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terça-feira, 14 de julho de 2015

AINDA HOJE NÃO SEI O QUE É SER CHUPADO POR UMA BANGUELA

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Uma vez estava eu saindo de um motel afastado, quase de improviso, com uma das garotas mais safadas que eu já conheci. Íamos do motel para o metrô e lá cada um de nós tomaria um curso diferente. Eram duas quadras e eu andava como um coxo, tamanha a dor no saco, pois eu transara com toda a força que tinha e ela queria mais e mais forte. Nem o homem mais forte do mundo poderia saciá-la. Eu pelo menos tentei. Mas foi a dor no saco mais deliciosa que eu me lembro.

Uma outra vez, estava em casa, numa daquelas festas que eu costumo fazer sem motivo e sem data para acabar. As pessoas apenas vão chegando e trazendo bebidas e trazendo mais gente que também vão trazendo mais bebidas e bem, parece nunca ter fim. Até que alguém gorfe, e outro alguém apague, uma garota ou duas urine nas calças, e em cada canto da casa tenha alguém transando ou tentando transar. Calhou que neste dia me sobrou o banheiro do meu quarto e era a terceira vez que eu entrava ali com uma garota diferente. Pela janela do banheiro ouvíamos a conversa sem sentido de bêbados falando sobre nada e gargalhadas insanas. Ela ajoelhada e eu resolvi que era um bom momento para umas palmadas em seu rosto. Primeiro um tapa, depois dois e vocês sabem como isso funciona. Ela nem parecia que gostava nem que não, mas de repente decidiu revidar e seus braços eram mais fortes que os meus. De supetão levei um tapa no rosto de baixo pra cima que quase me deixou sóbrio de novo, porém estava bêbado e o tapa fora tão forte que pendi para trás como quem estava prestes a cair. Então a garota dos braços mais fortes que os meus agarrou meu pau e me puxou junto dela impedindo minha queda. Poucas vezes me vi surpreso, mas nada supera o tapa, a quase queda e ser laçado por meu próprio pau. Rimos disso e ela continuou a fazer o que estava fazendo. Decidimos parar com os tapas por hora.

O que quero dizer com isso é que são sempre as pequenas coisas que me marcam. A minha memória que quase funciona raramente deixa passar esses pequenos momentos de que somos escolhidos pelo Destino para aprontar de bom humor. Não há muito que se esperar das pessoas nesta bagunça que chamamos de vida. Não há muito que esperar nem de nós mesmos, mas esses momentos simplórios fazem com que acordar cedo e sentir o azedo do suor que exala por debaixo da camisa do filho da puta que não tem coragem de tomar um banho antes de dividir o mesmo metro quadrado que você no ônibus lotado faça um pouco mais de sentido. Porém não muito.
Só que a vida é bem mais flagelos que momentos intrigantes como estes, logo, não vou negar que por vezes me passa pela cabeça morrer. Não morrer para sempre, não é isso. É morrer uns três ou quatro dias só. Assim, sem mais nem menos. Apenas morrer e não ter ninguém enchendo meu saco, sem cobradores ou Testemunhas de Jeová em minha porta. Sem carros do ovo, da cândida, ou do churros. Sem panfleteiros de pizzarias. Sem ter de me preocupar com cigarros e sem guarda noturno. Só morrer, pura e simplesmente morrer. Descansar a mente, o corpo, esquecer das coisas. Já reparou que passamos mais tempo tentando esquecer que lembrar? Isso pode ser um sinal. Um sinal de que a coisa está de mal a pior.

Estava lembrando desses casos assim, por acaso. Entre uma dose de Borboun e outra, analisava o conceito que tinha das mulheres e o conceito que as mulheres tinham sobre mim. Dizem que os amigos sempre lhe dizem a verdade, eu nunca acreditei nisso, porém tenho uma conhecida que já tomou porres homéricos comigo, que jura de pé junto que sou a pior pessoa do universo, aliás, não duvido que ela goste da minha companhia só por isso. É mais fácil de conviver com alguém que está mais fodido que você, não há pressão para melhorar. Em seus ápices de embriaguez chegou a me comparar com o próprio Diabo, mas acho que ela me superestima.

Então penso nas garotas das quais cometeram o erro de cruzar meu caminho. Todas elas santas, faço questão de frisar. O que pensam de mim? Não que seja importante a ponto de mudar a minha opinião, contudo pode ajudar a entender o porquê não permaneceram e qual a minha responsabilidade nisso tudo.

O fato é que algumas garotas gostam do que eu escrevo, no entanto não gostam tanto quando me conhecem e provam o que leem na vida real. Justo.

Lembro-me de uma garota, de olhos verdes como uvas verdes. Não se adaptou a liberdade que eu dava a ela. Talvez quisesse alguém ciumento, que quisesse saber onde ela estava a cada passo, que a proibisse de ter amizades masculinas e controlasse todas as suas ações e bem sei que apesar de reclamarem, existem muitas garotas que gostam desde tipo de cara machão. Eu poderia ser este cara? Claro que poderia, mas eu não poderia ser este cara e ainda por cima ser exatamente a pessoa que eu digo ser. Então começaria uma relação traindo, não ela, mas a mim mesmo. Não digo que hoje ela me odeia, porém acredita piamente que eu não quisesse nada com ela. Eu queria, só que gosto de analisar as coisas e as pessoas e isso leva algum tempo.

Penso na idosa de 500 anos. Meu único arrependimento quanto a esta garota de 20 anos é que, idosa que era, ainda possuía todos os dentes. Ainda hoje não sei o que é ser chupado por uma banguela, mas nunca é tarde. Esta, talvez me odeie, mas tenho sérias dúvidas. O que acontece é que ela se convenceu de que eu sou o pior do mundo, mas não consegue esquecer os bons momentos, logo, sempre quer reviver os bons momentos de outrora. Só que todos sabemos que há coisas que nunca se repetem.

Outro dia recebi uma ligação de uma garota casada. Em outros tempo traía seu marido comigo, mas isso faz muito tempo. Teve um filho recentemente e depois de tanto tempo de fidelidade forçada queria voltar a traí-lo. Esta não me odeia, tenho certeza. Poderia dizer que até me ama, do jeito dela, mas talvez seja amor. Contudo, não mais do que ama o marido. Melhor pra mim, pior pra ela.

Tive uma relação conturbada com uma garota de pernas finas uma vez. Digo conturbada, pois nunca estávamos disponíveis ao mesmo tempo. Quando ela quis eu estava ocupado me diminuindo, e quando eu estava disponível ela estava ocupada com outros relacionamentos. De qualquer forma, por mais que em algumas vezes quisesse me odiar ela não conseguia. Não conseguia, pois para odiar é preciso dar importância, nutrir qualquer sentimento para depois querer o mal. Mas a única coisa que a garota de pernas finas sentia era vaidade. Gostava do drama que eu fazia, e eu sou bom com dramas. Fazia bem ao seu ego estar entre as linhas dos meus textos e esperava ansiosa para ler sobre si. Sentia-se musa de seu autor predileto. E ela era. E eu era. Hoje não mais, nem pra mim, nem pra ela. Hoje ela lê outras coisas, eu escrevo sobre outras e assim a vida segue. Mas definitivamente não me odeia.

Já Nelia, talvez seja a única que nutre algum ódio e rancor por mim. Odeia porque me amou. Odeia, pois não pude ser o homem que ela queria que eu fosse. Odeia-me porque eu era só um garoto. Odeia porque eu não podia fazer malabarismo em faróis, porque não podia dormir em redes, porque não podia desvendar o mundo. Também pudera, sequer conseguia me desvendar. Meus segredos e sonhos, o que eram? Meus amigos e familiares, quem eram? Odeia então, porque eu não era capaz de acompanhá-la em sua jornada para desvendar seus traumas. E ainda pensando nisso, vejo que não tenho nada em comum com essas garotas nem com seus ideais e suas fantasias. Algumas delas queriam apenas um escritor falido para se sentirem o centro de algo importante, contudo, eu nem sou tão escritor assim e nem tão falido assim. E mesmo não sendo, vivendo a realidade da minha escrita, perceberam que não é tão fácil estar ao lado de um beberrão teimoso que precisa de sexo como um alcoólatra precisa de álcool e eu preciso tanto de ambos.



Bento.

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

COMENDO A PRÓPRIA BABA COM UMA COLHER DE SOBREMESA

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Então eu vinha embora do trabalho pensando em meu banheiro. Não propositalmente. Era forçado a desejar chegar cada vez mais rápido, afinal, eu precisava evacuar o mais depressa possível. Porém ou lembrei que em casa não tinha uma gota de álcool sequer e isso é inadmissível. Travei o reto e passei no posto de gasolina para comprar cervejas e cigarros.
Resumindo; consegui chegar em casa sem nenhum acidente. E aqui estou eu. Sentado na privada dando uma boa cagada, ouvindo Albert King com a gaita de fundo e tomando uma cerveja que ameniza, um mínimo de qualquer coisa neste calor infernal. Neste momento eu penso; puta momento feliz. Eu sou feliz agora. Estou feliz. O homem que não puder pagar pela sua própria cerveja não passa de um verme. O homem que não puder cagar em seu próprio banheiro é um homem desesperado. Não há futuro.

Agora já é Robert Johnson que canta e eu fixo os azulejos do banheiro feliz da vida. Não saio daqui enquanto não terminar o cigarro, pois acredito piamente que cagar e não fumar um cigarro é um pecado mortal. Bem como os religiosos acreditam em seu deus e suas doutrinas eu acredito que cagar sem tempo de terminar um cigarro é um insulto aos deuses de qualquer espécie.

A verdade é que além deste momento único e sem sentido, porém feliz, outra coisa me fez uma criança novamente de tão animado. Somente uma coisa poderia arrancar sorrisos idiotas e piadas infantis em meio ao mau humor que prevalece em minha existência. Uma garota. Da qual resolveu dar o ar da graça. Uma esmola de atenção qualquer e isso já fez de mim o cara mais feliz do mundo. Ninguém pode dizer o contrário. Pelo contrário. Todos aparentemente perceberam. Minha garota, ela não sabe, mas sempre foi minha garota e a única da qual eu sou fiel. Até hoje. E eu acredito, talvez errado, mas acredito, que ela só voou pelo mundo com tanta segurança porque sabia que sempre haveria um coração abandonado do qual definhava de amor para que ela pudesse voltar.

A musa das musas dá um sorriso e eu começo a regurgitar inspiração. Seu título não é à toa.
Confesso que fui conferir quantas latas de cerveja eu tinha bebido na noite anterior para ter certeza que não era o álcool me pregando peça. Depois disso belisquei-me, sei que não faz sentido, mas nunca se sabe o que nossa mente pode fazer conosco quando desejamos muito uma coisa.

Perdi o jeito de falar com esta garota. Meço as palavras e mesmo assim depois de ditas me sinto um idiota, por isso acabo falando demais. Ainda não sei como não babo como um retardado, mas chego próximo. Piso em ovos e quase não respiro porque ela é meu dente-de-leão, qualquer brisa e ela pode partir como todas as outras vezes. Talvez soe gay para quem está acostumado com os padrões de minha escrita, mas é difícil escrever sobre isso de forma diferente. Baixo a guarda, transbordo de bundamolice, e agora sim eu já estou necessitando de um babador.

Ela é dona de uma poção do amor que me tira dos quintos dos infernos e me faz cheirar flores em parques, sorrir para crianças e dar atenção a velhos na rua. Logo eu que vivo nos porões mais putrefatos na cidade, ser da noite endiabrado, odiado por onde passo, de discursos intensos e desaforados me pego elogiando o sol e a chuva e aplaudindo o por do sol. Vejo-me brincando com crianças e suspirando por canto de pássaros de manhã. Onde já se viu? Logo eu.
Como faz, quando um filho da puta como eu sai na rua querendo distribuir abraços? Provável que quem ver vai pensar que estou bêbado, mas nem alto eu faço umas merdas dessa. É quando começo achar que ela é meu maior entorpecente. Senão o mais forte pelo menos o mais viciante.

Há tanta coisa pra dizer e as palavras simplesmente me engasgam lutando para não soar. Nunca sei o que dizer. As mãos transpiram e receio magoá-la. Mas não minto tentando parecer algo que não sou, afinal ela não acredita em nada que eu digo mesmo. Gastar imaginação mentindo seria perda de tempo, porém me assusta espantá-la com qualquer coisa de minha personalidade velha e caótica.

Mas se você estava achando este texto feliz demais para os padrões aqui vai uma boa notícia - pra vocês que gostam de má notícia. Assim como esta garota voltou de repente ela se foi instantaneamente. Apareceu solteira e logo depois comprometeu-se novamente. Foi só o tempo de criar fantasias e histórias e engolir toda a baba novamente, com uma colher de sobremesa. Babar e voltar a comer o mingau de esperança. Excluir-me de novo e eu voltar a reconhecer a raiva estacionando na frente de casa, buzinar antecipando a campainha. E eu ir olhar com curiosidade.

- Entre, eu tenho cervejas. Se prepare, pois hoje vamos ficar bêbados até não acertarmos mais a boca.Eu disse à Raiva, velha companheira.

- Mas ela vai excluí-lo e depois procura-lo novamente, pois é isso que ela faz. Disse a Raiva. E eu respondi cabisbaixo.

- E eu vou aceitá-la mais uma vez! Afinal é só o que eu faço em todos esses anos. Espero que ela me procure e procure e procure novamente.

- Então me sirva àquela cerveja que prometeu. Você sempre tem as mais geladas. Disse a Raiva.

- Um brinde. Eu disse.

E brindamos. Velhos parceiros de bebedeira.



Bento.

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domingo, 25 de janeiro de 2015

COM UMA RESSACA DE 23 ALCOÓLATRAS

Quem estivesse de fora da brincadeira e olhasse em volta provavelmente acharia que o quarto tinha sido cenário de guerra. Uma garrafa de Jack tombada em cima da cômoda e outra recém aberta ao lado. Bitucas espalhadas pelo chão bem como latas e mais latas de cerveja. Embalagens de camisinha pareciam confetes em noite de carnaval, mas estávamos no natal. A noite também não era de Tarantino, era mais que isso. Aquilo não foi cenário de guerra, fora uma festa improvisada de bebedeira e sexo. Um religioso diria que arderíamos eternamente no inferno. Deus olhara para o outro lado tamanha libido. Já imagino os demônios assistindo de camarote e dançando ao som de Matanza no volume mais alto. E pecávamos ao ritmo da bateria de Interceptor V6.
Eu estava lá, mas não estava lá. Até meu pênis tava dividido entre sim e não. Meia vida, ele continuava a trabalhar por hábito, talvez. Bem, cada um tem o que merece e alguém decidiu que eu não mereço muito mais que aquilo, logo não se deve reclamar de suas conquistas. Instantaneamente sai de lá para outro lugar...

***

Outro quarto, sete anos atrás, quem se encarregava da trilha sonora era o vinil do Deep Purple repetindo o mesmo lado, incansavelmente. A bebida era Dreher, afinal, cervejas era um luxo que não tínhamos naquela época. Mas a garota... a garota abaixo de mim era a mais linda de todos os tempos. O quarto tinha o mesmo cheiro de sexo, porém os demônios não sorriam desta vez. Não sorriam porque eu estava feliz. Em todo o mundo, no decorrer da história, ninguém foi tão feliz quanto eu naquele fatídico momento em que transava com a garota dos meus sonhos e não sei se por felicidade ou por estar bêbado como um porco eu dormi. Dormi em cima da garota mais sensacional que já conheci.

***

Volto a mente para o quarto atual e enquanto sou chupado e a música agora é Escárnio, olho para minha cama e vejo um amigo mandando ver na garota que outra noite estava montada em cima de mim com uma libido de tirar os móveis do lugar.
Eu acredito que não sou das melhores pessoas, se tem opção afaste-se, não serei eu quem lhe trará conforto. Não sou dos melhores amigos. Mas certos caras, daqueles que estão comigo desde os primórdios levam sempre alguma história pra contar onde eu faço parte, como personagem principal ou coadjuvante digno de um Oscar. Cedi a transa e a cama para o amigo. Cedi porque tenho dessas às vezes. Por um pequenino momento torno-me bom. Entenda: Eu, bom. É mais ou menos tão raro quanto achar um filme bom na TV aberta quando se está sem dinheiro num fim de semana em casa. Uma coisa rara. Mas se ficar por perto tempo suficiente vai se deparar com esses bons momentos.

Algumas pessoas dizem que o meu quarto, ou qualquer lugar que eu esteja, é sempre o pior lugar para se estar quando quer andar na linha. Bem como Jimmy diz em Amigo Nenhum ou Tombstone City, depende de como terminará sua noite. Eu nunca obrigo ninguém a nada, mas dizem que eu desperto sempre o pior lado das pessoas. Isso pode ser um dom ou uma maldição, porém eu não acredito no que dizem. As pessoas fazem exatamente o que querem fazer e quando podem colocar a culpa em alguém pelas merdas todas elas fazem. A ressaca moral fica mais fácil. Ter as mãos tremendo e o estômago colado nas costas no dia seguinte fica mais fácil de justificar quando se esta na companhia de um culpado como eu. Não quero com isso dizer que sou inocente, mas afirmo, ninguém é.

Quando eu digo que tenho cara de culpado eu quero dizer que a maioria das pessoas tem uma visão de mim que não necessariamente seja a correta. Eu, por exemplo, bebo muito menos que as pessoas acham que eu bebo. Mas também não significa que eu beba pouco. Eu bebo mais do que muita gente diz que bebe. Se parecer irrelevante ou sem sentido para você leia de novo. Pode ser só falta de atenção.

Ok, já leu. Viu? Da segunda vez sempre faz mais sentido.

Uma vez minha ex-garota perguntou se eu ainda bebia como antes. Eu me apressei em dizer que não, pois estou dizendo a verdade. Com "antes" ela queria dizer na época em que estávamos juntos e digo sem medo de errar que eu não bebo como antes pois hoje bebo para algo maior. Para dar a extrema unção à alma. Bebo para relaxar a mente e os músculos. Bebo atrás de inspiração. Antes eu só bebia e pronto. Entende a diferença?

De qualquer forma neste momento, onde tudo isso se passava em minha mente eu era chupado enquanto via um amigo mandando ver numa garota dez anos mais jovem que ele e estávamos todos numa boa. As cervejas tinham acabado e mamávamos uma garrafa de Jack Daniels. Era uma noite do terror para quem ama terror. Era o pecado tomando forma e se tornando adulto. Claro, que com toda minha contribuição eu deveria ter uma esquina com meu nome em algum quarteirão do Inferno. Senão uma esquina uma encruzilhada. Pelos serviços prestados. Porra. No mínimo uma foto de funcionário do mês. Mas não de propósito. Falo isso segundo as crenças de merda dos religiosos de bosta. Pode ser que estejam todos errados e que não existe nada mais além de nós, seres humanos medíocres que servem de adubo para plantas.

Whisky, cigarros. Matanza acabava de tocar Rio de Whisky e fazíamos sexo no ritmo da música. E o Jack suavizando a garganta, preparando o caminho para o cachimbo. Algumas pessoas acham que essa coisa de beber e fumar e fazer merda é ruim. Na verdade não é mesmo. Eu por exemplo, acho bem pior passar uma noite conversando com idiotas e tomando Coca Zero achando que isso vai te fazer mais saudável. Com a vida que eu levo eu poderia estar morto, mas não estou. E digo mais: Faz anos que não fico doente e a única dor que sinto é da agulha riscando a carne quando vou me tatuar. Alguma coisa nesta teoria maluca de não poder fazer nada de "errado" é falha.

Mesmo assim, enquanto pensava nisso me veio à mente um dos momentos que mais me assombra. Eu já disse que já fui melhor do que sou hoje, contudo acredito estar errado. Da época em questão eu melhorei bem, depois de melhorar eu piorei um pouco. Sabem como é, ninguém consegue manter o ritmo. De fato eu conheci algumas bêbadas depois disso e algumas santas. Ou seria o contrário? Não me lembro. Então eu lembrei da ex-garota lavando meus cachorros. Com os cabelos presos deixando à mostra a tatuagem na nuca. Uma blusa de alça preta deixava eu ver também a tatuagem no braço e uma saia até os joelhos, nada muito sexy, mas nela, qualquer coisa ficava maravilhosamente sensual, sexual. Mesmo uma camiseta minha velha esquecida na casa dela. Ela roubava minhas roupas para poder dormir sentindo meu cheiro e isso fora talvez, a maior demonstração de amor que eu já tive em toda a minha vida.

Minha mente volta do passado e segue direto ao futuro quando as garotas já foram embora e meu saco transpira devido o calor e o suor mistura com a baba da noite anterior. Há cabelos grudados em meu peito. Os lençóis da cama foram parar em algum lugar que não consigo desvendar de primeira. A ressaca é de 23 alcoólatras. A boca com gosto de merda, a cabeça pesando como uma bigorna. A fumaça do primeiro cigarro arranha a garganta como um ouriço. Ainda tem o catarro seco que quase que me sufoca. Mais ressaca. Ressaca moral também, mas não de arrependimento e sim por fazer o tipo de merda que a maioria dos caras matariam para ter a oportunidade de estar em meu lugar e eu simplesmente não dar a mínima, pois é evidente para muitos que eu preferia estar no mesmo lugar com uma só garota que sequer precisa estar no mesmo continente que eu para me inspirar. E é só pensar nisso que minha mente volta como se estivesse pilotando um Delorean e me vejo deitado em meu quarto brincando com os seios dela. Displicentemente tocando-lhe o mamilo com os lábios, mordendo e me divertindo tanto que passaria horas e horas fazendo aquilo. Lambendo-lhe e beijando e mordendo e morrendo aos poucos com as lembranças. Morro cada vez um pouco mais sempre que me perco em meio ao passado. Sempre um pedaço de brasa que já fora chama se esvai. Ficam as cinzas que partem com o menor sinal de brisa até o dia que não sobrará mais nada o que lamentar. E se já não somos derrotados por deixarmos que nos digam a hora de levantar e deitar, comer e beber, nestas horas não sobram dúvidas. Quando se é derrotado em seu próprio campo de batalha não é difícil imaginar que perderá dali pra frente e seguirá perdendo até que o Destino enjoe de você e passará humilhar algum outro imbecil. É nesta hora que pensamos que a sorte está de bem conosco e voltamos a cair do cavalo, pois a esperança serve apenas para te fazer de otário por algumas horas e depois basta. Só que é como o álcool, basta um gole para atiçar seu lado viciado e quando percebe está bêbado e aprontando de novo.



Bento.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

GIULIARD BORSANDI VIII

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VII

Já passava das duas da manhã e eu agora estava parado em frente uma loja de roupas, do outro lado da rua ficava o motel Libelillun. Janaina deveria estar com muita pressa, afinal, o Libelillun era o motel mais próximo ao bar que estávamos e um pulgueiro frequentado por prostitutas e drogados que perambulavam pelo centro de São Paulo. Totalmente diferente dos cinco estrelas que ela estava acostumada a ir. Eu esperava pegá-la desta vez, levar provas para o pastor e acabar logo com aquele caso.

Lá estava eu, bêbado, com dor no saco, com uma câmera vagabunda na mão e vendo a noite paulistana escorrer entre meus dedos enquanto eu trabalhava. Casais andando de mãos dadas. Casais nos carros se beijando e ouvindo música. Casais por todos os lados. Numa floricultura perto dali havia uma faixa "Comece o dia dos namorados com flores". Então olhei no celular para saber que dia era, não me lembrava. Na tela luminosa de meu telefone marcava dia 11/06. Por motivos óbvios passei a odiar o dia dos namorados.

Estava frio, mas eu transpirava. Podia ver a janela da suíte de Janaina de onde estava, as luzes acesas dava a entender que eles ainda não haviam começado com a transa. Provável que ainda estavam fazendo um brinde. Um brinde a mais um par de chifres na cabeça daquele velho enganador de velhinhas. Comecei a pensar se aquele maldito não merecia tudo aquilo que Janaina fazia com ele. Se não era uma justiça dos infernos com aquele que ganhava a vida traindo a confiança de seus fiéis. Sentei-me na porta da loja de roupas e minha mente invariavelmente passava a dar razão para safada que estava sendo fodida pelo grandalhão fétido no motel à minha frente. Com isso também passei a me arrepender de não ter aceitado o convite da gostosa e que agora, no lugar do sósia do George Michael poderia ser eu.

Sou despertado de meu devaneio por uma viatura da polícia que passa na rua com uma lanterna tamanho família apontada bem para minha cara. - Está tudo bem aí amigo? Perguntou o policial que segurava a lanterna.

Estaria melhor se não houvesse um filho da puta com uma porra de uma lanterna na minha cara, pensei em responder. Ao invés disso: - Tudo ótimo seu guarda, só descansando as pernas. Limitei-me a dizer. Eles provavelmente estavam com tanta vontade de trabalhar quanto eu, logo, partiram.

Porém, pensando aqui comigo, foi até bom eles aparecerem, me fez voltar ao foco. Não estava na posição de julgar o pastor ou mesmo a mulher dele. Estava à trabalho, iria ganhar por aquilo e isso já bastava. Finalmente apagaram as luzes.

Mais vinte ou trinta minutos de espera e caso encerrado. Chega de subir em janelas e telhados, não hoje. Umas fotos bem batidas da delícia que era sua mulher saindo do motel com um brutamontes iria ter de servir para o pastor se convencer que sua mulher era uma vagabunda e finalmente me dar meu dinheiro.

Eu continuava suando e a neblina da madrugada aumentando. Já estava em meu quinto cigarro enquanto aguardava os pombinhos treparem e agora só restavam uns três. Teriam que dar até eles saírem, já não bastava ficar ali sem tomar um trago qualquer de alguma coisa forte?

Meus olhos começaram a ficar pesados e com a sensação de areia dentro. Era o sono me lembrando que já estava muito tempo acordado e que a brisa do álcool estava passando. Eu sabia que bastava uma cochilada e todo meu trabalho poderia ir por água abaixo e seria mais uma semana, no mínimo, para ter outra oportunidade de pegar Janaina no pulo.

Não, era hoje. Bastara a sorte que tive de encontrá-la no mesmo bar que eu costumo ir para ter a certeza que seria hoje. Eu ficaria lá, sentado, no frio, sem cigarros e sem um trago durante a noite toda se fosse necessário. Mas aquilo iria acabar ali. Nunca mais eu iria olhar na cara do pastor ou de Janaina. Levantei-me e comecei dar pulinhos como um pugilista para aquecer e espantar o sono. Mais um cigarro. A luz do quarto se acendera finalmente. Era agora.



Bento.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

GIULIARD BORSANDI VII


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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VI


Eu já pensava na morte da bezerra, pensava em como estaria Nelia, Ricardinho e a puta que pariu.
Ficar bêbado é uma merda, beber sozinho também. Começamos a pensar em coisas que não queremos pensar, em pessoas que não queremos pensar.
Aquela música de merda tocando no meu ouvido e fazendo meus tímpanos explodirem, já estava clamando pela tal bandinha que iria tocar naquela noite. Não que fosse muito boa, mas era melhor que aquela música eletrônica de retardado que me dava vontade de cortar os pulsos. Mais meia hora daquilo e eu acharia a banda Qasual, que era a atração da noite, quase um Led Zeppelin. Exagero meu, mas aquela música eletrônica me dava nos nervos. Jamaica gostava.

O bar já estava cheio e Jamaica não parava. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneca e consequentemente a sexta dose de whisky - Jack Daniels, abaixo disso é água suja - quando me surpreendo com uma mulher sentando ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Suculenta. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela, era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".

- Claro que pode. Você pode tudo.

Respondi dando mole para ela, pois realmente fiquei interessado naquele vestido e em tudo o que continha debaixo dele, porém me contive. Pô! O pastor iria me pagar uma bala por àquilo. Valia mais que uma transa com uma vadia qualquer.

Transar com vadias não pagava conta. E eu estava com muita sorte para ela aparecer ali, num dia de folga, quando eu já tinha perdido vários dias atrás de uma oportunidade de pegar aquela safada prevenida. Hoje ela tinha se descuidado, não por querer, mas o destino às vezes coopera. Quem diria que a puta apareceria no mesmo bar que seu delator, num dia de folga e num dia que o pastor estaria em casa dormindo. Pelo que eu sabia.

A mulher me olhava com cara de desejo, eu já estava bêbado e de pau duro, ela era gostosa e o álcool sempre me deixava mais excitado.

Era a sétima caneca, servi uma para ela, eu pensava em quanto eu ganharia com essa história do pastor e pensei em avisá-lo. Mas mesmo que eu a levasse para um quarto de motel, como eu poderia fotografar ou filmar esse tipo de coisa quando eu mesmo estivesse fazendo parte. Corria-se também o risco do pastor ficar puto comigo e não querer me pagar, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um corno, principalmente um corno evangélico. Então fui devagar...

Paguei uns drinks para a moça e continuamos conversando. Ela me queria, estava claro para quem quisesse ver, não que eu fosse muita coisa, ela escolheu o primeiro que estava na frente dela, quis o destino que fosse eu, mas poderia ter sido o Zé, o Mané, ou até o Guião, se ali estivesse.

Era isso! Por isso que eu bebo, penso melhor assim. Dou um fora na mulher e ela vai procurar qualquer outro cara para satisfazer sua libido de mulher da vida.
Talvez eu até entenda o motivo para ela sair às escondidas para trair o marido, pelo pouco que conheci do pastor, duvido muito que ele tenha gás para apagar o fogo de uma gostosa como esta. Puta mulher gostosa.

 - Bem Janaina, gostei muito de conversar com você, mas sei que você deve estar querendo diversão essa noite e não ficar aqui perdendo tempo comigo...

Então Janaina me interrompe fazendo a sua cara mais sensual da noite:
 
 - Então nós vamos nos divertir em outro lugar?

Eu não consegui segurar o riso de criança que ganha um brinquedo novo. Porra! Meus hormônios me diziam para mandar o pastor para a puta que pariu e comer àquela senhora quantas vezes fosse possível, afinal, era meu dia de folga. Mas minha razão ainda estava sóbria e se eu tivesse que fazer uma social com ela depois do sexo provavelmente eu iria querer me matar, tamanho tédio, ou acabaria soltando alguma indireta que faria com que ela percebesse que eu sabia de sua vida mais do que ela já tinha me revelado.
Pensei que esse puritanismo ainda iria me foder, mas...

 - Não, gata. O que eu quero dizer é que sou casado e não quero atrapalhar sua noite, portanto, acho melhor você ir se divertir.

 - Mas eu também sou casada e se isso não é problema para mim, acredito que não será para você. Ela era uma profissional. Já devia ter feito aquilo várias vezes. Estava acostumada e totalmente disposta a arrumar uma transa.

 - Olha, não vou te julgar. Você deve ter seus motivos para isso. Porém, não traio minha esposa. Continuei mentindo.

Ela desistiu. Tomou o restante de seu Martini e me deu um beijo molhado no rosto. Quase enfartei com aqueles seios deliciosos próximos ao meu rosto. Senti seu perfume doce e meu pau ficou ainda mais rijo. Eu iria explodir.

Fiquei olhando ela se sentar numa mesa mais próxima do palco.
Uma mulher como aquela, rica, madura e muito gostosa, só poderia estar sozinha num bar como aquele com um só propósito; sexo selvagem com um cara que sequer perguntasse seu nome e que nunca mais o encontrasse na vida.

 - To te estranhando guri. Tá dispensando mulher, agora? Perguntou Jamaica sem me deixar notar que estava observando minha conversa com a mulher do pastor.

 - Só tenho olhos pra você magrela.

Respondi com um sorriso irônico nos lábios. Ela sorriu balançando a cabeça percebendo a ironia.
Evidente que eu não desperdiçava uma oportunidade de trepar se não houvesse um bom motivo. Como o de hoje com a mulher do pastor. Mas a parte de só ter olhos para Jamaica não era tão inverdade assim. Como já disse, ela era a única garota que eu conhecia que poderia me fazer esquecer a vadia da Nelia. Mas enfim...

Não demorou muito para que um roqueiro musculoso sentasse na mesma mesa que Janaina e começassem a conversar intimamente. Era agora, assim que saíssem do bar eu os seguiria e completaria meu trabalho. Afinal, eu sou Giuliard Borsandi, detetive particular. Mesmo que a contragosto.



Bento.

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

GIULIARD BORSANDI VI

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI V


Decidi então tomar uma no bar para relaxar, ver gente, não que eu goste de multidões ou de muita gente falando na minha orelha, mas às vezes até um solitário como eu precisa de atenção.

Resolvi parar num bar ali pelo centro mesmo, perto do escritório, para o caso de o álcool me tirar o controle e eu poder ir embora andando sem nenhum acidente.
Não por mim, estou cagando por mim, faço isso pelas pessoas, pois apesar de não ser nenhum humanitário e não me importar por quem vive ou quem morre, não quero ter o peso de tirar uma vida nas minhas costas. Já tenho peso demais, mágoas demais.

Digo que estou cagando por mim porque no caso de um acidente vai ser um alívio. Ora seu maldito! Estou falando de suicídio mesmo, quem nunca pensou nisso? Foda-se!
O Ricardinho talvez, que nunca precisou fazer esforço para nada, teve tudo de mão beijada, tudo que tem foi o dinheiro do pai que comprou, como o cargo de jornalista investigativo que era para ser meu.

Ótimo! Tudo que eu precisava era me lembrar daquele comedor de puta, viadinho. É melhor mesmo eu ir para o bar.
Chego então por volta das 22h00min, a fila para entrar no bar vai da porta de entrada até a próxima esquina. Minha vida já é um tanto tediosa demais para que eu perca meu tempo em filas, logo, vou cumprimentar Guião, o segurança da casa. Ele é amigo do Cabelo e eu o conheci andando pelo prédio de Dom Pedro onde tenho o escritório.
Sim, eu só fui cumprimenta-lo com a intenção de furar a fila, caso contrário eu nem me moveria. Quem é você para me julgar?

 - Como tá Guião?

Não me perguntem o porquê deste nome, pois não saberei responder. Eu só conto a história, quem escolhe os nomes é o autor.

 - Giu, meu chapa! Comé que anda essa força?

Guião me cumprimentou com um abraço que quase quebra minha coluna em pedaços. Toda pessoa grande demais acha que todos temos a mesma força que elas.
Guião é um negro de uns dois metros de altura, chutando baixo e, tantos quilos quanto uma balança pode contar. Puta cara grande, principalmente perto dos meus quase um metro e oitenta e setenta quilos. Um bom cara, apesar de ser assustador, é uma figura.
O grandalhão tem uma leve dificuldade de respirar, muito pela obesidade, afinal sustentar todo aquele corpo só com dois pulmões é um desafio dos grandes, ainda mais com a quantidade de fumo que ele consume. Consume e vende os fumos do Cabelo na porta do bar.

 - Você está me matando Guião!!!

Eu disse quase que sufocado.

 - Porra, foi mal... E então, vai entrar ou está procurando alguém?

 - Hoje eu to de folga, só vou encher a cara.

O segurança então tirou seu corpo gigante do meu caminho para que eu pudesse entrar.

 - Vai lá poeta, pega leve com as meninas.

Passei pelo corredor escuro, virei a esquerda e assim que abri a porta fui atingido por uma onda de fumaça de cigarros -- que era demais até para mim que fumava descontroladamente -- e música alta.

O bar era dividido em duas partes, a pista de dança onde as pessoas dançavam como retardados transpirando em bicas com aquela música eletrônica que faziam meus tímpanos explodirem e ao fundo da pista tinha um palco que era usado por bandas de Rock underground em algumas noites.
Do outro lado era o bar, meu lugar preferido naquele lugar e onde trabalhava Jamaica, a barwoman que fazia os melhores drinks da cidade.

Jamaica na verdade era gaúcha, loira de olhos azuis que pareciam fazer parte da decoração e iluminação do bar. Sardas que cobriam seu pequeno nariz empinado, lábios rosas e cabelos loiros (quase brancos) parafinados estilo dreadlocks até o meio das costas, que ela por vezes deixava-os soltos ou enrolados acima da cabeça que me lembrava um ninho de passarinho. Lá pelos seus 1,70m de altura, magra, com seios perfeitos e braços longos cobertos por tatuagens, todos os dois, e piercing no nariz e no buço.
Parecia um anjo, uma tentação do inferno. Não ficava devendo nada para nenhuma supermodelo dessas grifes famosas, mas ela queria ser barwoman.

Jamaica era tão linda que poderia facilmente fazer-me esquecer de Nelia. Chegamos a transar uma vez no apartamento dela que ficava em cima do bar, porém ela gostava tanto de mulher quanto eu. Logo, tive de me contentar com as lembranças da minha ex-noiva.

Ao lado do bar ainda havia alguns bastões de ferro que subiam do chão ao teto e que algumas strippers dançavam em troca de alguns reais entregue em suas bocas e elásticos das calcinhas pelos velhos gordos que sentavam no bar e tomavam whisky com Tônica.

Fui direto me sentar no bar, é claro. E lá estava Jamaica, sempre absurdamente linda:

 - Olá guri. Quem é vivo sempre aparece.

Ela sorria com aqueles dentes perfeitos meio amarelados devido aos cigarros e percebi que tinha um piercing novo na língua.

 - Boa noite magrela.

Era assim que eu a chamava. - Piercing novo?

 - Você viu? Estou me acostumando ainda... Minha nova namorada tem um e eu fiquei com vontade também.

Ao ouvir "nova namorada" senti um ciúme inevitável e uma inveja gigante da vadia que transava com Jamaica.

 - Fico imaginando onde vai parar essa sua mania de piercing.

 - Se é lá que você está pesando, eu coloquei a semana passada...

Jamaica falava e sorria com sua voz deliciosamente maliciosa e seu sorriso contagiante. Não conseguia me manter alheio a ela. Bastava olha-la e meu corpo tremia como um adolescente babão. Chegava a gaguejar e me embaralhar com as palavras.

 - Pena que eu estou namorando, senão te mostrava.

 - Não fica me provocando que eu te pego aqui no balcão mesmo sua pilantra.

 - Hum... Que delícia.

Era impossível não ficar feliz perto daquele anjo do inferno. Mesmo para um amargo como eu, era impossível.
Jamaica me olhava com seus olhos de piscina e apoiava seus dois braços no balcão, o que fazia seus seios redondos e lindos ficarem juntos e apontados para a minha cara. Só aquilo já me excitava.

 - Vai trabalhar magrela! Me trás uma dose, vai.

Jamaica me trouxe um whisky e uma caneca de cerveja. Misturei os dois e tomei dois goles bem servidos para matar a sede.

Eis que já estou na quarta caneca e começa chegar gente. A casa suporta umas trezentas pessoas talvez, nos dias mais cheios, mas não hoje.
Hoje irá se apresentar uma bandinha meia boca, ninguém conhece, só quem frequenta o bar mesmo. Eu prefiro assim, menos gente roçando em mim.
Conheço a tal banda, tem umas músicas mais ou menos, só o vocalista que me desagrada, bebe demais, grita demais, e dança como se fosse uma lagartixa com esquizofrenia em cima do palco.
De qualquer forma, dá para aguentar.

O bar já está cheio e Jamaica não para. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneta e consequentemente a sexta dose de whisky. Jack Daniels, abaixo disso é água suja. Quando me surpreendo com uma mulher ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".


Bento.

terça-feira, 12 de junho de 2012

GIULIARD BORSANDI V


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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI IV


Segunda-feira e eu tinha uma semana para resolver o caso do Tadeu antes de ir atrás da crente safada, a mulher do pastor. Provavelmente só vou vê-la na sexta de noite. Toda vez que penso no pastor e sua esposa dando para o obreiro fico curioso com a situação. Nunca entendi esse negócio de religião.
Mesmo antes de Nelia, Ricardinho e Dr. Hernandes desgraçarem minha vida eu não me ligava em religião. Acredito em Deus tanto quanto ele acredita em mim e quem me vê hoje, depois de todo o futuro que eu tinha planejado, acho que Ele nem lembra meu nome, ou finge que não lembra.

"Quanto mais alto está, maior o tombo", foi o que Tadeu me disse uma vez e agora ele está pedindo minha ajuda para descobrir se a putinha dele está sentando em outro pau.

Acho que termino este caso em dois ou três dias, hoje é segunda, quarta-feira eu acabo e me livro do Tadeu. Uma estudante de vinte poucos anos, auxiliar de escritório, não deve ser muito difícil de ser seguida. E não é que não goste do Tadeu, na verdade ele não fede e nem cheira, mas qualquer pessoa da redação ou da faculdade me faz lembrar meu auge e a vida que eu tinha antes, aí eu fico puto e quero beber.

Só me ligo nos dias da semana por causa dos trabalhos, para mim tanto faz, contanto que eles passem o mais depressa possível. Não me lembro do último aniversário que tive.
Não quero parabéns, nem bolo de aniversário. Muito menos parabéns de gente falsa, que bate nas suas costas desejando felicidades, sucesso e a puta que pariu. Esses são os piores. Tem gente que sabe o aniversário de todo mundo que conhece, anotam na agenda para não esquecer só para fazer essa merda de social, dar presentinhos, lembrancinhas. "Lembrei de você". Lembrou uma porra! Vai é me foder na primeira oportunidade que tiver.

Chega disso, não quero ficar aqui resmungando sozinho. Estou feliz, nem tanto, não pense que vou ficar todo serelepe pulando de alegria que nem uma bicha e dando bom dia para qualquer imbecil, porém esses 500 conto que Tadeu me adiantou vai ajudar bastante, a gasolina do DelRey já estava no osso e me lembrei que fazem dois dias que não tomo banho, então vou para casa.

Eu evito ir para casa porque tudo que está lá me lembra de Nelia. Nelia e a porra toda. Você deve ter percebido que eu tento me desvencilhar de meu passado de qualquer forma, mas é impossível, não consigo. Sou um fracassado. Sou um fracasso que já foi alguma coisa, o que é muito pior.

Cheguei em casa e tomei um banho enquanto a lasanha congelada esquentava no micro-ondas. Minha casa era na verdade um cômodo só, que eu dividia com móveis.
Cama num canto, guarda-roupa e TV em outro, um sofá no meio e no outro canto um micro-ondas e a geladeira. Comi a lasanha sentado do sofá vendo TV e tomando uma Heineken.

Curioso é que consigo passar dias com minha dieta especial a base de cigarros, café e Whisky, mas foi só colocar algum alimento no estômago para correr ao banheiro. Passei trinta minutos lá dentro sentado no vaso.

Depois de ver um pouco de TV e escrever alguns contos peguei no sono e só acordei às 21h00min. Adivinhem com quem sonhei enquanto dormia...

E lá se foi meu dia de folga, sobrara a noite para eu me divertir um pouco, resolvi ir para o bar.


Bento.

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domingo, 20 de maio de 2012

GIULIARD BORSANDI IV

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Indica-se ler os episódios anteriores: "GIULIARD BORSANDI III"



Em alguns capítulos anteriores eu falei sobre um amigo de redação que cuidava dos classificados do jornal. Só que na verdade não era bem um amigo, um colega, no máximo. Quando eu caí não tinha ombro amigo para me escorar, a única que poderia ter feito isso era Nelia, que como vocês já sabem se bandeou para o outro lado, o lado mais forte. Eu não estou reclamando, tudo que tive foi por méritos próprios, sem a ajuda de ninguém. O mundo é assim, todos querem ficar por perto quando você tem dinheiro, fama e mulheres, quando não se tem nada disso ficam só os covardes, os falidos, que acham que um grupo de coitados se torna mais forte. A vida não é uma cooperativa, porra! Você está sozinho, num mundo de bilhões de pessoas, você está sozinho!

Mas aí, depois do sonho que tive com Nelia, onde acordei babado, finalmente abri a porta e quem eu vejo ao lado do Cabelo foi justamente esse colega, o Tadeu.

 - Essa campainha está dando choque sabia?

Ele nem me dera bom dia e já estava reclamando da merda da minha cabra, digo, campainha. É por isso que não gosto de dar moral para as pessoas, ela acham que podem fazer o que bem entendem só por achar que tem intimidade com você. Está dando choque nesse filho da puta e mesmo assim ele continuou enchendo meu saco até me acordar e me tirar do sonho com Nelia. Eu deveria usar o 38. e meter uma bala no meio dos olhos deste marqueteiro metido a jornalista.
Eu acordo mal humorado, na verdade, estou todo tempo de mau humor, só quem está na minha pele pode entender, ou seja, só eu.

 - É um teste! Para saber se realmente estão precisando de um investigador ou só estão querendo encher o meu saco.

Virei às costas e fui até a gaveta do scotch tomar o primeiro trago do dia, acordei cedo. Geralmente só acordo depois das 13 horas, ninguém acorda cedo disposto a contar para um desconhecido que está sendo passado para trás. E geralmente eu durmo muito tarde.

 - Então eu passei no teste.

Tadeu entrou atrás de mim e sentou na cadeira que tinha do lado oposto ao meu da escrivaninha. Cabelo parado na porta olhava para o sujeito que havia entrado no meu escritório com ar de desconfiado, mas Cabelo era igual a mim, não tinha muita paciência e nem confiava em muita gente.

 - Tá de boa aí Giu?

 - Suave Cabelo. E obrigado.

 - Precisando, eu to lá embaixo.

Então Cabelo nos deixou a sós para falarmos, eram dois lances de escadas de madeira oca comida pelos cupins que habitavam aquele prédio desde o tempo do Brasil colônia.

 - Bom, Tadeu. O segundo teste é: Você me acordou cedo e eu não gosto disso. Então vou te dar cinco minutos do meu tempo para você me convencer que merece minha atenção.

Ele parecia feliz em me ver, mas tinha bebido recentemente, bebido muito. Seu rosto magro como eu lembrava depois de tantos anos era agora bem mais magro, barba por fazer. Os lábios brancos denunciavam a ressaca e os olhos, denunciavam a tristeza.
Percebi na hora que o problema era mulher.
Um homem só se acaba desse jeito quando tem mulher na história. Por isso tem gente que diz que a pior droga do mundo são as mulheres e nada pior na vida de um homem que uma vadia.
Um homem aguenta tudo; levar porrada, trabalho pesado, eliminação do time do coração, morte da mãe... Homem só não aguenta uma vadia em sua vida. É assim desde que o mundo é mundo.


 - Primeiro eu quero dizer que lamento muito o quê aconteceu lá no jornal.

 - Poupe o meu tempo e o seu. Passado é passado. E sei que você não veio aqui depois de tanto tempo só para dizer que lamenta.

Esse animal não entendeu nada. Quero me livrar dele o mais rápido possível e ele aí dando voltas. Eu não gosto de ver ninguém do meu tempo de jornalista. Todos eles me fazem lembrar do fato ocorrido e de Nelia. E eu não preciso de ajuda para lamentar o meu amor perdido. Vadia!
Meu dia vai ser ótimo, já estou até vendo.
Uma vadia no sonho e um corno na minha frente. O que virá depois? Minha mãe?

 - Vá direto ao assunto Tadeu. O que é? Casamento?

 - Não, não me casei.

 - E o que você quer de mim?

 Tadeu me contou sua história, ele não casara, mas tinha uma namoradinha. Disse que desconfiava dela, o que é normal, todo mundo desconfiava de todo mundo, alguns só não assumem. Por isso é que eu prefiro ficar sozinho, na verdade não prefiro, porém não vou me entregar a qualquer vagabunda só pela solidão, para isso inventaram o sexo casual. Mas isso é outra história, voltando ao Tadeu...

Ele estava disposto a casar com essa tal namoradinha, já tinha pagado as alianças, faltava só o convite. Então me procurou para ter certeza se ela era a mulher certa. Como se eu fosse Deus, porra! Mesmo se eu for atrás dela e achar alguma coisa, não quer dizer que ela não seja a pessoa certa. Existem milhares de casamentos que só sobrevivem por causa das traições, eles saem da rotina e voltam para casa renovados, sem falar nos voyeurs, nos que transam a três. Cada um sabe onde o calo aperta. Não vou julgar.

Resumindo era isso; eu iria investigar a garota para saber o que ela andava fazendo quando não estava sentando no pau do Tadeu. Passei meus honorários e disse que não iria dar desconto pela nossa "amizade" e tal e tal. Sabe como é, amigos, amigos... Mas dei um toque:

 - Eu vou investiga-la, mas uma vez ouvi um ditado que quem procura acha. Você está pronto para o que eu posso encontrar?

 - Sim...

Não botei muita fé, é por conta e risco dele.

 - Então, negócio fechado. Eu mantenho contato, agora saia.

Nos despedimos e eu pedi para que fechasse a porta quando saísse.

Ao invés de procurar informações da namoradinha de Tadeu eu me servi de mais uma dose de scotch e acendi um cigarro, era meu café da manhã. Eu tinha tempo, afinal a mulher do pastor só sairia para dar o rabo na sexta-feira, que era quando ele iria viajar e hoje ainda era segunda.

 E logo o sonho com Nelia invadiu minha mente. Maldito sonho...



Bento.

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domingo, 29 de abril de 2012

GIULIARD BORSANDI III

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Indica-se ler o capítulo anterior "GIULIARD BORSANDI II" 



Eis que acordo pela manhã com a campainha estourado meus tímpanos que mais parecia uma cabra sendo estuprada por um caipira. Por um breve momento achei que era um sonho, infelizmente não era. Acordei assustado e percebi que a chuva tinha partido e agora restava um sol de dar inveja a qualquer verão, apesar de estarmos no outono, tanto que acordei ensopado como na noite passada, só que desta vez não era por causa do banho de chuva, era suor causado pelo sol que batia na minha cara. E a campainha disparando o berro da cabra.

Eu tenho um 38. colado com fita adesiva debaixo da escrivaninha por precaução que nunca fora usado, contudo quando se é um delator, um cagueta como eu, as pessoas tendem a não ter muita simpatia. Quando comprei o ferro do mané do Cabelo imaginei momentos como esse que eu acordaria de surpresa e imediatamente ergueria a arma apontando-a por todo o escritório como nos filmes da máfia, mas nunca tive esse cacoete de policial. Só fui lembrar da arma quando já estava em pé com a mão na maçaneta da porta.

Por falar em Cabelo, eu molhava a mão dele sempre que entrava algum dinheiro para que ele me avisasse quando estivesse subindo alguém para meu escritório, afinal o prédio era bem antigo e não possuía nenhum sistema de segurança como câmeras e etc. Tão antigo que não me surpreenderia se dissessem que Dom Pedro II tivesse usado um dos apartamentos para trepar com alguma puta do império.

Cabelo não era bem um funcionário do prédio, na verdade, não havia nenhum funcionário lá, ele era mais um passador de drogas típico de um país de terceiro mundo, boné aba reta da CBF, camisa polo listada e Nike no pé, fora as correntes douradas no pescoço e nos braços que ele costumava balançar como aquele personagem de uma novela antiga. Era garoto ainda, deveria ter feito dezoito recentemente e chamavam-no de Cabelo pelo Black Power que escondia dentro do boné. O garoto usava a portaria como ponto, boca, chamem como quiser.

Porém, fazia tempo que não entrava nenhum dinheiro e consequentemente havia tempo que Cabelo não recebia nem uma moeda.

Finalmente abri a porta e quase coloquei para fora todo o café que ainda não tinha tomado. Era Nelia que disparava a campainha do meu escritório como uma desesperada. E ela estava linda, definitivamente linda. Abri a porta e ela me recepcionou com seu sorriso branquíssimo e dentes perfeitos de menina rica que vai ao dentista uma vez por semana. Ao contrário dos meus dentes amarelos de fumante e tortos de quem só foi saber o que era dentista aos dezoito anos e foi no primeiro ano de faculdade, quando houve uma campanha gratuita feitas pelos estudantes de odontologia.

O fato é que aquele sorriso, aquele olhar de superioridade (ela fora a única que conseguiu me colocar na linha), aquele rosto perfeito e branco como o sorriso, me deixava de perna mole, me tirava qualquer problema da cabeça e eu ia do céu ao inferno em questão de segundos. Ainda havia o decote, eu era louco por aquele decote. Nunca vi seios tão perfeitos apontando para minha cara, seios nem grandes nem pequenos, mas proporcionais para seu corpo magro, os mamilos rosados como chiclete, Nelia era a mulher da minha vida do dedo do pé até seus cabelos lisos e negros.
Eu já estava de pau duro pensando naqueles peitos, muito devido ao fato de ter acabado de acordar. Incrível como acordo com um tesão de garoto de quinze anos, quando Nelia interrompeu minha viagem à terra dos seios. "Você não vai me convidar para entrar?" ela disse com sua voz de anos de aulas de canto.

Não sei, depende do que você veio fazer aqui - eu respondi fingindo não estar nem aí para a visita dela. Só que na verdade eu desejava vê-la a cada minuto do meu dia. Em cada corpo de mulher que minha língua passeava eu imaginava ser o dela, imaginava sua língua em cada boca que eu beijava e adicionava mentalmente as pintas do corpo de Nelia, cada uma, nos corpos de todas as minhas amantes.

Então a mulher dos meus sonhos me respondeu com o mesmo sorriso dizendo "estava com saudade" e antes que eu pudesse por em prática toda a minha estupidez, toda minha aspereza, ela pôs a mão em minha nuca e meteu a sua língua macia na minha boca. Agora meu pau não estava só duro, latejava dentro da minha calça como um cão que late para o carteiro.

***

Foi quando eu ouvi a campainha novamente e agora eu estava de volta na cadeira, todo ensopado de suor com o sol batendo na minha cara. Era um sonho, só um sonho ou, mais um sonho. Eu já deveria saber que se tratava de mais um sonho que tinha com Nelia, pois eles eram diários, não importava quantas vezes eu dormisse, todas as vezes sonhava com Nelia. Como eu sou idiota.

Levantei-me para abrir a porta e percebi que a única coisa real no sonho era o pau duro. Arrumei o “menino” dentro da calça de forma que ninguém percebesse o volume e até que deu certo. Lembrei da arma, coloquei o 38. na parte de trás da calça e fui ver quem dava dedadas na cabra que eu chamava de campainha.

Era um amigo de muito tempo atrás...


Bento.

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domingo, 22 de abril de 2012

GIULIARD BORSANDI (CÁPITULO II)

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Estou pendurado numa janela de um hotel barato no centro de São Paulo, num beco cheio de lixo, ratos, gatos e mendigos.

Eu estou disfarçado de mendigo para passar despercebido, mas também, com meu salário e minhas roupas, nem precisei fazer muito esforço.

As únicas coisas que me diferenciam de um morador de rua são o cheiro e a máquina fotográfica no pescoço.
Eu sou investigador particular e me chamo Giuliard Borsandi e fui pago para tirar algumas fotos da esposa de um pastor, que ele desconfia estar trepando com um tal de obreiro, seja lá o que for isso.

Veja que nem em mulher de pastor pode-se confiar mais. O mundo acabou e esqueceram de jogar terra em cima.
Mas a tal serva de Deus é esperta, escolhe sempre hotéis verticais, sempre acima do quarto andar, com janelas e cortinas fechadas. Desta vez ela só esqueceu de conferir a altura do galpão abandonado ao lado. Foi difícil escalar, mas aqui estou.
Arriscando minha vida por uma merreca que mal paga os cigarros do mês. E tudo isso no anonimato, digo, para quem tinha tudo para se tornar um jornalista investigativo famoso e digno de prêmio, eu me perdi em algum lugar.

Sei que já contei minha história para vocês (Apresentando: Giuliard Borsandi. Mini série), no entanto para quem não sabe, eu sou um ex-jornalista que espanquei o cara que roubou minha promoção e minha noiva. Na verdade não espanquei, foram três socos bem dados que o fizeram falar fofo durante um bom tempo, mas não chegou a ser espancamento. De qualquer forma, tanto faz, mas deve ser verdade, afinal dizem que tudo que está no jornal é verdade.

Então já passou da uma da manhã e essa vaca não me dá uma brecha para uma foto. Eu poderia dizer ao pastor que a mulher é uma santa e acabar com esse sofrimento, porém quero preservar um mínimo de vergonha na porra dessa minha cara. E com meu passado de ter sido trocado por um amolfadinha punheteiro comedor de puta - tomara que pegue uma sífilis, é o que desejo para Nelia - é minha obrigação defender os fracos e oprimidos por mulheres vadias. Longe de mim querer ser um herói, não me entendam mal, eu sequer consigo pagar minhas contas e fazer a barba.

Meu pau não vê duas pernas abertas vai fazer um mês e eu nem sei o nome da última fulana que comi em cima da escrivaninha do escritório. Só sei que ela era boa, muito boa. Ela foi me procurar para pegar o marido rico trepando com a empregada, parecia que eles tinham um contrato de casamento que no caso de adultério o traído ficaria com tudo.
Vagina cara dessa empregadinha. Também, até eu gostaria de pegá-la por trás como fez o tal marido rico. Dava dó de deixar aquela moreninha sem uma bela chupada.
Só que homem é burro pra cacete, se a carne é fraca amigo, não assine contratos. Esse é um lema que eu vou levar para minha vida.

Magali! Lembrei o nome da madame que me contratou, não era de se jogar fora, é bem verdade que não era bonita, o dinheiro ajudava muito.
Cheirosa, tão cheirosa que toda vez que ela entrava no meu escritório seu perfume ficava lá por dias. Na verdade chegava a me irritar aquele perfume, muito doce, não gosto de perfumes doces, porém com o tempo me acostumei. É bom sentir algo de feminino naquele cubículo nojento que chamo de escritório. Seis metros quadrados com uma janela, uma porta, uma mesa e um arquivo. E só.
Magali me tirou o atraso, mas agora já tava na hora de correr atrás do prejuízo de novo.

Bom, a crente do diabo fugiu novamente e eu fui para o escritório. Abri a garrafa de scotch tupiniquim e a primeira dose foi num gole só. Sentia frio com aquelas roupas molhadas devido a chuva de verão. Peguei uma trouxa de roupa seca que havia numa mala ao lado do arquivo, preparada exclusivamente para essas ocasiões, troquei-as e me joguei na cadeira e esticar as pernas sobre a mesa. Abri a gaveta onde guardo os destilados e servi mais uma dose, dessa vez dupla. A gaveta da escrivaninha que sempre emperra, precisou de um leve soco de baixo para cima para ela deslizar suavemente. Acendo um cigarro e dou um trago demorado, "dia difícil" penso em voz alta. Giro o dial do pequeno rádio de pilha e acho uma introdução de guitarras que agrada meus ouvidos e fico ali pensando se a mulher do pastor vai me passar para trás novamente na próxima emboscada. De qualquer forma, a adultera só sai para vadiar quando o pastor viaja, o que só vai acontecer na próxima sexta-feira, logo, terei quase uma semana para preparar um novo plano.

Acendo outro cigarro e fico olhando a chuva pela janela do escritório, vejo que algumas gotas passam pelo pedaço de papelão improvisado num quadrado que antes tinha um vidro que fora quebrado por uma pedra, "precisa de mais fita" pensei comigo.

Então peguei no sono. Estava cansado e não era só fisicamente.

Eis que acordo pela manhã com a campainha que mais parecia uma cabra sendo estuprada por um caipira.

Era uma amiga de muito tempo atrás...


Bento.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

APRESENTANDO: GIULIARD BORSANDI. A mini-série

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Era uma vez um mundo cretino chamado Tedioso.
Não. Isso não é uma história para crianças.

Meu nome é Giuliard Borsandi, sou formado jornalista e o diploma só me serve para tapar o buraco no reboco da parede de meu escritório num prédio do tempo de Dom Pedro I no centro de São Paulo. É preciso manter um mínimo de boa imagem na minha profissão. Por isso o diploma emoldurado na parede, caso contrário ele estaria no lixo.
As pessoas respeitam um diploma, não importa do que seja, desde que você tenha passado quatro anos numa universidade medíocre, ou fingindo ser estudante no bar enchendo a cara e comprando as garotas com álcool, maconha ou qualquer tipo de droga.
Não importa, se no fim, você tiver um diploma para mostrar aos outros.

Esse nunca foi meu caso, eu era um dos melhores alunos da sala, quase um puxa saco de tão CDF. Na verdade eu era um puxa saco. E foi por isso que conquistei a garota mais linda da sala, mesmo sendo bolsista.
O nome da garota era Nelia, tão rica que não precisava sequer perder seu tempo na faculdade, poderia viver só do luxo oferecido pelos pais, digo isso sem exagerar, era muito dinheiro. Mas ela tinha um discurso de revolucionariazinha que nunca passou vontade de nada e queria ser jornalista e manter-se por suas próprias pernas. Ao pensar nisso tive que rir, "viver com as próprias pernas...", ela nunca soube o que realmente significa isso. Então começamos a namorar e eu a amava.

Eu terminei a faculdade e era um gênio, fui orador da classe e um professor, o Prof. Deleno me indicou para um dos melhores jornais do país.
Uma bela vida para um garoto sem pai, de vinte e dois anos que saiu do subúrbio da Zona Leste.

Com vinte e dois anos eu tinha uma noiva ninfeta de 20, o título de melhor aluno do curso e um emprego dos sonhos. Mas como disse um jornalista amigo de redação que cuidava dos anúncios dos classificados "quanto mais alto está, mais alto é o tombo".

Eu já estava há dois anos no jornal e já namorava uma vaga de jornalista investigativo que era o melhor salário do jornal, fora o bônus, só abaixo do salário do Dr, Hernandes que era editor, é claro.
A tal vaga era meu sonho, Dr. Hernandes já tinha me oferecido o emprego e faltavam apenas alguns detalhes burocráticos, o Peralta se aposentaria no fim do mês e eu passaria a ocupar seu lugar.

Foi então que a vida de jornalista de Giuliard Borsandi foi para o lixo. Assim como irá meu diploma quando eu puder rebocar a parede.

No dia da aposentadoria de Peralta, Dr. Hernandes chamou todos para a reunião de despedida e anúncio do novo investigador, quando digo todos, é verdade, desde os anunciantes mais influentes do jornal até a tia do café, dona Rosa. Eu explodia de felicidade por já saber o que me esperava, Nelia, que escrevia para o caderno de cultura segurava minhas mãos úmidas de suor e me olhava com um sorriso apoiador no rosto.

Dr. Hernandes entra então na sala, sobe numa cadeira para dizer algumas palavras para Peralta e todos aplaudem e assoviam, outros choram pela falta que fará o velho e bom jornalista.

Peralta me ensinou muitas coisas nesses anos, eu lhe sou grato até hoje, apesar de achar que ele poderia ter me avisado da catástrofe. Talvez ele tenha tentado, seu rosto sempre sorridente, naquela hora era nulo, olhava-me e era nulo. Já Dr. Hernandes era carrancudo, sempre fora, mas desta vez era muito sorriso, o que me causou certa estranheza. Porém meu faro de jornalista só começou a delatar cheiro de podridão quando o maldito editor barrigudo e seu bigode nojento chamou Ricardo Albuquerque, um industrial e maior anunciante do jornal, ele vinha com seu terno de um milhão de dólares possivelmente, tinha a tiracolo seu filho Ricardinho, um estagiário bunda mole que não sabia a diferença entre matéria e artigo. Um ridículo baba-ovo filhinho de papai.

O velho barrigudo então anuncia:
 - Quero parabenizar o substituto do insubstituível Peralta...

Minhas mãos agora não suavam mais, derretiam. A ponto de Nelia largá-las para enxugar as suas na lateral da calça. Suspense.

 -... Uma salva de palmas para...

Eu já tinha dado um passo à frente quando ouvi o nome de minha desgraça.

 -... Nosso excelente jornalista, Ricardinho Albuquerque Júnior.

E meu estômago agora murchara a ponto de me dobrar de dor.
Todos aplaudindo, até Nelia, com decepção também, eram palmas sociáveis, mas ainda assim aplaudia.

 - Como assim, Ricardinho? Esse filho da puta não é jornalista nem de jornal de bairro. Que piada de mau gosto é essa?

Silêncio. Era o que fizeram naquele momento. Todos agora me olhavam e Nelia chutava minha canela com olhar taxativo para que eu mantivesse-me calado. Só que era muito para mim.
Houve um pigarro de alguém não muito longe de onde eu estava e aquela pose fajuta continuaria quando eu interrompi novamente.

 - Dr. Hernandes?! E aquele papo de que eu merecia essa oportunidade por minha competência? E etc.; etc.; etc.

Dr. Hernandes então, com seu bigode grisalho e sorriso amarelo devido ao cachimbo fedorento que fumava em sua sala disfarçou: - Acalme-se Giuliard, todos terão oportunidades...

Albuquerque já cochichava algo em seu ouvido quando Ricardinho com aquela cara cheia de espinhas nojentas de punheteiro comedor de puta pediu por um soco na cara. Pediu não, implorou. - Giu, se acalme. Faz parte do homem saber quando foi superado. Trabalhe isso em você.
Foi a gota d'água.

Resumindo: eu pulei em cima daquele viadinho de bosta e foram os três socos mais bem dados de toda a minha vida. Me lembro ainda dos seguranças me colocando para fora do prédio como um bandido e os gritos de Dr. Hernandes "Você nunca mais irá pisar numa redação, seu moleque! Nunca mais." E foi o que aconteceu.

Eu até tentei trabalhar em alguns jornais de bairro, mas assim que saia um artigo com meu nome eu era imediatamente chamado na sala do editor para me demitirem. Hoje eu tenho um escritório com meu nome na porta acima do cargo “investigador”, mas poderia ser "destruidor de matrimônios" ou "delator de cônjuges adúlteros".

Pratico a escrita com contos que nenhuma editora teve interesse em publicar e Nelia...
Nelia se casou com o jornalista investigativo do antigo jornal onde eu trabalhava. Agora chama-se Nelia Albuquerque.


Bento.

CONTINUA EM: GIULIARD BORSANDI (CÁPÍTULO II)

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A PRINCESINHA DE ISRAEL II

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Sabe? Eu tenho vivido todos esses dias, meses, sei lá.
Na verdade, eu tenho sobrevivido.
Em todo esse tempo não pense que eu deixei de pensar em você nem por um momento. Nenhum!
Eu te imaginei fazendo parte de cada coisa nova.
Incrível não é?
Toda vez que fui dormir e toda vez que tive a infelicidade de acordar.
E tem sido assim.
Pensei em você nas horas boas sim, mas pensei em você nas horas ruins também.
Nas horas boas era vontade de dividi-las com você, afinal nós divididos tantas coisas ruins.

Coisas minhas que eram ruins. E nas horas ruins eu pensava em você e sabia que sua presença amenizaria tudo aquilo.
Olhe eu precisando de você como sempre.

Vou te confessar que eu demorei para perceber que tinha te perdido, poxa! Foi difícil aceitar que estava perdendo a coisa mais importante da minha vida. Apesar de você nunca ter acreditado e acho que a essa altura jamais acreditara.
Sinceramente? Eu pensei em desistir. De tudo. Foi forte demais.
Dor demais.
Mas por ironia do destino foi você... Você quem me salvou. Pois mesmo longe eu queria pelo menos sentir você, mesmo que saudade. Já era alguma coisa.
E eu sofri.
E eu chorei.
E eu me maltratei assumindo toda a culpa. Eu me maltratei.
Eu mudei.
Eu queria me transformar naquilo que você queria que eu fosse, mesmo sabendo que você não voltaria. Nunca. Eu quis.
No fim, eu me transformei em você. Me transformei naquilo que eu amava, mas criticava.
No fundo, tentei te substituir colocando-me em seu lugar.
Claro que não deu certo. Foi quando tentei te substituir com outras. E eu sou a prova viva de que isso também não deu certo.

Aí eu tentei, tentei. Tentei até enjoar... E enjoei.

O seu antissocial eu abracei com unhas e dentes.
A sua cara amarrada eu maquiei em mim.
Suas “marcas” eu tentei imitar.
Suas frases tomei para mim.
E assim como camaleão, me vesti de você.
Não me julgue, precisava ter algo seu só para mim.
Ainda hoje você me toma em pensamentos através de um sorriso igual, um gesto igual, uma gíria igual.
Coisas como Leopoldo e tal.
Ninguém entenderia, talvez nem você.
Eu entendo como se tivesse nascido com isso.
É quase uma coisa.
É mais que uma coisa.
Ou menos.
É em vão.
Mas é meu.
Ué!
Posso?
Ah mas eu tentei.
Tentei de todas as formas preencher este vazio que deixou a sua distância tão mais plural.
Distância essa que, você se foi e até eu fui.
Me perdi de você e de mim.
Eu mesmo me abandonei. E me perdi.
Depois coloquei cartazes em postes e lanchonetes com aquelas fotos horríveis do meu rosto depressivo procurando-me e nada adiantou.
Mas se você se foi e eu também, sobrou quem?
Exatamente!

Demorei para decifrar esse novo ser.
Ser demente, sem semente, jamais vai florear.
É em sua essência um mato seco, que sem vida e qualquer sinal de luz, ou se quebra, ou queima.
Explode em fogo só para atazanar.
E eu, escrevo em transe.
Sabe-se Deus quem fará me embriagar.


Bento.

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

SÓ O QUE RETORNA AOS TEUS BRAÇOS SÃO AS LEMBRANÇAS

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Lembrei-me das juntas dos ossos tremendo como a bandeira que se levanta a se render, pois era isso que o corpo fazia a cada gesto seu.
Cada brisa de ar leve que faziam teus fios negros dos cabelos salpicarem em meu rosto levando o perfume até minhas narinas que até hoje levo comigo nos momentos mais impróprios.

A cada nome igual ao seu gritado ao acaso por alguém que nada conheces de nossa história.
A cada xícara de café vazia acomodada com cuidado na mesa para logo depois servir de cinzeiro que me lembrava o fim e a mudança de Destino e endereço.

A cada música que um dia foi compartilhada pelos nossos ouvidos, abraços e afetos.
A cada gesto ou palavra inconsequente que me leva a momentos que outrora faziam de ti vítima e o frio que era comemorado e recepcionado por teus sorrisos pelo simples fato de clarear ainda mais sua pele semelhante o efeito de água e gelo.

Não era dor, nem frio e nem dó.
Não era medo ou amor.
Não era saudade, nem aborrecimento.
Não era desejo e nem tédio.

Era sim a falta de qualquer sentimento pelo vazio de um pedaço importante do peito que agora jaz abaixo do símbolo da morte impregnado na pele sem qualquer suspeita aos olhos alheios de misericórdia.

E por fim, logo depois presenciar a própria sombra convidando a me deitar ao seu lado no chão frio e tornar-me apenas sombra do homem que fui um dia em outros carnavais e réveillons. Uma sombra em alto relevo assim mesmo sem rosto, sem riso.

Busque o ar.
Busque, busque o ar.

Bata os braços e as pernas e tente subir para a superfície.
Olhe para a praia, mas a praia não está mais lá, porém a água estará mais salgada do que nunca. Assim como a vida.

Busque encher os pulmões com qualquer coisa que seja se não de ar...
E foi assim meu sonho.
Sonho?
Tremia ao lembrar-me de ti.
Hoje me lembro de ti sempre que tremo.


Bento.

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

A PRINCESINHA DE ISRAEL

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Era uma vez no longínquo ano de dois mil e sete, no décimo nono dia do mês de outubro tomou posse do trono a Princesa Nélia.
Nélia, a Princesa de Israel, como era chamada, governava com mãos de ferro onde nunca, jamais poderia ser contrariada. Suas ordens, seus horários e seus caprichos deveriam ser realizados a todo custo. O não cumprimento de suas ordens levaria à pena de morte, exclusão e expulsão de seu reino e de sua vida.
Em seu castelo, Nélia sozinha, sofria com o tédio e contava com seu fiel Bobo da Corte para animá-la e trazer presentes.

O Bobo da Corte com seus talentos artísticos animava a princesinha com suas canções, suas histórias e poesia, todos seus talentos dedicados à princesa evidentemente.
Neste reinado o Bobo jamais poderia animar, fazer rir, ou cantar para qualquer outra pessoa de dentro, ou fora do reinado, podendo assim, desagradar Nélia e sofrer com sua ira.
Alguns anos depois, o Bobo cansado de tanto trabalho, responsabilidades para com a sua majestade, tantas canções e poesias dedicadas a ela, definhava-se em sua solidão, afinal, causava tanta alegria a princesa e jamais era reconhecido, nunca recebia um elogio por sua criatividade ou atenção, ao invés disso, era criticado e tratado como qualquer outro súdito ou escravo do reino.

Dedicando o pouco tempo que lhe restava, o Bobo refletia sobre o que deveria fazer. Ele também necessitava de um pouco de atenção e afeto, qualquer coisa que lhe fosse dedicada em seu nome para poder dizer que também era amado, mas o Bobo cometeu um grande erro, o Bobo apaixonou-se por sua princesa, não era amor de súdito, era amor de carne, amor de pele.
Tantos anos ouvindo-a, aconselhando-a, vendo-a chorar por solidão em seu trono, fez com que o Bobo tivesse vontade de pegá-la no colo, afagar seus cabelos e fugir dali com ela em seu cavalo para algum lugar que pudessem ser felizes para sempre, mas ele sabia que era impossível.

O Bobo então, com sua desilusão perdeu o seu melhor, perdeu aquilo que o tornava útil, sua alegria e sua capacidade de alegrar sua amada.
Sendo assim, a Princesa Nélia ao perceber que o Bobo já não lhe serviria para qualquer outra coisa decidiu expulsar de seu reino aquele que há tanto tempo lhe tratou como a única coisa importante. O Bobo depois da exclusão continuou a criar canções e poesias para sua amada, porém já não eram mais sobre alegria. Suas criações traduziam sua dor, solidão e falta do sorriso de sua amada.


Bento.

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

BOA VIAGEM, BOA VIAGEM

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Sou o peão na rua de terra a ser lançado e as crianças a julgar se não giro o necessário, mas alguém já parou para pensar que esse peão não quer sequer sair do bolso de seu dono? Ele quer continuar abraçado no aconchego da matriz.

Tudo bem, pense o que quiser, diga que o mundo é muito mais do que eu planejo, mas a ferida está aberta, sem remédio, sem meio seio.
Há mais inconsciência que verdade nisso tudo que eu faço e tem gente que me segue como se eu soubesse as respostas. Sou mais incompetente que a droga que me droga, pois não me leva onde eu quero, me leva onde eu tenho que estar.

Ouve, esta ouvindo essa voz? Ela diz para eu seguir o que diz meu coração, eu juro que quando achá-lo perguntarei para onde vou.
Enquanto isso eu sigo no mar sem o barco, sem o vento, se a vela, sem vontade.
Na parede esta toda minha voz que eu considero minha verdade, quem lê saberá, mas isso não publico é só meu, era de um outro alguém, mas esse alguém está muito ocupado conhecendo o que o mundo tem para oferecer.
Cantar? Está ouvindo essa voz? Essa era minha que dizia o que fazer, hoje só me traz tristeza não sei como obedecer, não sei como me achar, nem sei como a luz ainda insiste em iluminar se é na escuridão que eu lamento o meu pensar, e como eu penso.
Veja, está vendo esse mar? Não são as ondas nem a areia que me faz alegrar, mas sim as lembranças de quem um dia eu dividi toda essa solidão, que quase não existia, pois ela cumpriu sua missão.

Não elevou até o céu, ela era o próprio a me chamar eu contava os segundos para poder embarcar.
Veja, esta ouvindo o telefone? Eu sei, está tocando, porém para que vou me atrever se a voz que quero ouvir não virá para eu escutar?
Sim, eu sou a roda que um dia Deus inventou, para mostrar com quantos erros pode se perder um amor, mas não se iluda, não sei mais do que você, eu também preciso de um tempo para poder perder, o meu tempo.
Aí de tanto perceber que eu não sou fácil de domar, nem sou fácil de seguir, o meu Destino Deus deixou a cargo de algum ser clandestino, o Destino tomou conta e fez o que bem quis, fez de mim o paradeiro da busca sem fim.
De um alguém que me conhece, sem ter medo de viver, mas com um inconsciente que deseja o meu corpo para alguém sem cicatriz que me deixa sem um nome, sem sorriso, sem poder, mas é mais do que isso, sem um peito para sentir.

Viu como um beijo é tão mais que um simples sim? É mais do que desejo, é um texto sem saber o seu fim.
Como um livro sem a capa perde todo o seu poder, faz de conta que é livro, mas não passa de um papel que junto com os outros se mistura em um sebo. E se vende por qualquer trocado. Ou se troca por um artigo na importância de um trabalho.
Viu como pessoas se parecem com os livros? Só mais um na estante, que se faz de importante dependendo da ocasião, mas não se preocupe eu sou mais que solidão. Um tanto de desejo, suicida, escravidão.
Está sentindo esse meu cheiro de quem deseja o perdão? Faz de conta que é só um mau cheiro a te incomodar e se afaste antes que o mesmo domine o ar a respirar.
Aquele beijo insiste em me possuir sem saber se me faz bem ou me faz mal, por mais que eu suplico para não lembrar, eu fico por aqui então. Sou eu e a esquiva de enganar, eu e a multidão.
O resto que outro dia era quem eu pensava me da valor, mas esses não sabiam da minha dependência do amor. Nem eu.

Boa viagem, boa viagem.

Bento.

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