segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PEIDO É TÃO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL COMO NOSSOS PENSAMENTOS MAIS OBSCUROS

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Quando eu era jovem sempre fiquei intrigado quando ouvia os professores falarem sobre pensadores. Nas salas de aulas cheias de moleques encrenqueiros como eu, e eu era sempre o pior - segundo estes mesmos professores - por que eu entendia que o cara ganhava um salário só para pensar. E lá ficava eu pensando com meus botões, imaginando um cara que colocava seu despertador programado para acordar às seis da manhã, tomava seu banho, ligava a TV no jornal matinal enquanto vestia-se e tomava o café da manhã. Colocava comida para os cachorros, para o gato e ao invés de sair de casa rumo ao emprego como fazia minha mãe e meus irmãos de manhã enquanto eu me arrumava para ir para a escola o pensador simplesmente sentava numa varanda com sua xicara de café e com seu dedo indicador pressionando a têmpora ficava lá, pensando. Soprava a fumaça do café fumegante pensando e anotando as coisas que entendia ser importantes. Então de repente, nota-se a hora do almoço e pronto! Para de pensar um pouco para alimentar-se e uma hora depois voltar ao trabalho. Sempre imaginei isso como a coisa mais chata do mundo, ou pelo menos UMA das mais chatas. Perguntava-me eu, quem em sã consciência, escolheria ser um pensador? Depois de velho fui perceber que trabalhar num escritório enviando relatórios, atendendo telefones, tendo que pegar ônibus e metrô lotados de gente que fazem coisas bem parecidas com as minhas é bem pior que a vida que eu imaginava que o pensador levava.

Mais velho ainda comecei a invejar tanto a vida dos pensadores que passei a desejar uma vida igual. Afinal, trabalhar em casa, para gente como eu que suava frio quando ouvia notícias sobre greve do metrô seria maravilhoso.
No fim descobri que pensador pode ser qualquer um de nós e não necessariamente ganhamos algo para isso. Mais ou menos como a música, nem sempre os melhores são reconhecidos. Com isso cheguei à conclusão que o problema não são os pensadores ou os músicos, ruim mesmo é envelhecer. Tantas ilusões.

Por esses dias peguei uma gripe e me entupi de remédios. Todos aqueles conhecidos que prometem curar a gripe e até um ou outro que consegui clandestinamente sem receita para curar-me. Adiantou momentaneamente, pois cinco dias depois cai de gripe de novo.

Tenho um grande problema com medicamentos e contra eles, pois enquanto os consumo não posso beber e isso é um problema enorme. Está certo que vez ou outra misturei vodca com xarope para curar a gripe e fiquei numa loucura tamanha, mas isso é uma história para contar em outro momento. Por isso só me medico em último caso, pois acredito piamente que não há doença que o álcool não possa curar, com exceção da doença da idiotice, essa... Nem Deus poderia. Enfim, estava com uma gripe longínqua e devido a conselhos familiares e de minha namorada resolvi tomar antigripal e antibiótico. Veja minha situação, sou corintiano desde que nasci, qualquer coisa que envolva a palavra anti já me causa descrença instantânea. Bom, resumindo; claro que não deu certo. Acabou que eu fiquei no remédio, sem beber uma gota de álcool e não melhorei. Mas... E friso o "mas" por que realmente deve-se chamar atenção ao fato. Então, é justo que pare, respire profundamente e se diga, lá do âmago; MAS... bastou uma boa noite de bebedeira com destilado e escrita para a coriza recolher-se ao nariz, a garganta dar a pausa à tosse e tudo mais ir pra casa do caralho. Tem gente que não acredita. Acha exagero. Acha que é mentira de bêbado, porém afirmo que nunca tive uma doença que o álcool não curasse.

Pensando nisso, enquanto doente e tomando minha cagibrina, lembrei que a muito não parava para beber sem preocupação. Digo, de pausar qualquer pensamento mesmo. Sem pensar em contas, em relações, em trabalho. Apenas sentar, beber e sair escrevendo. Reparar em cada aranha que faz moradia nos cantos do quarto. Em cada mancha de umidade. No barulho do motor da geladeira da vizinha. No salto alto da nora da outra vizinha quando ainda vira a esquina, que chega de madrugada voltando da balada, e logo depois pega o molho de chaves na bolsa para abrir o portão. Os carros que passam e raspam o assoalho na lombada. E os gatos correndo brincando no telhado. E no momento que escrevo isso lembro de quando adolescente, quando trabalhava de office-boy sonhava em estar em casa, ouvindo Frank Sinatra, com a chuva de dez dilúvios batendo na janela, frio de matar, e eu dentro de casa tomando uma boa xícara de café preto para esquentar o corpo vestido de calça de moletom e seres me pagando só para escrever. Vê que desde muito jovem eu era velho e solitário? Nunca fiz questão de companhia. Nunca me senti sozinho comigo mesmo. Sempre tive algo para reclamar, é claro, afinal escreveria sobre o quê? Mas sempre fiz questão de manter-me sozinho pois minha companhia sempre me foi suficiente. Evidente que vez ou outra você precisa da companhia de outras pessoas para que não passe a vida dependendo de uma alegria masturbatória, uma mão amiga vez ou outra é indispensável. Porém a solidão assusta a maioria das pessoas. Hoje em dia solidão demais é confundida com depressão, não sei se por influência da indústria farmacêutica, da mídia ou dos analistas, mas acho que subestimamos uma boa solidão, estar só, falando apenas consigo mesmo, e desvendando nossos próprios segredos. Tem gente que se assusta com seus próprios pensamentos e por isso tenta sempre estar rodeado de pessoas. Se o sujeito não consegue se abrir com ele mesmo, algo está errado. Quer um exemplo? Somos tão mais tolerantes com nosso peido que com os dos outros, claro. Peidamos debaixo das cobertas e cobrimos a cabeça. Cheiramos nossos gases e damos risada. Já qualquer flatulência alheia nós achamos o fim do mundo, pois o peido é tão pessoal e intransferível como nossos pensamentos mais obscuros, mas ainda assim dividimos com poucos que conquistam nossa confiança.

Digo mais, passei meses segurando peido no começo de meu namoro. Tanto que por várias vezes tive que sair do quarto só para peidar e era um alívio do tamanho do mundo. Hoje, ainda bem, eu e minha namorada dividimos nossos peidos como dividimos uma mesa num restaurante, ou uma pizza.

Sendo assim, acredito piamente que a solidão nos ensina humildade. É preciso reconhecer nossos defeitos para lidar com o defeito dos outros, qualquer coisa diferente disso se transforma em hipocrisia. Então depois disso tudo, digo para aqueles que ainda permanecem descrentes com a solidão, friso que a pior solidão não é aquela que você sente quando está só, num quarto escuro ouvindo blues e tomando algo forte. Ou quando se está numa cabana no meio do mato tomando café e relendo um livro clássico. Não é a solidão de término de namoro onde se fica em casa comendo chocolate e assistindo comédia romântica, nem a solidão de uma prisão tão pequena que mal consegue ficar ereto. Não, pois esse tipo de solidão tem também a ausência de esperança. Você não espera nada dela. É tão somente você e um grande vazio. Assim ficamos alheios a tudo, nada pode nos atingir. Somos invencíveis, inabaláveis, imortais e inatingíveis.
Digo que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos no meio de uma multidão ou num relacionamento de via única. Quando percebemos que o próximo não tem tanto interesse em nós como temos deles. Afinal, nestes casos, a solidão vem junto da frustração de esperar e esperar que o outro indivíduo sinta prazer de sua companhia e se alegre pelo simples fato de te ver feliz. Essa solidão, sequer um mar de whisky poderá dar jeito.



Bento.

sábado, 12 de março de 2016

COMO MOSQUITOS ATRAÍDOS PELA LUZ PARA SEREM MORTOS

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Não se preocupe em deixar frutos nesta vida e ser gentil com as pessoas, pois no fim todos nós terminaremos sozinhos. Não há um ser humano sequer neste mundo que não colocará seus sentimentos e bem estar à frente de todas as outras pessoas.
Lembro-me de minha casa, meses atrás, havia tantas latas espalhadas quanto um ferro velho. Era o sonho de todo catador de latinhas, passar alguns minutos ali recolhendo alumínio até fazer um bom dinheiro, como aqueles programas de televisão que tinha minutos para escolher os prêmios que queria levar.
Eu poderia recolher e vender tudo aquilo, mas tinha a preguiças dos gatos, só funcionava de noite. E recolher latas e carregar sacos pretos de lixo até o ferro velho não estava, nem de longe, em minha lista de prazeres.

Eu já fui mais de festas. Houve um tempo que chegara a fazer duas festas por semana em casa. Regadas a cervejas, carnes sangrentas e música alta a ponto de receber visitas frequentes de policiais em minha porta informando sobre o descontentamento dos vizinhos com nossa festa de dar inveja a Baco. Hoje faço festas mais particulares, quando faço, com minha garota e é só. Muito suor e destilados. Cervejas e sexo. Mais que isso eu estaria mentindo. A diferença entre minhas festas antigas e as atuais não é só o possível sexo, pois isso nunca foi problema. É que hoje em dia é possível fazer festa sem dizer uma palavra sequer. Quando muito um "passe a perna para cá" basta. Entenda, não é sempre (quase nunca) que estou com vontade de conversar e falar sobre coisas inúteis.

Veja um exemplo; outro dia estávamos numa festa de aniversário com algumas pessoas que eu não via há tempos. Chegamos e apresentei a garota aos antigos amigos e logo sentamos para dar início aquele velho e chato papo bosta "olá, quanto tempo, o que tem feito?". Levei um pacote de cerveja como é de bom tom em toda festa onde se é convidado, afinal, é o único líquido que bebo e somente com o álcool sou capaz de sair de casa e socializar decentemente com pessoas e meu pacote continha todo o álcool que existia na festa, assim, dei graças aos céus por minha boa educação. Caso contrário teria saído dali no mesmo instante que cheguei.
Digo isso, pois minhas cervejas eram as únicas que existia no lugar e não havia nada mais alcoólico a não ser o usado para acender a churrasqueira. Não que fosse novidade pra mim, afinal eu já fiz drinks com cada coisa... O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas estão preocupadas com saúde e comidas saudáveis e exercícios físicos e para todo lugar que olho vejo seres com corpos esculturais e roupas tão minúsculas quanto a velocidade de raciocínio. Parece clichê, mas normalmente o ser mais forte não é o mais esperto da sala. Normalmente. O que não quer dizer que isso não tenha suas vantagens.

Minha garota mesmo, vez ou outra lhe pego revirando os olhos por um ou dois caras que aparecem na TV com as tetas tão rijas que poderia arrastar uma charrete com elas. Mulheres têm destas coisas, às vezes. Ela acha que não percebo, mas estou sempre atento. Basta um cara com aqueles músculos aparentes para lhe prender a atenção. Eu já sou exatamente o oposto. Apesar de ter ganhado um pouco de peso, ainda me mantenho magro como salário mínimo e tão sedentário quanto um bicho preguiça. Só me mexo quando extremamente necessário e sempre que posso evitar, faço. Caminho até o mercado para buscar cervejas e nada além do que posso carregar, pois acredito piamente que todo homem só precisa ter a força necessária para carregar exatamente aquilo que vai beber e comer, e é tão somente por isso que não sou adepto de gordas. Além disso, eu ainda faço piadas, veja quanta coisa boa. Algumas garotas preferem homens carismáticos aos fortes, afinal, foi-se o tempo que nós, machos, precisávamos de força para sobreviver. Mas algo me preocupa. Não é que me faça perder o sono, mas às vezes me pego pensando. É muita força para animais irracionais andando por aí sem nenhuma cautela. Em algum momento pode dar merda, bem como homossexuais agredidos nas esquinas e etc. É pouco raciocínio e muitos músculos andando por aí sem qualquer vigilância e não que eu queira ser o mensageiro do Apocalipse, mas não precisa ser muito esperto para prever que em algum momento, numa sociedade escrota que vivemos hoje, com uma forte tendência ao fanatismo, religioso, político entre outros, em meio a uma cultura empobrecida de ideias e ideais, onde os artistas têm tanta massa cinzenta quanto seus seguidores amebas, irá acontecer uma barbárie sem precedentes.
Nessa mesma festa que eu narrei, todos os garotos que cresceram comigo, todos davam o dobro de mim, contudo não leram dez por cento dos livros que eu li. Nem vou citar sobre porres, pois eu ganharia de mil a zero. Não sei se estão conseguindo me acompanhar, porém vou simplificar. Talvez tenhamos daqui a 50 anos, jovens senhores vivendo até seus 100 anos, saudáveis e acéfalos, que criarão crianças acéfalas e por fim, sumiremos da face da Terra como os animais que um dia, dominaram o mundo por serem racionais. Em plena época onde a informação tem sido de maior acesso, as pessoas simplesmente não conseguem acompanhar sua velocidade ou priorizar seu raro tempo naquilo que realmente tenha importância.

Neste mês, fará seis anos que eu escrevo sem parar. Nestes anos, eu li e ouvi de tudo que é tipo que se possa imaginar, desde o início eu falo sobre isso, sobre este tópico e de lá para cá só piorou e não creio que vá melhorar. É uma data importante pra mim. Numa conta rápida, supondo que eu escrevesse apenas um texto por mês, o que é pouco perto do que escrevi, teria eu escrito 72 textos neste período. Que é mais que todas as matérias de jornal que esses seres musculosos leram nem sua vida medíocre. Pode apostar. Mas hoje, tenho mais de 500 textos postados neste blog e não que isso me faça melhor que eles, claro que não. Supondo que eu bebesse uma caixa de cerveja por semana nestes seis anos e uma garrafa de destilado por mês, chutando baixo, eu teria absorvido 72 garrafas, e 288 caixas de cerveja, sendo cada caixa com 12 latas, eu teria bebido 3.456 latas de cerveja e 72mil mililitros de destilado dentre eles whisky, vodca, conhaque, cachaça, tequila e derivados. Fatalmente isso não me fará viver até os 100 anos. Contudo, talvez me faça ser lembrado, mesmo que seja um exemplo a não ser seguido, de como viver a vida. Só isso já basta, para não querer fazer parte deste exército de testosterona que andam sem rumo sempre a caminho da multidão. Bem como mosquitos atraídos pela luz para tão logo, serem mortos.



Bento.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

EMPANTURROU-SE DE CARNE ATÉ DIZER CHEGA

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Imagem de Apollonia Sainclair


Pela dor que sentia no joelho esquerdo era certeza que iria chover, por isso que Malaquias se apressou para achar um bom coberto, onde não escorria água, fez a cabana de papelão, prendeu seu carrinho de supermercado no tornozelo e então podia relaxar. Claro que é sempre bom dormir com um olho aberto quando se está na rua e ele sabia disso como ninguém, mas até a rua é um pouco mais segura quando chove, pois ninguém queria sair para por fogo em mendigos e vê-los queimar. Malaquias estava em um lugar alto, seco, e por incrível que possa parecer, mesmo não tendo nada, agradecia aos céus pela chuva. Ele tinha encontrado uma caixa cheia de quadrinhos da Marvel, de 1987 e guardara até um dia como aquele, chovendo, mas calor para ler. Ele assistia as baratas fugindo da água escorrendo pela calçada e procurando abrigo abaixo de seu papelão, mas bastava se aproximar o suficiente e ele acertava com o salto de sua bota. Cada barata era um aperto no coração. Não via muita diferença entre elas e ele. Morando na rua, sem teto, correndo da chuva. Mas odiava baratas. Tinha asco e talvez até certo medo. Entre ele e elas, Malaquias preferia ele, a única diferença é que ele era maior e podia matá-las apenas com um golpe do salto da bota. Não demorou muito para ele pegar no sono lendo e vendo quadro a quadro Wolverine apanhar do Tigre Dentes de Sabre, mas no fim sair vitorioso. Malaquias desejou muito ser o Wolverine, pois ele vinha apanhando a muito tempo da vida.

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Cris estava no banco do passageiro do Fusca falando no celular com seu namorado. Vestia uma lingerie nova escolhida especialmente para aquela ocasião. Não era a primeira vez que estava naquele carro, nem no Libelillun Motel, tanto que no porta-luvas tinha um pacote de lenço umedecido e uma necessaire exclusiva para aquela finalidade. Júnior, seu namorado, estava exaltado do outro lado da linha. Estavam discutindo, pois ele tinha saído cedo do trabalho querendo fazer alguma coisa de diferente com sua namorada, mas ela dizia que iria trabalhar até tarde. Se ele tivesse avisado antes, ela dizia, tinha dado um jeito de sair mais cedo. Uma dor de barriga, ou aquelas coisas de mulher com enxaqueca ou cólica.

- Você sabe que eu sempre dou um jeito, amor. Eu minto bem.

Junior sabia que era verdade, ela mentia muito bem. No início do namoro ela inventou muitas histórias para que os dois pudessem aproveitar os motéis durante o dia quando eram mais baratos e mais vazios. Uma vez, Cris conseguiu fingir dengue para o médico e pegou um atestado de cinco dias e os dois foram viajar emendando o feriado. Ele não sabia como ela conseguia aquilo, mas era uma boa mentirosa. Cris sabia que o decote ajudava na mentira e sempre que precisava não tinha medo de usá-lo. Tinha seios de dar inveja a muitas mulheres e ela ainda tinha 23. Também por isso, pela pouca idade, achava que era muito nova e muito bonita para se prender a um cara só. Júnior mesmo, era ótimo, pagava todas as contas e a levava para lugares incríveis. Sempre viajando para as praias mais requisitadas, os restaurantes com melhor nota na revista da Folha, enfim, não tinha do que reclamar. Mas era diferente com Ludovico, o dono da empresa de Marketing onde trabalhava. Além de italiano, que já era um sonho para Cris transar com um italiano, Ludovico era mais velho, mais rico, tinha um gosto incrível para tudo, ele também era bem mais másculo. Enquanto Junior só a fodia num vai e vem básico, às vezes até pedia para ela ficar de quatro, mas sequer batia na sua bunda, Ludovico comia ela de pé, apertava-lhe o pescoço a ponto de quase achar que iria perder o ar, mas ele sabia o ponto certo. Cuspia em seu rosto e fazia ela se sentir um objeto, uma vagabunda, que na realidade ela sabia que era. Se colocar sua diversão e seu prazer à frente dos sentimentos dos outros era ser vagabunda, então ela era das piores, ou melhores, depende do ponto de vista. Teve até um fato engraçado quando conheceu Ludovico. Ela não gostou dele logo de primeira. A idade a assustou, os cabelos bastante grisalhos também, mas tudo piorou quando ele disse que seu carro era um Fusca. Ela quase deu risada quando ele disse a ela. Pensou logo na sua infância, seu pai e aquele velho Fusca azul geladeira. Até ver Ludovico saindo para almoçar em seu Fusca zero, ainda sem placa, pois tinha acabado de comprar. Achou-se idiota naquela hora, mas apaixonou-se pelo carro e por Ludovico. Agora estava ali, impaciente, falando com Junior no telefone e aturando sua crise de ciúme, enquanto seu amante pegava a chave da suíte de um dos motéis mais caros da cidade. A única coisa que fazia se sentir mal era quando Ludovico dava dinheiro para ela ir embora de taxi depois da transa e ainda dava umas notas a mais de cinquenta. Ela se sentia uma puta. Porém, não iria negar o dinheiro, afinal, suas roupas e o cabeleireiro e as maquiagens, tudo custava o olho da cara e seu salário de estagiária não dava nem para o começo.

- Junior, chega! Vou entrar numa reunião. Te ligo quando sair. Eram 19:00. E desligou o telefone. Entrou no quarto e logo viu Ludovico abrir a garrafa de vinho e servi-la.

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Malaquias acordou no meio da noite assustado. Mesmo seu carrinho de supermercado ainda estando ali mexeu a perna para ter certeza de que ainda estava preso ao seu tornozelo. O quadrinho que lia antes de pegar no sono estava aberto ao seu lado, em cima do papelão. Desejava um cigarro, mas tinha fumado o último há três dias mais ou menos. Precisava fumar. Antes de viver na rua era um fumante inveterado e no começo foi bem difícil passar sem. Sentiu vontade de cagar e rapidamente seu cérebro já o fez lembrar sobre um lugar ideal para fazer de banheiro. Não muito perto que o vento pudesse trazer o cheiro até onde estava e nem muito longe que tivesse que perder seus pertences de vista. Em seu carrinho pegou um rolo de papel e foi até a viela que tinha caçamba de lixo. Abaixou-se entre a parede e a caçamba de lixo e despejou tudo no meio fio. Essa era uma das partes mais difíceis. Não ter um banheiro para cagar em paz, tomar um banho relaxante no inverno e um banho gelado no calor e sentir que aquilo é só seu. A viela estava sem luz então Malaquias quase saiu correndo de susto mesmo com a bunda ainda suja quando viu um carro se aproximando, com os faróis apagados e em marcha lenta. Entrou na viela e parou no meio dela, no meio do breu. Porém pode ver o par de botas saindo do carro, abrindo o porta-malas e colocando seu conteúdo calmamente na calçada. Malaquias não conseguiu ver o homem que descarregava o carro, mas o que ele tinha em seus braços parecia um fantasma.

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Ludovico estava especialmente animado hoje. Fez uma longa preliminar fazendo Cris sentir o tesão percorrer todo seu corpo. Começou fazendo massagem, passou a beijar cada pedaço do corpo da garota de cabelos loiros. Chupava e lambia e Cris queria mais. Queria ser xingada. Desejava os puxões de cabelo e ser estapeada como Ludovico fazia. Ela se sentia um pedaço de carne nas mãos do italiano e sentia um prazer imenso nisso. Por ser muito bonita e pequena, os caras que saiam com ela tratavam-na como uma boneca que poderia se quebrar a qualquer momento, mas Ludovico a tratava como puta e ela adorava. Estava com tanto tesão que sentiu seu corpo mole, tão mole que quase não tava sentindo mais a língua de Ludovico em sua vagina. Cris não sabia, mas tinha cinco mililitros de Ketamina, um paralisante potente usado em cirurgias que o italiano aplicou em sua nádega sem que ela percebesse. Seu sorriso ficou congelado em seu rosto como aquela lenda antiga que os pais lhe contavam quando fazia careta para idosos. "Vai bater um vento e seu rosto ficará assim pra sempre" eles diziam. Não sentia mais nada. Respirava com dificuldade. Pensou até em infarto, mas era jovem e saudável, fazia exercícios, seria impossível estar morrendo de tesão, literalmente. Quando Ludovico teve certeza da paralisia de Cris levantou-se e foi até sua maleta. Acendeu um grande cachimbo já com fumo e sentou-se na cadeira ao lado da cama admirando o corpo de Cris. Ela mal conseguia mexer os olhos, mas podia ver a fumaça branca acumulando no teto do quarto de hotel. Cris achava que estava entrando em transe, que estava num sonho. Sentia que passara horas olhando para aquela fumaça tentando chamar pelo nome de Ludovico, mas não saía nenhum som. Passara a ouvir uma musica de fundo, antiga, não era calma, mas trazia serenidade. Pensou estar dormindo, só poderia estar dormindo. Até ver, finalmente, Ludovico surgir em seu campo de visão, com o olhar de quem a desejava como nunca tinha notado nos olhos do italiano. Sua barba por fazer, seu cabelo lambido para o lado já estava desfeito caindo sobre a testa e Cris pensou que nunca tinha o visto tão belo. Ludovico beijou-lhe nos lábios, desceu pelo pescoço até chegar aos seios e Cris via, mas não sentia nada. Queria poder avisar a ele que não estava sentindo nada. Ludovico passou bastante tempo ali, na posição de quem beijava-lhe os seios e Cris sem nada sentir. Ela não sabia, mas o homem que conhecerá estava mastigando seu seio esquerdo como quem mastiga uma picanha mal passada numa churrascaria rodízio. Começou pelo bico e mastigava. Sem cortes, só mordida. Como um canibal, como uma hiena. O sangue jorrava pelo seio mutilado e Cris não se dava conta. O homem bebia o sangue todo, lambia o excesso que escorria pelas costelas aparente devido a magreza de Cris. Era um jantar suculento de carne mal passada que Ludovico não encontrava nem nos melhores restaurantes que visitara pelo mundo. Empanturrou-se de carne até dizer chega e então parou. Levou o corpo ainda vivo com o seio amputado por mordidas como se tivesse enfrentado um animal até um beco escuro e largou lá. Como os pais de família fazem com o lixo da cozinha. Largou lá e saiu com o carro fumando um cigarro para ajudar na digestão.

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Malaquias foi até o fantasma que havia sido deixado ali na viela e percebeu que era uma garota, de cabelos loiros e um lençol branco a cobria até o pescoço. Seu rosto estava imóvel e seus lábios arroxeados. Tomou um susto e teve certeza que se tratava de um cadáver. Malaquias já tinha visto em filmes polícias, aquele teste de por o dedo no pescoço da vítima para sentir a pulsação, mas não tinha certeza se aquilo funcionava. Mesmo assim fez e não sentiu nada, nem um músculo. Malaquias olhava para o rosto da garota e ficara indignado. Tão linda. Branca como um fantasma. E os cabelos loiros, mas tão loiros. O mundo realmente não era um mundo justo. Enquanto ele estava ali vivendo como um verme, comendo lixo e ainda vivo, uma garota linda como aquela estava nua e morta numa ruela qualquer. Ele nunca estivera com uma garota como aquela, mesmo em seus melhores dias, quando ainda tinha um emprego e era alguém na vida e pelo andar da carruagem jamais poderia estar com uma garota daquela. Afinal morava na rua e não se lembrava da última vez que escovou os dentes. Malaquias não tinha nada, logo, nada também a perder. Tocou no rosto da garota e sentiu um tesão que deixou-o envergonhado. Pensou em seu primeiro encontro, sua primeira namorada e sua primeira transa. Sentiu-se um garoto novamente. Quando se mora na rua, as pessoas tendem a se afastar ou ignorar, porém Malaquias estava de frente com esta garota, tão próximo que poderia beija-la e ela nada podia fazer. Então ele fez. Tocou seus lábios no da garota e sentiu seu pau latejar dentro da calça. Sabia que o que estava fazendo era vergonhoso. Tinha consciência disso, mas quando se vive na rua os conceitos de vergonha tendem a diminuir. Comer o resto que as pessoas jogam no chão também era vergonhoso e mesmo assim ele fazia, pois tinha de sobreviver. Então Malaquias usou o mesmo argumento para se convencer de fazer aquilo. Também era uma questão de sobrevivência. Precisava ter a sensação de penetrar uma mulher novamente. Já fazia tanto tempo desde a última. Malaquias então subiu o lençol até a cintura da garota. Apreciou-lhe as pernas. Olhou a vagina do cadáver e tão logo cuspiu em seu pau para que pudesse penetra aquele que parecia um botão de rosa. Lindo e delicado. Metia fundo e com força no corpo que só se mexia pelo impulso do corpo do morado de rua.

E Cris, que a última vez que se lembrava estava num quarto luxuoso de hotel com seu amante, agora estava no que parecia ser uma rua com sobrados e um homem negro desconhecido olhando-a nos olhos com o rosto de quem sentia muito prazer. Ela piscou e o homem parou de se mexer, mas continuou encarando-a. Pode perceber que o homem fechou os olhos com força como que os pressionando. Quando abriu deu um pulo enorme. Tudo aquilo não chamava tanto a atenção de Cris como a dor que sentia em seu peito. Como um machucado. Uma ferida aberta. Ainda não tina a consciência que seu seio esquerdo tinha sido mastigado por um homem louco. O mesmo homem que a presenteava com roupas de grife e jantares caríssimos. Malaquias não podia acreditar no que estava acontecendo. A garota estava viva ainda, mas o tesão falava mais alto. Ele tinha tirado o pau de sua vagina, contudo precisava entrar ali de novo. A garota acordara, porém não se movia. Talvez não pudesse então ele pensou em continuar. Debruçou-se sobre a garota e ela tinha um olhar assustado. O mesmo olhar de uma criança recém-nascida ao ver o mundo pela primeira vez. Era notável que a garota tentava falar, mas não conseguia. Malaquias viu uma pedra próxima e acertou a garota na cabeça com força. Mesmo com o susto tomou cuidado para não machucar seu rosto lindo. Bem no topo da cabeça, bateu uma vez e os olhos ainda se mexiam, então repetiu uma, duas, três vezes até que os olhos perderam qualquer sinal de vida e ele continuou satisfazendo-se até que chegou ao ápice e ofegante, saiu dali, pegou seu carrinho, recolheu seu papelão e partiu. Morrendo de vontade de fumar um cigarro. Como era de praxe depois de toda transa, antigamente.




Bento.

domingo, 10 de janeiro de 2016

AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO

Imagem de Apollonia Saintclair

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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.

Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal. Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água, era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada. Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso. Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já não havia nada para por pra fora.

Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar. Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo, estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios, enfim. Acho que me fiz entender.

O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não agora.

Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.

- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.

Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me acordando para ir trabalhar de novo.

Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso, infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual. Sempre. Igual.



Bento.

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