segunda-feira, 14 de abril de 2014

UM DEMÔNIO É UM DEMÔNIO, O QUE SE PODE FAZER?

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Você já teve daquelas visões horríveis que te deixaram mal o dia todo, sem motivo? Tipo, uma coisa bosta, que mexe com a barriga e tudo mais? Não? Pois é, eu sofro dessas coisas às vezes, mas também, sou vizinho de meu demônio particular. Uma hora ou outra eu correria esse risco, bem na hora que eu menos estivesse esperando. Todo o chão se abrindo em labaredas dos infernos, as nuvens se fechando sobre minha cabeça, o demônio vindo em minha direção e justo neste momento eu lembrando que tinha abandonado meu terço da sorte, nem nele pude pedir apoio.

Se você já viu o inferno de perto saberá do que estou falando, caso contrário achará exagero. Caso fosse mais frouxo me cagaria por inteiro, mas eu sou vaidoso. Da mesma forma que o demônio me viu, de longe, eu já o tinha visto, mas fingi que não vi, ele fez o mesmo e acabamos evitando nos encarar. Talvez ele com mais medo de mim do que eu dele, ou vice-versa. Medo. Não é uma palavra de toda exagerada. Medo, sim, pois não. Este demônio com rabiscos na pele, belos rabiscos, eu idem, e partimos assim, sem tocar nossos olhares.

O problema é que este demônio já fora tão íntimo de mim que os olhos foi apenas UMA das coisas das quais tocávamos. Este conhecera cada centímetro de meu corpo e eu o dele. Claro que eu, com o talento de olhar esguio que Deus deu aos homens, não pude deixar de notar seu corpo que já fora meu. Desde a cinta-liga tatuada até os cabelos emaranhados propositalmente. Tem coisas que nos marcarão pelo resto de nossas medíocres vidas, independente de qualquer coisa, meus demônios são algumas delas e este demônio em particular tem favoritismo em meus pesadelos. Lembro-me da primeira vez que assisti O Exorcista, eu tinha, talvez, sete anos, e qualquer coisa mais assustadora pode vir a traumatizar uma criança desta idade, hoje em dia, sempre que vejo este filme eu me borro como uma menina. Este demônio me marcou tanto quanto e sempre que o vejo me borro, como uma criança que deixei de ser faz tempo.

Sabe a música Pet Sematary, que é quase que impossível ouvi-la sem lembrar do filme de Stephen King? Pois bem, é como ver o demônio que me assombra, eu sempre vou ouvir as piores músicas e imagens dos filmes mais assustadores de toda minha vida. Os contos mais assombrados e minhas crônicas mais deprimentes. Tudo de uma hora para a outra vem à minha mente como se fosse hoje.

Com certeza vocês que leem isso devem achar exagerado, drama de quem escreve, esse tipo de coisa. Mas posso garantir que é no mínimo sobrenatural. É a única coisa que pode me ferir. Bem, como já disse antes, eu sou um casca grossa, a vida me fez assim, tenho culhões do tamanho do mundo, porém, basta ver este tipo de demônio e eu solto meu intestino como um velho com incontinência fecal. Um grande bosta que eu já fui. Todos saímos do limbo, temos essa opção, de sair ou não, no meu caso, este limbo sempre me cobre até a cabeça quando menos espero, um passeio pela praça e de repente: Puft! Lá está meu demônio particular a fim de me enterrar nos piores sentimentos de outrora.

Sabe, eu pouco me faço de rogado, garotas vem e vão como pombas que comem das migalhas e partem sem agradecer. Das amizades penso a mesma coisa, familiares morrem e eu sequer me permito pensar muito nisso. Sou um arrogante, talvez pensem, talvez não. Um egoísta, um insensível. No entanto eu posso ser mesmo, tenho quase certeza de que sou. Um grande insensível filho da puta. Mas nada, absolutamente nada me deixa mais amedrontado como neste caso, me lembra o fracassado que já fui e ninguém quer lembrar dos fracassos passados.

Este não é meu único demônio, não mesmo, tenho tantos que dá para encher um bar inteiro deles. Alguns eu já até tomei como amigos, outros eu derrotei e uns eu derroto todos os dias e eles nunca se cansam. Estes esperam que eu me canse de derrota-los para então darem o golpe final. Não estou dizendo que isso é impossível, todo homem se cansa em algum momento. Logo, eu poderei ser o próximo a ter meu peito atravessado por garras afiadas e todo o resto será história. Veja, isso não é como aqueles amigos imaginários que temos quando criança, estou falando dos demônios que nos acompanham durante a vida. Daqueles que quando dobramos a esquina, lá está um deles, fumando um cigarro, marcando presença. Como quem diz: “Acha que vai se ver livre de nós? Você nos criou papai, nunca vamos te abandonar e você tão pouco nos quer longe, pois somos os únicos amigos que deseja ter e nós somos os únicos que te aceita sem te julgar. Nós o tornamos o que é hoje, sem isso tu não passaria de um moleque leitor de livros de autoajuda. Ou um religiosozinho metido a esperto. Ou talvez um idiota que gasta todo seu salário em camisetas de cem conto, calças de trezentos, garotas de mil a hora. Não meu amigo, você nos criou para isso”.
E eu faço como todas as vezes, ouço e não discuto. Não se pode discutir com um demônio simplesmente porque não se pode discutir com seus próprios demônios. A única forma de afasta-los é bebendo alguma coisa forte e é exatamente o que eu fiz ao vê-lo, segui para o bar e lá estava outro demônio, sentado na porta do bar me pedindo uma dose. "Vamos amigo, jogue uma dose para nós, te traremos sorte".
Eu sou um cara de sorte, pensando bem. Tenho demônios lindíssimos, magros, estilosos, mas mesmo lindos não deixam de ser demônios que querem me ferir sempre que tem oportunidade.
Sentei no balcão, pedi um Domecq para começar e tentei prestar atenção na conversa de dois sujeitos que estavam à mesa perto da sinuca a fim de não ouvir meu demônio me atentando. "Ei amigo, o que isso? Não me ignore, eu te conheço, sei de todos seus defeitos e ingratidão não é um deles. Chame-me para sentar com você, vamos lá, estou cheio de novidades para contar. Adivinhe quem casou. Hahaha"

Só parou quando joguei o copo, vazio é claro, em direção ao filho da puta. Ele continuou ali sorrindo e imitando um padre. "Pode beijar a noiva hahaha"

O garçom me olhou pronto para arrumar briga por ter quebrado a louça, os dois homens da mesa me olharam com surpresa.

- Não se preocupe - eu disse. - Vou pagar pelo copo.

- Não seja insensível Augusto, o cara está tendo um dia difícil. Disse o sujeito que estava à mesa e logo depois estava com um de seus braços em meus ombros. O garçom pareceu ter se acalmado.

- Meu nome é Cesar, como se chama?

- Não é da sua conta. Eu disse.

- Ora, cara. Não fique envergonhado, todos temos um dia de cão. Ele disse isso e logo bateu com os nós dos dedos três vezes no balcão de madeira. - O meu amigo ali mesmo, está numa fossa por causa de uma morena que dá dó.

Este sujeito falava quase que com seu rosto colado ao meu e seus dentes eram amarelos cor de merda. O garçom chegou com uma nova dose de Domecq e ele finalmente tirou as mãos de mim.

- Quero o que ele está tomando, Augusto. Ele disse com seu sorriso de merda, como quem sabia do que estava falando. Só o que ele não sabia é que parecido com merda ou não, ele estava prestes a ficar sem os dentes se não me deixasse em paz. Ainda tinha aquele maldito perfume barato que fez meu nariz coçar.

- Você não parece de muita conversa. Ele continuou tentando fazer amizade.

 - Olha, cara. Eu estou querendo beber em paz, pode ser?

O sujeito estava apoiado com um dos cotovelos no balcão olhando para minha cara como quem estivesse vendo um macaco no zoológico.

- Besteira! Ah besteira. Pra mim você está fugindo daquele demônio ali. Me diz, ele é seu? E sem se mexer ele apontava com a cabeça dando entender que ele também via meu demônio parado do lado de fora do bar dançando e pedindo um drink. É a primeira vez que desviei o olhar de minha bebida para olhar o tal sujeito e percebi que sua cara era cheia de furúnculos como espinhas gigantes que não estavam mais lá. Ele percebeu minha surpresa.

- Ah eu sabia. Tranquilo, cara. Um demônio é um demônio, o que se pode fazer?

- Como você pode vê-lo? Achei que só eu pudesse.

- Cara, eu posso ver tudo, sou um anjo.

Não pude segurar o riso. Quase cuspi conhaque em cima dele, não que ele não merecesse. Tinha sido meu primeiro sorriso em semanas.

- Seu filho da puta. Não me tire como idiota. Só porque acredito em demônios não quer dizer que vou acreditar que você é um anjo. Saia de perto de mim antes que eu limpe o balcão com sua cara. Eu disse.

O mais curioso é que o garçom estava ouvindo aquele papo de anjo e pareceu achar normal. Deveria estar bêbado como o idiota da cara cheia de buracos. O sujeito se afastou uns dois passos.

- Calma, rapaz. Estou sentindo muito ódio na sua aura.

- E o que você vai fazer? Vai pregar a palavra agora? Me cobrar dízimo? Nem perca seu tempo porque estou duro. Provoquei.

- Ah, não, não. Relaxa. Tem um monte de idiotas por aí pra fazer isso. Nós anjos descemos aqui apenas para evitar que filhos de Deus como você façam alguma besteira. Ele falava e parecia acreditar nisso. Mesmo com sua cara cheia de furúnculo era sorridente e parecia falar sério. Isso só provava que eu tinha entrado no bar errado. Meu demônio não parava de dançar e tagarelar: “Quem tiver algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre hahaha você não estava lá hahaha calou-se para sempre”.

- Acho que você tem um problema com casamentos, amigo. O sujeito disse.

- Eu? De jeito nenhum, adoro casamentos. Ironizei.

- Ei, Augusto. Alguém não foi convidado para o casamento. O sujeito disse para o garçom e então eram três otários rindo da minha cara. - De qualquer forma eu só posso te ajudar se você quiser minha ajuda.

- Tudo bem garoto sorriso, quer me ajudar? Que tal tomar um banho na próxima vez que falar comigo? Já estava impaciente.

- Pois é, seu forte nunca foi a humildade. Ele respondeu.

- E o seu não é a higiene, pelo que vejo. Deus não permite que vocês tomem banho?

- Saiba, cara, que a cada vez que diz o nome d'Ele em vão é menos um ponto que você ganha e você está em débito há algum tempo. Ele disse como se eu estivesse perdendo uma festa VIP com garotas de topless e open bar.

- Estou cagando pra você, pra Ele e a porra dos seus pontos!

Parece que eu tinha conseguido mexer com ele. Seus olhos reviraram e sua córnea ficou do avesso mostrando olhos esbranquiçados como de um cego. O demônio lá fora dava pulos de alegria. "Briga, briga, briga". Ele dizia.

- Não sabe o que está dizendo, infiel. Vou providenciar de que vá para o inferno, nem que eu mesmo tenha que te levar até lá.

Ao dizer isso ele veio pra cima de mim com uma rapidez que eu nunca vi antes. Com um belo soco na têmpora fui parar no chão ainda segurando o copo e um pouco do que restou de meu conhaque. Preferi beber antes que o desperdício fosse ainda maior. O garçom e o outro cara da mesa tinham sumido. Ele ainda vinha para cima de mim, tirou a cadeira do caminho com um chute e me pegou pelo colarinho. Eu estava a um metro do chão.

- Seu viadinho de merda. Está mais do que na hora de você aprender boas maneiras. Ele cuspia em meu rosto enquanto falava e seu hálito também era de merda. Meu demônio gargalhava como quem assistia a um seriado de Charlie Sheen.

- Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você me pregaria a palavra...

Antes de terminar eu saí voando pra trás do balcão. Achei uma pequena faca de cortar limão entre os cacos de garrafas e copos e a escondi em minha mão.

- ... Vocês religiosos simplesmente não conseguem ficar com suas malditas bocas fechadas. Eu disse querendo briga.

O anjo estendeu a mão para me agarrar do outro lado do balcão mas desta vez fui mais rápido. Com um golpe de sorte eu peguei uma de suas mãos, pressionei contra o balcão de madeira e a espetei com a faca. Ele gritou como um urso que acabara de levar um tiro e garanto que seu hálito não era melhor agora. Peguei uma garrafa de Domecq ainda lacrada, dois copos que permaneceram intactos à luta e pulei o balcão. O anjo ficou preso pela mão e o demônio continuava ali. "Conhaque, conhaque, conhaque". Entreguei-lhe um dos copos e enfim ele parou de falar.

- Vem, vamos beber em casa que eu já me enchi de bares por hoje.




Bento.

2 comentários:

Cristiane Gomes disse...

Concordo com você, não concordo com você . Hora sim, hora não . Gosto, não gosto.
Acho que é como consigo comentar seu texto, sua crônica, seu conto . :)

Bento Qasual disse...

Se você só concordasse comigo seria um tédio Cristiane Gomes. kkkkkkkkk