domingo, 17 de agosto de 2014

30 DIAS E 30 NOITES DE MALDIÇÕES E ATROCIDADES (17 JUL - 15 AG)

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É, eu sou uma cara durão. E isso não é nenhuma declaração de amor. Eu sequer tenho prática de fazê-la, caso pretendesse, faz muito tempo desde a última vez.
Eu sou um cara supersticioso. Isso explica o motivo de minha inimizade com o Destino, afinal sempre tento reescrevê-lo. Eu não sou nenhum religioso, porém sou supersticioso.

Todos temos um dia ruim. Uma data ruim. Os religiosos principalmente. Um exemplo é a quaresma. No entanto, eu tenho um mês sabático em que eu me transformo. É exatamente na virada dos signos Câncer para o Leonino. São trinta dias malditos onde eu não consigo me concentrar em nada, em ninguém e as coisas sempre acabam da pior forma possível. Eu disse malditos? Vocês, em sua maioria provavelmente não sabem bem o que significa isso. Eu já falei sobre meus demônios e é exatamente nesses trinta dias - que se concluem no dia de hoje (15) - onde eles se veem livres para fazerem o que bem entendem, festas e a porra toda.  O mundo não é só o que nossos olhos podem ver. Há mais coisas entre viver e morrer, morrer e viver. Os românticos diriam que sofremos ao perpetuarmos a vontade de nossos corações, e que devemos dar ouvidos apenas a nossa mente. Vou lhe dizer uma coisa: os românticos não sabem nada sobre o amor exceto a autoflagelação. Quando mente e coração apontam para o mesmo lado não há o que fazer a não ser tentar enfraquecê-los e é isso o que bêbados como eu tentam fazer durante suas vidas inteiras mas ninguém entende. Não entendem porque apenas quem passa por isso sabe. É preciso passar por isso para valorizar as migalhas. Mais que a metade das pessoas passam suas vidas inteiras sobrevivendo de migalhas e não se dão conta disso. E eu não estou falando de pobres ou mendigos, estou falando de migalhas sentimentais. Do único caroço de feijão no prato do afeto.

Já reparou como todo fim de Julho é chuvoso e gelado. Eu o reconheço como o olhar num espelho. O Sol parte em complacência. Não há muito pelo que lutar, nem pelo que por a cara para fora de casa. Eu disse que não há muito? Na verdade não há quase nada.
Não quero que pensem que isso é um testemunho de desistência pois não existe nada pelo que lutar. São apenas 30 dias e 30 noites de subsistência, lamentos, perigos, lembranças malignas. Do dia 17 de Julho até o dia 15 de Agosto. É um mês inteiro pelo resto de minha vida que eu relembrarei o quanto uma pessoa pode mudar seu Destino da forma mais incompetente possível. Mudá-lo para pior, bem pior. Lembrar e lembrar o quão fundo pode ser o fundo do posso, o quão frio pode ser o inferno. E o quanto pode ser inútil uma declaração de amor após você ter feito coisas das quais passaria o resto da vida se lamentando. Provavelmente é como ser responsável pela morte de alguém que nutre um sentimento profundo. Foi isso que fiz. Causei a morte. Talvez a própria. A morte de outrem. Sou eu, o assassino do amor, não agi sozinho, mas fui o mandante e o executor. Conviverei com isso querendo ou não.

O bem da verdade é que relembro que o último 15 de Agosto que realmente importava comemorar eu abri mão. E isso, definitivamente começou a matar o tal do amor. Como um câncer. Começou ali e claro que como todo assassino eu não desisti, passei a matá-lo aos poucos, como que o torturando. Matei matei matei. E pago por isso até hoje em cárcere privado. Privado das coisas que eu mais acho importante.

A vida é bem mais que isso - vão dizer - e é por isso que minha maldição dura apenas um mês. Caso contrário duraria todos os outros que me restam para tentar fugir desta prisão, ou pelo menos tentar um indulto. Podem dizer que eu sou um exagerado e que eu faço muito drama até mesmo para quem escreve. Eu responderei que para quem escreve nunca existirá drama demais, apenas o drama bom ou ruim. Não se vive a vida sem alguns lamentos, mas com minha mania de grandeza quis eu exagerar no tamanho do erro. Poucos sabem dessas minhas mazelas, da verdadeira história de amor e ódio como uma novela mexicana e quem conhece não acredita que possa ser verdadeira. Sequer eu acredito que pude ser tão traíra comigo mesmo. Mas as maiores tragédias são as mais inacreditáveis, se são.

Lembro-me como se fosse hoje. Do dia que eu me sabotei, hoje, exatamente completam 5 anos. E ainda lembro-me como se fosse hoje. Dos olhos de quem me via com a admiração que só quem ama pode compreender saía a mais completa decepção e na hora eu não percebi, ou não quis perceber. Os que defendem minha inocência dizem que não passou disso, que eu fui inocente. Talvez eu tenha sido, mas não vou me enganar nem enganar quem me lê, esta não foi minha única tentativa de assassinar o amor. Desde este dia eu passei a ser um sociopata em busca de sangue. Eu praticamente abri meu peito à unha e despejei todo seu conteúdo no esgoto. Ainda me resta o sangue nas mãos, o gosto de morte na boca, os pesadelos noturnos.

Como a maioria dos assassinos eu poderia me esconder atrás da religião e pedir perdão a Deus. Eu poderia andar por aí pregando minha infelicidade de ter cometido tal atrocidade com o sentimento que eu queria tão bem, porém isso me soaria clichê demais e eu passei a odiar clichês. E digo que estes 30 dias, dos quais eu tenho que suportar todos os anos, talvez tenha saído barato. Talvez eu tenha saído no lucro, afinal, desde então eu passei a escrever com a companhia destes demônios e não consigo me ver fazendo qualquer outra coisa. Como veem, o Destino tem formas muito estranhas de brincar conosco.



Bento.

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