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segunda-feira, 24 de junho de 2019

UM BIFE NA SACOLA JUNTO DO WHISKY ep3




É terça feira e ouvi dizer que é outono. Cago para essas coisas pois as pessoas fedem nas quatro estações do ano. Se duvida pegue um transporte coletivo todos os dias e verá. Outro dia peguei um ônibus com um cara que exalava um fedor azedo que ardia os olhos e as narinas. Mas não é só por isso que digo, as pessoas, num todo fedem. Todas elas. São animais em busca de presas fáceis. Eu já fui uma delas durante dois anos sendo mastigado e tendo meu sangue sugado aos poucos, de canudinho, por alguém que dizia ser a pica das galáxias e tão fiel quanto um fígado. Engano meu é claro. Bastou que o fornecimento de sangue acabasse para este ser humano, se é que podemos chamar assim, mostrasse sua verdadeira identidade. Suas verdadeiras intenções. Bom, logo após troquei de cama para tirar aquele fedor, como quem abrigou um leproso. As pessoas fedem à ponto de, com o tempo, eu sentir seu cheiro de chorume de longe. Desenvolvi uma técnica e sinto o cheiro de podridão no instante que elas entram em meu raio de ação. Não é à toa que tenho tantos corpos em minha conta. Ninguém começa a fazer o que faço do nada. Não se acorda um dia e resolve sair acabando com a escória do mundo. Só se você for um psicopata, mas não eu. Eu só estou livrando o mundo deste odor podre que não vale a bosta que caga.
Interrompo o devaneio porque já é tarde e preciso terminar um relatório. Lembro que não como uma refeição decente desde sábado de tarde, mas nesse meio tempo já matei duas garrafas de whisky. Saindo daqui compro mais uma já que as minhas acabaram segunda de manhã.

Termino meu trabalho e resolvo que não posso voltar para casa de estômago vazio. Mas cheiro de comida, fritura, comidas habituais me embrulham o estômago. Por isso quase não como. Meu organismo pede algo saboroso. De dar água na boca, salivar até ter de engolir.
Paro no bar com a garrafa que comprei. Deixo no balcão e peço uma boa dose de whisky. Gostaria muito de comer algo, mas no bar, aqueles salgados fritos de manhã me encaram com cara de que já foram servidos às moscas durante o dia inteiro. Não como restos de insetos. Meu estômago ronca, mas não dou ouvidos a ele. Sou mais amigo do fígado como já disse. O balconista me serve com cara de bunda, talvez preferisse estar em outro lugar. Eu também, mas nem por isso destrato as pessoas. Só não gosto de sorrir muito. Em dois goles mato o whisky e parto. Fome, muita fome, mas o cigarro ajuda a amenizar.

Vi na TV essa história da carne e me embrulha o estômago, já não sou fã de comer, porém, carnívoro incurável que sou, sobra o quê? Nada como um belo bife para animar o dia. Estão querendo tirar até isso de nós.
Já é tarde. Poucas pessoas na rua. Preciso inventar algo para comer antes que desmaie por aí e me confundam com algum mendigo. Qual sabor deve ter mendigos? Penso. Apesar que entre comer mendigos e carne com papelão, fico com fome. Estou na rua de casa. É terça e uma garota desce a rua de salto, mas com pressa. Talvez assustada com minha presença àquela hora da noite. Ela se agarra à bolsa como se fosse seu bem mais precioso, muito por achar que sou um ladrão, provavelmente. Nem meu terno e minha barba feita ajudam neste momento. Penso que ser mulher complica tudo. É ameaça vindo de todos os lugares. Sempre odiei aqueles caras que acediam mulheres em vagão de metrô, em bares e etc. Ela usa uma calça social e um coque já bagunçado. Vejo certa dificuldade em andar tão depressa pela calçada acidentada. Imagino ela caindo e um sorriso vem no canto da minha boca. Seria engraçado para terminar um dia tão estressante. Olho para trás e ninguém. Ao lado, fábrica e comércio. À frente uma caçamba e uma praça mal iluminada. Meu estômago ronca e o pescoço branco da garota andando toda torta à passos rápidos pisca toda vez que ela passa abaixo de um dos poucos postes que tem na rua. Tenho fome e lembro da matéria que vi no jornal. “Mulher morta encontrada sem parte do seio”. Penso, por que não?

Uma grande pedra para amassar o crânio. Um pedaço de vidro para arrancar um pedaço do seio direito. Tudo cedido pela caçamba que provavelmente foi colocada por Deus em meu caminho. Com a fome que estou, poderia comer crua mesmo. É de lamber os lábios. Pequenas tetas sangrentas em minha mão e só por isso não julgo o assassino que mordeu o seio da garota morta. Ao invés disso coloco o bife na sacola junto do whisky e caminho para casa. Finalmente uma refeição depois de dias.


Bento.

Imagem de Apollonia Saintclair


segunda-feira, 16 de julho de 2018

GOTAS DE SANGUE REPOUSAM EM MINHAS BOTAS PRETAS ep2


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Imagem de Apollonia Saintclair


Finalmente é segunda feira e o celular desperta freneticamente até que eu o escuto. Abro um dos olhos apenas para apertar a opção soneca e repito isso várias vezes até que acordo finalmente. Preferia estar morto, mas tenho que trabalhar. As contas não serão pagas sozinhas e os problemas no escritório não serão resolvidos sozinho.
Primeiro o cigarro como de costume. Me apresso o máximo possível para fazer o café? Claro que não. Não me arrisco à levantar da cama antes de terminar o primeiro cigarro. Enquanto isso penso em dezenas de motivos para não ir trabalhar e nenhum deles me convence.
No banheiro descarrego todo o álcool que bebi há dias com certa dificuldade já que o pau está tão duro quanto um pedaço de madeira. Chega a doer e por isso decidi terminar na pia para facilitar. Já estou atrasado antes mesmo de começar e preciso fazer café.
Fico me perguntando por que afinal eu já não faço café antes de dormir para que já o tenha pronto quando acordar e chego a conclusão que de noite estou bêbado e só consigo pensar se tem ou não álcool suficiente para alimentar meu vício.

Café pronto, volto ao banheiro para beber e fumar e pensar na vida. Na verdade não há muito a ser feito exceto ir vivendo os dias conforme o Destino nos apresenta. Todas as conversas inúteis, as amizades falsas, os mendigos pedindo esmolas. Todos os olhares de escanteio por causa de um sapato diferente, um penteado mal arrumado, um pelo na barba fora do lugar. As pessoas mais estranhas parecem comum para outras e isso funciona também com ações e todos fingimos sermos educados em busca de aprovação e eu não sou diferente. Não para buscar aprovação, mas para não levantar suspeitas, já que no dia anterior deixei quatro cadáveres para trás. Assim que saio do banho ouço rádios de polícia na minha porta e vou olhar pela janela. Na verdade estão em frente a casa do vizinho. Alguém não voltou para casa naquele domingo. Ouço os policiais comentando sobre a cena. Palavras como banho, sangue, massacre parecem querer erotizar a coisa toda. Porém são só pessoas, mortas, bem como animais são mortos em abatedouros todos os dias e ninguém dá a mínima. Não vejo como somos tão diferentes deles. Fedemos e matamos tanto quanto. Enfim chegam à minha casa perguntando se ouvi ou vi algo e nego dizendo que cheguei tarde no sábado e passei o domingo dormindo. O que não é de todo uma inverdade. O policial parece compreender já que está com uma cara de ressaca tão incriminadora quanto a minha. Muito simpático para um policial. Não quis esticar muito o assunto talvez pelo meu roupão de banho ser rosa com grandes flores lilás. Não o culpo, mas o roupão era de uma garota que esqueceu ao partir da minha casa. Peço um cigarro e ele tem. Só não é dos meus. Pena. O meu estava acabando e antes de nos despedimos ele pergunta como eram os vizinhos ou se eu havia presenciado alguma briga entre o casal. Digo que não pois não fico muito em casa já que estou sempre trabalhando, por fim entro e vou me vestir.
Muitos policiais, muito barulho. Pessoas amontoando-se na rua para tentar ver alguma coisa. Um ou dois carros da imprensa, mas nada demais. Só mais um crime banal na cidade grande. Cada vez mais as pessoas estão habituadas à violência e sangue e crimes e famílias inteiras matando-se por motivos fúteis. Crimes passionais, crimes por motivos mesquinhos e tudo o mais. Ninguém se importa, só querem ver, saber para poder ter assunto no almoço com o pessoal do trabalho, postar no Facebook ou YouTube. Mas na verdade, ninguém se importa realmente que dois casais morreram assassinados num almoço de domingo. Um simples almoço de domingo. A sociedade está calejada de crimes ediondos tão ou mais devastadores que este. Nem morte de crianças impacta esta geração. E eu sigo andando pela rua à caminho do trabalho.
Meus cigarros finalmente acabam e acho melhor não parar na padaria perto de casa. Muitos policiais me deixam nervoso e a segunda feira mais a ressaca já mexem demais com meus nervos. Continuo andando até um mercadinho e peço minha marca favorita. Só temos Eight, ela diz. Com um sorriso simpático que me dá nojo. Sorrisos simpáticos forçam você a devolvê-lo com mais simpatia e eu já sou obrigado a trabalhar e conviver com pessoas que eu não gosto, sorrir para elas é sacrificante para mim. Pergunto se não tem outra marca, ela diz que não, mas que aqueles cigarros importados ilegalmente do Paraguai são ótimos também. Eu estou prestes a sair com sua negativa, mas depois de querer me oferecer cigarros ilegais, que sonegam impostos, que não geram empregos, que matam nossa economia, sem falar na saúde de quem os consome, foi praticamente como cagar na minha cara e querer que eu agradeça depois. Sempre com aquele sorriso simpático de merda colado em seu rosto enrugado de quem abriu um mercadinho para ajudar na aposentadoria.

Decidi colocar meu sorriso mais simpático no rosto e digo que vou aceitar sua sugestão e assim que virou-se acerto o lado de sua cabeça com a máquina de cartões. Ela cai para o lado como um presunto gordo e velho. Dou a volta no caixa e passo a pisar em seu rosto com minha bota de solado militar. Uma, duas, três... Até que sinto quebrar algo como a casca de um ovo quebra ao ir para frigideira, então paro. Satisfeito, mas com uma puta vontade de fumar. Limpo a sola da bota na calça da velha até ouvir um barulho vindo do fundo do mercado. Um rato escondendo-se do gato, estava satisfeito e calmo, mas não poderia deixar ninguém para trás. Seria injusto com a velha e comigo. Na geladeira pego uma garrafa de cerveja, um bom trago com certeza ajuda qualquer crise de estresse. Geladinha, quase de doer o dente. Me aproximo sem muita pressa, mais um gole e acho o rato. Um garoto, não mais que dezesseis anos, magricela como uma garota se escondendo atrás do balcão de pães e frios. Ele se assusta soltando um grito agudo assim que quebro metade da garrafa no balcão derramando o restante da cerveja. Acho um desperdício jogar fora metade do líquido delicioso principalmente quando é importada, mas são ossos do ofício. Agarro seu cabelo com força pressionando contra os pães e a garrafa corta-lhe a garganta entrando bem fundo enquanto o garoto está abaixado com lágrimas nos olhos. Gotas de sangue repousam em minhas botas pretas. Fácil de limpar. No relógio ao lado dos frios reparo que estou atrasado. Não era um bom dia até eu sair da cama, mas as coisas estão melhorando. Cigarros! Lembro que preciso fumar.
Parto em direção à porta. Fui inconsequente penso. Alguém poderia aparecer nesse ninho de rato e eu ter de acabar com mais um cadáver na conta. Ao passar pelo caixa, reparo, ao lado da caixa registradora, quase não notei. Como sou burro! Ou sortudo. Danadinha, digo ao corpo da velha morta atrás do caixa. Se tivesse falado que era fumante... E ainda mais da minha marca favorita. Pego o maço na caixa registradora, retiro um e foi um trago delicioso. Devolvo o maço. Melhor correr para o trabalho.


Bento.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

CARTA DE DESPEDIDA DE UM LOUCO APAIXONADO PARA UMA DOIDA QUE NÃO SABE DO QUE SE TRATA

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Para você que não acredita, se meu fígado fosse um cara, ele tentaria me assassinar diariamente. Tamanho o trabalho que eu dou para ele.
Cheguei a ponto de dormir bebendo e acordar no meio da madrugada para fumar um cigarro e tomar uma dose. Só que isso foi antes, agora espero até de manhã, para tomar umas. Cheguei a ponto de dormir ao lado de garotas e acordar ao lado de outras que eu nem sabia de onde vieram, mas isso foi antes, antes de entender, ou me dar conta, que um apartamentozinho com uma vista para a avenida, uma xícara de algo quente e uma bela garota de camiseta e calcinha me é suficiente.

E eu era um cara cheio de asas para o seu lado. Fiz promessas, dediquei-lhe músicas e textos. Escrevi sobre você nas paredes do quarto. Vestia-me para sair como quem fosse para um encontro com você mesmo sabendo que não estaria lá. Adotei uma gata e coloquei seu nome. Adoro gatos, tão rebeldes e ela é marrenta e arisca como a dona do nome. Falei de você para os meus amigos e amigas e elas ficaram todas derretidas quando souberam que te mandei flores, menos você. Já os amigos todos já evitam me encontrarem no bar, pois o assunto tem sido sempre o mesmo. Até eu estou de saco cheio de mim. Até você.

Assisto novela só pelo motivo de ter uma garota que me lembra você e eu odeio novelas. Que situação a minha.
Já você me lembra aquele personagem de filme com tesouras na mão que vive me podando, vive cortando as minhas asas. Você insiste que não. Porém não me resta nenhuma pena.

Chegamos a um ponto de dizer que minhas palavras eram só palavras e não significavam nada, veja só. Logo eu, que sou um escrevinhador impulsivo e modéstia à parte, dos bons. Daqueles que não escreve clichês e coisas água com açúcar. Sou desses autores que conquistam pela realidade impiedosa, calamitosa e imperecível. Mesmo assim, para você, por você, preferiria que fosse qualquer idiota modista e medíocre que seguisse a linha do romantismo precário e de final feliz, se fosse para ter sua atenção.

E mesmo não dando a mínima atenção às minhas palavras eu saí dos palcos e do conforto de meu sucesso e fui além, no entanto, mesmo assim, não foi o suficiente. Mais que isso eu dependeria de seu aval, vamos lá, não que eu seja um bunda mole, só odeio a inconveniência de forçar algo que depende da vontade de um par e nesta, me parece um tesão individual. Uma masturbação de "Querer Muito".

Agora, não me force a uma sabedoria que eu não posso ter, sendo que me parece que até mesmo você tem dúvidas. Porém também não vou me enganar. Seus dias nublados só parecem ser tão ruins quando é para dividi-los comigo. De resto eles são límpidos e esbeltos. Talvez eu que traga sua má sorte. E é por isso, não só por isso, mas também por isso, que lhe escrevo esta última carta.

Garanto-lhe que não será por mim que acordará com mensagens inquisitoras. Prometo-lhe que não terá que me chamar pelo meu primeiro nome com uma falta de libido extrema. Garanto-lhe que não terá mais perguntas que te deixarão impaciente como as enxaquecas e problemas pessoais. Prometo-lhe que não precisará mais se fazer de desentendida por indiretas e insoluções pregadas por mim. Se usasse um chapéu estaria eu, neste exato momento, pegando-o, colocando abaixo do braço e partindo. Sem mais. Sem subterfúgios, sem cartões, sem desculpas. Desta vez eu parto, mas não por medo e sim por falta de zelo e cumplicidade. Por falta de carinho recíproco e por uma impaciência destinada a ambos. E eu fui paciente. Minha língua já tem seu gosto de tanto que te lambi. Parto por falta, falta de ti. E por excesso de confiança, quando o meu melhor que eu tenho para te oferecer tornou-se pouco. Baixam-se as cortinas e eu me despeço. Na verdade, acho que fui despejado de você. Logo, meus móveis estão pendurados numa Kombi caindo aos pedaços e o que me resta é o novo aluguel ou condomínio que possa vir por aí. Só não tente desmoralizar o que faço de melhor, pois você tem grande parcela de culpa por eu ser tão bom no que faço.



Bento.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OLHOS VERDES QUE VESTEM RIMEL


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Eu queria começar dizendo que talvez eu possa ser um pessimista. Não que eu me esforce para isso, algumas coisas simplesmente acontecem. Ou você nasce com isso, mais ou menos como orelhas de abano ou sorriso com covas. Porém, dizer que eu sou pessimista é simples demais. Tão sem sal e sem açúcar para um sujeito como eu que gosta de complicar as coisas.
Bem como um amigo que não vejo há tempos. Quando saíamos para beber e conhecer garotas ele sempre dizia mirando o dedo para uma bela garota: essa daí não! E não tinha discussão, tentávamos fazê-lo mudar de ideia, mas nada funcionava. Ao indagarmos sobre a birra que tinha com algumas garotas, apesar de bela ele profetizava: essa aí é uma pré-gorda, ela ainda não sabe, mas será gorda no futuro e como toda gorda, será carente e ciumenta. Não entendíamos muito na época, porém, ele preferia assim, esperar sempre o pior.

Já eu poderia dizer que sou um dramático irremediável, daqueles que fazem de uma recepção de dentista uma tragédia shakespeariana. Então isso pode ser uma coisa para se preocupar e talvez trocar a recepção do dentista pelo analista, ou seja, só um caso de ótica incomum.

De qualquer forma, essa dramaticidade se deve muito a falta de fé naquele romantismo aficionado pelas novelas e o cinema. Desacredito em moçinhos e pessoas que devolvem malas de dinheiro achadas na rua. Eu prefiro acreditar que existe sim, bondade em todos nós, mas na mesma quantidade que existe a maldade. Somos todos seres ambíguos. Se duvida, faça uma experiência. Coloque um grupo de pessoas numa sala e os deixe sem alimento e água por um bom tempo e terá uma carnificina seguida de um banquete de carne humana. Pode chamar de sobrevivência, instinto e etc., etc., etc. Eu chamo de natureza, fato corriqueiro. O ser humano só é bom por comodidade, para que a vida em sociedade seja algo possível e agradável. Basta os quesitos "viver" e "sociedade" estarem em risco e lá se vão o bom senso e civilidade. É simples assim.

Ainda falando dessa ambiguidade eu, ranzinza que sou, me pego reclamando de uma tempestade quando a mesma se despede para dar lugar ao sol de arco-íris e voltar a lamentar-me por não ter tirado um bom cochilo durante a chuva.

Praguejo por coisas que nem me lembro mais do porquê. Relembro coisas do passado só para fechar a cara e manter o estado de espírito, preciso disso, é minha fonte de agonia e inspiração. Caso contrário escreveria sobre flores do campo e crianças com lares perfeitos, um saco, tudo seria um saco de estrume sem pretendentes.

Pensei nisso ao conhecer uma garota e perceber que lá estava eu em busca de algo para reclamar. Como seria? Me foquei em seus pés, deveria ter uma unha torta ou um calo amarelo e nada. Então seriam as rugas dos joelhos que fariam meus olhos revirarem e não passou nem perto. Seu cabelo era lindo, loiro e cheiroso. A vaidade dela era tão grande quanto desejada. Os olhos eram verdes e vestiam rimel. Fui atrás de gorduras extras e ela era magérrima. Sabendo que sua aparência física estava em ordem pensei em buscar algo para acusá-la em nossa relação e nem assim obtive sucesso. Poucas vezes tive alguém que quisesse tanto me agradar. Desisti. Não dela, é claro, desisti de procurar nela, algo que me desse motivos para lamuriar, logo, sobrou-me discutir e reclamar de mim mesmo.


Bento.