segunda-feira, 15 de julho de 2013

NEM O DIABO GOSTA

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Eis que o cheiro de podridão era tão forte que chegava a lacrimejar os olhos.
Ratos se alimentavam de todo tipo de dejetos, humanos, animais e etc.
As paredes eram cobertas de lodo e merda que serviam de armadilha para as moscas, que serviam de alimento para as baratas, que serviam também de alimento para os ratos e, haviam tantos.

Cobria o solo daquele lugar horrendo uma água imunda e viçosa. Escura, tão escura que não se enxergava o fundo, apenas ossos de frango, carcaças de gatos que se arriscavam naquele ninho de cadáveres em busca de alimento e viravam presas dos animais filhos da sombra. Pneus, sacos de lixo, fraldas, absorventes femininos usados e todo tipo de lixo que se possa imaginar.

E ainda tinha aquele cheiro. Qualquer ser humano que sentisse aquele cheiro gorfaria de imediato. Desmaiaria em segundos e acordaria digerido pelos ratos, baratas e moscas. Ou pela própria bosta.

No teto haviam fezes e mais fezes formando um reboco de excrementos tão denso que poderia engolir uma criança. Um pântano invertido dos diabos. Dele respingavam gotas ácidas e fétidas. O lugar era um lixão horripilante, inviável para qualquer forma de vida, exceto aqueles que se alimentavam de lixo e insetos e morte.

Ainda havia o cheiro. Tinha algo naquele cheiro que lembrava a morte, ou melhor, chamava a morte. Suplicava pela inexistência. Era um altar dedicado ao fim da vida. A extinção da alma. Um templo da escuridão do quinto dos infernos.
O próprio Diabo se sentiria desconfortável naquele ambiente, nem os demônios sobreviveram.
Espíritos, almas penadas e fantasmas teriam asco, todas as lendas, urbanas ou não, de bruxas, monstros, espíritos das trevas, ali, naquele lugar não passariam de ursos fofos de pelúcia. Seriam devorados pela depressão, desespero, tragédia, que exalava de cada metro quadrado daquela tumba amaldiçoada.

Eu já conhecia aquele lugar. Já tinha visto tudo àquilo com meus próprios olhos, sentido a podridão me corroendo por dentro, transformando-me em mais um inseto, se alimentando de todo tipo de dejeto que tinha ali. Porém, agora, era a primeira vez que outro alguém colocaria um par de olhos naquilo tudo. Só gostaria de ter certeza que doutor  Makyoto aguentaria olhar para o inferno e manter-se são.

Eis que o médico tirou chapas, usou o estetoscópio gelado em meu peito e ainda não havia dito nada. Foi quando abriu o corte em minha pele e mirou os olhos para dentro do ferimento que eu pensei que ele não sobreviveria às condições obscuras e nojentas que se encontrava o interior do meu tórax, a podridão de meu peito.
Doutor Makyoto então voltou suas retinas para mim com aquela cara de interrogação que todos os médicos aprendem ainda na faculdade, bem como dissecar rãs, desentupir veias e medir pressão. Uma cara de interrogação e uma paz oriental. Eu provavelmente iria morrer, sabia disso. Mesmo assim não estava totalmente conformado, havia tanto ainda para conhecer, tantos lugares para visitar, livros para ler, porres para curar... Provável que meu corpo pedia pela pesada camada de terra cobrindo-lhe trazendo o descanso eterno, a mente queria mais, muito mais. Logo, eu era um turbilhão de sensações e depressões involuntárias. Eu já havia desejado a morte e agora que estava de mãos dadas com ela queria distância. Queria correr e correr e correr sem parar como sempre fiz quando as coisas saíam do controle. Um grande bundão me cagando com medo da morte e olhar para aqueles olhos puxados do doutor Makyoto que lembravam os olhos de minha avó quando sabia que eu estava prestes a fazer algo que me traria vergonha e arrependimento, a sabedoria dos velhos. Eu tinha que saber, independente da resposta, tinha que saber.

 - E então doutor, é grave?

 - Não se preocupe meu jovem,você tem uma saúde de ferro.

 - M-mas, como assim, não sentiu falta de nada aí dentro? Perguntei desconfiando da qualidade de doutor Makyoto como médico. Se ele percebeu eu não sei, mas manteve a mesma calma costumeira.

 - Se está falando sobre o coração que deveria estar aí dentro, admito, nunca vi um corpo sobreviver sem coração, porém, o seu está em plena forma. Não me pergunte como, mas está. E se sua saúde está em dia não temos motivo para nos preocuparmos.

Aquele médico só podia estar de sacanagem comigo. Eu acordei sem a porra do coração dentro da merda do meu peito e ele me diz que não é nada. Deveriam caçar a licença dele. Se eu não achasse que morreria em algumas horas o denunciaria, mas não tenho tempo para isso. Levantei-me e vesti a camisa pronto para sair da frente daquele médico maluco.

 - Ei, ainda não terminamos. Vou costurar e fazer um curativo para conter esse sangramento e evitar alguma infecção. Também vou pedir que retorne dentro de alguns dias para vermos como está se saindo.

Minhas camisas limpas estavam acabando por causa de tanto sangramento, então voltei a me sentar e acabar logo com aquilo.



Bento.

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