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segunda-feira, 24 de junho de 2019

PRIMEIRO PASSO




É preciso reaprender a conviver consigo mesmo.

Só.

Como era antes.
Não que já não o fosse, mas ter alguém que depende de você para tudo como um filho não é bem ter companhia. Não é a companhia que se espera quando se é um casal.

Só.

É necessário reaprender a conviver consigo mesmo.
Todos os demônios e traumas e a culpa.
Inevitável.
É inevitável que em alguns momentos você se culpe por tudo. Será que o errado é você? Será que poderia ter feito mais? Será que poderia ter sido mais paciente? Será que poderia ter dado mais sangue mesmo depois de ver seu corpo cadavérico em frente o espelho? De lábios roxos até as costelas saltando pela pele.

Será?

Será que não exigiu demais do outro?
Será que o problema não está em você exigir mais que as pessoas podem lhe oferecer?
Será que o erro está em você ser romântico demais e talvez passou tanto tempo com a cara enfiada em romances de autores infelizes idealizadores de dramalhões impossíveis de acontecer na vida real? Onde empregos, boletos e peidos e bafos e porres nunca são mencionados.

O quão difícil é dormir e acordar debaixo do mesmo teto que vocês planejaram o futuro que jamais vai acontecer? E as paredes que olham e te julgam? Será que você não se precipitou? Você tem um histórico de ansioso e que mete os pés pelas mãos.
Você nunca foi o tipo que conversa. Pelo menos não sóbrio. Arrancar-lhe sentimento sempre foi sofrível exceto depois de uma bateria de doses de whisky. É por isso que nunca consegue escrever uma linha sincera sem despertar o fígado. Seu corpo é uma máquina de absorver álcool e autoflagelo.
Você consegue ser o cara que dorme na sarjeta de bêbado, porém não atrasa um boleto.

Equilíbrio?

Logo você?

Difícil imaginar que alguém como você tenha esse tipo de equilíbrio, contudo para continuar fazendo o que mais gosta precisa disso. É como uma missão. Desaponte todos, inclusive você, mas mantenha um maço de notas para a garrafa e um lugar para voltar quando os sentidos estiverem embaralhados ao ponto de não pensar mais no que está fazendo.

Só?

Você foi o primeiro a chegar na sua vida e provavelmente será o último a sair. Tão só quanto chegou e só o que lhe resta são as lembranças, boas e ruins.
Você que já se meteu em cada enrascada e teve anos de marasmo e estava disposto a tomar isso como regra. Já tinha desistido de ser o grande cavaleiro solitário e destemido. Acreditou que desta vez iria entregar tudo que tinha de melhor e que seria a última vez que teria que juntar seus cacos. No fim viu que a solidão apesar de uma companhia indesejável ela ainda permanecia ali. Quando decidiu tornar-se o porto de alguém reparou estar à deriva. Tão só como sempre foi. Logo, solitário de um jeito ou de outro, que pelo menos tenha liberdade.


Bento

UM BIFE NA SACOLA JUNTO DO WHISKY ep3




É terça feira e ouvi dizer que é outono. Cago para essas coisas pois as pessoas fedem nas quatro estações do ano. Se duvida pegue um transporte coletivo todos os dias e verá. Outro dia peguei um ônibus com um cara que exalava um fedor azedo que ardia os olhos e as narinas. Mas não é só por isso que digo, as pessoas, num todo fedem. Todas elas. São animais em busca de presas fáceis. Eu já fui uma delas durante dois anos sendo mastigado e tendo meu sangue sugado aos poucos, de canudinho, por alguém que dizia ser a pica das galáxias e tão fiel quanto um fígado. Engano meu é claro. Bastou que o fornecimento de sangue acabasse para este ser humano, se é que podemos chamar assim, mostrasse sua verdadeira identidade. Suas verdadeiras intenções. Bom, logo após troquei de cama para tirar aquele fedor, como quem abrigou um leproso. As pessoas fedem à ponto de, com o tempo, eu sentir seu cheiro de chorume de longe. Desenvolvi uma técnica e sinto o cheiro de podridão no instante que elas entram em meu raio de ação. Não é à toa que tenho tantos corpos em minha conta. Ninguém começa a fazer o que faço do nada. Não se acorda um dia e resolve sair acabando com a escória do mundo. Só se você for um psicopata, mas não eu. Eu só estou livrando o mundo deste odor podre que não vale a bosta que caga.
Interrompo o devaneio porque já é tarde e preciso terminar um relatório. Lembro que não como uma refeição decente desde sábado de tarde, mas nesse meio tempo já matei duas garrafas de whisky. Saindo daqui compro mais uma já que as minhas acabaram segunda de manhã.

Termino meu trabalho e resolvo que não posso voltar para casa de estômago vazio. Mas cheiro de comida, fritura, comidas habituais me embrulham o estômago. Por isso quase não como. Meu organismo pede algo saboroso. De dar água na boca, salivar até ter de engolir.
Paro no bar com a garrafa que comprei. Deixo no balcão e peço uma boa dose de whisky. Gostaria muito de comer algo, mas no bar, aqueles salgados fritos de manhã me encaram com cara de que já foram servidos às moscas durante o dia inteiro. Não como restos de insetos. Meu estômago ronca, mas não dou ouvidos a ele. Sou mais amigo do fígado como já disse. O balconista me serve com cara de bunda, talvez preferisse estar em outro lugar. Eu também, mas nem por isso destrato as pessoas. Só não gosto de sorrir muito. Em dois goles mato o whisky e parto. Fome, muita fome, mas o cigarro ajuda a amenizar.

Vi na TV essa história da carne e me embrulha o estômago, já não sou fã de comer, porém, carnívoro incurável que sou, sobra o quê? Nada como um belo bife para animar o dia. Estão querendo tirar até isso de nós.
Já é tarde. Poucas pessoas na rua. Preciso inventar algo para comer antes que desmaie por aí e me confundam com algum mendigo. Qual sabor deve ter mendigos? Penso. Apesar que entre comer mendigos e carne com papelão, fico com fome. Estou na rua de casa. É terça e uma garota desce a rua de salto, mas com pressa. Talvez assustada com minha presença àquela hora da noite. Ela se agarra à bolsa como se fosse seu bem mais precioso, muito por achar que sou um ladrão, provavelmente. Nem meu terno e minha barba feita ajudam neste momento. Penso que ser mulher complica tudo. É ameaça vindo de todos os lugares. Sempre odiei aqueles caras que acediam mulheres em vagão de metrô, em bares e etc. Ela usa uma calça social e um coque já bagunçado. Vejo certa dificuldade em andar tão depressa pela calçada acidentada. Imagino ela caindo e um sorriso vem no canto da minha boca. Seria engraçado para terminar um dia tão estressante. Olho para trás e ninguém. Ao lado, fábrica e comércio. À frente uma caçamba e uma praça mal iluminada. Meu estômago ronca e o pescoço branco da garota andando toda torta à passos rápidos pisca toda vez que ela passa abaixo de um dos poucos postes que tem na rua. Tenho fome e lembro da matéria que vi no jornal. “Mulher morta encontrada sem parte do seio”. Penso, por que não?

Uma grande pedra para amassar o crânio. Um pedaço de vidro para arrancar um pedaço do seio direito. Tudo cedido pela caçamba que provavelmente foi colocada por Deus em meu caminho. Com a fome que estou, poderia comer crua mesmo. É de lamber os lábios. Pequenas tetas sangrentas em minha mão e só por isso não julgo o assassino que mordeu o seio da garota morta. Ao invés disso coloco o bife na sacola junto do whisky e caminho para casa. Finalmente uma refeição depois de dias.


Bento.

Imagem de Apollonia Saintclair


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PEIDO É TÃO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL COMO NOSSOS PENSAMENTOS MAIS OBSCUROS

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Quando eu era jovem sempre fiquei intrigado quando ouvia os professores falarem sobre pensadores. Nas salas de aulas cheias de moleques encrenqueiros como eu, e eu era sempre o pior - segundo estes mesmos professores - por que eu entendia que o cara ganhava um salário só para pensar. E lá ficava eu pensando com meus botões, imaginando um cara que colocava seu despertador programado para acordar às seis da manhã, tomava seu banho, ligava a TV no jornal matinal enquanto vestia-se e tomava o café da manhã. Colocava comida para os cachorros, para o gato e ao invés de sair de casa rumo ao emprego como fazia minha mãe e meus irmãos de manhã enquanto eu me arrumava para ir para a escola o pensador simplesmente sentava numa varanda com sua xicara de café e com seu dedo indicador pressionando a têmpora ficava lá, pensando. Soprava a fumaça do café fumegante pensando e anotando as coisas que entendia ser importantes. Então de repente, nota-se a hora do almoço e pronto! Para de pensar um pouco para alimentar-se e uma hora depois voltar ao trabalho. Sempre imaginei isso como a coisa mais chata do mundo, ou pelo menos UMA das mais chatas. Perguntava-me eu, quem em sã consciência, escolheria ser um pensador? Depois de velho fui perceber que trabalhar num escritório enviando relatórios, atendendo telefones, tendo que pegar ônibus e metrô lotados de gente que fazem coisas bem parecidas com as minhas é bem pior que a vida que eu imaginava que o pensador levava.

Mais velho ainda comecei a invejar tanto a vida dos pensadores que passei a desejar uma vida igual. Afinal, trabalhar em casa, para gente como eu que suava frio quando ouvia notícias sobre greve do metrô seria maravilhoso.
No fim descobri que pensador pode ser qualquer um de nós e não necessariamente ganhamos algo para isso. Mais ou menos como a música, nem sempre os melhores são reconhecidos. Com isso cheguei à conclusão que o problema não são os pensadores ou os músicos, ruim mesmo é envelhecer. Tantas ilusões.

Por esses dias peguei uma gripe e me entupi de remédios. Todos aqueles conhecidos que prometem curar a gripe e até um ou outro que consegui clandestinamente sem receita para curar-me. Adiantou momentaneamente, pois cinco dias depois cai de gripe de novo.

Tenho um grande problema com medicamentos e contra eles, pois enquanto os consumo não posso beber e isso é um problema enorme. Está certo que vez ou outra misturei vodca com xarope para curar a gripe e fiquei numa loucura tamanha, mas isso é uma história para contar em outro momento. Por isso só me medico em último caso, pois acredito piamente que não há doença que o álcool não possa curar, com exceção da doença da idiotice, essa... Nem Deus poderia. Enfim, estava com uma gripe longínqua e devido a conselhos familiares e de minha namorada resolvi tomar antigripal e antibiótico. Veja minha situação, sou corintiano desde que nasci, qualquer coisa que envolva a palavra anti já me causa descrença instantânea. Bom, resumindo; claro que não deu certo. Acabou que eu fiquei no remédio, sem beber uma gota de álcool e não melhorei. Mas... E friso o "mas" por que realmente deve-se chamar atenção ao fato. Então, é justo que pare, respire profundamente e se diga, lá do âmago; MAS... bastou uma boa noite de bebedeira com destilado e escrita para a coriza recolher-se ao nariz, a garganta dar a pausa à tosse e tudo mais ir pra casa do caralho. Tem gente que não acredita. Acha exagero. Acha que é mentira de bêbado, porém afirmo que nunca tive uma doença que o álcool não curasse.

Pensando nisso, enquanto doente e tomando minha cagibrina, lembrei que a muito não parava para beber sem preocupação. Digo, de pausar qualquer pensamento mesmo. Sem pensar em contas, em relações, em trabalho. Apenas sentar, beber e sair escrevendo. Reparar em cada aranha que faz moradia nos cantos do quarto. Em cada mancha de umidade. No barulho do motor da geladeira da vizinha. No salto alto da nora da outra vizinha quando ainda vira a esquina, que chega de madrugada voltando da balada, e logo depois pega o molho de chaves na bolsa para abrir o portão. Os carros que passam e raspam o assoalho na lombada. E os gatos correndo brincando no telhado. E no momento que escrevo isso lembro de quando adolescente, quando trabalhava de office-boy sonhava em estar em casa, ouvindo Frank Sinatra, com a chuva de dez dilúvios batendo na janela, frio de matar, e eu dentro de casa tomando uma boa xícara de café preto para esquentar o corpo vestido de calça de moletom e seres me pagando só para escrever. Vê que desde muito jovem eu era velho e solitário? Nunca fiz questão de companhia. Nunca me senti sozinho comigo mesmo. Sempre tive algo para reclamar, é claro, afinal escreveria sobre o quê? Mas sempre fiz questão de manter-me sozinho pois minha companhia sempre me foi suficiente. Evidente que vez ou outra você precisa da companhia de outras pessoas para que não passe a vida dependendo de uma alegria masturbatória, uma mão amiga vez ou outra é indispensável. Porém a solidão assusta a maioria das pessoas. Hoje em dia solidão demais é confundida com depressão, não sei se por influência da indústria farmacêutica, da mídia ou dos analistas, mas acho que subestimamos uma boa solidão, estar só, falando apenas consigo mesmo, e desvendando nossos próprios segredos. Tem gente que se assusta com seus próprios pensamentos e por isso tenta sempre estar rodeado de pessoas. Se o sujeito não consegue se abrir com ele mesmo, algo está errado. Quer um exemplo? Somos tão mais tolerantes com nosso peido que com os dos outros, claro. Peidamos debaixo das cobertas e cobrimos a cabeça. Cheiramos nossos gases e damos risada. Já qualquer flatulência alheia nós achamos o fim do mundo, pois o peido é tão pessoal e intransferível como nossos pensamentos mais obscuros, mas ainda assim dividimos com poucos que conquistam nossa confiança.

Digo mais, passei meses segurando peido no começo de meu namoro. Tanto que por várias vezes tive que sair do quarto só para peidar e era um alívio do tamanho do mundo. Hoje, ainda bem, eu e minha namorada dividimos nossos peidos como dividimos uma mesa num restaurante, ou uma pizza.

Sendo assim, acredito piamente que a solidão nos ensina humildade. É preciso reconhecer nossos defeitos para lidar com o defeito dos outros, qualquer coisa diferente disso se transforma em hipocrisia. Então depois disso tudo, digo para aqueles que ainda permanecem descrentes com a solidão, friso que a pior solidão não é aquela que você sente quando está só, num quarto escuro ouvindo blues e tomando algo forte. Ou quando se está numa cabana no meio do mato tomando café e relendo um livro clássico. Não é a solidão de término de namoro onde se fica em casa comendo chocolate e assistindo comédia romântica, nem a solidão de uma prisão tão pequena que mal consegue ficar ereto. Não, pois esse tipo de solidão tem também a ausência de esperança. Você não espera nada dela. É tão somente você e um grande vazio. Assim ficamos alheios a tudo, nada pode nos atingir. Somos invencíveis, inabaláveis, imortais e inatingíveis.
Digo que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos no meio de uma multidão ou num relacionamento de via única. Quando percebemos que o próximo não tem tanto interesse em nós como temos deles. Afinal, nestes casos, a solidão vem junto da frustração de esperar e esperar que o outro indivíduo sinta prazer de sua companhia e se alegre pelo simples fato de te ver feliz. Essa solidão, sequer um mar de whisky poderá dar jeito.



Bento.

sábado, 12 de março de 2016

COMO MOSQUITOS ATRAÍDOS PELA LUZ PARA SEREM MORTOS

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Não se preocupe em deixar frutos nesta vida e ser gentil com as pessoas, pois no fim todos nós terminaremos sozinhos. Não há um ser humano sequer neste mundo que não colocará seus sentimentos e bem estar à frente de todas as outras pessoas.
Lembro-me de minha casa, meses atrás, havia tantas latas espalhadas quanto um ferro velho. Era o sonho de todo catador de latinhas, passar alguns minutos ali recolhendo alumínio até fazer um bom dinheiro, como aqueles programas de televisão que tinha minutos para escolher os prêmios que queria levar.
Eu poderia recolher e vender tudo aquilo, mas tinha a preguiças dos gatos, só funcionava de noite. E recolher latas e carregar sacos pretos de lixo até o ferro velho não estava, nem de longe, em minha lista de prazeres.

Eu já fui mais de festas. Houve um tempo que chegara a fazer duas festas por semana em casa. Regadas a cervejas, carnes sangrentas e música alta a ponto de receber visitas frequentes de policiais em minha porta informando sobre o descontentamento dos vizinhos com nossa festa de dar inveja a Baco. Hoje faço festas mais particulares, quando faço, com minha garota e é só. Muito suor e destilados. Cervejas e sexo. Mais que isso eu estaria mentindo. A diferença entre minhas festas antigas e as atuais não é só o possível sexo, pois isso nunca foi problema. É que hoje em dia é possível fazer festa sem dizer uma palavra sequer. Quando muito um "passe a perna para cá" basta. Entenda, não é sempre (quase nunca) que estou com vontade de conversar e falar sobre coisas inúteis.

Veja um exemplo; outro dia estávamos numa festa de aniversário com algumas pessoas que eu não via há tempos. Chegamos e apresentei a garota aos antigos amigos e logo sentamos para dar início aquele velho e chato papo bosta "olá, quanto tempo, o que tem feito?". Levei um pacote de cerveja como é de bom tom em toda festa onde se é convidado, afinal, é o único líquido que bebo e somente com o álcool sou capaz de sair de casa e socializar decentemente com pessoas e meu pacote continha todo o álcool que existia na festa, assim, dei graças aos céus por minha boa educação. Caso contrário teria saído dali no mesmo instante que cheguei.
Digo isso, pois minhas cervejas eram as únicas que existia no lugar e não havia nada mais alcoólico a não ser o usado para acender a churrasqueira. Não que fosse novidade pra mim, afinal eu já fiz drinks com cada coisa... O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas estão preocupadas com saúde e comidas saudáveis e exercícios físicos e para todo lugar que olho vejo seres com corpos esculturais e roupas tão minúsculas quanto a velocidade de raciocínio. Parece clichê, mas normalmente o ser mais forte não é o mais esperto da sala. Normalmente. O que não quer dizer que isso não tenha suas vantagens.

Minha garota mesmo, vez ou outra lhe pego revirando os olhos por um ou dois caras que aparecem na TV com as tetas tão rijas que poderia arrastar uma charrete com elas. Mulheres têm destas coisas, às vezes. Ela acha que não percebo, mas estou sempre atento. Basta um cara com aqueles músculos aparentes para lhe prender a atenção. Eu já sou exatamente o oposto. Apesar de ter ganhado um pouco de peso, ainda me mantenho magro como salário mínimo e tão sedentário quanto um bicho preguiça. Só me mexo quando extremamente necessário e sempre que posso evitar, faço. Caminho até o mercado para buscar cervejas e nada além do que posso carregar, pois acredito piamente que todo homem só precisa ter a força necessária para carregar exatamente aquilo que vai beber e comer, e é tão somente por isso que não sou adepto de gordas. Além disso, eu ainda faço piadas, veja quanta coisa boa. Algumas garotas preferem homens carismáticos aos fortes, afinal, foi-se o tempo que nós, machos, precisávamos de força para sobreviver. Mas algo me preocupa. Não é que me faça perder o sono, mas às vezes me pego pensando. É muita força para animais irracionais andando por aí sem nenhuma cautela. Em algum momento pode dar merda, bem como homossexuais agredidos nas esquinas e etc. É pouco raciocínio e muitos músculos andando por aí sem qualquer vigilância e não que eu queira ser o mensageiro do Apocalipse, mas não precisa ser muito esperto para prever que em algum momento, numa sociedade escrota que vivemos hoje, com uma forte tendência ao fanatismo, religioso, político entre outros, em meio a uma cultura empobrecida de ideias e ideais, onde os artistas têm tanta massa cinzenta quanto seus seguidores amebas, irá acontecer uma barbárie sem precedentes.
Nessa mesma festa que eu narrei, todos os garotos que cresceram comigo, todos davam o dobro de mim, contudo não leram dez por cento dos livros que eu li. Nem vou citar sobre porres, pois eu ganharia de mil a zero. Não sei se estão conseguindo me acompanhar, porém vou simplificar. Talvez tenhamos daqui a 50 anos, jovens senhores vivendo até seus 100 anos, saudáveis e acéfalos, que criarão crianças acéfalas e por fim, sumiremos da face da Terra como os animais que um dia, dominaram o mundo por serem racionais. Em plena época onde a informação tem sido de maior acesso, as pessoas simplesmente não conseguem acompanhar sua velocidade ou priorizar seu raro tempo naquilo que realmente tenha importância.

Neste mês, fará seis anos que eu escrevo sem parar. Nestes anos, eu li e ouvi de tudo que é tipo que se possa imaginar, desde o início eu falo sobre isso, sobre este tópico e de lá para cá só piorou e não creio que vá melhorar. É uma data importante pra mim. Numa conta rápida, supondo que eu escrevesse apenas um texto por mês, o que é pouco perto do que escrevi, teria eu escrito 72 textos neste período. Que é mais que todas as matérias de jornal que esses seres musculosos leram nem sua vida medíocre. Pode apostar. Mas hoje, tenho mais de 500 textos postados neste blog e não que isso me faça melhor que eles, claro que não. Supondo que eu bebesse uma caixa de cerveja por semana nestes seis anos e uma garrafa de destilado por mês, chutando baixo, eu teria absorvido 72 garrafas, e 288 caixas de cerveja, sendo cada caixa com 12 latas, eu teria bebido 3.456 latas de cerveja e 72mil mililitros de destilado dentre eles whisky, vodca, conhaque, cachaça, tequila e derivados. Fatalmente isso não me fará viver até os 100 anos. Contudo, talvez me faça ser lembrado, mesmo que seja um exemplo a não ser seguido, de como viver a vida. Só isso já basta, para não querer fazer parte deste exército de testosterona que andam sem rumo sempre a caminho da multidão. Bem como mosquitos atraídos pela luz para tão logo, serem mortos.



Bento.

domingo, 10 de janeiro de 2016

AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO

Imagem de Apollonia Saintclair

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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.

Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal. Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água, era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada. Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso. Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já não havia nada para por pra fora.

Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar. Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo, estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios, enfim. Acho que me fiz entender.

O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não agora.

Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.

- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.

Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me acordando para ir trabalhar de novo.

Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso, infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual. Sempre. Igual.



Bento.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

COM ESSA GAROTA NUA ADORMECIDA EM MINHA CAMA ENQUANTO EU BEBO MEU WHISKY

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Na maior parte do tempo observo o quão deprimente as coisas corriqueiras podem ser. Os elogios sem motivo, as amenidades, o convívio com as outras pessoas. Vizinhos, colegas de trabalho, família e etc. É tudo um grande teatro mal ensaiado de péssimos atores e é só isso. Relações de uma fragilidade como ossos de galinha. Todos mantendo a pose da coxa de galinha assada até que se quebra e pronto. Viram inimigos. Esses são nossos relacionamentos mais comuns. Não quero que pensem que sou grande coisa porque não sou. Não sou, pois não consigo fingir. Não sei acordar de manhã comemorando mais um dia de vida medíocre, esperando que as coisas melhorem e desejando paz na Terra. Invejo essas pessoas, de verdade. Não acho isso uma coisa boa, de forma nenhuma, mas vamos combinar que a ignorância traz sim felicidade. Não tanto quanto o dinheiro, mas quem não tem cão caça com gato. Digo isso para deixar claro que não sou grande coisa. Não vou me fazer de vítima, porém sinto sinceramente que não passo de um amontoado de palavras que já foram boas e nada mais. Além, claro, de ser um beberrão convicto, que precisa de uma boa dose de algo alcoólico e forte para poder levantar da cama e enfrentar o dia. Um sedentário bosta que evita fazer qualquer coisa esperando que a inspiração venha no intuito de escrever qualquer bobagem que me faça sentir algum prazer por respirar.

Houve um tempo que eu fui a maior promessa da literatura de minha geração. Hoje não passo de um ex-futuro-escritor. Tento escrever qualquer coisa e não saio da primeira linha, e quando faço acho tudo uma porcaria. Talvez, de tanto escrever fracassos tornei-me minha musa. Dou voltas e não saio do lugar. Cinco anos escrevendo, até que fui longe. Mais longe que esperavam, já eu esperava mais. Sou um escritor de livro nenhum. Tenho um romance inacabado, outro que nem comecei a escrever e outro livro de contos que nunca concluo. Como tudo na vida não concluo porra nenhuma. Dou voltas no mesmo lugar como um peão de madeira de quando era criança. Um fracassado. Hoje não sou metade do filósofo que já fui e em minha melhor fase não fui um décimo do poeta que poderia ser. Talvez por preguiça, omissão, ou por perder tempo transando com todas as garotas que cruzaram meu caminho. Preciso comprar um carro, um computador novo, e uma televisão nova... E a maior emoção que tenho ultimamente é acordar de pau duro devido a bexiga pressionar a próstata.

Vejo as pessoas estudando cada dia mais e me pergunto; para quê? Não estou exigindo resposta, eu já as tenho. Cada dia mais e mais informação é despejada por todos os veículos de comunicação e hoje todos são comunicadores empenhados e continuo sem entender. Na prática, não se usa. Os jovens chegarão somente ao ápice de sua ignorância. Os velhos regridem para acompanhar os jovens na sua imbecilidade, pois é mais fácil render-se a ela que superá-la.

Então, estou finalmente de férias, e sendo assim, tenho por vinte dias a vida que gostaria de ter até o fim de meus dias. Não faltam cervejas e cigarros, todos devidamente organizados ao alcance das mãos e para que não falte numa madrugada qualquer. Gosto tanto de cervejas que poderia economizar um bom dinheiro vendendo as latas como os carroceiros fazem, mas sou orgulhoso demais para pensar nisso, e trabalho demais para ter de economizar com latinhas recicladas. Pensei nisso outro dia e por capricho comprei garrafas. Nesses dias mudei a marca da cerveja. Mudei, pois é bom mudar em alguns momentos. Há muita resistência na mudança em qualquer pessoa. Apesar de ouvirmos por aí que as pessoas odeiam rotina, toda mudança assusta como o uivo do vento na janela numa noite solitária.
Por falar em mudanças, passei meus 30 dias de carma anual sem maiores problemas. Terminei os últimos cinco numa viagem confortável e aconchegante. Estava a garota do Bourbon e eu num quarto antigo sem televisão, com moveis barulhentos e digo que poucas coisas são tão belas quanto ver uma garota de lingerie passeando pelo cômodo fazendo suas coisas de garotas. Sequer a imagem do mar em seu vai-e-vem de ondas e seu ronco contínuo é tão belo quanto ver uma garota em sua rotina diária de cremes e esmaltes e elásticos de cabelo e camiseta surrada passeando em frente aos meus olhos ajeitando a calcinha, penteando os cílios, e essas coisas de garotas. Eu poderia ter viajado, comprado minhas cervejas, fumado meus cigarros e sequer ter colocado meus pés na areia e sentido a brisa fria do mar e o sol escaldante queimando minha pele, pois poucas coisas são tão belas quanto acompanhar o vai-e-vem da garota do Bourbon só de lingerie, com suas dobras, suas curvas, indo para lá e para cá, dobrando coisas, arrumando outras coisas em seus lugares como quem rege uma orquestra, como dona do mundo e do tempo. Passaria horas bebendo e fumando e vendo o desfile desta garota fazendo exatamente nada, apenas exalando sua feminilidade e destilando seu perfume de cremes, desodorantes e perfumes e mais cremes e é tão delicioso que eu poderia comê-la, literalmente, comê-la. Mordê-la e mastiga-la e engoli-la. Fatia-la e engoli-la, tamanha delicadeza de seus passos, seus dedos ao tocar o chão gelado, quase como um gato, quase sem tocar o chão. A rotina de vê-la ali passando de lá pra cá sabe-se lá fazendo o que preenchendo o ambiente dela. Só dela. Todo o ambiente, todo o quarto, era só ela. Eu não passava de mais um móvel usado e barulhento. A diferença é que eu fumava, arrotava, peidava, bebia e às vezes transava. Digo às vezes, pois percebi que a idade chega pra todo mundo e ter de acompanhar a libido de uma garota de 21 anos não é tão mais fácil na minha idade, mas eu ainda não fico devendo muita coisa.

Contudo, eu pensava assim até brigarmos. Afinal, para me ver brigando com alguém basta deixar-me num quarto com qualquer ser humano durante uma semana e sim, eu, inevitavelmente acharei motivos para brigar com esta pessoa. Amigo ou inimigo. Não importa. Qualquer pessoa que fique tanto tempo próximo de mim me causará problema. Bem, briguei. Arrumei motivos para discutir e assim fiz. Caso contrário não seria eu. Depois que fiz passamos a noite sem nos falar e dormimos sem nos tocar. Até o dia seguinte, ela amolecer meu coração com o cheiro de café fresco, pois mesmo brava ainda assim levantou-se mais cedo para preparar o café preto, só pra mim, por saber que meu humor é muito pior sem o café preto de manhã. Uma santa esta garota. Pois bem. Mesmo um velho ranzinza como eu não poderia ficar imune a este carinho. Mesmo assim, me fiz de difícil na primeira hora após fumar o primeiro cigarro, após levantar-me, tomar meu banho matinal, e ainda assim mantinha-me de cara fechada, que era para ver que eu ainda estava bravo, só que não estava. Eu já tinha sido conquistado pelo café. Mas homem tem destas coisas. De marcar território, como cachorro de rua eu estava marcando o território. No sentido figurado eu erguia minha perna para mijar na dela. Como somos pobres de espírito, nós homens.

Preparávamos para irmos à praia quando ela consciente de suas ações ou não, já indecentemente penetrada naquele biquíni, pediu sabedora ou não, para que eu passasse protetor nas suas costas. A partir daí, velho, ranzinza, macho alfa, tornei-me escravo de minha libido e fizemos o melhor sexo de conciliação da história. Com tapas e unhadas a ponto de descontarmos toda a raiva adquirida na noite anterior. E digo; o melhor sexo de conciliação da história, de todos os tempos. Afinal, algumas coisas, feitas com raiva, nem sempre causam arrependimento.


Agora estou aqui. Escrevendo, nem tão fracassado assim. Com essa jovem garota nua adormecida em minha cama, enquanto eu bebo meu whisky, fumo meu cigarro e escrevo escondido no banheiro para não acorda-la.


Bento.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

CAFÉ ESTOCOLMO - OUVIDOS DE ALGUÉM TÃO MAIS FODIDO QUE VOCÊ

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Então por esses dias, de um frio de encolher o pinto que fica difícil até de mijar, não saía de casa sem um bom Café Estocolmo. Se não sabem o que é um Café Estocolmo vou dizer; é quase um Café Irlandês - café e whisky-, mas como não tinha whisky misturei com Dreher mesmo. Aí me perguntam; mas por que café Estocolmo? Não sei, mas se inventei eu coloco o nome que quiser. Dúvida; posso fazer Café Estocolmo com qualquer outro conhaque barato? Claro que não. Estocolmo é só com Dreher, invente outro nome para o seu drink.

Mas como tudo que é bom acaba, o Dreher também acabou e tive que voltar para o café tradicional. O tempo também melhorou e não tive maiores problemas com o frio. Então chegou o final de semana e uma garota me presenteou com uma garrafa de Jack Daniel's que solucionou todos os meus problemas em relação a cafés. Cheguei à conclusão que uma garrafa de Jack me faz mais feliz que muita coisa nesta vida. Claro, é possível comprar uma garrafa a qualquer momento, mas ganhar... Bom, ganhar é outra coisa. Me dar um Jack Daniel's é como dar um buquê de rosas para uma garota, me ganha facilmente. Não sei se a garota sabia disso ou não, de qualquer forma parabéns a ela. Já estamos juntos há algum tempo e mesmo sem o Jack eu poderia citar alguns fatos aqui para justificar o tempo que estamos juntos, ela já tinha me ganhado pelas noites de sábado que dividimos a cama fumando e bebendo e transando, mas o Jack veio para acabar com qualquer suspeita.

Falando nisso, eu tenho um sério problema com cerveja. Não, meu problema não tem nada a ver com gastar todo meu salário no bar, muito menos as noites que dormi na rua, me meter em brigas de bar que não conseguiria dar conta, nem com as garotas que deixei de transar porque estava tão bêbado que meu pau mal conseguia levantar. Também não tem nada a ver com vício, pois eu posso parar de beber cerveja a hora que eu quiser, posso ficar dias sem beber cerveja, desde que tenha whisky ou qualquer coisa alcoólica para substituir. Nem tem nada a ver com religião e essa baboseira toda de céu e inferno. Meu problema com cerveja deve-se a minha bexiga. Depois de um tempo bebendo eu começo urinar desesperadamente. Mal saio do banheiro e já quero mijar de novo. É difícil manter uma conversa civilizada, com uma garota no bar, quando você quer mijar de cinco em cinco minutos. E quanto mais eu seguro pior é a sensação. Dói nos olhos, lacrimejando eles acusam meu desespero. Começo a transpirar e é um suor frio. Então tenho que beber em lugares onde existe um banheiro por perto, ou pelo menos uma esquina qualquer onde eu possa me aliviar sem pressão. Então você pensa; porra nenhuma de problema! Problema tem a África, o Oriente Médio, a economia do país. E eu respondo; só lido com os problemas que eu posso resolver.

Na verdade, eu só lido com problemas que me interessam. Sim, me chamem de egoísta se quiserem. Mal posso esperar por isso. A verdade é que pouco me interessa qualquer coisa que não tenha a ver com álcool, sexo e dinheiro, afinal, o que é mais importante que isso?

Outro dia estava falando com uma amiga. Ela dizia que estava em crise em seu namoro. Jurava ela com a certeza que as mulheres têm, e só as mulheres têm, que o cara iria terminar o namoro e que quando isso acontecesse ela iria me fazer uma visita. Eu respondi que seria bem difícil isso acontecer pelo mesmo motivo que citei logo acima; ganhei um Jack, estava transando com a mesma garota já fazia algum tempo e que eu não estava disponível. Não, se pensam que eu estava dando uma de orgulhoso, eu não estava, afinal transa é transa. Ela, para não ficar por baixo disse que só iria lá em casa para conversar, contudo, nunca houve uma vez que ela tenha ido em casa só para conversar. Todas às vezes, ou transou comigo ou com qualquer outro que estivesse de visita. Desta vez não seria diferente, certeza, senão pra mim para o meu cachorro, mas vai que meu cachorro não estivesse com vontade, aí acabaria sobrando pra mim e como eu já disse, não estaria disponível. Mas as mulheres sempre tentam nos convencer desta coisa de sexto sentido e tudo mais. Quando não há razão nenhuma para desconfiar elas colocam a culpa no sexto sentido. Lenda, pura lenda. Caso fosse verdade não haveriam tantas garotas enganadas por aí. Porém, sempre que acabamos com seus argumentos e tentamos colocar algum juízo na cabeça de uma garota, apelam para o sexto sentido.  Já o homem, na dúvida, vai lá e trai na esperança de ter sido o primeiro, pois corre o boato em qualquer roda de homens que quem traiu não pode ser traído. Besteira.

Eu acho tudo isso uma tremenda besteira. A maioria do que se considera de conhecimento popular é uma anomalia idiota. Tudo é uma tremenda babaquice. Ditados populares são toscos como conselhos de velhos. Achamos que com a idade vem a experiência mas sei que um adulto imbecil dificilmente se tornará um velho sábio, assim são as coisas. Por isso que digo que toda essa coisa de ciúme e traição e término de relacionamentos, geralmente acontece por um egoísmo sem fim. Traem para se sentirem seguros (egoísmo), são consumidos pelo ciúme por causa do sentimento de posse (egoísmo), e não importa o que dizem, mesmo o amor maior do mundo não impede você de levar um pé na bunda quando se tornar um estorvo para o outro. Tudo está relacionado ao interesse. As mulheres não amam estorvos, amam quem der mais, quem tem mais a oferecer. Assim que começar a ser um peso você ficará sozinho, como todo mundo. As mulheres aprenderam que os homens não podem demonstrar fraqueza. Quando um homem precisa de suporte, é o bar que estará lá para lhe estender a mão, um copo de algo forte e alcoólico, e se tiver sorte, os ouvidos de alguém tão mais fodido que você.



Bento.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

ENQUANTO ELA ESTÁ DEITADA EM MINHA CAMA TAMBORILANDO OS DEDOS NUM COPO DE WHISKY


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Parte de mim esta aqui. Deitado em meu quarto, com o livro do Bukowski ao lado que não tenho coragem de abrir. Na verdade tentei engatar na leitura por três vezes e não consegui. Coloquei alguns Blues pra rolar, mas mesmo assim olho para as paredes, os pôsteres e nada. Albert King faz um vibrato na guitarra suficiente para deixar qualquer fã com os pelos do braço arrepiado e eu sequer ergo os olhos para contemplar.
Fica estranho quando você faz todo o mantra para escrever. Antes algumas cervejas, uma dose de um bom Bourbon e espera a inspiração vir só que ela não vem. Nessa brincadeira foram vinte latas de cerveja, meia garrafa do Jim Bean e um maço de cigarros e nada. Absolutamente nada. Apelei para as fotos antigas e mesmo assim foi como ver paisagens do Bing. Senti vontade de matar duas ou três personagens que nelas estavam e pensei que poderia partir daí para escrever qualquer coisa, mas me enganei.
Mais Blues, mais Bourbon, mais cigarros e cervejas e não escrevi uma linha sequer. O pior? Eu ainda enxergava meus dedos e onde eles tocavam.

Passei a pensar no outro dia e comentar sobre transar com amigas que bebem como gente grande. E transam como gente grande. E pensam como gente grande. Aquele tipo de garota que faz tudo aquilo que tem vontade e eu as respeito por isso. O tipo de garota que faz tudo que um homem faz só que melhor.
Eu sempre tive um fraco por garotas marrentas. Que fazem barraco na rua por ciúmes. Que gargalham alto e choram quando estão com raiva e não fazem questão de esconder de ninguém. Porque garotas assim sentem tudo a flor da pele e sempre me passam a imagem de verdade. Eu posso estar errado num caso ou em outro, mas em suma é isso.

Se voltar alguns textos verá que eu tinha tempo para dar e vender. Hoje eu gostaria de ter para compra-lo, pois não está fácil. Não tenho espaço na agenda sequer para me masturbar, quanto mais fazer social com uma garota enquanto ela está deitada em minha cama tamborilando os dedos na borda do copo de whisky pensando quanto tempo é necessário para que ela tire a roupa sem que eu pense que ela é uma vadia. O que essas garotas não sabem é que quanto mais vadia, mais eu gosto. Gosto, pois como costumo dizer; pureza só é bom para nossas filhas e a vodca. Gosto das vadias porque ninguém é santo e quem finge ser pode fingir várias outras coisas e eu não gosto de fingimento. Logo, tire a roupa quando achar que deve e se quiser começar tirando a minha ganhará pontos por isso.

No trabalho, todos os dias, depois de um dia cansativo, antes de acabar o expediente, sempre na mesma hora, eu saio para fumar um cigarro e desacelerar os pensamentos. E todos os dias, como se combinássemos, vem um gato preto até onde eu estou sentado fumando. Ele se aproxima como os gatos fazem. Cautelosos e lentos. O gato passa por mim, mas sempre notando minha presença e eu a dele. Ignoramos-nos, mas não deixamos de nos notar. Então este gato entra num bueiro como um rato faria. Ele entra todo no bueiro, dentro mesmo e fica lá por alguns minutos. Eu acendo sempre mais um cigarro para vê-lo fazendo seu ritual. Então, finalmente sai o gato com uma barata na boca. Às vezes uma barata mais traiçoeira foge correndo do bueiro e o gato preto e magricela sai atrás dela até alcançá-la. Mas o gato não mata a barata. Ele apenas quer se divertir. A barata, é claro, não entende. O vê como uma ameaça. E o gato cuidadosamente bate na barata com suas pequenas e macias patas forte o suficiente para que o inseto corra e ele corre atrás dela. Na falta de um rato, este gato brinca com as baratas. E todo dia é assim. Este é um gato de rituais. Todos os dias, reserva-lhe aquele período para curtir com a barata.
Eu também sou um animal de rituais. Não levanto da cama antes de um cigarro. Não entro no banho sem antes tomar uma grande caneca de café. Não faço nada sem música, nem cagar, nem comer, nem dormir ou transar. Passo um bom tempo na frente do espelho aparando a barba e arrumando o cabelo. Assisto aos jogos do Corinthians sempre no mesmo sofá, tomando cerveja e com o volume ao máximo, e grito com o juiz mesmo sabendo que não serei ouvido. Dificilmente passo um dia sequer sem cerveja. Não durmo sem o último cigarro, pois aquele pode ser realmente o último. Nunca se sabe quando vamos acordar ou dormir definitivamente, então todos os dias fumo meu cigarro antes de dormir refletindo sobre aquele que pode ser meu último cigarro. Não transo sóbrio porque tenho sempre a companhia de meus demônios. A última garota que transei sóbrio foi há um pouco mais de cinco anos. Para ser sincero, a única coisa que faço sóbrio é trabalhar, de resto...
Então talvez, resumidamente meu ritual é estar bêbado? Sim, ou grande parte dele pelo menos. Consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo apesar de não gostar, prefiro fazer uma coisa de cada vez e também é assim com garotas, com exceção, claro, se elas estiverem juntas. Se vou mentir começo sempre com a palavra "então" após uma pergunta, que é para dar tempo de pensar na mentira, mas também não gosto de ter de contá-las. Prefiro guardar minha criatividade para outras coisas. Podem ser rituais ou TOC. Nunca sei dizer ao certo. Sendo assim, não é difícil imaginar o quão complicado acho manter um relacionamento com qualquer mulher. Não se encontra em qualquer lugar garotas dispostas a aturar caras com todas essas manias. Normalmente mulheres não têm rituais, o humor delas é inconstante, o meu não. Estou sempre de mau humor, pelo menos de manhã.

Dito isso, decidi me afastar um pouco de garotas. Por um tempo, sem pressão. Parei de ligar e convidá-las para qualquer coisa, deixei de atender as ligações e responder mensagens. O motivo disso é difícil explicar. Estou num grau de tédio que supera qualquer coisa. Um desinteresse coletivo. É preciso uma coisa muito, mas muito interessante mesmo para me tirar de minha companhia solitária. Ultimamente só abro a porta de casa para duas garotas ou mais, assim elas conversam entre si e eu posso perder-me em meus pensamentos inúteis.
Chame isso de preguiça se quiser. Pode chamar de covardia também, eu chamo de tédio. E tem mais. Eu estava entrando numa vibe de ser bastante procurado por garotas comprometidas e estava gostando disso. Nunca gostei de me envolver em relacionamentos alheios, porém estava me envolvendo. Talvez, também por isso resolvi dar um freio nesta bagunça toda. Mesmo porque eu tenho uma coisa de chamar atenção de maridos e namorados. Mesmo aqueles que não conheço, só ao ouvir falar de mim já me odeiam. Algumas garotas me dizem, naquelas conversas sem propósito que levamos quando não se vê alguém há muito tempo, elas dizem: Meu namorado te odeia. E eu sequer conheço esses namorados ou maridos. E eu sequer dei qualquer motivo para que eles me odeiem. De qualquer forma, não ficaria surpreso se um dia fosse assassinado com um tiro bem no meio dos olhos por um desses caras ciumentos. Sem motivo, simplesmente por suas garotas não foderem com eles direito. Simplesmente por suas garotas não os chuparem direito, ou por suas garotas trocarem os nomes deles pelo meu na hora da foda. Será? Soube de uma ou duas que fizeram isso, só que eu tenho tanta responsabilidade por isso quanto tenho pelo aquecimento global. Algumas pessoas me superestimam demais. Eu sou só um cara, e com tantos problemas que se soubessem provável que deixariam de notar minha existência.

Então, por isso eu não passo mais meus dias telefonando ou puxando conversa com garotas que eu mal conheço. É cansativo e desinteressante no momento. Não movo um músculo, não sem antes uma boa recompensa. Como qualquer pessoa que escreve, inevitavelmente reflito sobre o final de qualquer história antes de começá-la.



Bento.

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sábado, 2 de maio de 2015

EMBRIAGAR-NOS - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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3:1 - A vida é realmente uma grande bola de merda que roda e roda e espalha todo tipo de germes por aí. Não se pode achar que vai passar por aqui sem sujar as mãos. Não quando esse amontoado de anos que formam sua passagem depende da ação de outras pessoas.

3:2 - A coisa é mais ou menos assim; você vem ao mundo grudado a alguém e passará o resto da vida tentando entrar em um monte de outras pessoas e permanecer o máximo de tempo possível lá dentro. Só que nem sempre é simples. Não é como um boteco barato que você entra, pede uma dose de algo que o seu bolso pode pagar e sai sem fazer perguntas. É mais que isso.

3:3 - O mundo a sua volta corresponde a cada ação sua. E por vezes responde mesmo sem qualquer ação e você tem que estar pronto para tomar a decisão correta em cada situação, só que você geralmente não está. E instantes depois de cada ação você pensa em infinitas alternativas que poderia ter colocado em prática, só que você não escolheu nenhuma delas. Escolheu exatamente aquela que vai te fazer arrepender-se por não ter parado, pensado, respirado e aí sim, tudo seria maravilhosamente interessante. Mas a vida é uma grande bola de bosta. Não se esqueça disso.

3:4 - Qualquer música no rádio, ou no carro com meia dúzia de imbecis que passa por você na rua com o volume ao máximo, suficiente para fazer as janelas tremerem podem te trazer lembranças ou pensamentos insanos. E mesmo esses idiotas parecem tão mais felizes que você e estão, enquanto volta do trabalho cansado, o saco transpirando na calça usada há três dias seguidos, e duas ou três latas de cerveja na mão que confiamos amenizar um pouco toda essa mediocridade, todos parecem mais felizes enquanto você lê o jornal de manhã e pensa; por que eu ainda não me mudei para algum pais do leste europeu e abri um bar? Qualquer coisa pode ser melhor que essa merda toda. Mas você é um covarde que economiza na marca de pasta de dente para poder pagar a internet. Eu sei, pois também sou um desses que economiza na pizza para poder comprar um whisky com maior qualidade que aquele que se vende em bares com baldes cheios de energéticos. Pois eu, assim como você, necessito de ter um pouco de sabor e qualidade nesta vida de merda que nos priva de tanta coisa.

3:5 - Passamos disso para refletir sobre tudo que está em volta. E não pense que devido aos meus óculos escuros escondendo minha ressaca e o meu livro comprado em sebo fazem de mim uma pessoa desatenta. Eu reparo em tudo e nada me encanta. Digo, quase nada me faz manter o olhar mais que alguns milésimos de segundos,  minha mente automaticamente simula todo o contexto, toda a trajetória de infinitos relacionamentos e descarta qualquer ação que justifique largar o meu livro e sorrir para alguém.

3:6 - Não há escapatória, tudo vai acabar mal para ambos os lados e normalmente quem ganha é o mais idiota que não consegue sentir as coisas tão profundamente quanto uma facada numa briga de bar qualquer. Repare que os idiotas são sempre mais felizes. Não guardam mágoas, porque não guardam nada.

3:7 - Você pode ser um escritor, um pensador, um músico, ou tudo isso e achar tudo uma merda. E digo; provável que achará tudo uma merda. Já o idiota vai achar tudo magnífico, afinal qualquer merda pro idiota é sensacional.

3:8 - Não passaremos por essa vida sem algumas dúzias de pecados e caso faça digo com toda certeza que cometeu um dos maiores erros de sua vida. Afinal, para este evangelho, pecado é só uma coisa que implantaram na sua mente para que tenha peso em sua consciência quando estiver se divertindo. Para que pense no pobre quando estiver tomando uma cerveja de R$150, ou para que pense no virgem quando estiver com duas garotas te chupando. Isso é o pecado e nada mais que isso, um amontoado de leis que te deixa sem jeito quando tem motivos suficientes para sorrir e contar aos amigos. Para que mantenham as rédeas em seus corpos fazendo o que bem entendem.

3:9 - Não haverá salvação para aqueles que se deixarem levar por religiões e mandamentos arcaicos com a intenção de controlar. Não há salvação, porque a vida é curtíssima para perdermos tempo com isso.

3:10 - A cada trepada que deixa para trás por motivos alheios é um momento de intensa e singular felicidade que joga fora pelo simples fato de alguém lhe dizer que está errado.

3:11 - Se é verdade que Deus criou o mundo e que sacrificou seu filho para nos salvar que no mínimo você viva sua vida com imensa intensidade para fazer jus de sua morte. Embriagar-nos com felicidade é o mínimo de agradecimento que podemos oferecer.



Bento.

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domingo, 25 de janeiro de 2015

COM UMA RESSACA DE 23 ALCOÓLATRAS

Quem estivesse de fora da brincadeira e olhasse em volta provavelmente acharia que o quarto tinha sido cenário de guerra. Uma garrafa de Jack tombada em cima da cômoda e outra recém aberta ao lado. Bitucas espalhadas pelo chão bem como latas e mais latas de cerveja. Embalagens de camisinha pareciam confetes em noite de carnaval, mas estávamos no natal. A noite também não era de Tarantino, era mais que isso. Aquilo não foi cenário de guerra, fora uma festa improvisada de bebedeira e sexo. Um religioso diria que arderíamos eternamente no inferno. Deus olhara para o outro lado tamanha libido. Já imagino os demônios assistindo de camarote e dançando ao som de Matanza no volume mais alto. E pecávamos ao ritmo da bateria de Interceptor V6.
Eu estava lá, mas não estava lá. Até meu pênis tava dividido entre sim e não. Meia vida, ele continuava a trabalhar por hábito, talvez. Bem, cada um tem o que merece e alguém decidiu que eu não mereço muito mais que aquilo, logo não se deve reclamar de suas conquistas. Instantaneamente sai de lá para outro lugar...

***

Outro quarto, sete anos atrás, quem se encarregava da trilha sonora era o vinil do Deep Purple repetindo o mesmo lado, incansavelmente. A bebida era Dreher, afinal, cervejas era um luxo que não tínhamos naquela época. Mas a garota... a garota abaixo de mim era a mais linda de todos os tempos. O quarto tinha o mesmo cheiro de sexo, porém os demônios não sorriam desta vez. Não sorriam porque eu estava feliz. Em todo o mundo, no decorrer da história, ninguém foi tão feliz quanto eu naquele fatídico momento em que transava com a garota dos meus sonhos e não sei se por felicidade ou por estar bêbado como um porco eu dormi. Dormi em cima da garota mais sensacional que já conheci.

***

Volto a mente para o quarto atual e enquanto sou chupado e a música agora é Escárnio, olho para minha cama e vejo um amigo mandando ver na garota que outra noite estava montada em cima de mim com uma libido de tirar os móveis do lugar.
Eu acredito que não sou das melhores pessoas, se tem opção afaste-se, não serei eu quem lhe trará conforto. Não sou dos melhores amigos. Mas certos caras, daqueles que estão comigo desde os primórdios levam sempre alguma história pra contar onde eu faço parte, como personagem principal ou coadjuvante digno de um Oscar. Cedi a transa e a cama para o amigo. Cedi porque tenho dessas às vezes. Por um pequenino momento torno-me bom. Entenda: Eu, bom. É mais ou menos tão raro quanto achar um filme bom na TV aberta quando se está sem dinheiro num fim de semana em casa. Uma coisa rara. Mas se ficar por perto tempo suficiente vai se deparar com esses bons momentos.

Algumas pessoas dizem que o meu quarto, ou qualquer lugar que eu esteja, é sempre o pior lugar para se estar quando quer andar na linha. Bem como Jimmy diz em Amigo Nenhum ou Tombstone City, depende de como terminará sua noite. Eu nunca obrigo ninguém a nada, mas dizem que eu desperto sempre o pior lado das pessoas. Isso pode ser um dom ou uma maldição, porém eu não acredito no que dizem. As pessoas fazem exatamente o que querem fazer e quando podem colocar a culpa em alguém pelas merdas todas elas fazem. A ressaca moral fica mais fácil. Ter as mãos tremendo e o estômago colado nas costas no dia seguinte fica mais fácil de justificar quando se esta na companhia de um culpado como eu. Não quero com isso dizer que sou inocente, mas afirmo, ninguém é.

Quando eu digo que tenho cara de culpado eu quero dizer que a maioria das pessoas tem uma visão de mim que não necessariamente seja a correta. Eu, por exemplo, bebo muito menos que as pessoas acham que eu bebo. Mas também não significa que eu beba pouco. Eu bebo mais do que muita gente diz que bebe. Se parecer irrelevante ou sem sentido para você leia de novo. Pode ser só falta de atenção.

Ok, já leu. Viu? Da segunda vez sempre faz mais sentido.

Uma vez minha ex-garota perguntou se eu ainda bebia como antes. Eu me apressei em dizer que não, pois estou dizendo a verdade. Com "antes" ela queria dizer na época em que estávamos juntos e digo sem medo de errar que eu não bebo como antes pois hoje bebo para algo maior. Para dar a extrema unção à alma. Bebo para relaxar a mente e os músculos. Bebo atrás de inspiração. Antes eu só bebia e pronto. Entende a diferença?

De qualquer forma neste momento, onde tudo isso se passava em minha mente eu era chupado enquanto via um amigo mandando ver numa garota dez anos mais jovem que ele e estávamos todos numa boa. As cervejas tinham acabado e mamávamos uma garrafa de Jack Daniels. Era uma noite do terror para quem ama terror. Era o pecado tomando forma e se tornando adulto. Claro, que com toda minha contribuição eu deveria ter uma esquina com meu nome em algum quarteirão do Inferno. Senão uma esquina uma encruzilhada. Pelos serviços prestados. Porra. No mínimo uma foto de funcionário do mês. Mas não de propósito. Falo isso segundo as crenças de merda dos religiosos de bosta. Pode ser que estejam todos errados e que não existe nada mais além de nós, seres humanos medíocres que servem de adubo para plantas.

Whisky, cigarros. Matanza acabava de tocar Rio de Whisky e fazíamos sexo no ritmo da música. E o Jack suavizando a garganta, preparando o caminho para o cachimbo. Algumas pessoas acham que essa coisa de beber e fumar e fazer merda é ruim. Na verdade não é mesmo. Eu por exemplo, acho bem pior passar uma noite conversando com idiotas e tomando Coca Zero achando que isso vai te fazer mais saudável. Com a vida que eu levo eu poderia estar morto, mas não estou. E digo mais: Faz anos que não fico doente e a única dor que sinto é da agulha riscando a carne quando vou me tatuar. Alguma coisa nesta teoria maluca de não poder fazer nada de "errado" é falha.

Mesmo assim, enquanto pensava nisso me veio à mente um dos momentos que mais me assombra. Eu já disse que já fui melhor do que sou hoje, contudo acredito estar errado. Da época em questão eu melhorei bem, depois de melhorar eu piorei um pouco. Sabem como é, ninguém consegue manter o ritmo. De fato eu conheci algumas bêbadas depois disso e algumas santas. Ou seria o contrário? Não me lembro. Então eu lembrei da ex-garota lavando meus cachorros. Com os cabelos presos deixando à mostra a tatuagem na nuca. Uma blusa de alça preta deixava eu ver também a tatuagem no braço e uma saia até os joelhos, nada muito sexy, mas nela, qualquer coisa ficava maravilhosamente sensual, sexual. Mesmo uma camiseta minha velha esquecida na casa dela. Ela roubava minhas roupas para poder dormir sentindo meu cheiro e isso fora talvez, a maior demonstração de amor que eu já tive em toda a minha vida.

Minha mente volta do passado e segue direto ao futuro quando as garotas já foram embora e meu saco transpira devido o calor e o suor mistura com a baba da noite anterior. Há cabelos grudados em meu peito. Os lençóis da cama foram parar em algum lugar que não consigo desvendar de primeira. A ressaca é de 23 alcoólatras. A boca com gosto de merda, a cabeça pesando como uma bigorna. A fumaça do primeiro cigarro arranha a garganta como um ouriço. Ainda tem o catarro seco que quase que me sufoca. Mais ressaca. Ressaca moral também, mas não de arrependimento e sim por fazer o tipo de merda que a maioria dos caras matariam para ter a oportunidade de estar em meu lugar e eu simplesmente não dar a mínima, pois é evidente para muitos que eu preferia estar no mesmo lugar com uma só garota que sequer precisa estar no mesmo continente que eu para me inspirar. E é só pensar nisso que minha mente volta como se estivesse pilotando um Delorean e me vejo deitado em meu quarto brincando com os seios dela. Displicentemente tocando-lhe o mamilo com os lábios, mordendo e me divertindo tanto que passaria horas e horas fazendo aquilo. Lambendo-lhe e beijando e mordendo e morrendo aos poucos com as lembranças. Morro cada vez um pouco mais sempre que me perco em meio ao passado. Sempre um pedaço de brasa que já fora chama se esvai. Ficam as cinzas que partem com o menor sinal de brisa até o dia que não sobrará mais nada o que lamentar. E se já não somos derrotados por deixarmos que nos digam a hora de levantar e deitar, comer e beber, nestas horas não sobram dúvidas. Quando se é derrotado em seu próprio campo de batalha não é difícil imaginar que perderá dali pra frente e seguirá perdendo até que o Destino enjoe de você e passará humilhar algum outro imbecil. É nesta hora que pensamos que a sorte está de bem conosco e voltamos a cair do cavalo, pois a esperança serve apenas para te fazer de otário por algumas horas e depois basta. Só que é como o álcool, basta um gole para atiçar seu lado viciado e quando percebe está bêbado e aprontando de novo.



Bento.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

UM VICIADO EM SEXO COM ASCO DE CALCINHAS É COMO UMA VACA COM ALERGIA A LACTOSE

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Eu estou no segundo copo de whisky e tenho escrito algumas coisas um tanto fortes para o perfil das pessoas que leem o que escrevo. Eu não me importo, pois mais prazer que ter pessoas lendo o que eu escrevo eu tenho quando escrevo o que eu quero então foda-se. Esse whisky que eu tomo hoje eu ganhei de uma garota, e uma vez ou outra eu ganho esses tipos de agrados. Além, claro, dos agrados sexuais. E tenho de dizer que uma garrafa de Jack é sempre um bom presente a se receber.
Digo isso pois tenho alguns vícios que vocês já devem conhecer todos muito bem. Logo, dentre tantas discussões medíocres por aí sobre política e a porra toda, ao invés de ir ao bar eu prefiro ficar em casa tomando grandes goles de Jack e mantê-lo na boca por alguns segundos até sentir todo seu sabor.

Houve um tempo que passei a odiar calcinhas. Não sei dizer ao certo de onde veio isso, mas era só ver uma garota no meu quarto, começarmos a nos beijar, o sexo pedindo passagem e eu imediatamente arrumava um jeito de tirar a calça da garota com calcinha e tudo para que não tivesse que olhá-las. Calcinhas feias, bonitas, grandes ou pequenas, renda ou algodão. Eu só odiava calcinhas. Perdia um terço do meu tesão caso me deparasse com elas. Eu nunca gostei de lingerie vermelha - isso também não é segredo - mas nesta época eu não gostava de calcinha nenhuma. De nenhuma cor. Só de ouvir uma música do Wando eu já ficava enjoado imaginando um mundaréu de calcinhas em cima de mim. Era complicado e nada saudável. As calcinhas penduradas nos varais dos vizinhos faziam meu corpo se contrair. Bem, dito isso, deixo claro aqui que um dos meus vícios, dentre tantos, é o sexo com garotas e de preferência magrelas e tatuadas, e não é nada - nada mesmo - saudável ter asco de calcinhas quando se está todo fim de semana bebendo, fumando e baixando calças junto com calcinhas para que não às veja. Uma hora ou outra o truque falha. Um viciado em sexo com asco de calcinhas é como uma vaca com alergia a lactose. Não faz muito sentido. De qualquer forma, assim como veio passou esse negócio das calcinhas.

Não muito depois disso eu comecei a trocar as garotas magrelas e peitos grandes por garotas de peitos pequenos e bundas enormes. O que vai contra tudo o que eu prezo numa garota. Mesmo assim troquei todas. Até aquelas que iam até minha casa regularmente eu deixei de lado, pedi espaço, aquela coisa de homem de precisar respirar ares novos, precisar de um tempo só. Como eu escrevo, para algumas garotas eu dizia que precisava focar mais na escrita, pois estava relaxado, perdendo a mão. Curioso é que esta desculpa foi a que teve mais aceitação. As garotas diziam: Ok, amor. Me manda um texto para eu ler.
- Certeza que mando. Eu respondia.

Então comecei a procurar as bundas enormes por bares e conhecidas que eu não reparava por não se tratarem do estereotipo que até então admitia. Tudo transcorreu perfeitamente bem. Conheci belas bundas. Brancas, negras, bundas grandes, muito grandes e as gigantes e desproporcionais. Bundas que batiam nas minhas coxas de tão grande quando colocadas por cima para trabalharem. Nesta época eu percebi que eu não ligava tanto para a beleza dos rostos - vejam que heresia - afinal, eram as bundas que eu olhava. Ter uma grande bunda nas mãos e não aproveitá-las da melhor maneira possível é estupidez. Para quem gosta de tamanho as brancas são as melhores, pois aparentam ser bem maiores, só que tudo é uma questão de ótica.

Então essa fase das bundas também passou e eu voltei às magrelas. Nunca me decepcionei com garotas ossudas. A flexibilidade, a agilidade, a safadeza...

Tem uma coisa também e isso parte mais de uma particularidade que qualquer outra coisa. As melhores transas da minha vida foram com magrelas. E muita gente acha que eu critico as gordas pelo simples fato de nunca ter tido uma boa transa com uma gorda e eu respondo: É verdade. Mas não é isso. Entendo eu que gordas são gordas e que essas mesmas gordas têm um desejo imenso de serem magras e não conseguem. Eu entendo isso. O que eu não entendo é essa mania das gordas de tentarem nos convencer de que estão bem sendo gordas e que nós homens é que somos uns fúteis por preferirmos beleza e magreza e não nos importarmos com - muita atenção para o termo que eu usarei agora - "beleza interior". Como se as gordas fossem melhores que as magras só pelo fato de serem gordas. Como se nossos neurônios estivessem ligados à quantidade de banha que temos em nossos corpos. É só pra mim que soa arrogante uma pessoa achar que é mais inteligente que todas as outras que são mais atraentes sexualmente que ela? É visível só pra mim que o mesmo preconceito que as gordas dizem sofrer elas têm com as garotas magras?
Bem, sinto em dizer - mentira, não sinto - mas eu prefiro as magras, pois é bem mais fácil ensinar uma equação matemática à um macaco que convencer um elefante a parar de comer.

Então eu tenho essa insistência com gordas e muita gente diz que vou acabar terminando meus dias ao lado de uma obesa. Pode até acontecer, contudo isso é tão possível quanto eu acabar casando com um saco de berinjela, pois eu não gosto tanto quanto.

Eu também falo uma porção de coisas sobre os religiosos e por incrível que pareça esses enchem menos o meu saco com essas crises de hipocrisia. Esses são hipócritas só com a vida e o mundo, comigo nem tanto. Mas é bem capaz - segundo diz a lenda - que eu casarei com um saco de berinjelas, morrerei esmagado por uma gorda e partirei sem escalas para o inferno, deixando órfãos duas ou três crianças berinjelas, afinal também não suporto criança. Isso, claro, se nenhuma gorda aparecer para comer meus filhos.



Bento.

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sábado, 18 de outubro de 2014

VIAGEM SÓ DE IDA AO INFERNO E FANTASIAS DE GAROTAS


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Eu sempre penso no passado e no futuro. Penso pois sou de pensar muita coisa. Não vou negar, sou um arrogante e um egocêntrico que quando penso, logo penso em mim e em minha vida. Sou um egoísta porque prometi que seria há tempos e cumpro até hoje.
Penso que alguns anos atrás eu estava voltando para casa tão bêbado quanto se pode estar. Eu não sabia onde estava, mas sabia para onde ia. Instintivamente eu sabia. Bêbado nunca esquece o rumo de casa, quando esquece está morto. Eu sou um bêbado, nunca escondi de ninguém, no entanto eu sou. Há tanta gente por aí que sequer é alguma coisa.

Então uns quatro anos atrás, ou mais eu diria, eu estava muito bêbado e andarilho, isso porque tinha perdido o último metrô. Tinha parado no meio do caminho para mijar, pois quem bebe sabe que chega um momento que não se pode mais segurar. É como o vômito, se pede passagem dê boas vindas, não há o que fazer. Eu já não vômito há uma década, mijar é outra história. Eu estava há quilômetros da minha casa e precisava andar muito. Meus pés já não aguentavam mais e meus cigarros estavam acabando. Minhas pernas entrelaçavam uma na outra e minhas mãos e cotovelos em carne viva de tanto se apoiar nos muros. Por duas vezes quase ganho uma mordida de cachorro por enfiar o braço em um portão perigo. Beber é para quem tem o dom. Não se pode decidir da noite para o dia ser um beberrão, é preciso talento e coragem, destreza e habilidade e isso eu sempre tive de sobra. O fato é que cansei, e surpreendam-se se quiserem, eu cansei de andar. Mesmo bêbado cansei. Meus pés latejavam a ponto de me fazerem esquecer dos ralados nas mãos e braços. Eu fumava e sentia embrulho no estômago, quase que vomitando, porém como eu disse, eu nunca vomito. Sentei e dormi. Dormi o sono dos vencidos. Olha que nunca fora fácil derrotar-me, não para o álcool. Sempre brigamos de igual para igual. Mas como profissionais, daqueles que se respeitam e se cumprimentam ao final de cada luta. Nesta fui vencido e dormi. Ali, na sarjeta, com a bituca do cigarro ainda entre os dedos. Acordei com os mendigos, com o sol e as portas de aço dos comércios se abrindo para um novo alvorecer do capitalismo e só depois cheguei em casa.
Vou ser sincero, não foi a primeira nem a última vez que dormi na sarjeta. Não eu. Num outro texto eu falei sobre homens que perdem um amor e o quão eles deixam de existir. Bem, vendo o homem que sou hoje tenho de dizer que há três ou quatro anos eu não era nem dez por cento, não chegava a dez por cento. Era um maltrapilho metido a esperto e de uma arrogância tamanha simplesmente porque tinha lido dez vezes mais livros que qualquer outra pessoa que eu conhecia. Mas o que isso queria dizer, eu me pergunto hoje e eu mesmo respondo: nada, exatamente nada. Enfim, eu não passava de um estragado que vivia estragando a minha vida e a vida das pessoas que me rodeavam. Tive amigos ficando depressivos para acompanhar minha fossa. Vê se pode? Não quer dizer necessariamente que eram todos bons amigos, não, definitivamente não. Alguns eram, mas nem todos. De toda forma eu era um lixo, e mesmo que eu pudesse não teria meu amor de volta. Também pudera, quem gostaria de ter ao lado alguém como eu? Muita gente, se querem saber. Foi uma época que transava como ninguém e por incrível que pareça, mesmo bêbado como um porco ainda tinha saúde a ponto de transar e merecer que elas voltassem. Não todas, só as que eu queria que voltassem. Desta época tenho garotas que voltam até hoje, pois sabe como é, algumas coisas são como andar de bicicleta. Mas definitivamente não foi a primeira vez que eu acabei dormindo com a cara na sarjeta. E pela primeira vez eu vou dizer aqui: tudo culpa de uma mulher. Tudo culpa dela. Do primeiro copo ao último cheiro na carreira.  Todas as brigas, os porres, as transas de esquina, as esporradas na cara de estranhas, os gorfos alheios em meu pau e etc. O lixo, a podridão, a destruição do meu corpo e minha alma, o pacto com o Diabo, é tudo culpa dela. Claro que houve uma cooperação de minha autoflagelação e minha persona non grata no mundo dos inocentes, mas de resto a culpa é unicamente de uma mulher. Eu sei qual é, algumas pessoas sabem de quem eu falo, talvez você mesma esteja lendo isso e me acusando de calúnia, porém a culpa é sua. Pronto. Resolvido. Vida que segue. E seguiu, mais ou menos. Pois assim como a culpo pelas mazelas eu também dou credito pelos louros. Sempre disse aqui que não comecei a escrever do nada. De início escrevia letras de músicas, mas eu era um jovem e não sabia nada da vida. Com a tragédia passei a escrever outras coisas até que cheguei aqui. E depois, só depois de quatro anos e pouco a culpo por qualquer coisa ruim. Acontece. Tarda mas não falha.

Mas queria falar sobre outra coisa. Queria falar como as coisas simplesmente acontecem. Eu nunca fui daqueles de decorar frases feitas para soprar aos ouvidos das garotas e esperar que elas caíssem de amores por mim. Talvez fosse minha rejeição aos clichês falando mais alto desde cedo. Eu sempre fui o sujeito que fui chegando aos poucos, com cuidado, me aproximando como um gato da folha seca. E sem que elas dessem conta do perigo lá estava eu com as garras afiadas na carne crua e macia, pronto para me deliciar. Ainda hoje as coisas seguem da mesma forma, o destino coopera porque ele gosta de se divertir e eu sou um bom entretimento para ele. Como um serial killer eu me aproximo fingindo-me de inocente mas sendo denunciado pelo olhar e este sempre me trai, afinal de inocente ele não tem nada.

Pronto.

Acaba que somos dois seres desejando a mesma coisa nas ainda disfarçando e é dessas situações que saem as melhores transas. Uma casal de mineiros se comendo secretamente. Aprendi que o maior segredo da conquista esta no cotidiano. Artificialmente consigo fazer com que uma coisa leve a outra, todavia tudo foi planejado, inclusive as falas. A cerveja ajuda a afastar a inibição e brincadeiras vão virando verdades conforme as garrafas vão esvaziando e pronto, simples assim. Parece fácil, só que não é. Necessita de talento para tanto.  Falando em talento, se este é a primeira vez que lê algo meu precisa saber que eu sou um egoísta do tamanho do mundo e que possuo tamanha arrogância de escrever só para mim. No entanto, hipócrita não sou e não vou fingir que torno meus pensamentos públicos para regar minha vaidade. Então estava conhecendo um novo bar com alguns amigos e todos começaram a falar de meus textos. Uma garota dizia que inspirava-se neles para escrever. Um cara dizia que esperava ansiosamente cada publicação imaginando-me no ato da escrita com máquina de escrever, whisky, cigarros e os demônios à sobrevoar minha imaginação. Eu poderia ter dito a ele que em toda minha vida estive diante de uma máquina de escrever apenas duas ou três vezes, porém não se pode podar a imaginação de ninguém. Por fim começamos a lembrar de alguns textos e eles se saíram melhor que eu, pois possivelmente os destilados ajudaram a acabar com o pouco de memória que eu tinha.

Dias depois descobri que arrumei uma nova paixão, daquelas que já citei por aqui e insisto - se você nunca leu nada sobre mim precisa saber - tenho um fraco por garotas lindas, tatuadas, magras, de pernas finas e barriga reta. Esta nova garota que conheci só não é tatuada e me vi apaixonado em pouquíssimo tempo. Trata-se de uma perfeita combinação de tudo que almejo e é claro que ela deve ter todos os defeitos do mundo como todas as outras pessoas do universo e seria tedioso caso não tivesse. Como aqueles momentos que você leva um choque quando toca em alguém, foi assim quando toquei sua cintura, por um leve momento. Mais um esbarrão que um toque e eu pude sentir sua cintura fina, barriga lisa e naquele momento eu a vi nua - só em minha imaginação, claro - estendida em minha cama, com rosto sonolento enquanto eu a observava do lado oposto do quarto fumando um cigarro e desejando que aquele momento não acabasse nunca. Imaginei-a com as pernas levemente dobradas, uma mais que a outra, uma mão abaixo do queixo e a outra repousada na barriga. Magérrima e linda, cabelos emaranhados e eu com dor na bexiga de segurar o mijo sem querer desviar os olhos daquele quadro maravilhoso. Sua cicatriz no rosto perfeito lembrando-me que todo paraíso tem seu porém. Um dramático eu sou? Sim! Um grande romântico? Com certeza!
Sentindo-me um adolescente que sonha acordado com a professora, neste momento eu corei e tão rápido meu devaneio fora que não creio que ela notou minha timidez momentânea. A diferença é que neste caso eu seria o professor do ginásio, afinal, por mais vivida que ela possa ser nada se compara às merdas que eu já fiz, aos infernos que eu já habitei, aos esgotos em que eu já dormi.
Digo que sou um romântico, pois como qualquer tarado - não descarto que eu seja um e dos piores - eu deveria imaginá-la nua e amarrada, nua e bem acordada, nua e realizando as minhas fantasias mais secretas, afinal, devaneio é devaneio, no entanto quis minha mente levar-me para meu quarto e espiá-la dormindo. Talvez isso deva-se ao fato de que tê-la, ali, repousando após o esforço de nos deliciarmos seja a minha fantasia mais secreta, tão secreta que mesmo eu não tinha conhecimento. E eu que sou um rebelde achando que minha maior fantasia obrigatoriamente teria de ser selvagem e violenta. Ao contrário, tão leve como a fantasia de uma garota. Vai entender.


Agora, quero que entendam o motivo pelo qual eu escolhi dividir este pensamento entre tantos que possam ser mais importante ou até mais divertido. Começarei dizendo que meus finais de semana são todos ao extremo como minha vida toda. Ou passo solitário apenas com a companhia do Tédio, ou passo os dias de descanso cometendo das mais intensas colaborações para minha viagem só de ida ao inferno, de acordo com os religiosos. Das maiores atrocidades, até a pele sangrando por unhas femininas. Garrafas e mais garrafas vazias e cama cheia. Então posso dizer que o último fim de semana nada teve de tedioso. Todavia, mesmo com os lábios dormentes, as pernas bambas, as paredes sussurrando pornografias, eu não conseguia me desprender de um pequeno esbarrão da cintura da garota com a pequena cicatriz no rosto.


Bento.

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sábado, 27 de setembro de 2014

O PECADO DE DEUS FOI CRIAR O FEIO. ERROU E TIROU CÓPIAS

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Eu estava parado na frente de casa. Tinha ido buscar as correspondências e recolher a merda dos cachorros e fiquei ali, parado. Era sábado e o carro que vende ovos estava passando por ali. Talvez eu precisasse de ovos, mas me contive. Estava de bermuda e camiseta e apenas os cigarros nos bolsos. 5 Reais a dúzia ele alarmava em seu alto falante e dizia que seus ovos eram os melhores. Como se as cloacas de suas galinhas fossem melhores que as dos outros. O carro dos ovos se foi debaixo de um sol tímido, porém o bastante para criar ânimo suficiente para abrir uma cerveja, eu estava na segunda e não tinha passado das onze horas.

Normalmente eu só bebo cerveja de manhã quando estou de ressaca. Esse negócio de que cerveja é um bom remédio para ressaca não é história, eu aprovo. Confesso que o primeiro gole é difícil, mas depois fica tudo nos conformes. Não estava de ressaca porque cheguei do trabalho no dia anterior e dormi. Estou numa fase de deitar e dormir com uma facilidade incrível. Bebia um gole da cerveja, tragava mais uma vez o cigarro e pensava que caso eu tivesse meus vinte anos novamente estaria me odiando uma hora destas. Vinte anos ou menos. Diria o eu mais jovem que tinha me vendido. Não passava de um coxinha vendido, traidor do sistema. Horas atrás eu estava de sapatos e camisa, como aqueles caras de escritório. Vendido. Por um salário bem maior eu me prestava àquele papel, vestir-me como um idiota. Pensei que já não tinha mais vinte anos e que meus vícios só aumentavam e com isso um salário maior era mais que necessário. E daí que meus sapatos me faziam sentir-me como um palhaço num picadeiro? Eu nunca fui um comunista idiota e nem tinha pais ricos, ou ao menos de classe média, então sempre precisei trabalhar e se este trabalho tinha por fim um salário mais gordo, bem, que sorte.
Passei a pensar que precisava de uma cama nova e maior. Eu estou ficando velho e dormir numa cama de solteiro, velha e acompanhado já não era tão fácil como quando eu tinha vinte anos. Minhas costas, o pescoço, braços, eles reclamavam. Na caixa de correio tinha um jornal das Casas Bahia e talvez por isso passei a pensar em trocar de cama.

Comecei reparar nas pessoas que passavam pela rua a pé ou de carro e lamentei por uma sequencia de dez ou mais pessoas feias. Onze, doze. Comecei a desconfiar daquele dia. Tenho tudo contra pessoas feias. Treze eu contei, incluindo minha vizinha crente e gorda e o cara do carro do ovo. É incrível como existem pessoas feias no mundo, se duvida vá para qualquer lugar público e bem movimentado e comece a reparar. Eu já aprendi a filtrar, a só reparar nas pessoas bonitas. Os belos são inspiradores. Estações de metrô, pontos de ônibus, shoppings, hospitais, só gente feia. Um ou outro que se salva e você aprende com o tempo a filtrar. No entanto, em alguns lugares não existe nada para filtrar. É como derramar água numa peneira. E convenhamos que os feios sejam tão deprimentes. Esse tipo de lugar onde só se vê feiura me causa tédio e depressão. Outro dia estava parado na porta do shopping esperando uma garota e era um dia como hoje. Uma sequência incrível de pessoas feias. Trinta, quarenta... E um e dois e três. Fumava um cigarro e esperava a garota.
Ao meu lado havia três mulheres campeãs em feiura. Uma pior que a outra. Cabelos feios, roupas feias, risadas feias. Uma delas estava grávida e eu pensei: mais uma pessoa feia no mundo.
Entendam, pessoas feias nos trazem pensamentos horríveis. Ao sentir um fedor, por exemplo, você logo procura alguém feio para culpar. Num elevador cheio de pessoas, você sente um cheiro de peido e seu inconsciente já acusa o mais feio porque internamente achamos que pessoas bonitas não fedem e nem peidam, e caso peidem, trata-se de um peido mais ameno. Claro que isso é um absurdo, mas inconscientemente ligamos feiura a fedor. Ser feio realmente é uma tristeza. Feiura lembra pobreza, lembra merda. O pecado de Deus foi criar o feio. Errou e tirou cópias.

Ainda sobre beleza, tenho reparado que as melhores garotas já foram domadas. As belas e estilosas, as belas e inteligentes, as belas e burras, as belas e ricas e também as pobres. Até as belas e lésbicas já foram domadas.
Eu sempre tive como conceito não pegar o que é dos outros. Um pacto que eu fiz com as forças maiores. Realmente um conceito, meu. E como toda regra, minha, eu posso quebrá-la a hora que eu bem entender e por isso, por vezes as quebro.
Então outro dia sai com uma garota, linda, uma delícia, de uma safadeza impar, a ponto de me deixar constrangido, coisa difícil de acontecer, mas constrangido eu fiquei tamanha safadeza, da garota, que era casada. Acontece. E acabou acontecendo e garanto que não me arrependo. Fugir de regras, mesmo que as minhas, ainda me traz certo prazer de jovem. Já que as mais belas já estão com baitas alianças nos dedos alguém tem que sair feliz nesta história toda e eu sempre tendo pro meu lado.

Mas voltando a falar das feias. Outro dia comecei a receber fotos de uma garota, feia, tadinha. Todo dia olhava o celular e tinha uma foto nova desta garota. Começou com fotos normais, depois passou a fotos com caras e bocas até que recebi a primeira foto dela nua. Uma após a outra. Às vezes de manhã, semiacordado, com meu mau humor nas alturas, ainda no primeiro cigarro e aquela visão do inferno no meu celular. Outras vezes de noite, cansado do trabalho, já no último cigarro amaciado pela dose de whisky antes de dormir e me deparo com aquele espanto. Uma mistura de seios asquerosos, rosto perturbador, barriga temerosa, pélvis peluda. Alguém precisa dizer a essas pessoas que ser solteiro não é sinônimo de desespero, nos dias de hoje? E que a intensidade do tesão não vai de acordo com o tamanho de bundas e peitos. Só gosto de abundância de carne nos meus churrascos. Convenhamos, eu tenho uma reputação a zelar.

Bento.

domingo, 14 de setembro de 2014

UMA BOCETA PODE LEVAR ALGUNS HOMENS AO INFERNO ANTES MESMO DE PODERMOS DIZER PUTA QUE PARIU

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Eu conversava com uma garota, e digo, ela não era nada fora do normal. Nem gorda demais, nem magra demais. Mas também não era nenhuma maravilha. Eu não conseguiria me ver casado e pensando em filhos ao lado dela.
Nós não tínhamos transado, porém eu tinha uma leve suspeita de que ela queria. Eu também poderia querer, dependendo do dia e do meu humor, de qualquer forma esperava para ver. E ela me dizia - vocês homens são todos iguais.

Aquela coisa do clichê que se tornou meia-verdade depois de tanto ser repetida. Eu nunca fujo de uma discussão então perguntei o motivo para aquela raiva toda.

- Como assim, amor? Você já ficou com todos nós para saber?

- Não - ela disse - mas já conheci homens suficientes para saber. Namorei duas vezes, durou quase 10 anos ao todo.

- Duas vezes? - Perguntei - Amor, eu já transei com duas garotas na mesma noite e nem por isso digo que conheço todas vocês. E mesmo que eu transe com mil garotas acho que ainda faltará muita coisa pra conhecer.

- Viu? É disso que eu falo. Vocês só pensam em sexo.

- "Vocês", não. Eu sim, só penso em sexo e assumo. Nunca enganei ninguém e também nunca transei com nenhuma santa. Agora, este sou eu. Talvez você esteja responsabilizando todos os homens por erros que seus namorados cometeram. É muita responsabilidade para nós que nem tivemos a oportunidade de ganhar sua aprovação. Cada cara é um cara, eu, por exemplo, não gosto de gordas, mas tem cara que adora. Eu tenho que dar a volta com os dedos na canela de uma garota, caso não consiga eu dou meu veredicto de obesidade. Conheço caras que parecem açougueiros, quanto mais carne melhor. Eu poderia te dar vários exemplos para comprovar que você não tem a mínima ideia do que está falando, mas acredito que já te convenci.

Não a convenci, porém ela desistiu de argumentar, isso acontece na maioria das vezes e com a maioria das pessoas. Alguns simplesmente repetem o que ouvem por aí e não refletem, sequer se aprofundam, logo, qualquer argumento que foge daquilo que ouviram causa pane em seus cérebros de ameba. Mas veja, não estou dizendo que eu deixei de transar com a garota só por causa disso, claro que não deixei.

Houve uma época em que eu estava com uma garota alguns anos mais velha que eu. Ela era quase minha vizinha, morava em algum lugar do bairro e esta era a única coisa que tínhamos em comum. Minto! Compartilhávamos também o vício pelo sexo e todas às vezes eram incríveis. Certa vez, se me lembro bem era meu aniversário e eu nunca escondi a ninguém que odeio meu aniversário por se tratar do início de uma maldição que levarei comigo para o túmulo. Então ela apareceu em casa com uma sacola da loja do Corinthians e me entregou. Eu agradeci e convidei-a para o quarto. Fizemos um sexo intenso e maravilhoso como eram todas as outras vezes só que desta vez foi melhor. Então ela bebeu toda minha porra, colocou a roupa e se despediu. Eu perguntei o porquê ela iria tão cedo, pois eu tinha mais a dar para ela beber e ela disse que só tinha vindo me dar o presente. Era uma garota sensacional, com um corpo perfeito do qual ela usava e abusava e eu nunca saíra descontente, no entanto alguma coisa fez com que eu me afastasse. É bem possível que com o tempo pudéssemos adquirir mais coisas para compartilhar. Mas eu não esperei. Não esperei porque eu não sou de esperar muito e isso pode ser um erro. Algumas vezes eu penso nesta garota. Tentei encontrá-la pela internet e tal, mas não tive sucesso. Pra começar era uma ótima transa, eu deveria ter esperado um pouco mais. O motivo pelo qual não espero é que o único amor que tive foi ligeiro e espontâneo. Duas palavras e um beijo e eu já amava. Talvez não tenha desconfiado logo de cara, contudo meus olhos diziam que era amor.

Quer mais um exemplo? Tinha uma outra garota que tinha sérios problemas com aquela sujeira que acumula abaixo das unhas. Lindíssima a garota e não limpava as unhas. Eu passei algumas semanas falando para ela fazer a higiene completa de seus dedos. Suas unhas eram virgens, claras, era perceptível a sujeira acumulada. Eu falei e não adiantou, então eu passei a limpar suas unhas. Uma por uma, com um cuidado exagerado. Bem, esta garota era o caso de amor ligeiro e espontâneo que eu citei acima. Entendem a diferença? Eu limpava suas unhas e ela espremia meus cravos, na maior parte do tempo contra minha vontade, mas eu adorava todo aquele cuidado. Éramos dois macacos cuidando um do outro.

Mas este macaco tinha alguns problemas onde um deles - e não o mais grave - era fumar 20 cigarros por dia. E esta garota dizia "você fuma demais, pare de fumar. Ou pelo menos diminua". Eu nem parei e nem diminui. Pelo contrário, hoje fumo mais de 20 cigarros. Por isso hoje eu afirmo que nunca vou parar de fumar. Penso que com o dinheiro que eu gasto com cigarros eu poderia gastar com qualquer outra coisa. E não é pouco dinheiro. Mas se começar com isso, podemos contar o dinheiro gasto com cervejas, whisky, conhaque, vodca e  de repente vou me ver rico e morto. Rico e idiota. Enfim, também, conhecendo meus gostos como conheço eu gastaria em outras coisas que fariam tão mal à minha saúde quanto, então continuo fumando. Outra coisa, disse que nunca vou parar de fumar e repito. Pois se eu não parei para atender a um pedido da garota que me amava não pararei por motivo nenhum. Morrerei fumando e saibam que caso sejam convidados para meu enterro levem cigarros ao invés de flores. Nunca se sabe como será do outro lado.

Mulheres tem essa mania de contar as coisas citando o nome dos envolvidos como se nós os conhecêssemos. Exemplo: então eu cheguei à empresa e o Richard estava com aquela cara feita de sempre...
E você se perguntando, mas quem é Richard?

Aí a Laura me chamou para almoçar e nós fomos ao restaurante japonês que eu adoro.
Ok, mas quem é Laura?

E quando eu voltei a Magda tinha colocado três relatórios na minha mesa para hoje. Acredita? Para terminar hoje.
Complicado. E quem é Magda, afinal?
Entende o que eu quero dizer? Mulheres são escritoras por natureza, uma pena elas não saberem disso.

Uma garota que conheci uma vez me apresentou uma de suas amigas. Eu como todo homem pensei em transar com ambas, mas a minha amiga tinha já um namorado, e eu sempre me omiti quanto ao adultério, portanto acabei transando apenas com a garota que me fora apresentada. Tempos depois, após não ter mais contato com essa garota, a amiga minha - após estar solteira - questionou-me sobre o longo tempo que eu havia ficado com sua amiga. Vejam a estranheza. Somente mulheres apresentam outras pessoas àquelas das quais se tem desejo. Homens costumam guardar seus tesouros para si. De qualquer forma acabei me afastando das duas, não antes de prová-las, afinal, seria um desperdício. Acabou que a culpa do fim da amizade das duas caiu sobre mim, típica atitude feminina. As duas decidiram transar com o mesmo cara e o errado fui eu, as duas continuaram "amigas" algum tempo depois. Entre homens as coisas são um tanto diferentes. Homens sempre culpam os amigos inocentando as mulheres, claro que isso deve-se ao fato das mesmas virem ao mundo portando uma boceta e homens são loucos por bocetas. Nós - e eu me incluo muito nisso - somos reféns de bocetas. Não há no mundo qualquer outra coisa capaz de causar a derrocada de um homem, carreira ou nação como a boceta. Eu já vi famílias serem destruídas, filhos ficando sem pai, homens apodrecendo em sarjetas por causa delas. Somos eternos animais amaldiçoados pelo cio. Homens não são controlados por seus pintos, mas sim pelas bocetas, loiras, morenas, negras, cabeludas ou não, roxas, rosas, marrons e não necessariamente limpas. Ah, nós homens. Já vi amigos brigarem com facas em punhos por belas bocetas e às vezes nem tão belas assim. Só para poderem continuar sentindo seu gosto azedo e seu forte odor nas narinas. Todo o resto da mulher é descartável, e neste caso eu já não falo por mim e sim pela maioria. A mulher é descartável, a boceta não. O homem que se acha poderoso, soberbo, indispensável, ou talvez insubstituível e controlador, este homem ainda não se deu conta que somos todos controlados pela tirania das bocetas, o mundo é. Nem Deus, nem o Diabo são capazes de derrotá-las.

Conheci homens que abandonaram tudo, dinheiro, amigos e conceitos simplesmente porque não conseguiam sentir o sabor de uma boceta há anos.

Eu dei toda essa volta para falar de um conhecido que veio para São Paulo de um lugar longínquo fugindo do controle de sua mãe. Independência, ele dizia. Já por aqui conseguiu sentir o sabor amargo da cidade, do calor afetivo dos melhores puteiros da cidade até o frio dilacerante da sarjeta. Independência, ele buscava e conseguiu até o momento que deu de frente com uma boceta dominadora para acabar com seus sonhos juvenis. Hoje, este conhecido não põe o pau pra fora nem mesmo para mijar sem a permissão da vagina em questão. Não engole um chiclete sequer para não sair da linha. Este cara esquecera inclusive a senha do banco, pois seu cartão não o pertence mais. Não lembra-se da cor do dito cujo. A boceta controla seus gastos até com cigarros. Cerveja então deve a todos os amigos de bar, pois é a única forma que achou para beber. Não escolhe suas roupas, nem suas cuecas. Redes sociais somente com compartilhamento de senhas, amizades somente com a supervisão da boceta que o domina. Não dá um peido sem bênção. E eu com minha imaginação fértil já o imagino pedindo permissão para gozar. Logo, não preciso dizer que algumas coisas não são saudáveis. Alguns homens pedem passagem ao inferno por falta de uma boa e rosada boceta, mas uma boa boceta pode levar alguns homens ao inferno antes mesmo de podermos dizer "puta que pariu".


Bento.