domingo, 27 de abril de 2014

GOZOLÂNDIA ETERNA É PARA OS FRACOS. A MELHOR GOZADA É A DE AGORA

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De tempos pra cá tenho percebido mais que nunca que a idade inevitavelmente chega para todo mundo e eu não sou um privilegiado. A cada ressaca nova vejo os anos escorrerem entre meus dedos sem que eu possa fazer muita coisa para mantê-los como estão hoje. O corpo acusa e a recuperação é mais lenta. Ele quer me impor limites que eu nunca tive e com certeza não os tomarei pra mim a essa altura do campeonato.

Eu escrevo isso enquanto observo Roxanne caminhando pelo banheiro com suas pernas finas e seu andar elegante. Roxanne é minha aranha de estimação que vive no meu banheiro e fez de um buraco rente ao teto sua moradia, religiosamente ela sai de lá para me dar bom dia. Eu respeito o espaço dela e ela o meu.

Eu sou das antigas, com o passar dos anos passei a cultivar a barba para assumir a idade ao invés de escondê-la como todos fazem. É mais uma forma de expurgar as garotas de 18 anos e não é porque meu corpo está ficando velho, mas sim porque minha mente está velha faz tempo. Sou desses caras que vê mais romantismo na garota espremendo cravos nas costas do namorado que qualquer clichê exibicionista que se vê nas redes sociais por aí.

Por isso venho com meu saudosismo de velho para dizer que nem mesmo a ressaca se faz como antigamente. Eu não sei o que fazem os velhos da minha geração, mas eu tenho feito o mesmo que fazia há dez anos, com raras exceções e só o que mudou foi mesmo a demora de meu corpo em recuperar-se das bebedeiras, alguns cabelos brancos e por aí vai.

Uma garota leu meu último conto e fez uma declaração um tanto quanto dramática levando-se em conta que era apenas um conto. Porém eu sempre mastigo as coisas devagar para refletir sobre e talvez ela esteja certa, talvez meus olhos estejam ofuscados pelo hábito, o hábito da amabilidade com o singular, a coexistência com o sofrimento, a empatia com o flagelo. No entanto isso pode ser só sintomas de minha veia poética e caso seja isso, a garota estaria errada e foi só uma declaração um tanto quanto dramática. Porém, quem sou eu para falar de dramaticidade?

Sabe, eu sigo uma cartilha, apesar de algumas pessoas acharem que eu levo a vida sem lei ou regras eu sigo uma cartilha, coisas que eu penso como certo ou errado e esse tipo de coisa. Sigo conceitos e rituais, não passo sem o café e cigarros e são as primeiras coisas que eu faço ao acordar. Durante muito tempo eu fiquei sem pisar em riscas nas calçadas mas parei de repente. Tenho um pouco de superstição por isso sempre tenho um maço de cigarros extra e uma garrafa de algo forte, pois nunca sei quando a inspiração me tomará horas de cigarros e tragos numa quantidade incrível.

Esses dias tive uma crise de vômito ao ponto de desidratar-me. Coisa da idade. Há cinco anos atrás meu corpo não desperdiçava uma gota sequer de álcool.
Entre um vômito e outro alguém comentou: - Também, você bebe como se o mundo fosse acabar.

 - Mas vai que acaba. Respondi.

Quando a idade chega ela vem com um convite para a morte. Não estou dizendo que estou tão velho a ponto de morrer, porém uma hora todos morrem e eu não sou um privilegiado. Também não me apetece essa história de vida eterna e paraíso, isso só serve para postergar toda a diversão. Não se deixa para gozar - supostamente -  pela eternidade quando se pode gozar muito agora. Vamos lá, acredito que estejam entendendo meu raciocínio.

Uma das minhas qualidade é fazer festas que se arrastam por dias e já adianto, essas festas não são frequentadas por nenhum idiota que acredita nessa promessa de Gozolândia eterna, portanto todo mundo nessas festas procura sair satisfeito e geralmente saem. Essas festas geralmente acontecem nos meus melhores dias porque nos piores a última coisa que eu quero é um monte de gente perto de mim com a libido a flor da pele, bêbadas, tomando da minha cerveja e assustando minha gata para o telhado. Não se pode fazer festa o tempo todo simplesmente porque não se faz festa o tempo todo. Já falei muito aqui sobre as qualidades de uma boa solidão esvaziando garrafas.

Desses meu amigos, não há nenhum que não tenha pelo menos uma história de loucuras e apuros para contar da qual eu não estivesse envolvido e isso me leva a pensar no que minha mãe dizia quando eu era jovem: não se misture com má influência. Nesta época ela ainda não sabia que a má influência era eu. Então volto a dizer que se você busca a esporrada divina trate de não se aproximar, mas caso queira viver libidinosamente aperte os cintos, pois vou te apresentar algumas coisas e algumas pessoas.

Na festa mais recente que fiz um cara entrou no quarto com uma garota e ele saiu de lá duas horas depois como se houvesse apanhado de um peso pesado, com marcas roxas e arranhões. E esta garota só tinha quinze anos. Realmente o ambiente, as músicas e as companhias ajudam a aflorar o pior lado das pessoas, pior lado, claro, na opinião de vocês, pois na minha este é sempre o melhor lado.
Acredito que o melhor lado de qualquer pessoa é justamente aquele que a maioria das pessoas não aprovam. Já reparou como as coisas que são unanimidade geralmente são uma merda? Nelson Rodrigues já dizia isso há trocentos anos e isso nunca deixará de ser verdade.

Alguns amigos, até estes das festas, bem, estes amigos acham-me inquebrável, inviolável. Algumas garotas acham que eu sou intransponível e inacessível, mas digo que isso não passa de incompetência, talvez delas, talvez minha. Eu também já tive meu tempo de lamentar-me, só que já passou. Eu simplesmente desvio o olhar. E tudo que vejo é sempre sem muito apetite, pois nada é duradouro. Também sei que minha forma de pensar afasta mais gente do que aproxima. Eu poderia mudar isso, ou posso pensar que isto é apenas um filtro, ou não pensar muito nisso. As coisas são sempre como devem ser.




Bento.

Um comentário:

Gustavo Silveira disse...

Adorei!!!

http://vampleitores.blogspot.com.br/