sábado, 14 de novembro de 2015

PROCURANDO AS BOLAS NO CHÃO SUJO DE VÔMITO, URINA E SANGUE

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Imagem de Apollonia Saintclair

Estava lembrando-me de uma vez que cometi meu último furto. Tinha esse cara, não sei bem como o conheci. Talvez fosse um cunhado de meu irmão, mas talvez não. Éramos dois adolescentes magricelas caminhando até outro bairro que na época, era onde as coisas aconteciam.
Estávamos sóbrios e andando e falando, quer dizer, ele falava mais, eu só ouvia. Respondia às vezes com um "uhum", um outro  "sério?", outro "ah tá" e por aí fomos, andando como camelos.
No caminho havia um posto e eu estava com a garganta seca.

- Que tal comprar uma cerveja? Tenho uns trocados aqui. Eu disse.

Ele também tinha uns trocados e entramos na loja de conveniência que foi muito conveniente naquele momento. Afinal eu precisava estar bêbado para andar tanto, ainda mais com ele falando e falando sem parar. Como toda loja de posto existe a atendente feia com cara de bosta que sabe que não nasceu gostosa suficiente para merecer um emprego melhor que não tenha que virar a noite, nesta loja que estávamos não era diferente.
Fomos para as geladeiras e escolhemos nossas cervejas. Ele, uma marca nacional das mais baratas, eu peguei das de garrafa verde, pois se eu iria tomar uma só pelo menos que fosse da melhor. Logo após pegar sua cerveja ele pegou uma daquelas garrafinhas de whisky, meteu uma dentro da calça, depois pegou mais uma e me deu.

- Esta é por conta da casa. Ele disse e sorriu dando uma piscadela com um dos olhos.

 Eu sabia o que aquilo queria dizer e fiquei tenso. Na época eu não tinha dinheiro para quase nada e nunca tive dinheiro para tomar um daqueles, mesmo os de garrafinha. Ele percebeu minha preocupação e tentou me tranquilizar alertando-me sobre a ausência de câmeras e o frentista era apenas um gordo velho, se tivéssemos que correr seria fácil.

- Não sei. Eu disse.

- Você quer ficar bêbado ou não? Ele retrucou e eu dei de ombros.

Fomos até o caixa pagar. Entreguei o dinheiro para a garota feia que pegou a nota de cinco com a cara de quem estava colocando a mão num rato de esgoto. Abri a garrafa de cerveja e tomei um longo gole, não tinha troco. Meu amigo jogou uma nota de 2 surrada e algumas moedas em cima do balcão com a mesma arrogância que a caixa demonstrava. Naquele momento pensei que os dois se mereciam, formavam um belo par. Talvez fosse o destino ou a ordem das coisas. Talvez fosse verdade que atraímos exatamente aquilo que damos ao mundo. Um planeta enorme, com bilhões de pessoas e os dois se encontraram, tão iguais em seus comportamentos. Naquele instante imaginei os dois casados e tendo filhos igualmente arrogantes quanto os dois, e estes filhos gerariam mais filhos e num futuro não muito distante o mundo estaria infestado de arrogantes, achando que somente sua forma de pensar era a certa, que somente seu Deus era o verdadeiro, que somente seu partido político era o honesto e só seus tons de pele e opção sexual eram os corretos e tudo isso aconteceria com a mesma naturalidade com que os insetos morrem e as plantas germinam e as letras de músicas surgem nas cabeças dos poetas durante uma noite de insônia.
Então eu fui despertado de meu devaneio pela voz da garota que decidiu abrir a boca pela primeira vez com sua voz esganiçada logo após contar cada moeda do meu amigo como quem escolhe feijão antes de cozinha-lo, questionando-nos - Quem vai pagar pelas garrafas que vocês colocaram no bolso?

Eu fiz cara de culpado e já estava prestes a devolver o objeto do furto quando meu amigo respondeu.

- Do que você esta falando? As únicas garrafas que pegamos foram estas.

- Eu vou chamar a polícia. Tá achando que eu sou idiota? Ela disse.

E cada vez mais eu tinha certeza que sua voz era igual à de um pato e que a qualquer momento ela botaria um ovo pelo cu, ali durante a nossa conversa, abaixaria e passaria a chocar sua cria e nós fugiríamos sem olhar para trás. Ao invés disso meu amigo tirou um canivete do bolso, pulou sobre o balcão com uma agilidade de quem sabia o que estava fazendo.

- Você não vai chamar ninguém, gata. Ou eu vou cortar sua garganta tão rápido que não vai ter tempo nem de grunhir.

A garota arregalou os olhos e cada vez mais ela parecia um pato. Eu também estava assustando vendo meu amigo com a ponta da faca flexionando a jugular da garota-pato, mas não consegui me conter com aquele comentário, as palavras simplesmente saíram da minha boca como quem bebeu demais e vomita o excesso de álcool. - Grunhir? Por que grunhir? Perguntei.

- Ué, você não acha que ela tem cara de pato? Feia pra caralho.

Agora eu tinha a certeza de que ela realmente parecia um pato e não era só um devaneio meu causado pelo estresse da situação.

- Porra, eu acho, só não sei se patos grunhem. Eu disse.

- Então patos fazem o quê?

- Eu não sei.

- Porra! Então como você sabe que tá errado?

- Cara, sei lá. Não sou professor de português, mas "grunhir" parece coisa de animais maiores. Eu disse.

- Você quer mesmo falar sobre isso agora? Ele disse apontando para a faca com a outra mão e fazendo uma cara que mostrava toda sua indignação.

- Acho melhor a gente sair daqui. Eu disse.

- Não, cara. Agora que a gente ta aqui vamos levar mais algumas coisas. Fique a vontade, eu vou ensinar essa vadia feia se comportar. Ele disse.

- O que você vai fazer, cara? Vamos embora.

- Vou trancar ela lá no banheiro. Ou você quer que ela chame a polícia assim que a gente virar as contas?

De certa forma ele tinha razão. Ele saiu puxando a garota ainda com a faca pressionando seu pescoço longo e fino como o de um pato e ela chorava e suplicava baixinho quase parecendo uma reza. Eu continuei bebendo minha cerveja e me entretive com a televisão que passava alguma novela, acho.

***

Meu amigo não voltava e talvez eu precisasse ir ao banheiro, mais para mijar que pra saber o que ele estava fazendo. A porta estava semiaberta e eu fui logo entrando e fiquei surpreso ao ver a garota ajoelhada na frente do meu amigo que tinha metade da bunda magra e branca à mostra. A garota estava com o canivete apontado para a garganta enquanto era obrigada a chupar o meu amigo e ela ainda chorava, por medo, por ser forçada a fazer aquilo e talvez por ter o pau forçado a entrar em sua garganta.

- Que isso, cara? Vamos sair daqui. Eu disse.

- Essa vadia merece. E tem mais, estou fazendo um favor pra ela. Feia do jeito que é duvido que já tenha chupado um pau na vida. Estou dando uma oportunidade. Ele disse.

- Você tá maluco. Eu to indo embora.

- Não quer um pouco? Ele disse apontando com a faca para a garota e olhando pra mim com cara de quem me convidava para tomar um drink, ou oferecia um chiclete.

Eu tive um pouco de asco da situação e estava prestes a responder quando a garota se aproveitou da desatenção do meu amigo, pegou o canivete de sua mão e cravou a faca bem no meio das pernas, entre o escroto e o anus. Bem debaixo das bolas. Com tanta força que jorrou sangue em seu rosto, que aguardava a porra, invés disso sangue. Nunca tinha visto tanto. Ouvi um grito seco, como uma bolada no saco, só que um milhão de vezes pior. Queria morrer só de ver uma lâmina daquele tamanho entrando em meu escroto. Paralisei ali, na porta, com o pau meio duro pela cena, meio mole pelo sangue. Porque não tinha escolhido ficar em casa com o pouco de vodca que me sobrara? pensei. Não, tonto como era tinha que estar ali. Assistindo bolas partindo ao meio. A garota ficou ereta e apontou o canivete sujo de sangue em minha direção. Não sabia o que fazer, estava paralisado e por algum motivo me vinha alguma música do Rob Zombie na mente, talvez por causa do sangue. Meu amigo estava ali, deitado em pose fetal, segurando as bolas entre os dedos, choramingando como uma criança, e ela, a garota feia do caixa, como uma Carie, A Estranha, com o rosto esporrado de sangue, apontava a faca pra mim com a intenção de cortar mais algumas bolas e eu evitando perdê-las naquela noite.

Disse que não concordava com aquilo.

- Lembre que eu paguei a conta. Por mim eu estaria em casa nesta hora.

- Eu vou chamar a polícia. Ela limitou-se a dizer já choramingando.

- To indo embora. Eu disse. E ela desabou a chorar.

- Tchau. Eu disse.

Virei as costas e parti. Voltei e peguei mais uma Heineken, já estava na merda mesmo. Abri e dei um longo gole. O frentista gordo olhava fixamente para o celular, provavelmente vendo algum vídeo pornô com garotas que ele jamais conseguiria transar na vida. Peguei o caminho de casa, acendi um cigarro e fiquei pensando em meu amigo sem as bolas. A polícia chegando junto com o SAMU, os enfermeiros com suas luvas de látex procurando as bolas no chão sujo de vômito, urina e sangue. Lembrei do meu amigo forçando a entrada de seu pau na garganta da garota feia de doer e das lágrimas saindo de seus olhos esbugalhados, seu rosto vermelho e a expressão de sacrifício e o líquido alaranjado saindo pelo canto da boca, provavelmente consequência dos Doritos que pegava escondido na hora do jantar. E eu que sempre gostei de Doritos, talvez demorasse um pouco para voltar a comer. Mais um gole de cerveja, um trago do cigarro, finalmente lembrei que tinha luta na TV. Apertei o passo para chegar antes do card principal. Coloquei a mão no bolso e percebi que a garrafa do whisky caríssimo ainda estava ali e não me lembrei de devolver. Pensando bem, meu amigo eu não sei, já eu tive noites muito piores.





Bento.

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