domingo, 14 de fevereiro de 2016

EMPANTURROU-SE DE CARNE ATÉ DIZER CHEGA

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Imagem de Apollonia Sainclair


Pela dor que sentia no joelho esquerdo era certeza que iria chover, por isso que Malaquias se apressou para achar um bom coberto, onde não escorria água, fez a cabana de papelão, prendeu seu carrinho de supermercado no tornozelo e então podia relaxar. Claro que é sempre bom dormir com um olho aberto quando se está na rua e ele sabia disso como ninguém, mas até a rua é um pouco mais segura quando chove, pois ninguém queria sair para por fogo em mendigos e vê-los queimar. Malaquias estava em um lugar alto, seco, e por incrível que possa parecer, mesmo não tendo nada, agradecia aos céus pela chuva. Ele tinha encontrado uma caixa cheia de quadrinhos da Marvel, de 1987 e guardara até um dia como aquele, chovendo, mas calor para ler. Ele assistia as baratas fugindo da água escorrendo pela calçada e procurando abrigo abaixo de seu papelão, mas bastava se aproximar o suficiente e ele acertava com o salto de sua bota. Cada barata era um aperto no coração. Não via muita diferença entre elas e ele. Morando na rua, sem teto, correndo da chuva. Mas odiava baratas. Tinha asco e talvez até certo medo. Entre ele e elas, Malaquias preferia ele, a única diferença é que ele era maior e podia matá-las apenas com um golpe do salto da bota. Não demorou muito para ele pegar no sono lendo e vendo quadro a quadro Wolverine apanhar do Tigre Dentes de Sabre, mas no fim sair vitorioso. Malaquias desejou muito ser o Wolverine, pois ele vinha apanhando a muito tempo da vida.

***

Cris estava no banco do passageiro do Fusca falando no celular com seu namorado. Vestia uma lingerie nova escolhida especialmente para aquela ocasião. Não era a primeira vez que estava naquele carro, nem no Libelillun Motel, tanto que no porta-luvas tinha um pacote de lenço umedecido e uma necessaire exclusiva para aquela finalidade. Júnior, seu namorado, estava exaltado do outro lado da linha. Estavam discutindo, pois ele tinha saído cedo do trabalho querendo fazer alguma coisa de diferente com sua namorada, mas ela dizia que iria trabalhar até tarde. Se ele tivesse avisado antes, ela dizia, tinha dado um jeito de sair mais cedo. Uma dor de barriga, ou aquelas coisas de mulher com enxaqueca ou cólica.

- Você sabe que eu sempre dou um jeito, amor. Eu minto bem.

Junior sabia que era verdade, ela mentia muito bem. No início do namoro ela inventou muitas histórias para que os dois pudessem aproveitar os motéis durante o dia quando eram mais baratos e mais vazios. Uma vez, Cris conseguiu fingir dengue para o médico e pegou um atestado de cinco dias e os dois foram viajar emendando o feriado. Ele não sabia como ela conseguia aquilo, mas era uma boa mentirosa. Cris sabia que o decote ajudava na mentira e sempre que precisava não tinha medo de usá-lo. Tinha seios de dar inveja a muitas mulheres e ela ainda tinha 23. Também por isso, pela pouca idade, achava que era muito nova e muito bonita para se prender a um cara só. Júnior mesmo, era ótimo, pagava todas as contas e a levava para lugares incríveis. Sempre viajando para as praias mais requisitadas, os restaurantes com melhor nota na revista da Folha, enfim, não tinha do que reclamar. Mas era diferente com Ludovico, o dono da empresa de Marketing onde trabalhava. Além de italiano, que já era um sonho para Cris transar com um italiano, Ludovico era mais velho, mais rico, tinha um gosto incrível para tudo, ele também era bem mais másculo. Enquanto Junior só a fodia num vai e vem básico, às vezes até pedia para ela ficar de quatro, mas sequer batia na sua bunda, Ludovico comia ela de pé, apertava-lhe o pescoço a ponto de quase achar que iria perder o ar, mas ele sabia o ponto certo. Cuspia em seu rosto e fazia ela se sentir um objeto, uma vagabunda, que na realidade ela sabia que era. Se colocar sua diversão e seu prazer à frente dos sentimentos dos outros era ser vagabunda, então ela era das piores, ou melhores, depende do ponto de vista. Teve até um fato engraçado quando conheceu Ludovico. Ela não gostou dele logo de primeira. A idade a assustou, os cabelos bastante grisalhos também, mas tudo piorou quando ele disse que seu carro era um Fusca. Ela quase deu risada quando ele disse a ela. Pensou logo na sua infância, seu pai e aquele velho Fusca azul geladeira. Até ver Ludovico saindo para almoçar em seu Fusca zero, ainda sem placa, pois tinha acabado de comprar. Achou-se idiota naquela hora, mas apaixonou-se pelo carro e por Ludovico. Agora estava ali, impaciente, falando com Junior no telefone e aturando sua crise de ciúme, enquanto seu amante pegava a chave da suíte de um dos motéis mais caros da cidade. A única coisa que fazia se sentir mal era quando Ludovico dava dinheiro para ela ir embora de taxi depois da transa e ainda dava umas notas a mais de cinquenta. Ela se sentia uma puta. Porém, não iria negar o dinheiro, afinal, suas roupas e o cabeleireiro e as maquiagens, tudo custava o olho da cara e seu salário de estagiária não dava nem para o começo.

- Junior, chega! Vou entrar numa reunião. Te ligo quando sair. Eram 19:00. E desligou o telefone. Entrou no quarto e logo viu Ludovico abrir a garrafa de vinho e servi-la.

***

Malaquias acordou no meio da noite assustado. Mesmo seu carrinho de supermercado ainda estando ali mexeu a perna para ter certeza de que ainda estava preso ao seu tornozelo. O quadrinho que lia antes de pegar no sono estava aberto ao seu lado, em cima do papelão. Desejava um cigarro, mas tinha fumado o último há três dias mais ou menos. Precisava fumar. Antes de viver na rua era um fumante inveterado e no começo foi bem difícil passar sem. Sentiu vontade de cagar e rapidamente seu cérebro já o fez lembrar sobre um lugar ideal para fazer de banheiro. Não muito perto que o vento pudesse trazer o cheiro até onde estava e nem muito longe que tivesse que perder seus pertences de vista. Em seu carrinho pegou um rolo de papel e foi até a viela que tinha caçamba de lixo. Abaixou-se entre a parede e a caçamba de lixo e despejou tudo no meio fio. Essa era uma das partes mais difíceis. Não ter um banheiro para cagar em paz, tomar um banho relaxante no inverno e um banho gelado no calor e sentir que aquilo é só seu. A viela estava sem luz então Malaquias quase saiu correndo de susto mesmo com a bunda ainda suja quando viu um carro se aproximando, com os faróis apagados e em marcha lenta. Entrou na viela e parou no meio dela, no meio do breu. Porém pode ver o par de botas saindo do carro, abrindo o porta-malas e colocando seu conteúdo calmamente na calçada. Malaquias não conseguiu ver o homem que descarregava o carro, mas o que ele tinha em seus braços parecia um fantasma.

***

Ludovico estava especialmente animado hoje. Fez uma longa preliminar fazendo Cris sentir o tesão percorrer todo seu corpo. Começou fazendo massagem, passou a beijar cada pedaço do corpo da garota de cabelos loiros. Chupava e lambia e Cris queria mais. Queria ser xingada. Desejava os puxões de cabelo e ser estapeada como Ludovico fazia. Ela se sentia um pedaço de carne nas mãos do italiano e sentia um prazer imenso nisso. Por ser muito bonita e pequena, os caras que saiam com ela tratavam-na como uma boneca que poderia se quebrar a qualquer momento, mas Ludovico a tratava como puta e ela adorava. Estava com tanto tesão que sentiu seu corpo mole, tão mole que quase não tava sentindo mais a língua de Ludovico em sua vagina. Cris não sabia, mas tinha cinco mililitros de Ketamina, um paralisante potente usado em cirurgias que o italiano aplicou em sua nádega sem que ela percebesse. Seu sorriso ficou congelado em seu rosto como aquela lenda antiga que os pais lhe contavam quando fazia careta para idosos. "Vai bater um vento e seu rosto ficará assim pra sempre" eles diziam. Não sentia mais nada. Respirava com dificuldade. Pensou até em infarto, mas era jovem e saudável, fazia exercícios, seria impossível estar morrendo de tesão, literalmente. Quando Ludovico teve certeza da paralisia de Cris levantou-se e foi até sua maleta. Acendeu um grande cachimbo já com fumo e sentou-se na cadeira ao lado da cama admirando o corpo de Cris. Ela mal conseguia mexer os olhos, mas podia ver a fumaça branca acumulando no teto do quarto de hotel. Cris achava que estava entrando em transe, que estava num sonho. Sentia que passara horas olhando para aquela fumaça tentando chamar pelo nome de Ludovico, mas não saía nenhum som. Passara a ouvir uma musica de fundo, antiga, não era calma, mas trazia serenidade. Pensou estar dormindo, só poderia estar dormindo. Até ver, finalmente, Ludovico surgir em seu campo de visão, com o olhar de quem a desejava como nunca tinha notado nos olhos do italiano. Sua barba por fazer, seu cabelo lambido para o lado já estava desfeito caindo sobre a testa e Cris pensou que nunca tinha o visto tão belo. Ludovico beijou-lhe nos lábios, desceu pelo pescoço até chegar aos seios e Cris via, mas não sentia nada. Queria poder avisar a ele que não estava sentindo nada. Ludovico passou bastante tempo ali, na posição de quem beijava-lhe os seios e Cris sem nada sentir. Ela não sabia, mas o homem que conhecerá estava mastigando seu seio esquerdo como quem mastiga uma picanha mal passada numa churrascaria rodízio. Começou pelo bico e mastigava. Sem cortes, só mordida. Como um canibal, como uma hiena. O sangue jorrava pelo seio mutilado e Cris não se dava conta. O homem bebia o sangue todo, lambia o excesso que escorria pelas costelas aparente devido a magreza de Cris. Era um jantar suculento de carne mal passada que Ludovico não encontrava nem nos melhores restaurantes que visitara pelo mundo. Empanturrou-se de carne até dizer chega e então parou. Levou o corpo ainda vivo com o seio amputado por mordidas como se tivesse enfrentado um animal até um beco escuro e largou lá. Como os pais de família fazem com o lixo da cozinha. Largou lá e saiu com o carro fumando um cigarro para ajudar na digestão.

***

Malaquias foi até o fantasma que havia sido deixado ali na viela e percebeu que era uma garota, de cabelos loiros e um lençol branco a cobria até o pescoço. Seu rosto estava imóvel e seus lábios arroxeados. Tomou um susto e teve certeza que se tratava de um cadáver. Malaquias já tinha visto em filmes polícias, aquele teste de por o dedo no pescoço da vítima para sentir a pulsação, mas não tinha certeza se aquilo funcionava. Mesmo assim fez e não sentiu nada, nem um músculo. Malaquias olhava para o rosto da garota e ficara indignado. Tão linda. Branca como um fantasma. E os cabelos loiros, mas tão loiros. O mundo realmente não era um mundo justo. Enquanto ele estava ali vivendo como um verme, comendo lixo e ainda vivo, uma garota linda como aquela estava nua e morta numa ruela qualquer. Ele nunca estivera com uma garota como aquela, mesmo em seus melhores dias, quando ainda tinha um emprego e era alguém na vida e pelo andar da carruagem jamais poderia estar com uma garota daquela. Afinal morava na rua e não se lembrava da última vez que escovou os dentes. Malaquias não tinha nada, logo, nada também a perder. Tocou no rosto da garota e sentiu um tesão que deixou-o envergonhado. Pensou em seu primeiro encontro, sua primeira namorada e sua primeira transa. Sentiu-se um garoto novamente. Quando se mora na rua, as pessoas tendem a se afastar ou ignorar, porém Malaquias estava de frente com esta garota, tão próximo que poderia beija-la e ela nada podia fazer. Então ele fez. Tocou seus lábios no da garota e sentiu seu pau latejar dentro da calça. Sabia que o que estava fazendo era vergonhoso. Tinha consciência disso, mas quando se vive na rua os conceitos de vergonha tendem a diminuir. Comer o resto que as pessoas jogam no chão também era vergonhoso e mesmo assim ele fazia, pois tinha de sobreviver. Então Malaquias usou o mesmo argumento para se convencer de fazer aquilo. Também era uma questão de sobrevivência. Precisava ter a sensação de penetrar uma mulher novamente. Já fazia tanto tempo desde a última. Malaquias então subiu o lençol até a cintura da garota. Apreciou-lhe as pernas. Olhou a vagina do cadáver e tão logo cuspiu em seu pau para que pudesse penetra aquele que parecia um botão de rosa. Lindo e delicado. Metia fundo e com força no corpo que só se mexia pelo impulso do corpo do morado de rua.

E Cris, que a última vez que se lembrava estava num quarto luxuoso de hotel com seu amante, agora estava no que parecia ser uma rua com sobrados e um homem negro desconhecido olhando-a nos olhos com o rosto de quem sentia muito prazer. Ela piscou e o homem parou de se mexer, mas continuou encarando-a. Pode perceber que o homem fechou os olhos com força como que os pressionando. Quando abriu deu um pulo enorme. Tudo aquilo não chamava tanto a atenção de Cris como a dor que sentia em seu peito. Como um machucado. Uma ferida aberta. Ainda não tina a consciência que seu seio esquerdo tinha sido mastigado por um homem louco. O mesmo homem que a presenteava com roupas de grife e jantares caríssimos. Malaquias não podia acreditar no que estava acontecendo. A garota estava viva ainda, mas o tesão falava mais alto. Ele tinha tirado o pau de sua vagina, contudo precisava entrar ali de novo. A garota acordara, porém não se movia. Talvez não pudesse então ele pensou em continuar. Debruçou-se sobre a garota e ela tinha um olhar assustado. O mesmo olhar de uma criança recém-nascida ao ver o mundo pela primeira vez. Era notável que a garota tentava falar, mas não conseguia. Malaquias viu uma pedra próxima e acertou a garota na cabeça com força. Mesmo com o susto tomou cuidado para não machucar seu rosto lindo. Bem no topo da cabeça, bateu uma vez e os olhos ainda se mexiam, então repetiu uma, duas, três vezes até que os olhos perderam qualquer sinal de vida e ele continuou satisfazendo-se até que chegou ao ápice e ofegante, saiu dali, pegou seu carrinho, recolheu seu papelão e partiu. Morrendo de vontade de fumar um cigarro. Como era de praxe depois de toda transa, antigamente.




Bento.