor há uma semana e já estou com saudade. Apeguei-me a ele. Ele estava ali, ao fundo, escondido por anos e só o notei quando começou me causar dor e agora sou simpático a ele. Sempre me apego por coisas que me causam dor. Sou um sado talvez. Quem pode me culpar? Isso pode ser basicamente o intuito de sentir-me vivo, ativo, respirando. Gosto tudo à flor da pele. Beijos com mordida e sexo com arranhões. Não é a toa que deixam marcas, tudo que é bom deixa. Chupadas, arranhões, mordidas e mais chupadas e puxões de cabelo.

Por fim, tive de sair do sossego de meu quarto e resolvi sentar no bar, sozinho. Já que tomei um bolo hoje, estou no bar, pois nenhuma outra companhia me interessa por hora. Balcão gelado, até os mosquitos desistiram de sobrevoar os pedaços de porco na estufa. Está um frio de matar. Os balconistas nordestinos falando alto e os bêbados diários estão aqui, nunca desistem de tentar melhorar o que os assola, o sofrimento de casa que esquecem no bar. Estes nunca desistem. Bêbados são um exemplo de vida. Sempre em frente.
Pedi um café que por sinal está fraco e morno. Um café e um conhaque, com este frio. Para comer, nada. Meu dente não permite que eu coma. E não poderei beber por dias, então, é o meu "até logo" para o álcool. Nos vemos semana que vem.

É o que eu digo para você: até semana que vem, espero.



Bento.

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

GIULIARD BORSANDI VIII

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VII

Já passava das duas da manhã e eu agora estava parado em frente uma loja de roupas, do outro lado da rua ficava o motel Libelillun. Janaina deveria estar com muita pressa, afinal, o Libelillun era o motel mais próximo ao bar que estávamos e um pulgueiro frequentado por prostitutas e drogados que perambulavam pelo centro de São Paulo. Totalmente diferente dos cinco estrelas que ela estava acostumada a ir. Eu esperava pegá-la desta vez, levar provas para o pastor e acabar logo com aquele caso.

Lá estava eu, bêbado, com dor no saco, com uma câmera vagabunda na mão e vendo a noite paulistana escorrer entre meus dedos enquanto eu trabalhava. Casais andando de mãos dadas. Casais nos carros se beijando e ouvindo música. Casais por todos os lados. Numa floricultura perto dali havia uma faixa "Comece o dia dos namorados com flores". Então olhei no celular para saber que dia era, não me lembrava. Na tela luminosa de meu telefone marcava dia 11/06. Por motivos óbvios passei a odiar o dia dos namorados.

Estava frio, mas eu transpirava. Podia ver a janela da suíte de Janaina de onde estava, as luzes acesas dava a entender que eles ainda não haviam começado com a transa. Provável que ainda estavam fazendo um brinde. Um brinde a mais um par de chifres na cabeça daquele velho enganador de velhinhas. Comecei a pensar se aquele maldito não merecia tudo aquilo que Janaina fazia com ele. Se não era uma justiça dos infernos com aquele que ganhava a vida traindo a confiança de seus fiéis. Sentei-me na porta da loja de roupas e minha mente invariavelmente passava a dar razão para safada que estava sendo fodida pelo grandalhão fétido no motel à minha frente. Com isso também passei a me arrepender de não ter aceitado o convite da gostosa e que agora, no lugar do sósia do George Michael poderia ser eu.

Sou despertado de meu devaneio por uma viatura da polícia que passa na rua com uma lanterna tamanho família apontada bem para minha cara. - Está tudo bem aí amigo? Perguntou o policial que segurava a lanterna.

Estaria melhor se não houvesse um filho da puta com uma porra de uma lanterna na minha cara, pensei em responder. Ao invés disso: - Tudo ótimo seu guarda, só descansando as pernas. Limitei-me a dizer. Eles provavelmente estavam com tanta vontade de trabalhar quanto eu, logo, partiram.

Porém, pensando aqui comigo, foi até bom eles aparecerem, me fez voltar ao foco. Não estava na posição de julgar o pastor ou mesmo a mulher dele. Estava à trabalho, iria ganhar por aquilo e isso já bastava. Finalmente apagaram as luzes.

Mais vinte ou trinta minutos de espera e caso encerrado. Chega de subir em janelas e telhados, não hoje. Umas fotos bem batidas da delícia que era sua mulher saindo do motel com um brutamontes iria ter de servir para o pastor se convencer que sua mulher era uma vagabunda e finalmente me dar meu dinheiro.

Eu continuava suando e a neblina da madrugada aumentando. Já estava em meu quinto cigarro enquanto aguardava os pombinhos treparem e agora só restavam uns três. Teriam que dar até eles saírem, já não bastava ficar ali sem tomar um trago qualquer de alguma coisa forte?

Meus olhos começaram a ficar pesados e com a sensação de areia dentro. Era o sono me lembrando que já estava muito tempo acordado e que a brisa do álcool estava passando. Eu sabia que bastava uma cochilada e todo meu trabalho poderia ir por água abaixo e seria mais uma semana, no mínimo, para ter outra oportunidade de pegar Janaina no pulo.

Não, era hoje. Bastara a sorte que tive de encontrá-la no mesmo bar que eu costumo ir para ter a certeza que seria hoje. Eu ficaria lá, sentado, no frio, sem cigarros e sem um trago durante a noite toda se fosse necessário. Mas aquilo iria acabar ali. Nunca mais eu iria olhar na cara do pastor ou de Janaina. Levantei-me e comecei dar pulinhos como um pugilista para aquecer e espantar o sono. Mais um cigarro. A luz do quarto se acendera finalmente. Era agora.



Bento.

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