sábado, 28 de fevereiro de 2015

O ESQUARTEJAMENTO DE BÁRBARA

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Episódio anterior: O AFOGAMENTO DE BÁRBARA

A garota magra e esguia estava deitada de bruços na cama e o sujeito tinha amarrado suas mãos às costas com uma gravata de seda e as mãos estavam amarradas aos pés com o fio do telefone do quarto de motel que ele arrancara. A aparência da garota presa, indefesa e tentando encenar um terror que não existia ainda não estava excitando o homem como ele queria. A garota estava gostando daquilo, mais até do que ela esperava. Chegava a molhar o lençol estampado com o logo do motel com o liquido escorrendo entre suas pernas. O homem era alto, magro, mas não a ponto de parecer desproporcional nem a ponto de ter suas costelas aparecendo em seu peito nu e branco. Nesta posição a garota amarrada fazia sexo oral no homem enquanto ele segurava seu cabelo firmemente fazendo força para que sua garganta aceitasse todo o volume de seu pênis. Mesmo as lágrimas nos olhos da garota devido o esforço não deixava o homem excitado o suficiente, nem os tapas no rosto dela. Então ele decidiu tentar uma última coisa. A história de Carlos, um de seus pacientes, aliado a notícia que havia lido semanas atrás, de uma garota que tinha cortado a garganta de seu namorado naquele mesmo hotel, naquele mesmo quarto, não lhe saia da cabeça e as lembranças sim, estavam excitando-o, a garota ainda nem tanto. Portanto decidiu tirar seu membro da garganta da garota pálida e maquiagem forte e manchada pelas lágrimas e ir até sua valise. A moça ao ter sua boca desocupada tossiu e cuspiu o excesso de saliva no chão do quarto e por isso só percebeu a lâmina hospitalar na mão de seu algoz quando ele já estava à frente dela novamente.

Agora sim, o terror nos olhos da garota era real.

- Calma, Bárbara. Eu te prometo que não vai doer.

O homem fez questão de achar uma garota magra, branca e de cabelos negros como Carlos havia descrito sua garota imaginária, mas Bárbara não era seu nome, e sim Lilian.
E era exatamente este terror que o homem procurava. Sua maquiagem borrada piorou devido mais lágrimas que saiam dos olhos de Lilian e desta vez ainda não havia nada incomodando sua garganta. Ela começou a perguntar-lhe o que o homem iria fazer, ainda tentando fingir que estava gostando da brincadeira até levar um soco no rosto que provavelmente quebrara seu nariz. Logo que Lilian ameaçou gritar sentiu o gosto da meia social de algodão penetrando sua boca. Sua língua tentou expulsá-la em vão. Na briga entre sua mandíbula e a mão do homem ainda conseguiu morder seu dedo indicador com força, mas não a ponto de sangrá-lo. O homem deu mais um soco no rosto da garota que tentava se desvencilhar da gravata e do fio de telefone para fugir daquele insano, porém os nós eram bem feitos. Lilian ainda teve tempo de mirar os olhos de seu assassino temendo imensamente pela sua vida quando sentiu a lamina gelada em contato com seu pescoço quente cortando-o de orelha a orelha jorrando sangue no chão sujo de cuspe. No mesmo momento que cortava a garganta da garota o homem ejaculava. Era o temor nos olhos da garota que faltava para que ele chegasse a seu ápice de prazer. Parte de seu esperma ainda espirrou no rosto desfalecido de Lilian fazendo com que o homem abaixasse para vislumbrar aquela cena da garota com os olhos sem vida e rosto sujo de porra.

Ele já estava vestido com seu terno italiano quando ouviu seu celular tocar. No quarto de motel, à meia luz, o único som era do seu toque de celular com a música Simpathy of the Devil que ele escolhera para sua secretária.

- Quaresma. Disse ao atender o telefone.

Cassandra, sua secretária tatuada falou do outro lado da linha.

- Doutor, desculpe incomodá-lo. Mas acho que temos uma emergência.

- O que foi desta vez, querida?

- Carlos Rodrigues, seu paciente nas quartas-feiras, está preso.

- Preso?! Onde?

- No 13º DP. Suspeito de assassinato, doutor.

- Novidade. Estou indo para lá.

Benedito desligou o telefone e saiu do Motel Libelillun sem ser visto a caminho do 13º DP em seu Mini Cooper azul.

Cabo Hudson completaria oito anos de corporação no mês seguinte e já tinha feito testes para Polícia Civil duas vezes sem sucesso. Ele conseguira ir bem nos testes físicos, apesar de sua barriga saliente. O que fazia Hudson ter sua transferência negada eram as provas de matemática e português. Mesmo as perguntas dissertativas eram um problema. Nunca foi um CDF, na escola ele era o valentão, tudo que ele precisava era ameaçar os garotos de sua turma e eles passavam as respostas para ele. Desta vez ele não podia contar com sua força, pelo contrário, estava ali, preso atrás da recepção do 13º DP justamente por usar sua força na hora errada. Meses atrás o cabo estava numa ronda quando recebeu o chamado de uma suspeita de assalto no bairro que ele fazia ronda. Pegou dois moleques fugindo da casa de uma senhora cega de setenta e poucos anos. Na prisão acabou quebrando os dois pulsos de um assaltante e o outro chegou ao hospital com afundamento de crânio. Sorte a dele que o parceiro testemunhou a favor dizendo que foi em legítima defesa. Por isso Hudson queria ir para a Polícia Civil, queria prender bandidos de verdade, não aqueles ladrões de galinhas.
O policial agora só pedia identidade e fazia as pessoas assinarem o livro de visitas da delegacia.

- Boa noite. Quero ver meu paciente, Carlos Rodrigues.

O cabo já não foi com o sujeito logo de cara. Terno caro, gel no cabelo penteado para o lado. Ele já conhecia aquele tipo.

- E quem eu devo anunciar, madame?

- Como é?

- Seu nome, qual seu nome?

 - Doutor Benedito Quaresma.

Doutor?! Bela merda. Todo mundo era doutor. Doutor disso, doutor daquilo, tanto tempo ali na recepção já o fez deparar-se com cada figura. Tinha uns que até colocava doutor na identidade fazendo questão de documentar sua mediocridade.

- Levante os braços para fazer a revista. Disse o guarda.

Quaresma levantou os braços como se fosse um evento. Fazia pose para tudo. Era um galã bufando pelo fato de ter de ser revistado. Só foi lembrar-se dos comprimidos de ecstasy depois que Hudson já estava apalpando seus bolsos.

- Olha o que temos aqui... Que droga é essa? Hudson perguntou com satisfação no rosto, afinal, fazia tempo que não efetuava uma prisão.

Para evitar a burocracia Quaresma pensou rápido e disse serem medicamentos para seus pacientes.

- Infelizmente, devido a pressa esqueci das receitas, mas eu posso fazê-las agora mesmo, se o policial desejar. Tenho um bloco de receitas na minha valise.

- Talvez seja uma boa ideia você fazer essas receitas para garantir. Nunca se sabe quando vai entrar aqui um maluco cheio de drogas nos bolsos. Disse Hudson mostrando agora a tranquilidade de quem tinha todo o tempo do mundo.
Hudson tinha, mas Quaresma não tinha tempo nem paciência, principalmente com policiais desmotivados com a profissão.

- Veja, Cabo... - Benedito abaixou os olhos até o nome do policial bordado na farda - Hudson, né? Eu estou totalmente de acordo com você, isso só mostra o quanto está empenhado em ser o melhor dos policiais - Benedito fingia uma sinceridade impressionante - mas eu não quero fazê-lo perder tempo. Acredito que você terá muito mais prazer em vingar-se do homem que te reprovou nas provas para a Polícia Civil.

- Como você sabe das provas e que eu fui reprovado? Hudson se mostrava mais assustado que curioso.

- Não precisa ser muito esperto para perceber que este cargo atrás de uma mesa não está à sua altura. Não, amigo, se é que posso chamá-lo assim. Mas se aquele delegado simplesmente sumisse, acredito que quem o substituir conseguirá enxergar todo o seu talento.

- O que quer dizer com isso? O Cabo perguntou interessado.

- Bem, ele não pode continuar no seu caminho.

- E o que espere que eu faça, que eu mate o cretino?

- Viu como você é esperto, amigo? Nunca deixe que lhe digam o contrário, exceto, é claro, se você achar que não é capaz... A última palavra Quaresma disse pressionando os lábios e levantando as sobrancelhas como quem lamenta.

***

Carlos estava na cela da delegacia com mais três indivíduos. Dois deles estavam detidos por não pagar pensão aos filhos e o outro era acusado de ter roubado o caixa da empresa. Benedito fez cara de entediado ao olhar para os homens que dividiam a cela com Carlos.

- Seus merdinhas. Deveriam se envergonhar de cometer crimes tão banais. Os três homens da cela estavam tão envergonhados que se limitaram a olhar o autor da bronca e baixar os olhos imediatamente.

- Você sabe o que eles fizeram? Carlos perguntou.

- Nada digno de nota. Nada mesmo.

Junto com Quaresma estava um outro guarda que o acompanhou até a cela de Carlos, até que notou que ambos precisariam de privacidade.

- Não vai me dizer que está aqui por causa da Bárbara? O médico perguntou e Carlos assentiu com a cabeça - Pelo menos a droga que eu te dei funcionou, então.

Carlos fez que não com a cabeça.

- Mas que caralho! Então me diga o que aconteceu.

- Na noite que eu saí do consultório eu esperei até que ela aparecesse e a afoguei. Foi fácil. Mas desta vez eu fiquei esperando para ver se ela acordaria, como das outras vezes.

- E daí? Perguntou Quaresma tentando disfarçar o interesse.

- E daí que ela não acordou. Fiquei desesperado com o corpo dela nu e gelado. Os lábios... Os lábios dela estavam roxos.

- Natural para quem está morto.

- Pois é, aí eu peguei no sono porque eu tava muito bêbado. De manhã ela não estava mais lá, como de costume, então segui minha vida normalmente. Até tomei um pouco do coquetel que você me deu e estava coberto de razão. Foi uma das brisas mais loucas que eu já tive e ainda por cima não vi a Bárbara.

- Modéstia à parte, eu sei tudo sobre narcóticos. E você a viu novamente?

- Sim. Hoje. Ela estava no bar onde eu fui, mas ao contrário das outras vezes ela me ignorou. Fingiu que eu nem existia. Eu fiquei esperando pra ver quanto tempo demoraria até que ela viesse falar comigo, pedi José Cuervo e tomei quatro doses seguidas porque sou muito fraco pra tequila e nada. Pelo contrário, ela começou a falar com todos os caras do bar menos comigo.

- Mulheres... Disse Benedito revirando os olhos.

- Eu fui ficando bêbado e com tesão, você fica de pau duro quando tá bêbado? Perguntou Carlos divagando do assunto.

- Muito. É incontrolável, mas continue. O que aconteceu depois?

- Bom, fiquei puto e com ciúme...

- Mesmo as garotas imaginárias fazem showzinho. Disse o doutor.

- Então alguém colocou Matanza na Jukebox e ela começou a dançar com um idiota qualquer. E pior, ela dançava exatamente como dançou no dia que eu a afoguei. Aí deu merda.

- O que você fez?

- Eu não me lembro muito bem, estava bêbado. Ainda estou, eu acho. Só sei que quebrei uma cadeira no desgraçado. Tomei alguns socos, mas estou inteiro. Aí vim parar aqui.

- Foi só uma briga de bar? A Cassandra disse que você foi preso por suspeita de homicídio.

Carlos parecia envergonhado quando ouviu a acusação - É que enquanto era trazido até a delegacia eu gritei algumas vezes que havia matado a Bárbara.

- Você é mesmo um idiota.

- Eu estava bêbado.

- Tudo bem, um bêbado idiota.

Quaresma chamou o policial que aguardava no fim do corredor e fez sinal para que abrisse a cela.

- Vamos, vou te tirar daqui.

- Obrigado, doutor.

- Mas vou cobrar a hora.

- Tudo bem, desde que eu ganhe uma carona.

***

Carlos estava em casa com pouca coisa de maconha enrolada no papel dos pães que tinham servido de jantar na escrivaninha. Ao lado um copo do Jack Daniel's pela metade que ele bebia vagarosamente, sentindo o sabor suave e amaciando a garganta para o cigarro. Pensava na prisão, pensava em Bárbara, na ajuda que Quaresma tinha lhe dado. De certo modo, aquele psicólogo filho da puta não era de todo ruim. Carlos pensava que de um jeito ou de outro acabava fazendo o que Benedito dizia e isso sempre lhe causava dor e confusão, mas sentia que fazia porque alguma coisa soprava em sua mente, em sua consciência que era a coisa certa a se fazer. Tanto que as últimas palavras de Quaresma, dentro do carro parado em frente o prédio de Carlos foram:

- Você ainda quer se ver livre dela?

- Mais do que nunca. Carlos respondeu

- Corte-a em pedaços e espalhe por aí. Dê aos cães, aos mendigos, coma você mesmo se preferir. Queime, congele, guarde um pedaço para você se lembrar. Até porque os homens adoram lembrar do passado, mesmo que seja trágico.
Carlos não respondeu, mas entrou no elevador pensativo. Se tivesse coragem... Desta forma, se fizesse do jeito que Quaresma disse, era quase certo que nunca mais veria Bárbara. Contudo a dúvida ainda pairava em sua cabeça. Queria mesmo deixá-la para sempre? Tanto tempo passando as noites com a garota que sempre sonhara, contando seus segredos mais indiscretos, bebendo e fumando juntos e compartilhando de cada cômodo de seu apartamento. Nus e libidinosos.

Carlos desceu dois andares antes do oitavo onde morava. Queria ir pela escada de incêndio onde uma vez havia beijado Bárbara e sua boca ainda guardava o gosto daquele beijo. Mesmo depois de passar a noite na cadeia sem escovar os dentes, mesmo que desde aquele beijo tivesse bebido todos aqueles destilados, cervejas, mesmo assim ainda sentia o gosto. Não havia cigarros, charutos ou cachimbos suficientes para tirar aquele gosto da boca. Subiu os dois andares degrau por degrau e lembrava.
Hoje seria sua última noite com sua garota. Se é que podia chamar assim. Se é que uma garota que não existe pode ser de alguém. Mas Carlos teve um devaneio, pensando que se ele havia criado então que ela só poderia ser dele.
Carlos chegou ao apartamento e tudo aquilo lembrava-o de todos os momentos com Bárbara. Tirou os sapatos ali mesmo na porta. Tirou a camisa e a jogou no sofá. Acendeu um cigarro e notou que estava muito calor e precisava de uma cerveja. Foi até a cozinha e ao abrir a geladeira lembrou que tinha tomado todas elas na noite anterior.
Lembrou também que precisava avisar alguém na empresa que não pôde trabalhar por que estava preso, mas lembrou que nunca mais voltaria para aquele escritório medíocre então achou melhor deixar pra lá. Na volta da cozinha viu o coquetel de Quaresma na escrivaninha ao lado do sofá e decidiu que se precisava ver Bárbara uma última vez então que fosse rápido. Fez da mão uma concha e despejou tudo que havia para se drogar. Virou de uma vez e sentiu todos os comprimidos rasgarem a garganta. Encheu um copo de whisky e virou a dose de primeira. Mais outra. Tudo de uma vez. Voltou a encher o copo. Antes de sentar-se ao sofá ligou na rádio de Rock e deparou-se com Sultans of Swing um pouco antes do solo e fechou os olhos esperando o ápice da canção.
Continuou fumando e bebendo e cada vez que acabava o cigarro ele acendia outro. E cada vez que acabava o líquido em seu copo ele enchia outro.

Na rádio tocara várias músicas sem intervalos e Carlos ia ficando cada vez mais sonolento e nada de Bárbara. O coquetel já estava fazendo efeito e ele via vultos de Bárbara para lá e para cá, contudo, ela ainda não tinha aparecido. Os vultos eram lembranças dos momentos que passou com a garota que ele tanto gostava. Lembrava-se de suas falas e dos seus carinhos. Ele olhava para porta e agora havia duas portas, assim como dois copos, dois maços de cigarros. Bem como o teto que girava. E nada de Bárbara. Ele havia escondido a faca de carne na calça, mas já a tinha tirado e repousado-a na escrivaninha. Bárbara não viria e ele já estava tão bêbado quanto seu organismo permitia e ela não dava sinal de vida.
Estava cochilando e acordando em solavancos. Tudo isso para esperar sua garota, quando sentiu uma presença atrás dele. Na rádio tocava Rolling Stones. Como ele não percebera antes. Sempre que tocava a banda, a música que fosse, sempre acontecia algo. E ele lembrou-se assim que ouviu o primeiro acorde. Gimme Shelter. Sentiu seu perfume em suas narinas. Bem como sentiu seu cabelo sendo puxado para trás. Estava muito drogado para reagir. Sorriu. Riu como se tivessem lhe contado uma piada. Gargalhou para ser mais claro. Houve tempo de ver a mão feminina pegar a faca de carne na escrivaninha ao seu lado. O sussurrar no ouvido direito.

- Eu criei você e não o contrário. Agora eu estou desfazendo meu erro. Adeus. Adeus, neguinho.

Graças à faca de carne Carlos sentiu sua garganta rasgar e jorrar até a última gota de sangue. Talvez pelo uso das drogas não sentiu dor e apreciou cada momento. A visão se apagando. Como um cochilo. Mas sem solavancos desta vez. Dormiu. E Keith continuou com sua guitarra.



Bento.

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